Capítulo 7
Levei uma bronca do meu irmão por ter invadido a academia sem permissão, mas, já que finalmente consegui conhecer a heroína, estou muitíssimo satisfeita. Ela é uma menina realmente boa, fofa, dá até pra entender por que é tão popular. É exatamente o tipo de "boazinha" de livro de história em quadrinhos — mas, sinceramente… não é o meu tipo.
Hoje vou praticar magia! Fui pra biblioteca desde de manhã. Já todo mundo em casa sabe que eu ando na biblioteca. Foi só um deslize meu contando pra Rosetta, mas parece que a notícia se espalha rapidinho pra todo mundo. Bom, mesmo que descubram, isso não vai deter meu caminho rumo à vilania!
Assim que entrei na biblioteca, ouvi vozes conversando. Ah, será que já tem alguém aqui?
Fui me aproximando devagarinho, abafando os passos, na direção da voz.
— Ela é uma anomalia.
— Mas, no momento, ela vive normalmente.
— Ainda assim, ela é uma pessoa perigosa.
— Não precisa falar assim!
De quem será que estão falando… "Anomalia" — será que é da senhorita Liz!? Ela já virou pessoa perigosa? Essa é a voz do Otou-sama, não é? E a outra voz, quem será… Já ouvi antes, mas não consigo lembrar quem é.
— Foi mal. Vou reformular. A capacidade de pensamento dela é fora do comum.
— Sim.
— O amor pelo país dela também é mais fraco, comparado ao nosso.
— Você está querendo dizer que, se ela virar inimiga, seria um problema sério?
Por que o Otou-sama estaria bravo por causa da senhorita Liz? …Melhor eu não continuar ouvindo escondida. Tentei sair da biblioteca de mansinho, mas, sem querer, fiz um barulho alto — pum!
Ai! …Bati o cotovelo na estante.
— Quem está aí!
Uma voz afiada ecoou pela biblioteca. É natural que fique assim, né. Ah, como eu queria fugir. Mas, se eu fugisse agora, perderia toda a dignidade de vilã. Meu orgulho não permite isso. Saí de trás da estante, revelando minha presença.
O Otou-sama… e o senhor Joan, pai do senhor Gale? Os dois me olharam com expressões desconfiadas. É verdade que a culpa também é minha, por escutar escondida, mas, se era um assunto que realmente não queriam que ninguém ouvisse, eu preferia que não conversassem justamente na biblioteca.
— Boa tarde. Sou a Alicia.
No meio daquele clima constrangedor, cumprimentei como se nada tivesse acontecido.
— Alicia… você ouviu a conversa de agora?
O Otou-sama abriu a boca. Melhor ser sincera, né.
— Sim.
— Vamos apagar a memória dela.
— Como?
Não acreditei no que ouvi das palavras do senhor Joan. O que ele disse agora mesmo? Apagar memória, isso é possível…? Não, com magia, é possível sim. Se ele já dominasse o nível 68, deveria conseguir usar a magia de apagar memórias. Mas isso não é meio injusto? Otou-sama, por favor, não faça essa cara de "não tem jeito mesmo". Eu recuso terminantemente ter minha memória apagada.
— Não vou contar pra ninguém o que ouvi agora.
— Contar pra ninguém…?
— Que a plebeia Kate Liz é uma pessoa perigosa, não vou falar pra ninguém.
Eu já não tinha nenhuma intenção de espalhar isso mesmo. Não quero ser vista como uma mulher de língua solta. Mas por que tanto o Otou-sama quanto o senhor Joan estão com essa cara de confusão?
— Kate Liz…
Ué? Que reação é essa? Será que não era sobre a senhorita Liz mesmo?
— Entendido. Então não vamos apagar sua memória.
— Muito obrigada…?
…Não sei se sou eu quem deveria dizer isso, mas talvez fosse melhor não acreditar tão facilmente assim no que alguém diz. Bom, mas ainda bem que não vão apagar minha memória. Soltei um suspiro de alívio.
— Eu já vou indo. Até mais, Arnold, Alicia.
O senhor Joan disse isso pro Otou-sama e pra mim, e foi embora. O Otou-sama também acariciou de leve minha cabeça e saiu da biblioteca. Com o coração meio pesado, subi as escadas até o segundo andar.
Passei os olhos pelos livros do nível 6 ao 10, praticando cada magia. Sinceramente, foi surpreendentemente fácil, mas travei na magia de "limpar coisas sujas" do nível 10. Afinal, eu precisava limpar a água do vilarejo da pobreza…
Trouxe água suja e lancei o feitiço nela várias vezes. …Não dá. Não limpa nada! O copo fica limpo, mas a água continua turva. Será que estou fazendo algo errado? Reli o livro de magia. Não parece que estou errando o método… por que não funciona?
Folheando distraidamente, meus olhos pararam no nível 25.
"Nível 25 — Magia de purificar água."
Não pode ser. Magia de limpar coisas sujas e magia de purificar água são coisas diferentes? Isso é golpe! Quero que me devolvam o tempo e a energia que gastei até agora.
Nesse caso, será que meus sapatos, que estou usando agora, ficariam limpos?
Olhei pros pés e lancei o mesmo feitiço de antes. …Ficaram reluzentes. Parecem novos.
No fim das contas, tenho que ir dominando as magias uma de cada vez, né. Da próxima vez, não vou subestimar achando que é fácil — vou pesquisar bem antes de praticar. Sorri satisfeita e assenti sozinha.
Naquela noite, quando fui até a casa do senhor Will, encontrei o Jill sentado num canto do quarto. Já consegue se levantar. Suspirei de alívio.
— Por que você está sentado nesse lugar?
Quando falei com ele, o Jill virou o rosto devagar na minha direção. O cabelo dele, castanho-escuro e desgrenhado, e aqueles olhos cinza bonitos estavam turvos e sombrios. Parecia estar mergulhado no desespero.
— Eu sou a Alicia.
Mesmo dizendo isso ao Jill, não obtive nenhuma reação. Ele só ficou olhando fixamente pra mim.
— Ele está com o coração fechado.
— Nem com o senhor Will?
— Não, comigo ele não é assim… Mas o Jill tem medo de pessoas.
O senhor Will disse isso. É natural, né, depois de uma experiência dessas, seria estranho não ter medo dos outros. Foi espancado, e todo mundo fingiu não ver. …Fazer bullying com quem é mais fraco é coisa de gente sem confiança em si mesma. A vilã de verdade nem se interessa pelos outros. Nunca faria uma coisa dessas.
— A Alicia deve conseguir abrir o coração dele.
O que será que o senhor Will está dizendo. Uma vilã como eu, nunca vou conseguir. Não sei dizer palavras de santa nem gosto de discurso bonitinho. Ah, é isso, a senhorita Liz talvez conseguisse ficar amiga do Jill num piscar de olhos.
…Espera, se a senhorita Liz consegue ficar amiga dele num piscar de olhos, eu também preciso conseguir num piscar de olhos! Se eu ficar atrás dela nisso, não vou conseguir implicar direito com ela depois!
Bati de leve nas próprias bochechas, me recompondo. Vou dar uma bronca digna de vilã.
— Ei, Jill. Você tem medo de gente, é isso? Que ridículo. Então por que você não morreu?
O Jill me encarou fixamente.
— Se você tem medo de gente e não consegue se relacionar com ninguém, não teria sido melhor ter morrido? O mundo em que você vai viver daqui pra frente está cheio de gente. Vai ficar encolhido nesse canto de quarto pro resto da vida?
Vamos, fique com raiva de mim. A raiva vira força.
— Você poderia ter morrido ali mesmo, não é? Com uma febre tão alta, sangrando da cabeça… Se você não tivesse a vontade de viver, teria morrido do jeito que estava. É verdade que eu só dei o remédio por puro egoísmo. Mas você também tinha a opção de não beber, não tinha?
O Jill me lançou um olhar irritado. Realmente devo ter algum talento pra deixar as pessoas com raiva.
— Vivo, mas fugindo pra sempre do que te dá medo? Foi você mesmo quem fez essa escolha, não foi?
— Não é isso…
O Jill moveu a boca, num murmúrio baixinho. Consegui! Ele finalmente falou comigo.
— Não é? Não parece isso, não.
— O que você entende, hein… vocês, nobres…
O Jill disse isso me encarando com uma expressão terrível.
— Nadinha! Afinal, a gente vive em mundos completamente diferentes.
Fiz de propósito uma cara de deboche pra dizer isso. O Jill me olhou com olhos que quase pareciam querer me matar ali mesmo.
— Mas eu fui eu quem te salvou. Eu também tenho responsabilidade nisso.
— Hã?
— Talvez o Jill não quisesse viver, e eu tenha feito você viver contra a sua vontade. Então, se você quer morrer, eu mesma te mato.
Encarei o Jill com a expressão mais ameaçadora que consegui. O rosto dele se misturou de medo. Ah, será que alguém não podia estar filmando isso agora… Se eu pudesse transmitir ao vivo, poderia mostrar meu lado vilanesco pro mundo inteiro.
— Mas, se você quiser viver de verdade, eu vou fazer de tudo pra te manter vivo. Se você pedir ajuda, eu vou correndo até você, sem falta; enquanto você não desistir de viver, eu vou continuar te apoiando. Mas não venha se apoiar demais em mim. Enquanto você estiver vivo, vai ter que encarar os outros pelo resto da vida. Quem precisa lutar não sou eu. É você quem precisa lutar, Jill.
— Você não tem ideia nenhuma de como eu me sinto.

Dava pra ver os olhos do Jill ficando cada vez mais vermelhos.
— É verdade, eu não faço a menor ideia de como você se sente. Porque eu tenho todos os privilégios do mundo.
— Então não fale como se soubesse!
Seja de raiva, seja de frustração, as lágrimas foram se acumulando cada vez mais nos olhos do Jill.
— Ei, você é inteligente, não é?
— Hã?
— Eu acho que quem tem capacidade real deveria estar no topo do mundo.
— Vocês, nobres, já estão lá em cima. Não tem como eu chegar nesse lugar.
Será que ele estava mesmo ouvindo o que eu falei? Senti uma raiva subindo. É verdade que dá pra entender a frustração dele com as pessoas deste vilarejo, presas por causa daquela parede de névoa. Já pesquisei sobre a origem do vilarejo da pobreza, e os ancestrais deles eram só gente de posição social baixa que caiu do sistema, ou criminosos foragidos — isso não tem nada a ver com os moradores de hoje.
— Ei, Jill, no fim das contas, você quer viver ou quer morrer?
O Jill ficou em silêncio diante da minha pergunta.
— Responda.
Encarei o Jill como se estivesse aplicando pressão sobre ele. É esse mesmo o olhar que treinei todo dia na frente do espelho pra virar vilã.
— Claro que eu não quero morrer. Mas como que eu vou sair desse lugar pro mundo lá fora? Não importa o quanto eu fique mais inteligente que os outros, eu nem consigo sair desse vilarejo de qualquer jeito.
Finalmente as lágrimas transbordaram dos olhos do Jill.
— Você estava ouvindo? Eu disse que vou te ajudar. Se você quer ir pra um lugar cheio de luz, eu vou te colocar num palco iluminado nem que seja apostando a própria vida! Vou levar você comigo, sem deixar ninguém quebrar essas suas asas grandes!
Acabei gritando sem querer. Isso não foi nada digno de vilã.
Dos olhos do Jill, as lágrimas escorriam como uma cachoeira.
— Por que… por que você faz tanto assim por mim?
— Já falei, eu tenho a responsabilidade de ter feito você viver.
— Que idiotice…
Dizendo isso, o Jill finalmente sorriu pra mim, pela primeira vez. Ah, quando ele sorri, é surpreendentemente fofo. Será que isso significa que ele abriu o coração? Eu venci essa batalha.
A propósito, o ponto vilanesco aqui foi que eu nunca, em nenhum momento, disse que estava ajudando por compaixão.
Talvez exausto de tanto chorar, o Jill acabou adormecendo ali mesmo.
— Alicia, obrigado.
O senhor Will disse isso, acariciando minha cabeça como sempre. Ah, eu não fiz nada que mereça agradecimento.
— Eu só disse coisas horríveis.
— Mas era tudo verdade.
— Alguém como uma santa nunca falaria desse jeito.
Quando eu disse isso, o senhor Will sorriu, formando rugas nos cantos dos olhos.
— Se fossem palavras de alguém como uma santa, acho que não teriam alcançado o Jill.
Será que isso significa que eu venci a senhorita Liz nessa? …Que bobagem pensar assim sem nem ter competido de verdade.
— Ah! É verdade, senhor Will, eu já consigo usar a magia de limpar coisas sujas.
Mesmo sem enxergar, dava pra ver que o senhor Will ficou muito surpreso. Será que foi falta de educação da minha parte contar que já consigo usar magia, na frente de alguém que não consegue usar?
Mas o senhor Will não é do tipo que fica bravo por causa disso…
— Alicia, quantos anos você tem agora?
— Dez anos.
Por que ele está perguntando minha idade de repente? O senhor Will colocou a mão no queixo, com uma expressão pensativa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Ah, não. Alicia, será que você consegue fazer essa magia agora mesmo, pra eu ver?
— Entendido.
— Então, você consegue deixar este quarto inteiro limpo?
— Vou tentar.
Imaginei limpar cada cantinho deste quarto.
Normalmente eu fecho os olhos pra imaginar, mas isso não precisa necessariamente ser de olhos fechados, né? Na verdade, eu sempre fechava os olhos com medo de falhar. Mas, dessa vez, eu queria ver com meus próprios olhos o momento em que estava lançando a magia, então mantive os olhos abertos e estalei os dedos. Aí, o quarto foi se envolvendo aos poucos por algo parecido com uma aurora brilhante. Que lindo. Reluzente, maravilhoso…
A cadeira, a mesa, a cama, tudo foi coberto por aquela espécie de aurora. E, devagar, foi desaparecendo.
Eu consigo fazer uma coisa dessas… Posso me elogiar por isso, não é? Ficou irreconhecível. O quarto de antes parece mentira agora.
A janela amarelada de sujeira, o teto coberto de poeira, o chão que dava dó de olhar — tudo reluzente.
— O ar está limpo. O quarto, que era pesado e escuro, ficou leve e claro. Impressionante.
O senhor Will disse isso, me elogiando. Ser elogiada pelo senhor Will me deixa muito feliz mesmo. Acho que hoje vou ter bons sonhos.
— Senhora Alicia. Estão todos esperando na sala de visitas.
A voz da Rosetta ecoou pela biblioteca. Bem na hora boa. Marquei, meio a contragosto, com um marcador o ponto onde estava lendo.
— Já vou.
— Hoje também tem uma visita feminina.
Uma visita feminina? Não pode ser… a heroína, senhorita Kate Liz!? A senhorita Liz veio até a minha casa? Poder encontrá-la sem nem precisar ir até a academia de magia.
Hoje vai ser o melhor dia. Ah, mal posso esperar. Finalmente chegou o dia de mostrar minha vilania pro mundo!
Fui em direção à sala de visitas com passos leves.
— Boa tarde.
Quando entrei no quarto, como eu esperava, a senhorita Liz estava lá. Como sempre, ela emana uma aura diferente de qualquer outra pessoa. Não parece nem um pouco plebeia. A senhorita Liz se aproximou de mim e me cumprimentou.
— Boa tarde. Então a Alicia-chan é irmã do Albert?
Ela disse isso com um sorriso, na minha altura de olhos. Como sempre, um sorriso ofuscante.
— Sim.
Respondi também com um sorriso radiante, sem me deixar superar.
Meu sorriso não brilha do jeito que o dela brilha. Pelo contrário, deve estar irradiando uma aura completamente negra!
— Ali-chan, hoje também está uma fofura.
— Senhor Curtis, hoje também está bem levinho.
Mesmo depois de eu mostrar meu sorriso de vilã com tanto esforço, o senhor Curtis diz uma coisa dessas tão facilmente que estraga tudo. Gostaria que ele não arruinasse o clima.
— Todos vocês reunidos assim, o que houve hoje?
— Ah, vamos fazer um panfleto pro conselho estudantil.
O Albert-nii-sama me contou sorrindo. Ah, é verdade, meus irmãos fazem parte do conselho estudantil. …Mas por que fui chamada também?
— Não faça essa cara desconfiada. Só queremos uma opinião sua.
O Albert-nii-sama disse isso com um sorriso amarelo e me entregou um papel.
"Festival da Academia de Magia — atração do conselho estudantil"
…Isso é o evento que acontece dentro do jogo. Se bem me lembro, é aqui que o senhor Duke e a senhorita Liz ficam repentinamente mais próximos.
E é sobre isso que querem minha opinião? Já falei várias vezes, mas eu tenho dez anos, sabe?
…Mas a idade não importa pra uma vilã. Minha função aqui é fazer o senhor Duke e a senhorita Liz ficarem apaixonados um pelo outro nesse evento!
Claro, não porque estou torcendo por eles. É pra, depois de deixá-los apaixonados, poder insultar a senhorita Liz. "Com a sua posição…" — não, não, usar a questão de status como munição seria covarde. Ela entrou na academia por mérito próprio, então preciso insultá-la com mais dignidade que isso.
— Alicia? Por que essa cara séria de repente?
— Quando ela fica com essa cara, não está nem ouvindo o que a gente diz.
— De repente fica super concentrada pensando em alguma coisa.
— De certa forma, isso é um talento, né.
É isso, que tal eu dizer que sou eu quem é digna do senhor Duke? A heroína e a vilã são rivais, afinal!
Quando a senhorita Liz disser "eu amo mais o senhor Duke", eu respondo com desdém "que autoconfiança".
O problema é se eu vou ter coragem pra dizer uma fala dessas. Seria basicamente uma declaração repentina pro senhor Duke. Preciso de coragem e ousadia. …Bom, de qualquer forma o senhor Duke vai me rejeitar mesmo, então vamos com tudo. Vou fazer qualquer coisa pra virar vilã!
— A propósito, o que vocês vão fazer de atração?
Quando perguntei isso, o Albert-nii-sama sorriu amarelo.
— Na verdade, ainda não pensamos em nada.
— Então o que eu deveria fazer?
— Queremos que a Alicia-chan sugira alguma ideia.
A senhorita Liz interrompeu, se metendo na conversa. Ah, essa é a hora de mostrar minha vilania de verdade.
— Não perguntei pra senhorita.
Disse isso ainda sorrindo. O quarto ficou em silêncio num instante. É isso, é exatamente esse clima que eu queria criar! Um clima gelado!
— Alicia? O que foi de repente?
O Albert-nii-sama espiou meu rosto. Nada aconteceu, Nii-sama. Só estou cumprindo meu dever agora mesmo.
— Quer dizer que a Ali-chan e a Liz já se conheciam?
O senhor Curtis tentou aliviar o clima. Justo agora que eu tinha criado o ambiente perfeito, ele estraga tudo de novo. Meu roteiro era eu e a senhorita Liz nos encarando furiosas naquele clima.
— O que será que a Alicia acha melhor~?
O senhor Finn me perguntou animadamente. …No final, o que importa é que o senhor Duke e a senhorita Liz fiquem apaixonados, então sinceramente qualquer coisa serve. Então, por enquanto, vou focar em fazer a senhorita Liz me reconhecer como rival.
— Ouvi dizer que a senhorita Liz consegue usar todos os tipos de magia.
Magia da terra, magia verde, além dos cinco grandes elementos… conseguir usar todos os tipos de magia é mesmo algo que só uma heroína teria, dá até inveja.
— Sim.
A senhorita Liz me olhou com um rosto um pouco cauteloso. Isso, é exatamente essa expressão que eu queria ver. Vamos, mostre ainda mais suas emoções!
— Por que não aproveita isso? Tendo um poder tão maravilhoso e não usar pra brilhar sozinha seria um desperdício, não acha?
Sorri levantando só um lado da boca.
— Obrigada!
Hã? Por que estão me agradecendo?
— Fico feliz que elogiem minha capacidade!
Era pra ser ironia!? Que insensibilidade! É por isso que eu não sou boa com heroínas. Podia fazer pelo menos uma cara de desagrado. Devia pedir socorro pro senhor Duke nessa hora! Por que ela vai lá e agradece sem nenhuma cerimônia?
— De fato, essa é uma boa ideia.
O senhor Gale concordou balançando a cabeça. Esperem, não aceitem uma ideia tão vaga assim. O que é isso? Alguma nova forma de bullying? Não me diga que estão implicando comigo, a vilã?
Ouvi de longe alguém rindo baixinho. Não pode ser… o senhor Duke riu de mim. Será que ele está se divertindo vendo eu ser humilhada assim? Nunca consigo entender o que se passa na cabeça do senhor Duke.
No fim, minha ideia foi aceita, e a reunião daquele dia terminou assim.
— Ei, que tal colocar a Alicia no palco como convidada?
Naquele mesmo dia, todos continuaram discutindo a atração do festival, na minha própria casa.
Espera, ele acabou de dizer pra me colocar como convidada agora? O que o Albert-nii-sama está pensando? E, antes disso, por que eu continuo participando dessa reunião improdutiva?
— Ah, essa realmente pode ser uma boa ideia.
Senhor Gale? Por favor, não concorde. Eu nem sou aluna da academia de magia.
— Não quero.
Disse isso com toda a firmeza.
— Por quê?
O Albert-nii-sama me olhou intrigado.
— Antes de mais nada, eu nem sou aluna da academia.
— Isso a gente dá um jeito.
Não precisava dar jeito nenhum, sabe.
— Já que estamos aqui, que tal a Alicia-chan participar também?
A senhorita Liz sorriu pra mim.
— Já disse que não quero, e é definitivo.
Mesmo assim, a senhorita Liz continuava sorrindo sem demonstrar nenhum incômodo. Justamente esse jeito dela que eu não suporto. Deve ser uma "boazinha" atenta ao clima ao redor, mas, no momento em que ela tenta reverter minha própria fala de "não quero", a vítima aqui sou eu.
— Vai ser muito divertido, com certeza! Acho que vai ser uma boa lembrança!
— Poderia parar de impor seus valores em cima de mim?
Essa frase virou o clima do quarto completamente. A senhorita Liz também fez uma expressão confusa. Isso! Era exatamente essa expressão que eu queria arrancar da senhorita Liz. Não consegui da última vez, então essa é minha revanche.
— Desculpa, não era essa a intenção.
Ah, eu esperava uma batalha bem mais intensa, mas venci fácil demais.
— A Alicia também está com as palavras duras demais.
O Albert-nii-sama disse isso, um pouco irritado.
— Só falei o que realmente penso.
— Isso machuca as pessoas.
É verdade que não dá pra negar isso. Mas o que há de errado em afirmar minha própria vontade?
— Por enquanto, vamos seguir com a conversa. A Ali-chan também não deve ter gostado de ser forçada.
A voz animada do senhor Curtis ecoou pelo quarto. De alguma forma, o ambiente está desconfortável. Realmente é diferente de quando eu tinha sete anos, né. Coisas que, quando eu era pequena, eram perdoadas com um simples "que menina mimada", agora, conforme cresço, deixam de ser perdoadas.
Se bem me lembro, na minha vida passada também, conforme fui virando adulta, fui tendo que engolir cada vez mais coisas. E estou vivendo isso já aos dez anos. Ou seja, a Alicia do jogo, quando o corpo cresceu mas o coração continuou o mesmo de sempre, acabou virando a vilã, é isso? Então, se eu continuar crescendo desse jeito, também vou virar uma vilã, não é? A partir de agora, também vou continuar vivendo do jeito que sou de verdade!
— Ali, que tal você e a Liz irem juntas até a cidade pra ficarem mais próximas?
O Albert-nii-sama disse isso virando o rosto pra mim.
…Hã!? O que o Albert-nii-sama está dizendo? Se eu e a senhorita Liz ficarmos amigas, eu falho completamente como vilã!!
— Eu também quero ficar amiga da Alicia-chan.
A senhorita Liz me lançou um sorriso de anjo. Eu realmente não gosto desse sorriso. Não venham achando que meu nível de simpatia sobe só porque sorriram gentilmente pra mim.
— Não sinto necessidade nenhuma de ficar amiga da senhorita.
Na hora, os grandes olhos verde-esmeralda da senhorita Liz me olharam com tristeza.
— Será que a Alicia-chan não gosta de mim?
Você é a heroína, eu sou a vilã. Somos incompatíveis desde o começo.
— Amizade não é uma coisa que se força, não é mesmo?
Vejo pontos de interrogação nas cabeças de todo mundo. Ué, será que eu disse algo tão incompreensível assim?
— Ali, não dá pra dizer que não consegue ficar amiga de alguém sem nem conhecer a pessoa direito.
O Albert-nii-sama disse isso sorrindo.
— Se a gente conversar bastante, com certeza a gente vai ficar amiga.
Aquela lógica de "se a gente conversar, vai se entender"… é exatamente essa a fala que uma heroína diria. Sempre existe gente que combina e gente que não combina, e não importa o quanto duas pessoas incompatíveis conversem, não vão conseguir se entender.
Mas, se me colocarem na escolha absoluta entre conversar e ir à cidade em dupla com ela, conversar ganha disparado.
— Se não precisar ir à cidade, eu converso com a senhorita Liz.
Quando eu disse isso, o rosto da senhorita Liz se iluminou. O Albert-nii-sama também soltou um suspiro de alívio. …Isso é muito, muito chato pra mim!!
— O que a Alicia-chan gosta de comer?
— Macaron.
— Macaron! Eu também adoro. Só de ver um macaron já fico feliz. Talvez macaron tenha o poder de deixar as pessoas felizes. E também… que flor você gosta?
Não sou muito fã dessa expressão "flor". Por que colocam "que" educado antes da palavra flor?
— Não tenho muito interesse por flores.
— Ah, entendo… Eu gosto de margarida.
De fato, é bem a cara dela mesmo.
— O significado da flor dela é lindo.
— "Amor verdadeiro"
Falamos o significado da flor exatamente ao mesmo tempo, e a senhorita Liz me olhou surpresa.
— Também significa sinceridade e confiança. Combina perfeitamente com a senhorita.
Disse isso sorrindo radiante, com uma pontada de ironia disfarçada. Bom, imagino que não vá surtir efeito nela mesmo.
— Você sabe isso, mesmo sem se interessar por flores?
— É coisa básica de etiqueta pra uma dama.
— Nossa, sendo tão pequena e sabendo tanto! Então, dentre todas, qual flor você mais gosta?
Já falei que não tenho interesse, não falei?
Mas a senhorita Liz continuava me olhando com os olhos brilhando.
— Gosto de lírio-do-vale.
Respondi isso sem nenhuma expressão.
— O significado do lírio-do-vale é pureza, felicidade que retorna. É uma flor com um significado tão bonito.
— Sim. Apesar de ter uma aparência tão pura e um significado tão bonito, ela também carrega uma propriedade venenosa capaz de causar até a morte — isso é o que a torna tão fascinante, na minha opinião.
O quarto ficou em silêncio total. Dava pra ver o rosto angelical da senhorita Liz se contrair um pouco. Isso, isso é o auge da vilania, não é?
Ainda bem que li tantos livros. Achei que conhecimento de flores não serviria de nada pra uma vilã, mas, dependendo de como se usa, é bem útil.
— Que cor a Alicia-chan gosta?
Foi a senhorita Liz quem quebrou o silêncio. …E-ela não desiste mesmo. Como esperado de uma heroína. Confesso que fiquei com um pouquinho de respeito por ela.
— Preto.
— Você gosta de preto! Eu adoro mais o branco.
— São completamente opostas, não é?
Disse isso sorrindo, e a senhorita Liz também devolveu o sorriso. O significado desse sorriso também é completamente oposto ao meu.
— Não é justamente por sermos opostas que fica bom?
— Concordo plenamente.
Uma conversa dessas não vai fazer a gente se conhecer de verdade nem nada.
— O que você gosta de fazer?
Ainda vai continuar perguntando? E essa pergunta não é abstrata demais? A senhorita Liz simplesmente não capta minha expressão de tédio total. É por isso que eu não gosto de heroínas insensíveis assim!
— Isto.
Já cansada disso, estalei os dedos com força. No mesmo instante, uma flor saltou do vaso decorativo e voou na minha direção.
Magia de puxar objetos.
Peguei perfeitamente a flor que vinha voando e estendi na direção da senhorita Liz.
— Por favor.

Mas não só a senhorita Liz — todo mundo estava me encarando fixamente. Por que estão tão surpresos assim?
— Magia…?
— Sim.
Será que ela vai receber logo essa flor? Estou ficando com vergonha.
— A Ali-chan é…
— Dez… anos.
— Pois é.
Ouvi a conversa entre o senhor Curtis e o Albert-nii-sama. O senhor Will também tinha me perguntado a idade quando eu usei magia. Será que sou superior à média das crianças normais? Bom, claro que sim, afinal estudo tanto sobre magia. É natural, né?
— Muito obrigada.
Finalmente a senhorita Liz recebeu a flor da minha mão.
— Que margarida linda.
A senhorita Liz me dirigiu um sorriso sagrado, digno até de envergonhar um anjo. Mesmo sendo bem avaliada pela senhorita Liz, não fico feliz nenhuma. Eu entreguei essa flor com intenção irônica, viu. Ser tão insensível assim, de certa forma, deve ser uma felicidade também.
Depois que todo mundo foi embora, fui pra biblioteca. No fim, hoje também não decidiram a atração. Só ficou parecendo que eu e a senhorita Liz conversamos, e nada mais.
Sem querer, bem na entrada da biblioteca, dei de cara com o Albert-nii-sama e o Otou-sama conversando em pé. Rostos extremamente sérios. Que tipo de assunto difícil eles estão discutindo? Me aproximei devagar, sem ser percebida.
— A Alicia usou magia? Isso é verdade mesmo?
— Sim. Vi com meus próprios olhos.
— Mas a Alicia ainda tem só dez anos, não tem?
Faz um tempo que estão falando "dez anos" pra cá e pra lá — por que todo mundo fica tão surpreso ao saber minha idade?
— Não acredito.
— Eu também fiquei surpreso. Só que se aprende a usar magia a partir dos treze anos.
Treze anos? Eu tenho dez. Espera, os números não estão batendo, será…?
— Uma anomalia.
O Otou-sama murmurou isso numa voz grave e pesada. Eu sou a anomalia? Nesse mundo, a anomalia deveria ser a heroína.
Deve ser algum engano. Sem conseguir processar aquilo direito, corri em direção à biblioteca.
Livros de magia, livros de magia… encontrei! De tão apressada, não conseguia nem virar as páginas direito. As palavras do Otou-sama e dos outros não podem ser verdade, com certeza é mentira. Enquanto pensava isso, meus olhos pararam numa página.
"Só é possível usar magia a partir dos treze anos."
Não tem como ter lido errado, né… Peguei a enciclopédia de magia, que tem detalhes ainda mais precisos sobre o assunto.
"Só é possível usar magia a partir dos treze anos."
Está escrito exatamente a mesma coisa.
"Por isso, os nobres começam a aprender magia a partir dos treze anos, e quem atinge o nível 20 até os quinze pode entrar na academia de magia."
Nível 20… Ah, eu já estou quase conseguindo dominar o nível 20. Será que não há mais nada escrito? Algum exemplo de alguém que dominou magia mais jovem do que o normal…
Passei os olhos por todas as páginas, mas não encontrei nada. No fim, isso vai continuar sendo um mistério? Que ódio, eu realmente odeio deixar um mistério sem solução. Mas também não parece algo que eu pudesse simplesmente perguntar a alguém… Ah, é isso, o senhor Will talvez saiba de alguma coisa. Já está anoitecendo, mas acho que ainda dá tempo de ir ao vilarejo da pobreza. Ah, não posso esquecer de levar o livro que separei de presente pro Jill.
Ao chegar na casa do senhor Will, o Jill já estava dormindo. Coloquei a bolsa com o livro no canto da cama e me sentei na cadeira de sempre.
O senhor Will, mesmo sem enxergar, percebeu na hora que eu estava agitada.
— Tenho uma pergunta pra fazer.
— Por enquanto, se acalme.
O senhor Will disse isso numa voz firme e serena. Inspirei fundo e soltei o ar devagar.
— Senhor Will, eu…
— Por que, mesmo com dez anos, você já consegue usar magia?
O senhor Will abriu a boca antes de eu terminar de falar. Como sempre, sua capacidade de perceber as coisas é impressionante…
Será que o senhor Will tem algum poder especial de ler o coração das pessoas?
— O senhor Will sabe o motivo?
Diante da minha pergunta, o senhor Will fez uma expressão pesada. Por algum motivo, dava pra sentir tristeza e sofrimento naquela expressão. Será que ele estava lembrando de quando trabalhava no palácio real?
— Alicia, conseguir usar magia antes dos treze anos é um talento incrível. Mas, ao mesmo tempo, esse talento pode carregar o potencial de te levar à ruína.
Não consegui entender o significado do que o senhor Will estava dizendo.
— Ruína?
O senhor Will assentiu devagar. Que história estranhamente específica. Será que existe algum precedente…
— Não precisa fazer essa cara tão preocupada.
A voz calorosa do senhor Will acalmou meu coração. Toda vez que ele parece ler meu interior assim, chego a duvidar se ele não enxerga de verdade.
— Eu tinha um conhecido que conseguia usar magia desde muito pequeno. Todo mundo ao redor dizia que era um talento raríssimo, e ele foi usando magia cada vez mais, até dominar o nível 80 antes dos treze anos.
— Nível 80?
Dizem que leva no mínimo três anos pra dominar isso… E, além disso, nível 80 significa que ele era de uma grande família nobre, não é?
— Sim. E, sendo assim, a pessoa acaba se tornando arrogante. Passa a achar que é superior aos outros.
— Isso não é natural?
Não seria estranho se uma pessoa dominasse o nível 80 aos treze anos e não ficasse convencida.
— Mas foi exatamente isso que causou a ruína dele.
O senhor Will sorriu, meio triste.
— Vaidoso demais com sua própria conquista do nível 80, aquele garoto passou a acreditar que conseguiria dominar o nível 100 sem seguir a progressão normal.
Chegando a esse ponto, é justamente o oposto — só um escolhido de verdade conseguiria dominar. Mas dá pra entender por que ele passou a pensar assim.
— E, então, o que aconteceu com esse garoto?
— Ele nunca mais conseguiu usar magia de novo.
Perder a capacidade de usar magia, sendo de uma grande família nobre, é uma crueldade grande demais. Ele teria que carregar, pelo resto da vida, o peso de ter transformado a expectativa de todos em decepção.
Será que aquele garoto acabou saindo de casa, ou algo assim…? Pensei em perguntar mais detalhes ao senhor Will, mas desisti. Porque o senhor Will parecia estar sofrendo demais. Com certeza não era só "um conhecido" qualquer — devia ser alguém muito importante pra ele. Até meu próprio peito ficou apertado.
— Alicia, esse seu talento é maravilhoso. Mas, por favor, nunca pense em forçar avançar de nível assim.
O senhor Will disse isso como se estivesse me implorando.
— Entendido.
Ao receber minha concordância, o senhor Will disse "boa menina" e acariciou minha cabeça. Normalmente isso aquece meu coração, mas, hoje, por algum motivo, aquela sensação de peso não desaparecia.
— Alicia, acorde.
Acordei com a voz do Otou-sama. Que o Otou-sama viesse me acordar pessoalmente é algo raro. Saí da cama, me troquei correndo e saí do quarto.
— Aconteceu alguma coisa?
— Alicia, preciso falar com você.
O Otou-sama disse isso com uma expressão séria. O que será? O Otou-sama começou a andar, e eu o segui em silêncio. …Será que descobriram que eu ando indo ao vilarejo da pobreza?
O destino era o quarto do Otou-sama, onde eu nunca tinha entrado antes. Segui o Otou-sama e entrei.
…Não pode ser, o rei de novo? E, ainda por cima, todos os chefes das Cinco Grandes Famílias estão reunidos aqui, o que está acontecendo?
— Alicia, quanto tempo.
— Quanto tempo, Sua Majestade.
Fiz uma reverência profunda ao dizer isso. Isso parece até uma entrevista de emprego intimidadora.
— Alicia, você já consegue usar magia?
— Sim.
Que bom, então era sobre isso mesmo. Mas, sendo assim, o rei vir até aqui de um dia pro outro mostra o quanto a informação circula rápido.
— Então, faça alguma coisa pra mim ver agora.
Estalei levemente os dedos. Com a magia de empilhar objetos, os livros foram flutuando um por um e se empilhando. Já que estava fazendo isso mesmo, resolvi organizar também os documentos do Otou-sama. Depois de empilhar os livros, empilhei também um grande maço de papéis por cima. Sim, as bordas ficaram bem alinhadas e estáveis. Ótimo trabalho!
— Está empilhado com perfeição.
— Sim, nenhuma parte saindo da linha.
— Não dá pra fazer com essa precisão logo de início.
Os membros das Cinco Grandes Famílias foram falando um após o outro, como se estivessem avaliando minha magia.
— Isso é…
O rei ficou sem palavras diante da minha magia. Será que aquilo era algum tipo de teste?
— Alicia, obrigado. Já pode ir.
O Otou-sama me disse isso sorrindo. Um sorriso idêntico ao do Albert-nii-sama.
Incentivada por aquele sorriso com algo escondido por trás, saí do quarto. O objetivo continuava um mistério…
De alguma forma, me sinto como se tivesse sido enganada por uma raposa. Vou treinar esgrima pra colocar o corpo em movimento.
Fui até o jardim, onde estavam o Alan-nii-sama e o Henry-nii-sama, e acabei esquecendo completamente de perguntar ao Otou-sama sobre o garoto que perdeu a capacidade de usar magia.
— Aliás, parece que o festival da academia de magia foi cancelado.
Enquanto treinávamos esgrima, o Alan-nii-sama comentou isso. Foi um choque tão grande que meu braço parou no meio do golpe.
…O festival da academia de magia foi cancelado? Será que é porque eu não consegui ficar amiga da senhorita Liz? Não, isso não tem nada a ver. Afinal, eu nem sou aluna da academia de magia…
— Aconteceu alguma coisa?
— Parece que a Liz desmaiou.
Foi o Henry-nii-sama quem respondeu, no lugar do Alan-nii-sama. A senhorita Liz desmaiou?
— Pelo que o Al-nii contou, parece que a magia dela descontrolou.
— A magia descontrolou?
— É, ainda não sabem a causa, mas, como seria perigoso se acontecesse um acidente durante o festival, decidiram cancelar.
Será que magia pode descontrolar assim…? Fiquei curiosa pelos detalhes e fui até a biblioteca.
Reli com atenção a enciclopédia de magia mais uma vez, mas não encontrei nada escrito sobre magia descontrolando. Ou seja, isso nunca tinha acontecido antes. Peguei um livro que estava por perto, chamado "Sobre a Magia das Trevas", e passei os olhos.
"A magia das trevas é, ao mesmo tempo, uma magia de destruição e uma magia de cura."
…Como assim? Isso é uma contradição.
Continuei virando as páginas. Hmm, não parece haver nenhuma explicação que esclareça o significado dessa frase.
Ah, espera, antes disso — por que eu estou pesquisando tanto assim, preocupada com a senhorita Liz? Eu preciso é treinar minha própria magia. A senhorita Liz com certeza tem um poder mágico grande o bastante pra descontrolar desse jeito!
Comecei a ler os livros até o nível 20. E assim, do mesmo jeito tranquilo que dominei o nível 1, consegui dominar o nível 20 num piscar de olhos.
…Cheguei tão facilmente ao nível de entrada na academia. Impressionante, eu! Estou ficando cada vez mais próxima da heroína. Se eu continuar subindo de nível enquanto a senhorita Liz está desmaiada, quando ela acordar, talvez eu já esteja completamente à altura dela.
Animada, peguei o livro do nível 21 e comecei a ler.