Capítulo 46
A expressão de Jill se misturou com um pouco de medo.
Queria que alguém estivesse filmando isso agora… se desse pra transmitir um vídeo, eu poderia mostrar pro mundo inteiro meu desempenho de vilã.
Soltei um suspiro baixinho.
— Mas, se você quiser viver, eu vou fazer de tudo pra te manter vivo. Se você pedir ajuda, eu vou correndo. E, enquanto você não desistir de viver, eu vou continuar te apoiando. Mas não fique se aproveitando disso. Enquanto você estiver vivo, vai ter que encarar as pessoas. Quem vai lutar não sou eu. É o Jill quem precisa lutar.
— Você não tem como entender o que eu sinto.
Dava pra ver os olhos de Jill ficando um pouco vermelhos.
— Como eu já disse, eu realmente não entendo nada do que você sente. Afinal, eu sou privilegiada.
— Então não fica falando essas coisas por conta própria!
Não sei se de raiva ou de frustração, mas os olhos de Jill se enchiam de lágrimas.
— Ei, você é inteligente, não é?
— Hã?
— Eu acho que quem tem capacidade deveria estar no topo.
— Mas vocês, os nobres, já estão lá em cima. Não tem como eu chegar nesse lugar.
Será que ele estava mesmo ouvindo o que eu disse? Uma raiva foi subindo dentro de mim.
— Ei, Jill, no fim das contas, você quer viver ou quer morrer?
Diante da minha pergunta, Jill ficou em silêncio.
— Responda.
Encarei Jill com um olhar que exercia pressão. Era o olhar feio que eu treinava todo dia na frente do espelho, pensando em virar uma vilã.
— Claro que eu não quero morrer. Mas como é que eu saio desse lugar pro mundo lá fora? Não importa o quanto eu fique mais inteligente que os outros, não tem como eu sair desse vilarejo.
Lágrimas transbordaram dos olhos de Jill.
— Você tem asas grandes, não tem? Então você pode voar a qualquer momento. Do que você tem medo?
— Se eu voar, com certeza vão me derrubar.
Jill disse isso com um sorriso de escárnio.
— Eu já disse que vou te ajudar, não disse? Se você quiser ir pra um lugar cheio de luz, eu vou, custe a minha própria vida, te colocar num palco iluminado! Vou te levar de um jeito que ninguém consiga quebrar essas suas grandes asas!
Acabei levantando a voz.
Aquilo não foi nada digno de vilã. Até agora eu tinha conseguido falar com calma.
Jill me olhava de olhos arregalados. Lágrimas grossas escorriam como uma cachoeira dos olhos dele.
— Por que… você vai tão longe assim?
— Eu já disse, não disse? Eu tenho a responsabilidade de ter te mantido vivo.
Ao dizer isso, foi a primeira vez que Jill sorriu pra mim.
Ora, sorrindo ele é surpreendentemente fofo.
Será que isso significa que ele já abriu o coração? Eu venci essa batalha.
O ponto de vilã aqui foi nunca dizer que estava ajudando por misericórdia.