Capítulo 186
Sem querer, acabei rindo. Bom, "rindo" é um exagero, só ergui o canto da boca. Uma vilã com classe não fica dando gargalhadas escancaradas.
— Nunca imaginei que faria o Jill dizer uma coisa dessas.
Afaguei de leve a cabeça dele.
Uma situação como essa, vou sair dela com facilidade. É só o povo… mas mesmo sendo "só" o povo, ainda assim preciso conduzir tudo de forma que eu pareça ter vantagem. Não importa o quão desfavorável seja a situação, tenho que transformá-la em vitória. É isso que é ser vilã. Mas, dessa vez, vou aproveitar pra conseguir meu exílio. Quero ir pro reino de Lavarre a qualquer custo. Ir até outro país, coletar informações com meus próprios olhos e ouvidos. Olhando pro meu próprio reino de forma objetiva, de fora, talvez minha forma de pensar mude.
— Obrigada por ter vindo. Você me ajudou, Jill.
— Eu ainda não fiz nada.
— Sério? Mas você me fez lembrar do que eu devia fazer.
— …Você é meio sem-vergonha, Alicia.
Jill disse isso, dando um sorrisinho.
— Duke-sama, devolvo isso ao senhor.
Tirei o colar que estava no meu pescoço e joguei na direção do Duke-sama. Ele o pegou perfeitamente com uma mão, e ficou olhando fixamente pro colar.
— Pode me exilar do reino, sem problema nenhum.
Falei isso encarando os olhos dele fixamente. Vi os olhos do Duke-sama se arregalarem bastante.
Bom, não é comum alguém pedir isso de próprio punho, de repente, assim.
— Se algum dia a memória do Duke-sama voltar e o senhor voltar a se interessar por mim de novo, então, nessa hora… talvez eu concorde em te encontrar de novo.
Falei isso erguendo o canto da boca.
Duke-sama não disse nada, só ficou me encarando, com os olhos arregalados.
Diante de uma atitude tão desrespeitosa, o povo da cidade começou a me xingar em voz alta. Sem pudor nenhum, jogavam palavras bem vulgares na minha direção. Mulher sem educação, não pertence a esse reino, suma daqui, praga, desumana, se ajoelhe no chão e peça desculpas pra Liz… bom, entendo que, uma vez que a pessoa começa a xingar, é fácil explodir e querer soltar um monte de ofensas seguidas. Mas, ainda assim, faltava lógica naquilo tudo.
— Vocês são grandes o bastante pra falar assim comigo?
Falei isso, debochando deles.
Sabia perfeitamente que estava jogando lenha na fogueira. Fiz de propósito, pra que todo mundo soubesse que a nobre exilada era uma vilã e tanto.
Que bom que os criadores desse mundo transformaram todo mundo em idiota. O boato da minha vilania com certeza vai se espalhar em dobro.
— …Você quer mesmo ser exilada? Você ainda é uma criança de quinze anos.
— Mesmo sendo criança, ainda assim posso receber uma sentença.
Enquanto eu sorria com tranquilidade, o Duke-sama me encarava em silêncio. Jill observava tudo calado. Ele é excepcionalmente bom em ler o clima. Sua expressão dizia claramente que não queria que eu fosse exilada, mas ele sabia exatamente o que aconteceria se retrucasse ali naquele momento, então ficou quieto.
— Vou fazer exatamente o que você deseja.
Perder a memória é assustador mesmo, hein. Pensei isso olhando pro Duke-sama.
De verdade, quem será que apagou a memória dele, afinal? …E, além disso, só a memória referente a mim.
— Guardas, levem-na.
Naquele instante, uma multidão de guardas entrou na sala.
Uau, tinha tanta gente esperando lá fora assim? Será que me chamaram achando que eu poderia enlouquecer de repente? Nunca imaginei que fosse viver uma experiência dessas. Parece um sonho. Parece coisa de vilã de verdade. Preciso manter a postura firme até o fim. Quero ser reconhecida como a mulher que nunca vacilou.
No instante em que os guardas seguraram meu braço com força e tentaram me levar embora, Jill levantou a voz.
— Espera, Alicia, não vai embora! Não me deixe sozinho.
Ah, nunca imaginei que ele fosse gritar isso justo agora. O Jill entende bem as coisas, mas, por isso mesmo, guarda muita coisa dentro de si. Ele é mais criança do que eu pensava. Mesmo a inteligência dele deixando muitos adultos no chinelo.
— Me leva junto também.
Ignorei ele, mesmo com ele implorando desesperadamente.
Não posso deixar o Jill ser exilado junto comigo. O futuro dele é brilhante e promissor. Dessa vez, não posso arrastá-lo comigo.
— Duke, depois não adianta se arrepender.
Jill disse isso encarando o Duke-sama com raiva. Duke-sama não disse nada. E, como sempre, as vozes do povo continuavam barulhentas.
— Por favor, Alicia. Não me deixe pra trás.
…Parecia uma criança perdida. Jill, então você também consegue fazer essa expressão. Faz tempo que eu não via esse lado infantil dele. Ultimamente ele andava se tornando um pouco atrevido, então é bom ver que ele ainda diz esse tipo de coisa pra mim.
Fui andando enquanto os guardas puxavam levemente meu braço. De jeito nenhum eu podia deixar transparecer tristeza no rosto. É uma questão de orgulho como vilã.
Claro que eu também sinto tristeza de me separar do Jill, do tio Will e de todo mundo. Mas eu quero ver o mundo lá fora. Não quero morrer sem saber de nada.
Um guarda segurou o Jill pra impedir que ele se aproximasse mais de mim. A voz do Jill era a que mais ecoava naquela sala, acima de todas as outras. O choro dele entrava nos meus ouvidos sem nenhuma piedade.
A culpa de fazer ele soltar esse tipo de grito é toda minha. Pensando bem, eu sou mesmo uma vilã e tanto.
…Ah, francamente. Não quero deixar nenhum arrependimento estranho pra trás.
Sacudi o braço com força, me livrando do guarda, e me aproximei do Jill. Nossa, consegui me livrar tão fácil assim — parece que ganhei bastante força mesmo. Ou será que o guarda me subestimou por eu ser mulher? Bom, isso agora não importa.
O guarda segurou meu braço com toda a força, tentando me impedir de chegar até o Jill.
— Fica quieta.
Eu já estava quieta. Não estava fazendo escândalo nenhum. Só queria dizer um último adeus pro Jill. Bom, talvez isso seja só um argumento esfarrapado meu.
— Tudo bem. Soltem-na.
Duke-sama disse isso pros guardas. O Duke-sama é gentil mesmo, afinal.
Pensando nisso, me aproximei do Jill. Os olhos dele escorriam lágrimas grossas, em grande quantidade.
— Que raro ver o Jill chorando.
— De quem você acha que é a culpa?
Diante do meu sorriso, o Jill disse isso com a voz levemente trêmula.
— O Jill é o meu orgulho.
Falei isso e coloquei na palma da mão dele a pulseira que eu usava no pulso. Depois de confirmar que o Jill tinha segurado firme a pulseira, soltei minha mão.
— Isso é…
Jill ficou olhando fixamente pra pulseira.
— A pulseira que eu tinha pedido antes…
Sem dizer mais nada, me afastei dali e voltei pros guardas. Eles seguraram meu braço com brutalidade, como sempre. Ficou claro que esses não eram guardas do Duke-sama. Se pudesse escolher, eu preferia ser escoltada pelos guardas que gostam de mim, do Duke-sama. Pensando nisso, comecei a caminhar em direção à porta.
Foi exatamente no instante em que saí da sala que alguém segurou meu pescoço com delicadeza. Sem apertar nem um pouco, sem me sufocar de jeito nenhum.
— Eu com certeza vou te buscar.
Ele disse isso perto do meu ouvido. Numa voz tão baixa que ninguém mais poderia ouvir.
…Como? Não pode ser.
A memória dele voltou? Não… a memória nunca tinha desaparecido, desde o início. Era tudo atuação. O Duke-sama, afinal, estava um passo à frente de mim o tempo todo. Fui completamente enganada. Por algum motivo, comecei a rir sozinha.
Agora entendo por que ele montou um esquema tão grande e elaborado assim. Ele tinha percebido que eu queria ser exilada. Um exílio é algo que só acontece se alguém cometer algo muito sério. Aliás, há décadas ninguém era exilado do reino. As últimas pessoas exiladas foram aquelas pessoas excepcionalmente competentes ligadas à mãe do rei atual…
E, além disso, o rei atual não tinha absolutamente nenhum motivo pra me exilar. Meu Otou-sama é uma das cinco grandes famílias nobres. Seria extremamente difícil me exilar.
Ou seja, por mais que eu me esforçasse pra ser exilada, na prática, isso era impossível. Por isso, pensei em envolver o povo. Um exílio depois de décadas de intervalo só aconteceria com algo realmente grande. E, além disso, o Duke-sama é o príncipe deste reino — ele não tem autoridade pra simplesmente decretar um exílio assim, com facilidade. Ele agiu sabendo exatamente que eu queria ser malvista por todos ao meu redor. Nunca imaginei que ele fosse fingir amnésia… que estrategista incrível.
Ou seja, todo mundo aqui estava dançando conforme a música dele, o tempo inteiro. Que homem assustador, no fundo.
Ergui o canto da boca em silêncio e saí da sala junto com os guardas.
Finalmente, aconteceu exatamente como no jogo.
"Williams Alicia: exilada para o Reino de Lavarre."