Capítulo 198
Já se passaram algumas horas desde que o homem disse, com brutalidade, "vocês entrem aí".
O mau cheiro continua terrível como antes. Me lembra o vilarejo da pobreza.
Um lugar insalubre, cheio de gritos de gente enlouquecida ecoando, com um cheiro forte demais golpeando o nariz — um lugar desesperador. Pedir esperança num lugar desses é praticamente impossível.
O Fil foi colocado numa cela diferente da nossa. Parece que quem é escolhido pra virar espetáculo vai pra um lugar especial. Não sei se lá é mais limpo ou mais sujo do que aqui, mas imagino que deve ser um lugar mais limpo.
— Será que ele vai acabar morrendo?
Mil murmurou isso, com o olhar vago fixo no chão. Ruby, sentada ao lado dele, não reagia nem um pouco.
…Que triste, mas ele vai morrer com cem por cento de certeza. Com aquele nível de força, não tem como ele vencer um leão faminto.
Desde algum momento, passei a conseguir avaliar mais ou menos a força de alguém só de olhar pra pessoa. Eu já sabia que meus olhos tinham algo especial — a velocidade de leitura, por exemplo — mas nunca imaginei que eu fosse capaz disso também.
O tio Will também ficou impressionado com meus olhos, mas, pra mim, isso sempre foi normal, então nunca achei aquilo tão incrível assim.
Pelo que consegui observar rapidamente, o mais forte de todos, sem dúvida, é aquele homem de cabeça raspada, cujo nome ainda não sei. Ele definitivamente não é uma pessoa comum. Afinal, ele anda sem fazer nenhum som de passos. Só alguém treinado consegue fazer isso.
Se minha suposição estiver certa, provavelmente ele é algum tipo de assassino profissional.
— Será que eu também vou morrer daqui a pouco?
Mil falou isso com uma voz fraquinha.
Que homem tão fraco. Bom, dado o que está acontecendo, talvez seja natural pensar assim, mas, com esse tipo de mentalidade, nem uma vilã olharia na sua direção. Vilã se interessa por gente forte.
— Ninguém vai morrer.
Falei isso com uma voz baixa. Diante das minhas palavras, a sobrancelha de Mil se contraiu levemente.
— Eu vou sobreviver, mas vocês devem morrer aqui.
— Você tem confiança de sobreviver a essa luta?
— Confiança nem é a palavra. Pra mim, viver é a única opção que existe.
— Rá, que juventude.
Ele riu com deboche das minhas palavras e começou a demonstrar uma certa hostilidade.
Bom, palavras vindas de um garoto qualquer devem soar só irritantes pra eles… mas, mesmo assim, morrer nunca foi uma opção pra mim, desde o início.
Quanto mais adversidade, mais forte eu fico. Não é assim que funciona uma vilã?
Ela sempre escapa de situações impossíveis de algum jeito, deixando a heroína numa saia justa.
— Então, que tal você tomar o lugar dele?
Mil disse isso de repente, com uma voz baixa e fria. O ar ao redor ficou tenso na hora.
— Eu?
Ah, mas que oportunidade maravilhosa!
Não quero perder nem um segundo de tempo. Quero ser notada pelo rei deste reino o quanto antes possível.
— Isso.
— Isso é possível?
Ele com certeza não esperava esse tipo de resposta vinda de mim. Mil arregalou os olhos e ficou paralisado. Ruby, que estava com o rosto completamente inexpressivo até então, também moveu os olhos levemente na minha direção.
Pra ele, deve parecer que um garoto bem mais jovem que ele mesmo acabou de se voluntariar pra morrer.