Capítulo 528
— Não existe livro nenhum que ensine a lidar com um garoto inteligente, maduro demais pra idade, chamado de "menino gênio". Eu não sei como se torna mãe de uma criança assim. …E, além disso, se alguém que perdeu o poder mágico virasse rei, haveria revolta. Este mundo não é assim, meritocrático, como você imagina.
— …Então a senhora tentou ser mãe do tio Will.
Entre "não conseguir se tornar" mãe e "não se tornar" mãe, existe uma diferença enorme de nuance.
Talvez a Julie-sama seja a pessoa mais desajeitada que já conheci na vida.
Não posso culpá-la por isso. Afinal, quem mais sofre com essa falta de jeito é ela mesma.
— Pra eliminar o veneno, a única forma era arrancar os olhos.
— Mesmo assim, uma acusação falsa?
— Sim. Sou uma mulher perversa e péssima, não sou?
— Não… Já que a senhora manteve o tio Will vivo, sou grata a ela por isso.
Diante das minhas palavras, a Julie-sama deu uma risada leve. Ela devia querer dizer que minha gratidão era desnecessária.
— Que tola. Pra ele, aquilo foi só o começo de um caminho ainda mais doloroso do que o próprio inferno.
Ela soltou um suspiro pequeno e começou a falar.
— Pessoas capazes de usar magia venenosa são raríssimas. …Eu não estava numa posição em que pudesse simplesmente dizer que Seeker Will tinha veneno e arrancar os olhos dele. Todo mundo, sem exceção, teria concluído que "a rainha quis armar contra o primeiro príncipe". Se, de qualquer jeito, eu já ia virar uma louca aos olhos de todos, então não tinha outra saída a não ser assumir esse papel de louca até o fim, sem hesitar.
Ah, finalmente entendi tudo.
A Julie-sama entendia, mais do que qualquer outra pessoa, a própria posição e a posição do tio Will. Foi justamente por isso que escolheu o caminho em que ele teria mais chances de sobreviver.
Viver dentro do palácio real, cegado, recebendo olhares de pena o tempo todo, seria um sofrimento imenso pro tio Will. Ele já tinha experimentado o suficiente aquele tipo de tratamento cuidadoso demais, quase de quem lida com algo perigoso, no momento em que perdeu o poder mágico.
Foi justamente por isso que a Julie-sama escolheu ser odiada.
— Porque um desejo de vingança se torna combustível pra continuar vivendo.
— Exatamente. Ele podia me odiar pelo resto da vida. Podia desejar minha morte. Mesmo assim, eu queria, mais do que tudo, que ele — o Will — continuasse vivo.
Foi por isso que ela armou aquele plano absurdo de "assassinato do rei" pra incriminá-lo e o transferiu pro vilarejo de Roana.
Ela deve ter tido certeza absoluta de que, mesmo exilando meus avôs pro reino de Lavarre, eles jamais morreriam por lá. Por isso, escolheu um caminho que faria parecer que ela estava simplesmente "eliminando incômodos" de uma vez só.
Ela assumiu, por vontade própria, o papel da pessoa mais odiada de todo o reino.
Tio Will, a mulher que o jogou no inferno também estava, naquele exato mesmo instante, provando o próprio inferno.
Não vou pedir que o senhor perdoe a Julie-sama, mas só queria que, um pouco que fosse, o senhor sentisse um pouco de alívio.
— Eu não consegui deixar, de forma bonita, nenhuma prova de que o Will viveu de verdade.
— ……………Ela existe, sim.
Respondi isso, calmamente.
— O sentimento da Julie-sama pelo tio Will é bonito. Não importa o que os outros digam, esse sentimento seu é, sim, algo puro, sem nenhuma mancha.
Talvez eu esteja só dizendo coisas bonitas demais, mas tudo bem, mesmo assim.
Foi isso que eu pensei, do fundo do coração… Eu queria libertar a Julie-sama, que sofreu sozinha, sem que ninguém soubesse, esse tempo todo.
E tenho certeza de que o tio Will também deseja isso.
— Sempre achei que essa foi a decisão mais tola que já tomei em toda a minha vida… …Mas você me fez pensar, mesmo que um pouco, que talvez não tenha sido assim.
Através do vidro da janela, vi uma lágrima escorrendo devagar pela bochecha da Julie-sama.