Capítulo 368
— Quem é esse pirralho com cara de atrevido?
Assim que viu o Leon, que eu tinha trazido comigo, o Victor fez uma careta escancarada.
Diante daquela atitude do Victor, o Leon manteve a expressão neutra, parado ao meu lado.
…Será que ele chama qualquer pessoa que não gosta de "pirralho"? Acho que o mais pirralho aqui é justamente o Victor.
— É o garoto que eu disse que ia trazer.
— Ele não é daqui do reino?
— Como o senhor bem sabe, eu também não sou.
O Victor deu um pequeno estalo de língua e acrescentou, "então, fora eu, é tudo gente deslocada".
O príncipe do reino de Lavarre, um assassino do reino de Melvin, e uma senhorita exilada do reino de Dulkis.
Que grupo com cara de gente má! Diz que os semelhantes se atraem — é bem isso mesmo. Que desenvolvimento maravilhoso.
Sem querer, meus lábios se abriram num sorriso.
— Vamos nos dar bem, nós, os deslocados.
— Por que você parece tão feliz com isso? Você é mesmo incompreensível.
O Victor demonstrava certo desconforto, mas o Leon mantinha a expressão neutra.
Seguimos em direção ao estábulo.
Que estábulo enorme. Só de olhar pra ele, dá pra sentir o poder econômico deste reino. Realmente digno de ser chamado de grande potência.
Diante da fala do Victor de que qualquer cavalo servia, fiquei um pouco em dúvida sobre qual escolher.
O Victor foi de sempre, o cavalo grande e veloz de costume. O Leon escolheu um cavalo preto que parecia ter bastante resistência física.
…Não precisava escolher um cavalo tão capacitado assim, mas tudo bem.
Pensando nisso, no instante em que eu ia escolher um cavalo branco de porte pequeno, algo preto apareceu na frente do estábulo. Diante daquele rugido feroz, o Victor reagiu com um "o que é isso?".
Na direção do olhar, estava o Rai, nos encarando com dignidade. Diante daquela presença tão majestosa, prendi a respiração sem perceber.
Aquela figura parecia mesmo um rei que dominava todos os outros animais. Entendi, na hora, o motivo de o leão ser chamado de "rei dos animais".
…Será que o Rai sempre foi tão incrível assim?
— Parece que a mestra não vai de cavalo, hein.
O Leon murmurou isso ao meu lado.
— Privilégio de gente baixinha.
Ignorei o comentário do Victor e caminhei em direção ao Rai. Assim que fiquei parada na frente dele, ele abaixou a cabeça devagar.
Aquele gesto parecia dizer que era uma honra pra ele me carregar nas costas.
— O leão está prestando respeito à mestra.
— …Talvez a gente nunca chegue a entender de verdade quem é esse pirralho.
Ouvi as vozes do Leon e do Victor atrás de mim.
— Você vai me levar?
Diante das minhas palavras, ele levantou a cabeça.
Será que ele é tão obediente comigo assim porque canalizei meu poder mágico nele…? Dominar o rei dos animais — até no mundo animal já dá pra dizer que sou uma vilã.
— Obrigada — sussurrei perto da orelha dele, acariciando com carinho aquele pelo bem cuidado.
Desde aquele dia no coliseu, quando vi as memórias dele, sempre pensei que ele tivesse desconfiança e cautela em relação aos humanos por causa disso. Mas o Rai sempre esteve do meu lado, desde aquele dia.
Um leão que, mesmo tendo seu orgulho ferido por humanos, ainda assim me ajuda.
Preciso me tornar uma mulher à altura do Rai, que recuperou sua majestade e nobreza.
Saltei sobre as costas dele. O vento agradável da manhã soprava, balançando levemente meu cabelo. O pano que eu tinha enrolado nos olhos, talvez amarrado frouxo demais, voou pra longe.
Cruzei o olhar com o Victor e o Leon.
— É irritante como ela é uma mulher forte e cheia de orgulho.
— Não vai se apaixonar pela beleza da minha mestra, viu.
— …Não tem como eu me apaixonar por um pirralho desses.
O Victor respondeu isso com a voz um pouco fraca, diante das palavras do Leon.
Talvez, no fim das contas, esses dois combinem bem mais do que eu imaginava.