Capítulo 69
— Minha perna sumiu!! Devolve! Minha perna!
O que essa mulher está dizendo, afinal?
Ela se debatia, gemendo. Jill a segurava com o corpo todo.
— Dói, dói, dói, dói, dói.
Ah, francamente, que barulheira.
— Você é boba?
Ao dizer isso, ela me olhou, com lágrimas escorrendo aos montes. Parecia que ela ainda não tinha entendido o que eu tinha dito.
— Eu tirei sua perna, mas não tirei seu cérebro.
A mulher travou, olhando pra mim.
Será que já não precisa mais gemer? Realmente, será que, quando dizem algo chocante pra alguém, essa pessoa esquece até da dor?
Jill afrouxou as mãos que a seguravam.
— Ora, já não precisa gritar mais? Não dói?
Falei isso com um leve sorriso, virada pra ela.
— Claro que dói. Dói sim. Minha perna sumiu, sabia?
Por ora, será que ela conseguiu sair do pânico? Se acalmar é tão importante assim mesmo.
— Roubar minha perna…
Ela disse isso olhando pra própria perna.
…então é isso. Ela não é boba — só não sabe o que acontece se deixarem a parte necrosada do jeito que está. Afinal, no vilarejo da pobreza, ninguém recebe educação decente. Por isso, mesmo adoecendo, não sabem como se tratar. O vírus vai se espalhando cada vez mais, e a situação vai piorando.
— Ei, qual é seu nome? Eu sou Alicia.
— …Rebecca.
Ela respondeu com uma expressão de sofrimento.
— Rebecca, se sua perna não tivesse sido amputada, você poderia ter morrido.
— Hã? …morrido?
— Sua perna estava necrosada… as células já estavam mortas. A velocidade de progressão varia de pessoa pra pessoa, então não dá pra generalizar, mas, se deixasse do jeito que estava, a parte necrosada se espalharia, e você poderia ter morrido.
Parece que ela entendeu na hora o que eu tinha dito.
…ela é inteligente.
— Minha pele…
Ela viu o próprio reflexo na água da fonte.
Ah é, eu tinha deixado a pele dela bonita também. Não estou fazendo bastante por ela, afinal?
— Obri…
— Não precisa me agradecer, viu?
Ela me olhou de olhos arregalados. Jill também estava ao lado, olhando pra mim de olhos arregalados.
Seria um problema se me confundissem com uma pessoa boa. Uma vilã age em prol do próprio benefício. Preciso receber algo em troca.
— Eu nunca ajudaria alguém só por pura bondade.
Até a Santa, com certeza, nunca ajuda alguém só por pura bondade. Ser vista como uma boa pessoa pelos outros já é a recompensa em si. Existe sempre o desejo de ser, de se tornar, uma boa pessoa, uma pessoa gentil.
E, se receberem algo ruim em troca, com certeza vão pensar, em algum canto do coração: "eu fiz tanto por você, fui tão gentil, e olha o que recebo". Se a recompensa não é paga, esse sentimento surge. Mesmo que, talvez, aquilo tenha sido um favor indesejado.
A heroína sempre diz "vou ser amiga dela porque ela não tem amigos", mas talvez aquela pessoa goste de ficar sozinha. Eu sou do tipo que acha que, no fundo, todo ser humano é hipócrita. E a única diferença é se escondem isso na sociedade ou se expõem abertamente. Só isso.
— Rebecca, você vai ter que me pagar uma recompensa.