Capítulo 95
Se a Alicia tivesse sido esfaqueada, como eu conseguiria viver dali em diante?
Diante daquele sangue vermelho vívido, meu corpo tremeu.
Ergui os olhos, com medo, na direção da Alicia.
…Azul.
O que entrou no meu campo de visão foi um cabelo de um azul profundo e bonito.
Pele bronzeada e olhos azuis translúcidos. Aqueles olhos estavam cheios de intenção assassina.
Nunca tinha visto essa expressão nele.
— …Duke.
Murmurei isso numa voz que ninguém conseguiria ouvir.
A faca do homem estava cravada na mão esquerda do Duke.
Ou melhor, tinha atravessado por completo.
Então o sangue que estava caindo bem na minha frente era do Duke.
Alicia arregalou os olhos, olhando pro Duke.
Como ele apareceu aqui de repente… magia de teletransporte?
Então o que ele estava fazendo até agora?
Não aparecer até o momento em que a mulher que ama está prestes a morrer…
Um príncipe assim só serve pra existir dentro de histórias.
Pensei isso enquanto encarava o Duke.
…Hã?
A dor no meu corpo foi aos poucos desaparecendo.
De repente, meu corpo foi envolto por algo negro e brilhante.
Magia de cura?
Lancei um olhar rápido pra trás.
— Sinto muito de verdade por ter demorado.
Um par de olhos roxos profundos me olhava com preocupação.
— V-Você é…
Ouvi a voz trêmula do homem.
Olhei na direção da Alicia e do Duke.
O homem recuava, o corpo tremendo descontroladamente.
Duke sacou com a mão direita a espada que carregava no lado esquerdo da cintura e, sem hesitar, cravou-a no coração do homem.
O olhar que o Duke lançava pro homem era frio a ponto de congelar.
— Eu que queria matar ele.
Essa foi a primeira coisa que a Alicia disse.
Disse isso fazendo bico. Parece que a Alicia já conseguia se mexer de novo.
Ao lado, Duke olhava para os ferimentos da Alicia, franzindo a testa.
E então, devagar, algo azul e brilhante começou a envolver a Alicia.
Comparado com a Alicia, o do Duke,
brilhava mais até do que o do Henry. Será que é porque ele é príncipe mesmo?
…Que bonito. A magia, quero dizer.
No mesmo instante em que curava a Alicia, Duke ergueu uma parede ao redor da cabana.
Alicia chamou isso de "parede", mas isso não é mais uma barreira mágica…?
Mesmo assim, por que será que ele ergueu uma parede?
— Por que… uma parede?
Alicia murmurou, arregalando os olhos.
Parece que ela falou exatamente o que eu estava pensando.
— Pra ninguém de fora atrapalhar.
Duke disse isso com uma voz extremamente fria.
Atrapalhar… então eles não são aliados.
Tentei erguer o corpo pela metade, mas não conseguia reunir força direito.
Henry percebeu isso na hora e me ajudou a erguer o corpo, me apoiando.
E então, devagar, abriu a boca.
— O Jill e a Alicia desapareceram de repente durante o intervalo do almoço, e a gente ficou um bom tempo procurando por vocês dois pela academia inteira. Mas vocês não estavam em lugar nenhum, e não tinha nem uma única pista.
— Mesmo assim, como vocês descobriram esse lugar?
Henry deu um sorriso amargo diante da minha pergunta.
— Na noite em que vocês dois desapareceram, o Duke capturou o empregador desses três.
— Hã?
Minha voz e a da Alicia se sobrepuseram.
Encontrar o empregador logo naquela mesma noite…
A gente só foi sequestrado há dois dias… isso sim é rápido.
— Ei, esse empregador ainda está vivo, né? O empregador eu mato.
Alicia disse isso com um tom sério.
…Ela quer tanto assim matar o empregador?
Alicia ergueu uma sobrancelha e olhou pro Henry, como quem investiga.
Dava pra ver que o rosto do Henry se contraiu um pouco.
— O que eu vi já era o empregador morto.
Meu corpo inteiro estremeceu.
Alicia também arregalou os olhos.
— Foi depois de já ter arrancado todas as informações dele.
…Entendi. Duke não é nenhum príncipe de história de conto de fadas.
— Como a família do empregador era nobre, deve ter levado tempo pra destruir a casa inteira, é isso?
Assim que eu disse isso, Duke e Henry arregalaram bastante os olhos.
— E aí, mandaram esses outros pra cá, mas só incompetentes. Ainda por cima, tentaram matar a Alicia.
Disse isso com um tom de desprezo em relação aos que estavam fora da cabana.
— Provavelmente não é bem assim. Quem mandou eles pra cá deve ter sido Sua Majestade, o rei. Não é mesmo?
Alicia disse isso como quem tinha compreendido algo. Parecia até um pouco feliz.
Henry assentiu com uma expressão severa.
— Como assim?
— Eu não passo de um peão descartável. Por isso, foi a oportunidade perfeita pra medir o poder da santa.
Duvidei dos meus próprios ouvidos com as palavras da Alicia.
Será possível que o rei faria uma coisa dessas?
— Quem vai salvar o mundo não sou eu, Jill. É a santa. Não importa quantos planos inteligentes eu apresente, não tem sentido nenhum.
Alicia tinha uma expressão satisfeita no rosto.
…Ela deve estar pensando, no fundo: "isso sim é coisa de vilã".
— É verdade que destruímos a casa deles, mas quem mandou a santa pra cá foi Sua Majestade, o rei.
Henry disse isso com uma voz baixa e serena.
Dava pra sentir uma intenção assassina tremenda vindo dos olhos do Duke.
Guardei pra mim a pergunta de se ninguém tinha se oposto só porque era ordem do rei.
Mesmo assim, pra ser o rei, é burro demais.
— Sinceramente, isso não importa nem um pouco pra mim.
Alicia tinha no rosto uma expressão de quem realmente não se importava nada com aquilo.
Não parecia atuação.
Parece que a Alicia não se incomoda nem um pouco com o fato de ser um peão descartável.
Ou melhor, parece estar bastante satisfeita com a posição em que se encontra agora.
Alicia respirou fundo, discretamente, e voltou os olhos pro Duke.
— Só quero saber uma coisa. …Quem era o empregador?