Capítulo 345
— Originalmente, eu deveria ter morrido lá mesmo, naquele lugar. Por isso, quando a Alicia me perguntou, pela primeira vez, se eu não queria sair do vilarejo da pobreza, eu recusei. Mesmo que conseguisse voltar pra este mundo, achava que já não havia mais nada que eu pudesse fazer.
— …Naquela época, você já estava doente?
Minha voz saiu um pouco rouca.
Naquela época, o vovô parecia bem. …Aliás, até agora ele continua parecendo bem. Não dá pra perceber nenhum sinal de fraqueza nele.
O vovô puxou a manga da própria roupa e estendeu o braço na minha direção. Sem perceber, meu pensamento parou por completo. Não conseguia pensar em nada, nem sair nenhuma palavra.
…Manchas verdes.
Só de ver o estágio em que aquilo estava no braço dele, já dava pra entender que ele ia morrer em breve.
Até agora eu não conseguia sentir de verdade que o vovô ia morrer, mas, vendo aquele braço, entendi, pela primeira vez, com o corpo inteiro, que o tempo dele estava se esgotando.
— Doença das manchas?
— Sim, é isso mesmo. Fica tranquilo, não é uma doença contagiosa.
Como eu ia conseguir ficar tranquilo com isso. Jurei que ia apoiar o vovô, mas essa promessa já parecia estar desmoronando. Meu coração doía tanto que eu não conseguia fazer nada.
Por que o coração humano é tão frágil assim? Como se consegue ficar mais forte?
Percebi, então, que a morte que dói de verdade não é a nossa própria morte — é a morte dos outros. Se eu morresse, eu mesmo não teria problema nenhum com isso, nem sentiria nada. Porque o que acontece depois da minha morte já não é mais problema meu.
Mas, se o vovô morrer? O que acontece com a gente?
— Por quê? Por que justo o vovô? Nesse reino quase ninguém pega essa doença! Por que justo o vovô teve que pegar isso? Isso é cruel demais.
Eu estava me segurando pra não chorar, mas não consegui mais conter as lágrimas transbordando. Por que dói e entristece tanto assim? O vovô ainda está vivo.
O vovô me olhava com uma expressão de quem sentia pena.
Eu não queria essa expressão. Eu queria que ele sorrisse como sempre, dizendo "está tudo bem".
Família, parentes, amigos, amantes — é a morte deles que mais dilacera nosso coração. É claro que morrer dá medo. Mas a morte de quem a gente ama dá um medo ainda maior.
— Esse é o meu destino.
— Eu vou quebrar esse destino! Vou fazer um remédio com o mesmo componente da Madi. Então, por favor, não morre! Eu te dou os anos que me restam de vida, mas não morre!
Chorei alto, gritando como uma criança pequena. Meu coração parecia mais esmagado do que quando minha própria família morreu.
— Mesmo que encontre um remédio, no estado em que estou agora, já deve ser tarde demais. Mesmo que consiga a Madi, não vai adiantar nada.
— A gente ainda não tentou, não dá pra saber isso! …A Kate Liz, é isso, talvez ela consiga salvar o vovô!
— Jill, escuta o que eu tenho a dizer.
— Eu já preciso ir!
Dizendo isso, saí do quarto na força bruta.
Sei que é falta de educação, mas, mesmo assim, eu não conseguia continuar ali dentro. Se toda a minha esperança fosse negada, eu não ia conseguir mais ficar em pé.
No instante em que abri a porta com força, quase esbarrei no rei.
Aqueles olhos de um azul profundo refletiram minha imagem. Sem nem cumprimentar, saí correndo dali.
— O Jill esteve aqui?
O Luke entrou no quarto do Will e perguntou isso. Will respondeu com um sorriso amargo.
— Sim. Contei a ele sobre a doença, mas parece que ele ainda não conseguiu aceitar.
— Então era o Jill quem estava no corredor ontem.
— Talvez essa conversa tenha sido cedo demais pra ele.
— Ele nutre uma admiração muito grande por você, meu irmão. E, além disso, mesmo parecendo maduro, ele ainda é uma criança. …Eu também não sei se aguentaria perder você de novo.
— Parece que sou muito amado.
Will sorriu com um ar melancólico. Aquele sorriso apertou ainda mais o coração de Luke.
A alegria de ter reencontrado o irmão a quem tanto admirava foi arrancada dele num único instante. O coração de Luke ficava dividido, cheio de contradições, já que, dessa vez, achava que finalmente ia conseguir salvá-lo de verdade.
— Meu papel já tinha se encerrado há muito tempo. Antes que essa vida se esgotasse por completo, eu precisava, sem falta, tirar o Jill do vilarejo da pobreza. Esse foi o papel que impus a mim mesmo.
Diante das palavras de Will, Luke arregalou os olhos, paralisado.
Parecia não conseguir acreditar que ele tivesse dedicado a própria vida por causa de um único garoto. Não foi por se tornar um bom mestre pra Alicia, nem por virar líder do vilarejo da pobreza. Foi só por causa de um único garoto: Jill.
Provavelmente, foi o único objetivo que Will encontrou dentro do vilarejo da pobreza.
— Ele não é o tipo de pessoa que deveria estar num lugar daqueles. Sem família, num mundo tão cruel, ele precisava de alguém que fosse como um mestre pra ele. Foi aí que a Alicia apareceu, e foi ela quem o tirou de lá. Eu sabia que, sozinho, eu não conseguiria tirá-lo dali. Mas, um dia, o Duke me avisou que uma senhorita ia aparecer. Isso significava que eu deveria protegê-la, mas, na época, aquilo era, pra mim, só uma chance de talvez conseguir libertar o Jill do vilarejo da pobreza. Depois que a Alicia chegou, não demorou nada até o Jill deixar o vilarejo. …Ela é realmente extraordinária.
Will abriu um sorriso feliz. Luke não conseguiu dizer nenhuma palavra diante daquele sorriso tão satisfeito.
Talvez tenha sido justamente Will quem, mais do que qualquer outra pessoa, amou o Jill.