Capítulo 589
— O vilão de verdade é aquele que, não importa quanto ódio eu demonstre, continua fingindo um rosto gentil, tentando se aproximar. Ele nunca faria algo como apontar um fragmento de faca pra mim, do jeito que você fez.
— De novo com "você".
Diante do meu leve olhar de reprovação, o Rigal se corrigiu, murmurando baixinho: "Alicia".
Muito bem, pensei, sorrindo.
— Sem estar fazendo nenhuma tentativa de agradar você, por que quer tanto assim me expulsar daqui?
— Mesmo sabendo que você não é má, gente de fora não é bem-vinda nesta vila.
— Que capacidade de gestão de risco tão alta, hein.
…Essa floresta é praticamente um reino fechado ao exterior.
Faz até sentido rejeitar quem vem de fora. …Mas eu sou uma convidada da Kushana, sabia?
Por isso, não vou embora, de jeito nenhum. …E, mesmo que eu não fosse convidada dela, se eu decidi vir até aqui por vontade própria, vou ficar, custe o que custar.
— Se você entendeu, vá embora logo.
— Não quero.
Respondi na hora.
Eu sou mesmo uma pessoa difícil de convencer, hein.
— Afinal, não tem jeito, sou eu mesmo quem tem que fazer isso… pela vila, pela rainha.
Dizendo isso, ele agarrou com força um fragmento de faca que estava caído no chão e o cravou em direção ao meu rosto.
Diante daquele ataque repentino, minha reação foi um pouco atrasada. Consegui desviar do ataque principal do Rigal, mas um corte se abriu na minha bochecha.
…Um ferimento superficial, mas dói de um jeito bem incômodo.
Pensando nisso, fiquei encarando o Rigal. Diante daquela expressão tão intensa e desesperada, não pude evitar um sobressalto.
De onde vem essa convicção dele, afinal? Será que os forasteiros que visitaram este lugar antes eram assim tão cruéis e frios?
Sangue escorria do punho do Rigal, que segurava o fragmento da faca com força. Sangrava bem mais do que o corte na minha bochecha.
…Talvez, tomado pela excitação, ele nem sinta mais a dor.
Ele voltou a se firmar e atacou de novo, avançando com a faca em minha direção. O som da velocidade daquele golpe ecoou pelo ar. …Fiquei surpresa de ver que ele ainda tinha capacidade de fazer um movimento tão rápido quanto esse.
Achei que ele tivesse desistido no momento em que a faca foi quebrada pela minha magia…
Não pude evitar deixar escapar um pequeno riso.
Não desgosto de gente teimosa que não desiste fácil. Vou enfrentá-lo com toda a seriedade, então.
Desviei ágil daquele ataque dele, peguei um pedaço de madeira que estava por perto e o transformei numa espada com magia.
Antigamente, também transformei um galho pequeno numa faca durante a luta com a Kushana. …Já é até uma lembrança nostálgica.
Uma voz ameaçadora ecoou pela floresta.
— Não desvie o olhar!!
Num instante, contornei atrás dele e encostei a ponta da espada levemente no pescoço dele.
— Combate encerrado.
Eu queria lutar mais um pouco, mas a diferença entre um fragmento de faca e uma espada de verdade é absurda. E, além disso, não tenho tanto tempo assim sobrando.
— Ainda não.
Como se tivesse percebido meu leve momento de relaxamento, ele se virou de repente na minha direção, abaixou o corpo e avançou pra cima de mim.
Não pode ser, murmurei baixinho, e recebi o ataque dele em cheio.