Capítulo 185
— Ouvimos dizer que a gentil Liz vem sendo perseguida por você.
Uma mulher, mais ou menos da idade da minha mãe, ou um pouco mais velha, foi a primeira a falar.
Que voz tão fraca. Será que ela está com medo de mim, mesmo eu sendo nobre só de nome? Maravilhoso! Uma vilã só é completa quando consegue causar medo nas pessoas.
— Não entendo bem a definição de "perseguição", mas não me lembro de ter feito nada de baixo contra ela em grupo.
— A gente ouviu vários relatos quando os alunos da academia de magia vieram passear na cidade com a Liz!
De repente, uma mulher robusta ergueu a voz de um jeito que ecoou pela sala inteira.
— Quem persegue talvez não se lembre, mas quem é perseguido lembra de tudo!
— É isso mesmo! Você já pensou nos sentimentos da vítima?
Uma voz depois da outra foi surgindo. Vou batizar isso de "vaias de aproveitadores".
Então eu sou odiada até pelo povo da cidade… Será que agora eu já posso me declarar oficialmente uma vilã!? Não, não, calma, eu me empolgo fácil demais. O que eu almejo é ser a maior vilã de todo o mundo. Não só deste reino. Estou lutando contra o mundo inteiro. Preciso me esforçar ainda mais.
— Também é você quem trata o príncipe com desrespeito!
— Não se aproveita só porque o príncipe é tolerante!
Parece que o Duke-sama não contou a ninguém que perdeu a memória. Bom, faz sentido, a amnésia de um príncipe é segredo máximo de estado.
— Uma pirralha que não sabe de nada!
— Não pense que vai continuar mamando no leite dos pais pra sempre!
— É por causa de gente como você que o mundo nunca melhora!
A língua de todo mundo ia ficando cada vez mais afiada. Sendo dito isso por pessoas que nunca tive contato, praticamente estranhos… o que será que eles viram de mim, afinal?
— Uma moça mimada e ingênua que um dia vai sofrer bastante.
— Essa roupa combina bem com você. Você não passa de uma pessoa que só tem o rosto bonito.
Que barulho. Eu queria que falassem com mais educação.
Lancei um olhar rápido pro Duke-sama. Ele me encarava com um rosto sério. Nenhuma emoção transparecia na expressão dele. Cara de pôquer? Será que esse é o Duke-sama normal? Só na minha frente que ele mudava tanto de expressão. Será que isso está mesmo certo? Meu peito ficou inquieto de alguma forma. Escolher meu próprio sonho ou escolher esse sentimento confuso que nem sei bem o que é…
— Não vai se defender?
A voz do Duke-sama me fez voltar a mim de repente.
As pessoas da cidade jogavam xingamentos na minha direção com tanta força que, se não houvesse essa grade entre nós, pareciam capazes de partir pra cima e me bater. Não sabia que eu era tão odiada assim. Mas, mesmo assim, sinto de alguma forma que estou sendo meio manipulada, ou talvez não… Será que a pessoa que apagou a memória do Duke-sama tem alguma relação com isso?
— Vá pro inferno! Um tipo como você não é necessário nesse reino!
— Peça desculpas pra Liz!
— Se você a machucar mais, a gente não vai perdoar!
Será que todos ali são devotos da Liz-san? Bom, eu não tenho nenhum patriotismo mesmo, tanto faz se eu for exilada do reino. Ou melhor, é isso mesmo que eu quero, o exílio. Se eu for exilada, sinto que finalmente vou me tornar uma vilã de verdade.
— A Liz-san tem a cabeça cheia de fantasias.
Essa única frase minha congelou o ambiente inteiro. Ah, será que eu acabei de fazer besteira?
Realmente não tenho muita capacidade de encarar a realidade e resolver problemas de forma lógica.
— Você não teria como entender a bondade da Liz.
Alguém murmurou isso com uma voz baixa. Era uma voz carregada de tanto ódio que meu corpo gelou.
— Só porque é nobre não quer dizer que pode falar o que quiser!
— Se enrola na lama e se arrependa!
— Fezes de cavalo até seria melhor.
— A criação dos pais dela deve ter sido péssima.
— A Liz disse que os irmãos da família Williams são todos pessoas muito boas.
Os irmãos, é… Ou seja, isso significa que a Liz-san diz que só eu sou má?
— Então é um problema pessoal dessa aí.
— Saia desse reino!
No meio de toda essa enxurrada de vaias, de repente ouvi um estrondo — a porta se abrindo com força total.
Um garoto pequeno estava parado, encarando a gente com raiva.
— Jill…
Como será que ele chegou até aqui? Bom, ele é inteligente, chegar até essa sala não deve ter sido difícil pra ele.
— Que nojo disso tudo.
No meio do silêncio repentino, só a voz dele ecoou.
Ei, Jill, eu não me lembro de ter te ensinado esse tipo de palavrão.
— Ei, Duke, o que você está fazendo?
Jill caminhava na nossa direção, encarando o Duke com olhos gelados. Emanava uma sede de sangue tremenda. Até eu fiquei paralisada, olhando pro Jill.
Jill veio até o meu lado e olhou fixamente pro meu rosto. Talvez fosse a primeira vez que ele me encarava assim, tão diretamente. Pensei nisso. Normalmente ele costuma me olhar com um olhar preocupado, mas dessa vez era diferente.
— Ei, Alicia. …Você pode usar de mim, sabia?
Jill disse isso sem desviar o olhar de mim, com um tom sério.