Capítulo 218
Cobri os olhos com o pano novo que o Victor me entregou e amarrei atrás da cabeça.
…Esse dá pra enxergar muito melhor ao redor do que o anterior, é bonito, de boa qualidade. E, além disso, não fede. Muito pelo contrário, tem um cheiro bom.
— Você vai passar pelo treinamento normal de soldado. E vai estudar também. …Ah, e também vai ser meu guarda-costas quando eu sair em alguma expedição.
Fiquei paralisada diante daquela proposta.
São condições boas demais, chega a ser algo pelo qual eu deveria agradecer. Treinamento físico, estudo, e ainda por cima poder ir em expedições que me permitiriam conhecer melhor este reino…
Ah, meu Deus, muito obrigada por me dar essa oportunidade. Não tenho como agradecer o suficiente.
Que condições maravilhosas.
— Os soldados não são gente ruim, mas um pirralho como você provavelmente vai ser considerado sem motivação no começo, então pode acabar sofrendo bullying — se prepare.
Essa é a primeira vez que estou do lado de quem sofre bullying. Uma vilã está sempre do lado de quem provoca.
Victor me encarava com uma expressão irritada.
— Ei, você está me ouvindo?
— Sim. Entendi bem que você está preocupado comigo.
— Essa tranquilidade toda me irrita.
Não é como se eu tivesse tranquilidade nenhuma. Desde que cheguei ao reino de Lavarre, estou vivendo praticamente no limite.
Não conheço absolutamente ninguém aqui, nem sei a geografia deste lugar, e, além disso, os costumes daqui eu só conheço pelos livros, então nem tenho certeza se estão certos…
— Aliás, o que aconteceu com aquele leão? Ele ainda está vivo?
— Está bem animado.
Não posso, de jeito nenhum, contar que eu o curei com magia e ainda o deixei ainda mais forte.
— Você já decidiu o nome dele?
— Rai.
Assim que eu disse isso, Victor caiu na risada.
Adoraria que ele me explicasse onde, nessa nossa conversa, tinha algo tão engraçado assim. Será que só o meu senso de humor é esquisito?
Vendo pela primeira vez o sorriso dele, senti um misto de sentimentos complicados.
— Por que você está rindo?
— Porque, ei, você é Ria, certo? Então, quando você conseguir outro leão, vai chamar de "On"? Os dois juntinhos formando "Ri-on", leão?
Victor disse isso, dando risada solta.
Ele está… me tirando, né?
Não é um nome fofo, "Rai"? Vem de "campo de centeio", igual "O Apanhador no Campo de Centeio". Aposto que até o Salinger aprovaria o nome que eu escolhi.
— Não fica emburrada assim. Eu, o próprio príncipe, ri de você, devia se sentir honrada.
Eu deixei esse cara descobrir um dos meus pontos fracos… Que choque. Fico até decepcionada comigo mesma.
…Que irritante, todo príncipe que encontro sempre acaba um passo à frente de mim. Vou superar tanto o Victor quanto o Duke-sama, custe o que custar.
— Ah, e mais uma coisa: não chegue perto da torre mais alta do palácio.
— Isso quase soa como um convite pra eu ir até lá.
No meio da frase, percebi de repente a real intenção do Victor.
— Eu definitivamente não vou lá!
— Ah, será mesmo?
Dizendo isso, ele ergueu o canto da boca.
Ele sabia perfeitamente que, se dissesse "nunca se aproxime disso", com certeza eu ia acabar indo até a torre — foi por isso mesmo que ele disse aquilo.
De fato, dizendo uma coisa dessas, dá vontade mesmo de ir. Uma vontade absurda de ir.
…Mas, se eu simplesmente for até lá agora, estaria caindo exatamente na armadilha do Victor, não estaria?
Ah, francamente, esse homem é mesmo do tipo que eu não sei lidar!