Capítulo 223
— E aí, como foi?
A voz do Victor ecoava baixa, dentro do quarto.
— Como esperado, parece que ela não conseguiu chegar ao topo da torre.
— Entendo. …Mas com certeza ainda tem algo naquela aí. Não é possível que uma aberração dessas tenha passado despercebida até agora. Desçam até a cidade e investiguem informações sobre ela.
— Às ordens.
Encostei o ouvido na porta do quarto do Victor pra escutar a conversa lá dentro.
Eu tinha invadido o quarto dele no caminho de volta da torre, pra investigar este reino, procurando por alguma pista, quando ouvi vozes conversando lá dentro.
…Então eu estava sendo investigada.
Ou melhor, essa porta realmente não serve pra absolutamente nada mesmo. Será que minha audição é anormal, ou é essa porta que é estranha? Uma das duas coisas.
— Vou continuar vigiando ela sem baixar a guarda.
Uma voz grave, de outro homem que não era o Victor, disse isso.
O que é essa tensão que consigo sentir mesmo do lado de fora da porta…? Será que eu sou mesmo uma pessoa tão perigosa assim?
…Ou melhor, estou sendo vigiada!? Desde quando, afinal?
Bom, faz sentido. O príncipe não é bobo o bastante pra deixar solta uma encrenqueira como eu.
Mesmo assim, sendo que antes eu era do lado de quem vigiava, agora estar do lado de quem é vigiada é meio complicado. Sinto que teria sido mais tranquilo não saber que estava sendo vigiada.
A Liz-san, se descobrisse que estava sendo vigiada, provavelmente diria algo tipo "obrigada, você estava cuidando de mim". Que fácil de imaginar ela dizendo isso.
— Pode se retirar.
No mesmo momento em que o Victor disse isso, ouvi passos se aproximando da porta.
Que perigo, preciso me esconder em algum lugar…
Instintivamente, pulei pra fora por uma porta próxima. Me segurei num galho de árvore e me escondi ali mesmo. Nesses momentos, é bom ser pequena de estatura.
Observei a figura do homem saindo pela porta.
Cabelo negro penteado pra trás, olhos roxos que eu conhecia bem demais, e um rosto com cara de vilão.
…Otou-sama?
Não, não pode ser. Não teria como ele estar num lugar desses.
Olhando com mais atenção, é um homem bem mais velho do que o Otou-sama. Mas não é um velhinho encurvado e frágil, nada disso.
— Vovô?
Nunca conheci meu avô, nem uma vez.
Nunca soube se ele está vivo ou morto. Ou melhor, nunca ouvi meu pai falar sobre meu avô, nem uma vez sequer. E eu mesma nunca perguntei nada ao meu pai sobre o meu próprio avô.
Se o tio Will foi o menino prodígio que apoiava o rei atual (ver a história completa dele), as pessoas ao redor dele deveriam ser bem mais velhas.
…Mesmo assim, que cara de vilão. Ser exilado antes de mim e já estar trabalhando sob as ordens do Victor… será que meu avô já não é, de fato, um vilão que ficou registrado na história?
Bom, ainda não está confirmado que ele é mesmo meu avô.
Se for isso mesmo, meu nome ficaria registrado logo depois do dele, né. Será escrito nos livros de história como uma espécie de nota de rodapé dele… isso eu não aceito de jeito nenhum.
— Ou melhor, antes de mais nada, preciso investigar se ele realmente é meu avô.
Desci da árvore, ainda segurando no galho, até chegar ao chão.
Ainda não é certeza, mas, se ele for mesmo um dos exilados, preciso encontrar os outros dois o quanto antes.