Capítulo 494
Esse é o dia em que o tio Will recuperou a visão…
"Inacreditável. Nunca pensei que fosse voltar a enxergar de novo… Minha visão voltou… Que milagre… Consegui me lembrar, de novo, de que este mundo é lindo assim. Naquela época, quando eu já tinha perdido o sentido de viver, o próprio motivo de existir, o Albert me disse pra continuar vivendo. …Albert, é a sua neta. A sua neta, Alicia, me deu o mundo de volta mais uma vez. Obrigado. Muito obrigado mesmo."
Sou eu quem deveria agradecer.
Dava pra sentir, mesmo através do papel, o quanto o tio Will era grato a mim.
Doar meu próprio olho pra ele foi só um ato egoísta meu. Nunca imaginei que fosse receber tanta gratidão assim por isso…
…E olha que eu deveria ser uma vilã.
Enxugando as lágrimas que não paravam de escorrer, continuei virando as páginas.
"Achei que já tinha cumprido totalmente minha missão nesta vida. …Vou viver o resto da minha vida pela Alicia."
"Apareceram os primeiros sintomas da doença das manchas. Ainda em estágio inicial. Consigo esconder isso por um tempo."
"Vou tomar a frente pra libertar o vilarejo de Roana. E, mais uma vez, quero conversar com o Luke. …Nunca teria pensado nisso, se não fosse por ter conhecido a Alicia. Achava que ia terminar minha vida dentro deste vilarejo."
"É preciso libertar o vilarejo de Roana com muito cuidado, ou a cidade vai cair no caos. Garantir a segurança precisa ser a prioridade máxima."
"Os verdadeiros criminosos já estão, originalmente, isolados dentro do vilarejo de Roana. Na hora da libertação, precisamos transferi-los pra outro lugar. Mais do que tudo, precisamos evitar que a segurança da cidade se deteriore…"
"Encontrei o Luke. O atrito entre nós desapareceu. Ele continua sendo, até hoje, meu irmãozinho querido."
"Não estou me sentindo muito bem. A doença das manchas está corroendo meu corpo aos poucos."
A libertação do vilarejo de Roana, o desenvolvimento da doença, o reencontro com Sua Majestade — todos os acontecimentos recentes estavam resumidos ali, no diário.
E, é claro, também estava registrado o meu exílio pro reino de Lavarre. O tio Will se preocupava demais comigo, mas, ao mesmo tempo, também confiava em mim.
Ele acreditava, do fundo do coração, que a Alicia ficaria bem.
Ele sabia que eu tinha a capacidade de sobreviver mesmo numa terra desconhecida. …Ser confiada assim por alguém é mesmo uma felicidade rara.
Fui chegando perto do final do diário.
A letra do tio Will foi ficando cada vez mais fraca, mais fina. Ele já deve ter perdido até a força muscular pra segurar a caneta.
A doença das manchas avançava sem piedade nenhuma sobre o corpo dele.
Ele tinha uma avaliação altíssima do Jill.
"Aquele garoto é realmente incrível. Tenho muito orgulho dele."
A letra estava fina e desalinhada, mas dava pra ler perfeitamente essas palavras.
Dava pra sentir tanto a surpresa quanto o profundo respeito dele pelo Jill, por ter criado o remédio contra a doença das manchas. E, ao mesmo tempo, também dava pra sentir a tristeza dele por ter que deixar o Jill sozinho neste mundo…
"Depois que fiquei incapaz de me mover, minha madrasta veio até o meu quarto."
Um arrepio percorreu minha espinha diante daquela frase.
Não sei por quê, mas toda vez que a Julie-sama aparece, meu coração dá um salto de sobressalto.
"’Que patético’, foi só isso que minha madrasta disse, me observando de cima enquanto eu estava deitado na cama. …Achei que ela tinha envelhecido. As palavras dela já não me machucam mais, a essa altura. Fiquei até com pena dela, vindo escondida, sem o Luke por perto, só pra ver meu estado e dizer apenas isso. A madrasta que eu conhecia era uma mulher bonita e sedutora. Mas, agora, ela envelheceu bastante."
É claro, afinal, a Julie-sama é avó do Duke-sama.
Não seria estranho se ela não tivesse envelhecido. Pelo contrário, é impressionante que ela ainda tenha deixado uma impressão tão forte assim em todos nós.
…Mesmo sem nunca termos nos encontrado, ela transborda essa presença de "mandante nos bastidores".
"’Há quanto tempo’, respondi eu, e ela me lançou um olhar de reprovação, dizendo ‘melhor você não tivesse voltado’. Provavelmente ela nunca gostou do fato de que meu pai amou minha mãe até o fim da vida dele. Eu me parecia com a minha mãe. O ciúme de uma mulher é assustador."
O tio Will falando sobre ciúme feminino… isso soa até meio inédito.
Aliás, será que o tio Will passou a vida inteira sem viver nenhum romance, até morrer?
Uma vida sem romance… talvez uma vida assim não seja de todo ruim.