Capítulo 360
Naquela noite, fui até a masmorra subterrânea onde estavam os garotos do reino de Melvin.
Levei nas mãos um cobertor macio e um bule com água quente. Um vento fresco acariciava meu rosto. Respirei fundo e desci as escadas. O som dos meus passos, "toc-toc", ecoava pelo chão.
Um lugar úmido, levemente frio. Escuro demais pra enxergar quase nada.
Não posso deixar um doente viver num lugar desses. Mas, ao mesmo tempo, também não posso simplesmente soltá-los da cela por conta própria.
— O que você veio fazer aqui?
Uma voz grave ecoou naquele espaço silencioso. Encontrei o olhar do irmão mais velho através das grades. Os olhos vermelho-carmim dele me fitavam em meio à escuridão.
— E o seu irmão?
— Está dormindo. Não atrapalha.
— Toma, cobre ele com isso, e essa água aqui também.
Dizendo isso, passei o cobertor pela fresta das grades e estendi o bule. Mas ele não fez menção nenhuma de aceitar. Pelo contrário, me olhava com desconfiança.
Ah, será que ele está achando que tem veneno aí dentro?
Sou sensível a comidas quentes, então bebidas assim me incomodam. Mas, agora, preciso aguentar, pelo menos pra conseguir um pouco da confiança dele.
Pra tirar aquela desconfiança dele, bebi um gole generoso da água.
— Assim está bom?
Ele pegou o bule das minhas mãos, devagar. Cobriu o irmão, que respirava tranquilamente enquanto dormia, com o cobertor.
Ele realmente se importa com o irmão. E é justamente por isso que eu não posso deixar que ele o perca aqui.
Preciso fazer algo antes que ele se machuque tão fundo a ponto de nunca mais conseguir se reerguer.
— Por que você está sendo boa comigo?
Ele murmurou isso olhando pro irmão.
— Porque eu também sou alguém que se reergueu vindo do coliseu.
Falei isso, erguendo levemente os cantos da boca.
Preciso conquistar a confiança dele de qualquer jeito. Ainda não sei se eles vão servir como talentos úteis, mas com certeza têm potencial pra crescer…
E, além disso, foi o Vice-capitão Neel quem confiou eles a mim. Quero corresponder a essa confiança.
Diante das minhas palavras, ele me olhou com uma expressão de surpresa.
— Se você tem capacidade, sobrevive. Não é um bom mundo?
— O que tem de bom num reino que tem até mercado de escravos?
Ele me olhou com um olhar afiado.
De fato, o reino de Lavarre tem mercado de escravos, mas é não oficial, e é crime. É o tipo de comércio clandestino…
Eu também acho que isso deveria ser interrompido e destruído o quanto antes.
— No meu reino, nem chance de se reerguer existia. Quem está no topo nunca muda. Mesmo tendo capacidade, a pessoa morre sem nunca conseguir demonstrar essa habilidade. Nem oportunidade se recebe.
Quase completei "porque tudo se resume a saber usar magia ou não", mas me segurei. Continuei falando.
— Por isso, esse reino ainda é bem melhor, não acha?
Diante das minhas palavras, ele ficou em silêncio.
…Pensando bem agora, o reino de Dulkis é que era realmente estranho. Só percebi isso depois de sair de lá.
Aquele mundo era o "normal" pra mim, mas nenhum outro reino tem gente capaz de usar magia. Rã no fundo do poço que não conhece o oceano, esse é o tipo de coisa.
Bom, o reino de Dulkis quase não fazia diplomacia com outros países, então não tem jeito mesmo.
— O que você quer, afinal?
Diante da pergunta dele, respondi com um sorriso.
— Confiança e crédito.