Capítulo 495
"Ela me encarou com um olhar duro e perguntou se aquele olho era da senhorita Alicia. Nunca imaginei que o nome da Alicia fosse sair da boca da minha madrasta. Sinceramente, fiquei surpreso, mas, tratando-se dela, ela provavelmente já investigou tudo sobre a Alicia."
Nunca nos encontramos, mas cada uma conhece a existência da outra.
…Pelo contrário, no caso da Julie-sama, talvez ela tenha estado me vigiando de algum lugar, escondida, na época em que visitei o palácio real.
Que sensação mais estranha, essa.
"’Então eu estou enxergando de verdade’, suspirou ela. Ainda não consigo compreender o que se passa na cabeça da minha madrasta. …Deixei preparado, nesta página, um jeito de mostrar essa lembrança a quem quer que a leia. Usei um resquício do poder mágico que ainda reside no olho da Alicia. É muito pouco, mas dá pra lançar uma magia desse porte. Toque nesta página e recite, na língua antiga, a palavra ‘desperte’."
…Então o tio Will já esperava que alguém fosse ler esse diário um dia.
Repeti, exatamente como estava escrito no diário, a palavra "desperte" na língua antiga do reino de Dulkis.
Nesse instante, a memória do tio Will invadiu minha mente. Era como se eu estivesse dentro do próprio corpo do tio Will, vendo tudo através do olhar dele.
Uma magia com uma quantidade tão pequena de poder mágico usada… Normalmente, magias de mostrar memórias costumam ser feitas de um jeito que permite ver a cena de fora, como observador. Mas essa é uma memória totalmente subjetiva, vista de dentro.
Não, mas, pensando bem, o simples fato de ele ter conseguido gravar uma magia dessas usando só o resquício de poder mágico que restou no meu olho já é, por si só, uma prova impressionante da grandeza do tio Will. Eu já sabia que ele não era uma pessoa comum, mas mesmo assim…
"Não morreu, ou não conseguiu morrer? Qual dos dois?"
Fiquei impressionada com aquela presença imponente da Julie-sama, que eu via pela primeira vez. Mesmo sendo uma concubina, ela emanava um ar quase de rainha.
Ela era muito mais velha do que eu imaginava. …Dava pra imaginar que ela tinha sido bonita no passado. Mas, agora, ela era uma mulher idosa.
Bem vestida, elegante, com dignidade. Mas as costas dela estavam levemente curvadas, e havia rugas condizentes com a idade. Pela expressão dela, dava pra ver que ela tinha passado por muitas dificuldades.
Não conseguia sentir nenhum brilho de leveza vindo dela, nem um pouco.
Ela só ficava ali, olhando de cima pra baixo, pra mim — ou melhor, pro tio Will.
"’Os dois. Não morri, e não consegui morrer.’"
"…Que bom que você está vivo."
A Julie-sama disse isso, com toda a certeza.
Era uma voz baixinha, mas dava pra ouvir claramente. …O que isso quer dizer?
Ela disse "melhor você não tivesse voltado", mas também disse "que bom que você está vivo"? Será que ela muda de humor sem parar desse jeito?
Enquanto eu ainda estava confusa, a memória terminou ali.
— Alicia? Você está bem? Ficou meio distante.
O Jill se inclinou pra olhar meu rosto, preocupado.
…Não estou bem. Sinceramente, meu estado mental foi bastante corroído por esse livro, pra bem ou pra mal.
Aquela última frase da Julie-sama quase fez meu cérebro entrar em curto-circuito. Uma quantidade absurda de informação estava fluindo pra dentro da minha cabeça, além da minha capacidade de processar tudo.
Sério, não consigo entender de jeito nenhum o que se passa na cabeça da Julie-sama.
Mas, naquele instante, a expressão dela realmente parecia de alívio sincero, por saber que o tio Will estava vivo.