Capítulo 70
A expressão de Rebecca passou de surpresa para um pouco de medo.
— Recompensa?
Balancei a cabeça de leve, confirmando.
Eu salvei a vida dela, então é natural que precise de uma recompensa à altura. Do Jill, recebi como recompensa o fato de ele compartilhar a inteligência dele comigo.
Pela forma como Rebecca falou um pouco, dava pra perceber que ela era boa em entender as coisas. Olhos castanho-claros, cabelo prateado, rosto bem-feito com um ar de inteligência, corpo esquelético, nível de desnutrição.
Deve ter uns quinze anos…
— Quantos anos você tem, Rebecca?
— Quinze.
Como eu pensava, quinze anos. Realmente tenho um bom olho pra julgar as pessoas, não é?
E, além disso, ela tem bastante resistência à dor. Mesmo com a dor forte na perna ainda presente, ela quase não deixava transparecer no rosto. Antes, parecia que ela só tinha entrado mesmo em pânico. O tanto de suor na testa mostrava que ela estava aguentando bastante dor.
— A partir de agora, responda com sinceridade às minhas perguntas.
Falei isso pra Rebecca de propósito, num tom que exercia pressão. Rebecca balançou a cabeça em silêncio, concordando.
— Por que você pediu ajuda a mim?
Talvez não esperasse essa pergunta, Rebecca travou. Ela poderia ter pedido ajuda a qualquer um deitado por ali, mas escolheu pedir ajuda a mim.
Rebecca olhou diretamente nos meus olhos.
— Você tinha um cheiro bom. Um cheiro que nunca existiria neste vilarejo. Foi minha suposição de que você provavelmente era alguém de posição alta.
— Não pensou que poderia ser morta por agarrar a perna de alguém de posição alta?
— Não acho que alguém que faria isso viria de propósito até um lugar desses.
Rebecca disse isso franzindo o rosto.
Ou seja, ela desenvolveu a capacidade de fazer escolhas inteligentes pra sobreviver.
…pensando bem, eu criei uma barreira, mas ninguém gritou alto — o que será que todo mundo está fazendo?
Olhei ao redor de repente.
Algumas pessoas me encaravam feio, gritando alguma coisa… ah é, essa barreira era à prova de som. Algumas me olhavam com inveja, outras me olhavam pasmadas. Mas a maioria olhava pra mim com olhos de esperança, como se eu fosse uma salvadora.
…não pode ser.
Isso é um problema. O que eu faço. Eu sou uma vilã. Salvadora é papel de santa. Se o título de "salvadora deste vilarejo" grudar em mim, estou desqualificada como vilã.
Preciso evitar isso a todo custo.
— Alicia?
Jill espiou meu rosto de perto.
Afaguei a cabeça de Jill de leve e, depois, segurei com as duas mãos o peito da roupa esfarrapada de Rebecca, aproximando o rosto dela do meu.
Percebi as pupilas de Rebecca se dilatando. Aproximando tanto o rosto assim, dá pra perceber bem o movimento das pupilas das pessoas. Era uma situação parecida com os segundos antes de um beijo.
— Rebecca, torne-se a salvadora deste vilarejo. Essa é a recompensa.