Capítulo 344
— Você não vai contar pra Alicia?
— …A Alicia é uma menina esperta, talvez ela perceba sozinha, eventualmente.
Dizendo isso, o vovô olhou pela janela.
Todo mundo pensa na Alicia, que está no reino de Lavarre. Mesmo quem prefere não pensar nela, acaba sem conseguir tirá-la da cabeça.
Até a Kate Liz é assim. No fim das contas, ela sempre esteve amarrada à Alicia.
— Mas, mesmo assim, ela não vai voltar pra cá por causa disso.
— Por quê?
— Porque ela sabe, melhor do que ninguém, que eu não desejo isso.
O vovô sorriu com os olhos suavemente semicerrados. Era a expressão de quem olha pra um neto querido.
— Mas é a Alicia, sabe? A garota tão apegada aos sentimentos como ela, não voltar?
— Ela não vai voltar.
O vovô disse isso com firmeza absoluta, cortando o que eu ia dizer.
Não entendo como ele consegue afirmar com tanta certeza que a Alicia, mesmo percebendo que algo está errado com ele, não vai voltar.
Ela respeita o vovô mais do que qualquer outra pessoa. Pra ela, ele é como um membro da própria família.
A Alicia com certeza vai voltar pro lado do vovô. Porque ela é esse tipo de pessoa.
Talvez, se for ela, consiga salvá-lo. Talvez ela consiga curar essa doença.
Comecei a nutrir uma pequena esperança. Como se tivesse percebido o que eu estava pensando, o vovô abriu a boca.
— Jill, é bem verdade que a Alicia pode ser uma Santa. Mas, mesmo sendo Santa, não quer dizer que ela consiga fazer absolutamente tudo. Ela não tem como salvar alguém que já está a caminho da morte.
— M-mas…
— A Alicia sabe o que precisa fazer. Não é hora de ela se voltar pra mim. Já não há mais nada que eu possa fazer por ela.
— Isso não é verdade! E eu? Ainda tenho um monte de coisas que quero aprender com você, vovô!
— Você já não precisa mais de mim, Jill. Olha ao seu redor. Não é só a Alicia — tem o Duke, tem o Henry, tantas pessoas em quem você pode confiar, não tem?
Tive a sensação de que ele realmente estava prestes a partir para o outro mundo. Aquilo soava como uma conversa de despedida entre nós dois.
…Fica tudo bem, ele ainda não vai morrer. O vovô jamais vai desaparecer antes de terminar seu trabalho.
Repeti isso pra mim mesmo, com toda a força que tinha.
— Mesmo assim, foi uma vida interessante.
O sol da manhã, já alto no céu, refletia nos olhos do vovô. Fiquei calado, só ouvindo o que ele tinha a dizer.
— Perder meu poder mágico, ter os dois olhos arrancados, ser exilado pro vilarejo da pobreza, e depois disso, encontrar uma pessoa chamada Alicia, criar uma criança chamada Jill, reerguer o vilarejo da pobreza, e conseguir voltar pro mundo de origem — eu nunca teria imaginado nada disso. Graças a ter encontrado a Alicia e o Jill, tomei coragem de tentar viver mais uma vez.
— Viver?
— A definição do que é "viver" pra uma pessoa é extremamente difícil. Será que viver é só respirar e conseguir mover braços e pernas? Ou será que é o momento em que a pessoa se lança de corpo e alma em direção a um objetivo? Curiosamente, cada pessoa tem sua própria definição de viver. Tem gente que encontra sentido de vida no amor, e tem gente que encontra sentido de vida no trabalho.
Pensei um pouco diante das palavras do vovô.
Eu, como pessoa, já estava morto naquele vilarejo da pobreza. Fiquei morto o tempo todo, até conhecer a Alicia.
Com certeza, foi assim com o vovô também. Quando foi exilado pro vilarejo da pobreza, ele com certeza já tinha desistido de tudo. Aquele lugar é feito pra apagar do ser humano o próprio conceito de "viver".
Até pouco tempo atrás, todos ali só esperavam pela morte.