Capítulo 358
Dentro da carruagem, fiquei pensando no que o Ben tinha dito.
O menor dos garotos de pele bronzeada que fugiram do coliseu, com os primeiros sintomas da doença das manchas… isso é exatamente os garotos que conheci hoje de manhã, não é?
Os sintomas iniciais da doença das manchas são… febre baixa. E também coceira no pescoço, onde começam a surgir as manchas.
Naquela hora, eu estava tão concentrada no irmão mais velho que nem observei direito o mais novo.
— …O que o Ben te disse?
— Hã?
Virei o rosto na direção da Vivian. Ela me olhava com uma expressão levemente preocupada.
— Com essa cara tão séria, o que está te preocupando?
— …Vivian, tenho um pedido.
Fiz uma pausa, respirei fundo, e falei com seriedade. A Vivian inclinou levemente a cabeça, confusa, "o quê?".
— Eu queria voltar por um tempo pro lado do Victor.
Não tem jeito, eu preciso ir buscar a Madi de qualquer forma. Não importa quão perigoso seja…
— Você quer que ele vire rei?
— Não é isso. Só tenho uma coisa pendente pra resolver. E, além disso, eu acho que tanto faz quem se torna rei do reino de Lavarre. Vivian, quer dizer, tanto o Vian quanto o Victor têm qualidades pra ser rei.
Dizer isso na frente do Victor com certeza me renderia uma bronca.
Ele encara o próprio irmão como rival, com uma obsessão enorme. Mas isso é só um amor não correspondido do lado do Victor. A Vivian, de alguma forma, tem uma tranquilidade maior sobre isso.
— Eu já esperava que a Alicia diria algo assim. …Não tem jeito mesmo, não é? Afinal, você originalmente servia ao Victor.
— Tudo bem?
— Tudo bem. Mesmo que eu dissesse alguma coisa, você não ia me dar ouvidos mesmo.
— Você me entende muito bem.
Sem perceber, meus lábios se abriram num sorriso.
Nunca imaginei que ela fosse permitir, tão facilmente assim, que eu voltasse pro lado do Victor.
— Vai ficar solitário. E, além disso, o trabalho não vai correr tão bem quanto antes, imagino.
— Fico honrada em ouvir isso.
— Ei, não entra em modo trabalho assim, do nada.
A Vivian franziu levemente as sobrancelhas.
Sinto um orgulho enorme por ser reconhecida assim por ela.
Enquanto estava no reino de Dulkis, eu vivia cada dia pensando "vou virar a vilã, rival da heroína!", mas, desde que cheguei aqui, quase não penso mais nisso.
De certa forma, é quase como se eu estivesse de férias. …Bom, chamar exílio de "férias" também é meio estranho.
Estar no reino de Lavarre é tranquilo, mas, sinceramente, também fico curiosa sobre o que está acontecendo no reino de Dulkis. E se aparecer alguém com um perfil parecido com o meu e roubar meu posto de senhorita vilã?
Preciso voltar pra minha terra natal antes que minhas habilidades de vilã enferrujem!
— Ai.
De repente, senti uma dor aguda no olho esquerdo. Não era uma dor intensa, mais parecido com um choque de eletricidade estática.
Faz um tempo que meu olho esquerdo anda estranho. Espero que não tenha acontecido nada com o tio Will…
— O que foi?
— Nada não, tudo bem. Só senti uma dorzinha no olho.
— …O olho esquerdo?
Assenti com a cabeça.
— Isso acontece com frequência?
— Não. Mas está tudo bem! Talvez seja só um pouco de cansaço.
— Se você está preocupada com alguma coisa que o Ben te disse, me conta, tá? Eu vou lá e dou um soco nele.
Espera, é isso que você concluiu!?
Diante daquela resposta totalmente inesperada, sem querer levantei a voz.
— Sério, está tudo bem!
— É mesmo? Bom, se você diz.
A Vivian ainda me olhava com um pouco de desconfiança, mas não insistiu mais no assunto.
É exatamente esse tipo de coisa que eu gosto nela. Ela também nunca tenta forçar uma resposta sobre o que o Ben me disse…
Será que é isso que se chama de boa amizade? Ter amigos não é tão ruim assim.