Capítulo 45
Ao chegar na casa do vovô Will, Jill estava num canto do quarto.
Parecia que ele já não estava mais sofrendo. Suspirei aliviada.
— Por que você está aí nesse canto?
Ao falar com ele, Jill se virou devagar na minha direção.
Cabelo castanho-escuro desgrenhado e olhos cinza. Olhos cinza bonitos, mas turvos e sombrios. Parecia estar mergulhado no desespero.
— Eu sou a Alicia.
Mesmo dizendo isso pra ele, nenhuma reação. Só ficava me olhando fixamente.
O que será que houve? Será fase de rebeldia? Será que rebeldia chega já aos seis anos?
— Ele fechou o coração.
— Nem com o vovô Will?
— Não, comigo não é assim, mas…
Então, custe o que custar, vou fazer com que ele abra o coração pra mim. Uma vilã não pode ser inferior a ninguém.
— O Jill tem medo das pessoas.
O vovô Will disse isso.
Bem óbvio, né — depois de passar por uma experiência dessas, seria estranho não ter medo das pessoas. Foi espancado, e todo mundo fingiu que não viu… todos são fracos. Só gente sem confiança em si mesma maltrata os mais fracos. Uma vilã de verdade nunca faria isso.
— Se for a Alicia, com certeza consegue abrir o coração do Jill.
Não tinha nenhuma base concreta, mas as palavras do vovô Will me davam confiança.
Mas, falando em abrir o coração, eu não sei dizer palavras de santa, e odeio frases bonitinhas. Que problema.
Numa hora dessas, a Liz-san conseguiria ficar amiga do Jill num instante.
…espera, se a Liz-san consegue num instante, eu também preciso conseguir num instante! Se eu for inferior a ela nisso, não vou conseguir atormentá-la depois.
Bati nas duas bochechas pra me concentrar. Vou dar uma bronca bem ao estilo de vilã.
— Ei, Jill. Medo das pessoas, é? Não me faça rir. Então por que você não morreu?
Jill ficou me encarando fixamente.
— Se você tem tanto medo das pessoas que não consegue se relacionar, não teria sido melhor ter morrido? O mundo em que você vai viver daqui pra frente está cheio de gente. Pretende ficar nesse canto de quarto pro resto da vida?
Fique bravo comigo. Eu preferia que você não me olhasse com esses olhos sem emoção nenhuma.
— Você podia muito bem ter morrido daquele jeito, não podia? Com uma febre tão alta, sangrando da cabeça… a menos que você quisesse viver, você teria morrido do jeito que estava, não é? É verdade que eu que te dei o remédio. Trouxe o remédio só pela minha própria satisfação pessoal. Mas você também tinha a opção de não engolir aquela água com o remédio, não tinha?
Jill me lançou um olhar feio, de leve.
Como eu pensava, talvez eu seja mesmo um gênio em irritar as pessoas.
— Mesmo tendo conseguido continuar vivo, você vai continuar fugindo do que te dá medo? Foi você mesmo quem escolheu essa escolha, não foi?
— Não é isso…
Jill moveu a boca de leve.
Consegui! Ele finalmente falou. Queria mostrar esse momento pra Liz-san.
— Não é isso? Não parece, pelo visto.
— O que você entende disso? Vocês, nobres…
Jill disse isso me encarando com uma expressão furiosa.
— Absolutamente nada mesmo. Afinal, o mundo em que eu vivi é completamente diferente do seu.
Falei isso fazendo de propósito uma cara de deboche.
Jill me lançou um olhar que parecia prestes a me matar.
— Mas eu fui quem te salvou. Eu também tenho responsabilidade nisso.
— Hã?
— Talvez eu tenha te mantido vivo mesmo você não querendo viver — então, se você quer morrer, eu mesma te mato.
Abri bem os olhos e encarei Jill.