Capítulo 214
Fui descoberta num segundo, francamente.
Eu queria ter me divertido um pouco mais com esse disfarce de garoto.
De fato, faz sentido que um príncipe de um reino inteiro não se deixasse enganar por algo assim. Se, mesmo assim, ele realmente achasse que eu sou homem, aí sim eu o classificaria como um príncipe bastante desatento…
Mas eu achava que estava me saindo relativamente bem no disfarce.
— Príncipe, o que o senhor está dizendo? Esse aí, de qualquer ângulo que se olhe, é um homem. Não existe mulher assim.
— Cala a boca.
Victor calou o guarda num instante.
Que príncipe impressionante, hein. Não parece ser só alguém que cresceu mimado e sem disciplina.
Faz sentido, sendo o reino de Lavarre uma grande potência, a educação dele deve ser rigorosa.
— O fato de você não enxergar também está ficando cada vez mais suspeito.
Em momentos assim, o melhor é não dizer nada.
Sentia uma pressão tremenda vindo do Victor bem na minha frente, mas não abri a boca de jeito nenhum.
Depois de um silêncio prolongado, Victor soltou um suspiro calmo.
— Se retire.
Sabia que ele estava falando com o guarda, mas tentei sair do local junto com ele mesmo assim.
O Victor é perigoso. Quero sair daqui o quanto antes.
— Você fica.
Victor apertou ainda mais a mão que segurava meu braço e puxou com força.
O guarda, com uma expressão de leve insatisfação, obedeceu à ordem de Victor e saiu do quarto.
…Que desenrolar é esse.
Depois de confirmar que a presença do guarda tinha desaparecido por completo, Victor soltou minha mão. Encostou-se na mesa.
Ficou me olhando fixamente, como quem enxerga através de mim.
Odeio esse tipo de olhar. Justamente as pessoas que não querem que descubram nada delas são as mais habilidosas em investigar os outros.
— Mulher é ainda mais complicado.
Já que fui descoberta, não teria mais necessidade de continuar fingindo ser garoto, mas, por precaução, acho melhor continuar mesmo assim.
— Você tem trauma de mulher?
— …Você tenta se mover desse jeito na frente de uma mulher e vê o que acontece. E, ainda por cima, esse aí tem os olhos vendados, seja lá se enxerga ou não.
— Homem nenhum tem chance.
— É exatamente isso. E, ainda por cima, meu velho começou a falar que ia deixar sua etiqueta na mão daqueles ali. …Ah, que saco, francamente.
— Quem são "aqueles"?
— Você vai acabar conhecendo eles, quer queira quer não.
Será que são pessoas tão assustadoras assim? …Se for isso, adoraria muito conhecê-los!
Preciso aprender bem o que é medo, vindo dos outros também. Uma vilã precisa ser temida pelas pessoas.
— Você já esperava conseguir a aprovação do meu velho, não esperava?
Victor disse isso com uma voz ainda mais baixa que antes.
Eu tinha esperança de conseguir a aprovação dele, mas se ele realmente ia gostar de mim ou não dependia inteiramente da sensibilidade do próprio rei.
Não tinha certeza absoluta, mas apostei tudo numa chance de tudo ou nada.
Claro, não posso dizer isso em voz alta, porque seria péssimo se ele conseguisse ler meus pensamentos.
— …Quem é você, afinal?
— Ria, um garoto pobre.
— Que resposta sem graça.
Ele estalou a língua com força.
Ora, que resposta ele esperava, então?
— Você fede.
Falar isso, sabendo que sou mulher, é uma falta de delicadeza absurda!?
Você vai acabar sendo odiado assim. …Bom, com esse rosto bonito, imagino que ele nunca teve problema com mulheres.
— Tira a roupa.
A voz firme de Victor ecoou pela sala.