Capítulo 47
Talvez de tanto chorar, Jill acabou dormindo.
— Alicia, obrigado.
Dizendo isso, o vovô Will afagou minha cabeça, como sempre.
Ora, eu não fiz nada que merecesse agradecimento.
— Eu só disse coisas horríveis.
— Mas eram a verdade.
— Acho que alguém como uma santa nunca diria coisas daquelas.
Ao dizer isso, o vovô Will riu, enrugando os cantos dos olhos.
— Acho que, se fossem palavras de alguém como uma santa, não teriam alcançado o Jill.
Então será que eu ganhei até da Liz-san nisso?
…que bobagem pensar assim, sem nem ter havido competição nenhuma.
— Ah! Por falar nisso, eu já consigo usar a magia de limpar coisas sujas.
O vovô Will travou.
Mesmo sem os olhos, dava pra perceber que ele estava surpreso.
Será que foi falta de educação, afinal, dizer que já consigo usar magia na frente de alguém que não pode usar? Mas o vovô Will não é do tipo que ficaria bravo por uma coisa dessas…
— Alicia, quantos anos você tem agora mesmo?
— Dez anos.
Por que ele foi perguntar minha idade assim, do nada?
O vovô Will pôs a mão no queixo, com uma expressão complicada. O que será que houve?
— Vovô Will? Aconteceu alguma coisa?
— Ah, não, nada. Ah é, Alicia, será que você pode fazer essa magia agora?
— Entendido. Onde eu faço?
— Consegue limpar o quarto inteiro?
— Vou tentar.
Imaginei o quarto ficando limpo até o último cantinho.
Eu sempre imagino de olhos fechados, mas será que dá pra fazer de olhos abertos também? Sinceramente, eu fechava os olhos porque tinha medo de falhar. Mas eu também queria ver com meus próprios olhos o momento de lançar a magia.
Estalei os dedos de olhos abertos.
Imaginei o quarto inteiro sem nenhuma sujeira, sem nenhuma poeira. Então, aos poucos, o quarto foi se envolvendo em algo parecido com uma aurora reluzente.
Que lindo. Brilhando, reluzindo, maravilhoso… Aquela coisa parecida com aurora foi se espalhando pela cadeira, pela mesa, pela cama. E foi desaparecendo devagar. Eu consigo fazer uma coisa dessas…
Fiquei surpresa com o que eu mesma tinha feito. Acho que posso me gabar um pouco disso, né?
Irreconhecível. Parece mentira que era o mesmo quarto de antes. A janela amarelada e suja, o teto cheio de poeira, o chão que dava pena de olhar — tudo impecável agora.
Só de limpar o quarto, o ar muda tanto assim. Parecia que o ar pesado tinha virado um ar fresco.
— O ar está limpo. O que era pesado e escuro ficou leve e claro. Impressionante.
O vovô Will disse isso e me elogiou.
Ser elogiada pelo vovô Will me deixa realmente feliz.
Acho que hoje vou ter bons sonhos.