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I’ll Become a Villainess That Will Go Down in History – Volume 1 Capítulo 9

Capítulo 9

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Capítulo 9

Finalmente, eu dominei o nível 80!

Sinceramente, foi fácil. Vou me acostumando cada vez mais com o uso do poder mágico. O Otou-sama vivia repetindo que eu devia subir de nível em ordem, sem pressa, e valeu a pena ter treinado com paciência, sem forçar — finalmente cheguei ao nível 80!

Fico imaginando como todo mundo vai reagir quando eu contar… Mal posso esperar.

Originalmente, essa é justamente a idade em que eu deveria ter começado a usar magia, não é? Ah, se a Alicia do jogo tivesse se esforçado direito. Tinha talento de sobra, foi um desperdício. Nesses dois anos até me formar na academia de magia, vou ficar ainda mais forte!

Fiquei diante do espelho, olhando pra mim mesma. O pingente que o senhor Duke me deu de aniversário parece, finalmente, começar a combinar comigo. Meu visual mudou bastante em três anos, não foi? O cabelo já cresceu até abaixo do peito… de alguma forma, fiquei com um ar mais adulto. Meu clima de vilã aumentou. Será que logo vai chegar o dia em que alguém vai me xingar de "sua vilã"? Mal posso esperar. Só de imaginar, meus lábios já relaxam num sorriso. Não, não, preciso me manter firme!

— Senhora Alicia, o senhor a está chamando.

A voz da Rosetta veio do outro lado da porta. O Otou-sama? O que será? Respirei fundo, levemente, e fui até o quarto dele.

De alguma forma, tenho um mau pressentimento. Bati de leve na porta do quarto do Otou-sama antes de entrar.

…Pressentimento confirmado. Já nem me surpreendo mais com esse tipo de desenrolar. Como sempre, cumprimentei o rei.

— Alicia, quanto tempo.

— Sim, já faz três anos.

— Ficou bem mais adulta.

O rei disse isso sorrindo. Pelo contrário, seria estranho se, depois de três anos, eu continuasse com jeito de criança… Aliás, os senhores das Cinco Grandes Famílias reunidos de novo, o que será que estão querendo dessa vez? Toda vez que essas reuniões acontecem, tento adivinhar o motivo, mas sempre acabam me dizendo algo totalmente inesperado. Vou parar de tentar adivinhar. Seja o que for que digam, já não vou mais me surpreender!

— Alicia, é fora do comum, mas você teria vontade de ir pra academia de magia?

O senhor Joan me disse isso.

Hã? Retiro o que disse. Fiquei extremamente surpresa. Eu achava que iam me perguntar sobre meu nível de magia, mas era completamente outra coisa. Ou seja, entrar na academia de magia aos treze anos… poder ver a senhorita Liz dois anos mais cedo? Claro que sim!

— Vou. Por favor, me deixem ir.

— Entendo.

O Otou-sama fez uma expressão confusa diante das minhas palavras. Mas por que todos estão com uma cara tão séria assim? Será que eu deveria ter demonstrado um pouco mais de modéstia? Mas uma vilã não faz modéstia. Se existe uma oportunidade, tenho que agarrar sem hesitar.

— Alicia, atualmente até que nível de magia você domina?

Ah, é justamente essa pergunta que eu estava pensando há pouco.

Sorri radiante. Uma vilã, afinal, tem que se gabar com orgulho.

— Nível 80.

Podiam parar de franzir a testa ainda mais do que antes, não? …Podiam fazer uma cara de "isso é incrível" também, sabe? Eu queria ser elogiada. Achei que, pelo menos o Otou-sama, ficaria feliz… por que essa expressão?

— 80…

O senhor Neville murmurou isso numa voz baixinha, quase inaudível. Queria que se surpreendessem com mais entusiasmo.

— O mesmo nível da Santa.

…Santa? Numa maioria dos otome games, "Santa" costuma ser o papel da heroína, não é? Então quer dizer… a senhorita Liz? Eu… cheguei no mesmo nível da senhorita Liz!? Consegui! Agora somos iguais!

Fiz o possível pra não deixar transparecer no rosto, mas por dentro estava me alegrando.

— Alicia, temos um pedido a fazer. Você aceita ouvir?

— Um pedido?

O Otou-sama lançou um olhar feio pro senhor Joan. Por que ele está bravo?

— Claro que você pode recusar, se quiser.

— S-sim, entendido.

Tenho a sensação de que, se eu recusar um pedido das Cinco Grandes Famílias Nobres, vou acabar exilada do país ou até condenada à morte.

O rei abriu a boca.

— Queremos que você se torne a vigilante de Kate Liz.

Levei uns bons dez segundos pra processar o que o rei tinha acabado de dizer.

Vigilante da senhorita Liz…? Antes de mais nada, por que a senhorita Liz precisa ser vigiada?

— Sabemos o quanto você é talentosa. É justamente por isso que só podemos pedir isso a você.

— Falando assim, a Alicia não vai conseguir recusar.

Antes que eu respondesse, o Otou-sama interrompeu o rei.

— Er, o que exatamente seria essa função de vigilante?

— Kate Liz é a Santa que vai se tornar a salvadora deste reino.

Diante das palavras do senhor Joan, não fiquei muito abalada. É óbvio que a heroína é a Santa. Já nem me surpreendo mais com isso. Mas, afinal, o que exatamente uma vigilante da Santa faz?

— Você sabe que a magia dela sofreu um descontrole, não sabe?

— Sim.

— Sem inteligência, não dá pra ser Santa.

Ah, é verdade, existia um evento no jogo que testava a inteligência da heroína. Sim, lembrei agora. Eu tirei zero pontos naquela vez. Errei todas as escolhas que deveria ter feito.

Porque eram só respostas idealistas demais. Por isso, dentro do jogo, ela nem conseguia participar das reuniões importantes de governo.

— Por isso, queremos que você julgue se ela tem a sabedoria pra sustentar este reino. E, se não tiver, que a guie até que consiga desenvolver essa capacidade.

Ou seja, era pra eu identificar se a senhorita Liz é digna de ser o topo do reino, certo?

Mas o que seria "guiar" ela pra isso? Até o dia em que ela assumir seu papel como Santa, eu deveria conduzir o pensamento dela na direção certa? …De jeito nenhum! Isso seria a coisa mais boazinha que existe!

Eu quero virar vilã. Mesmo que isso significasse ser exilada do país, eu recusaria isso sem pensar duas vezes.

— Não acei…

— Alicia, você aceitaria fazer esse papel de "vilã"?

…Será que ouvi errado. O que o rei acabou de dizer mesmo?

— Er, achei que tinha ouvido "vilã" agora…

— Sim. Você se tornar a vigilante de Kate Liz vai ser mantido como segredo de estado. E, além disso, provavelmente vai precisar dizer coisas duras a ela pra fazê-la reconsiderar suas ideias. A senhorita Kate Liz parece ser bastante popular na academia de magia.

Isso parece um sonho. Será que Deus está me dando de presente exatamente o que eu tanto me esforcei pra alcançar?

— Ou seja, o senhor quer que eu me torne a maior vilã deste mundo?

— Não estou dizendo exatamente "a maior do mundo", mas talvez acabe sendo assim mesmo.

— Você não precisa aceitar, sabia?

O Otou-sama disse isso, olhando pra mim. Não aceitar? Uma escolha dessas nem existe pra mim. Ah, nunca me senti tão feliz assim na vida. Receber diretamente do rei um papel tão honroso! Até agora eu vinha só imaginando como implicar com a senhorita Liz, e agora ganhei um motivo claro pra isso! Como será que eu expresso esse sentimento de leveza que estou sentindo agora?

— Aceito com prazer. Vou me mostrar a maior vilã de todas.

Diante das minhas palavras, todos pareceram aliviados. …Menos o Otou-sama.

— Pode acabar ficando sozinha, sabia?

— Não tem problema, Otou-sama.

— Vai ser odiada, sabia?

— Eu sei disso.

— Vai conseguir aguentar?

Que pergunta boba. Acho que vou conseguir frequentar a academia todos os dias me divertindo.

— Claro que sim.

O Otou-sama finalmente soltou um suspiro de resignação. Parece que ele entendeu meu sentimento.

— Mesmo com seus irmãos, isso deve ficar em absoluto segre…

— Juro que não vou contar pra ninguém.

Interrompi as palavras do rei e declarei isso com uma voz firme, olhando diretamente nos olhos dele.

— Se houver algo que possamos fazer por você, pode falar sem hesitar.

Quando eu ia saindo do quarto, o senhor Joan me chamou. Algo que possam fazer por mim…?

Ah, é isso! Quase esqueci de uma coisa importante!

— Por favor, permitam que um garotinho chamado Jill, do vilarejo da pobreza, entre na academia de magia junto comigo.

Todos, exceto eu, ficaram paralisados.

Ah, é verdade, era segredo que eu frequentava o vilarejo da pobreza.

— O vilarejo da pobreza!? Por que você conhece um morador de lá?

— Alicia! Não me diga que você anda indo até lá!

Otou-sama, por favor, não faça essa cara tão assustadora. Parece até que eu cometi um crime.

— Só à noite.

Não vou me acovardar diante disso. Afinal, sou uma vilã.

— À noite?

— É mais seguro à noite.

— Então você já foi de dia também.

Ah, será que eu estou cavando minha própria cova? Mas não deveria haver motivo pra bronca. Afinal, não existe nenhuma lei proibindo ir ao vilarejo da pobreza.

— Otou-sama, não entendo por que estou sendo repreendida.

Endireitei a postura e encarei o Otou-sama.

— O garotinho chamado Jill tem atualmente nove anos, é plebeu e não consegue usar magia, mas é mais inteligente que eu.

Isso mesmo, o Jill é realmente inteligente de verdade. Uma vez que aprende algo, nunca esquece, e, mais importante, tem uma capacidade de raciocínio maravilhosa. Sem dúvida, ele conseguiria chegar ao topo deste reino.

— Sua Majestade se lembra de uma vez em que eu contei que o vilarejo da pobreza estava numa situação terrível?

— Sim.

— Naquela época, eu ainda não conhecia o verdadeiro vilarejo da pobreza. Tinha só o conhecimento que li em livros, nunca tinha visto com meus próprios olhos. Por isso, quis conhecer a situação real, e fui até lá.

Percebi o rei arregalar levemente os olhos. Continuei falando, sem me deixar interromper.

— O vilarejo da pobreza de verdade era pior do que qualquer coisa que os livros descreviam. Literalmente um inferno. Todos ali viviam na miséria absoluta, num estado em que nem se sabia se estavam vivos ou mortos. Mesmo que aquele lugar tenha sido criado originalmente pra confinar pessoas consideradas perigosas para este reino… será que a culpa se estende até os descendentes deles?

Diante das minhas palavras, todos ficaram em silêncio. O Otou-sama já não parecia mais bravo.

— O garotinho chamado Jill teve os pais assassinados e já tinha perdido até a esperança de viver. Quando o vi pela primeira vez, ele estava sendo tratado como um pano de chão descartável. Um homem enorme espancava um garoto de seis anos com uma barra de ferro.

— E… o que aconteceu com ele?

O senhor Derek perguntou com uma expressão sofrida.

— Ele oscilou entre a vida e a morte, e ainda assim escolheu viver. Ele com certeza vai se tornar alguém que sustenta este reino. Por favor, tirem-no do vilarejo da pobreza.

Implorei ao rei com toda a seriedade. Eu tinha prometido ao Jill. Não conseguir cumprir uma promessa seria uma falha grave como vilã.

O rei franziu a testa e soltou um pequeno suspiro.

— Acho que dá pra resolver isso na forma de assistente pessoal da Alicia.

— Isso já é suficiente.

Respondi na hora.

— Vamos tentar dar um jeito.

— Muito obrigada.

Fiz uma reverência profunda. …É verdade, será que eu também deveria pedir algo sobre o senhor Will? Mas será que o senhor Will realmente deseja sair do vilarejo da pobreza?

— Alicia, como você tem ido até o vilarejo da pobreza?

O Otou-sama me olhou intrigado.

— É segredo.

Sorri radiante. Uma vilã sempre carrega seus segredos. …Na verdade, eu tenho vergonha demais de dizer que fiz isso simplesmente treinando o corpo e correndo até lá. O Otou-sama fez uma cara insatisfeita.

Ah, é verdade, já que vou entrar na academia de magia, acho que já posso perguntar, não é? Inspirei levemente e fixei meu olhar nos olhos do Otou-sama.

— Por que eu nunca pude fazer o teste de esgrima?

O Otou-sama, por um instante, desviou o olhar, mas logo sorriu gentilmente. Como sempre, o Otou-sama fica muito melhor sorrindo do que bravo.

— Foi porque a Ali era boa demais.

…Como motivo, ainda não faz muito sentido pra mim, mas, já que pareceu um elogio, tudo bem, vamos deixar assim.

— Alicia, a permissão de entrada do Jill na academia de magia foi concedida.

Alguns dias depois daquela reunião, o Otou-sama trouxe essa boa notícia.

Consegui! Preciso ir contar pro Jill imediatamente. Ah, será que posso contar ao Jill que vou interpretar o papel de vilã? Afinal, o Jill vai virar meu assistente pessoal.

— Otou-sama, posso contar ao Jill que virei vigilante da senhorita Liz?

— Sim, já que ele vai precisar agir junto com você o tempo todo. E, além disso, quero te entregar isto.

Dizendo isso, o Otou-sama me estendeu um frasquinho pequeno. Dentro havia um líquido rosa-claro.

— O que é isto?

— Se beber isso, você consegue atravessar a parede de névoa do vilarejo da pobreza. A Ali tem poder mágico, então consegue atravessar, mas uma pessoa comum não consegue.

— Muito obrigada.

Fiz uma reverência ao Otou-sama e tentei sair.

— Ali, você não está se arrependendo?

…Arrependendo? Eu estou extremamente feliz agora mesmo.

— Nem um pouco.

Respondi sorrindo. O Otou-sama arqueou as sobrancelhas num formato triste e murmurou "entendo", antes de sair.

Por que será que o Otou-sama fica com essa expressão? Deve ser porque se preocupa com a filha querida. Fique tranquilo, Otou-sama, estou extremamente satisfeita.

Ao anoitecer, fui em direção ao vilarejo da pobreza. Já nem sinto medo dessa floresta sinistra. Que impressionante o poder do costume. Atravessei a névoa e corri em direção à casa do senhor Will.

Foi então que, de repente, alguém agarrou meu pé com força. Meu corpo gelou por reflexo.

Olhei pros pés e vi uma mão suja e magricela… uma mão delicada, mas segurando meu pé com toda a força, como se não quisesse soltar.

— S-socorro…

Uma voz fina implorava pra mim. Pela voz, era uma mulher. Do corpo dela emanava um cheiro tão forte que meu nariz quase entupiu. Sem perceber, cobri o nariz com a mão. Já estou acostumada com o mau cheiro daqui, mas isso era demais mesmo. O que eu deveria fazer com a mão que se agarrava ao meu pé?

Calma. Uma vilã não age por emoção, e sim por razão. Girei a cabeça em altíssima velocidade.

Uma vilã não machuca quem é mais fraco que ela, não é? Afinal, sempre dizem que se deve ser gentil com os fracos e severa com os fortes. É por isso que posso ser dura com a senhorita Liz. Isso mesmo, ajudar essa mulher agora é justamente ser uma vilã de verdade. Segurei a mão dela.

— Vai ficar tudo bem.

Dizendo isso, ergui o corpo da mulher. Como treino todo dia, carregar alguém no colo é moleza pra mim. …Mas ela era leve demais. Parece mais velha que eu, mas está mais leve que eu. É estranho até que ela continue viva.

Corri em direção à praça com a fonte.

Como sempre, havia muita gente deitada no chão da praça. Andei devagar até a fonte, cuidando pra não acordar quem estava dormindo.

…Como sempre, água suja. Eu até poderia usar magia agora, mas com certeza chamaria muita atenção. O que eu faço…

— D-dói…

Não tenho tempo de hesitar. Alicia, tome coragem. Se eu não conseguir salvar essa mulher agora, vou falhar como vilã.

Deitei a mulher devagar perto da fonte. O som de um estalo de dedos ecoou pela praça. A água suja foi envolta por uma aura brilhante, ficando cada vez mais limpa. Percebi as pessoas deitadas no chão se levantando com o barulho. Tirei a capa que estava vestindo e mergulhei na água.

— Alicia!?

Ouvi a voz do Jill por perto.

— O que você está fazendo?

O Jill correu até mim. Atrás dele, também dava pra ver o senhor Will.

— É melhor você sair daqui logo! Todo mundo vai te atacar!

O Jill gritou em voz baixa. Eu sei, mas não posso abandonar essa mulher.

— Alicia, o que houve?

O senhor Will chegou até mim, um pouco atrasado.

— Vou ajudá-la.

Disse isso olhando pro Jill e pro senhor Will. Por mais que se opusessem, eu não pretendia sair dali.

— …Ajude-a.

— Hã?

— Vovô!? O que você está dizendo?

— Ajude essa mulher logo.

Depois de tantos anos juntos, o senhor Will já entende bem meu jeito. Como esperado dele.

Torci com força a capa que tinha mergulhado na água limpa. Realmente, meus braços ficaram fortes. A água ia se espremendo cada vez mais.

— Água…

As pessoas que estavam se levantando começaram a se agitar. Se me atrapalharem agora, vai ser um problema. Ergui uma parede mágica com um padrão geométrico negro ao redor da fonte, afastando as pessoas. Já li num livro que a cor da parede varia conforme o tipo de magia. A propósito, a parede de névoa que envolve este vilarejo é magia de água.

Depois de confirmar que a parede estava bem formada, impedindo intrusos, comecei a limpar a mulher com a capa. A capa ia ficando cada vez mais suja. A crosta de lama não saía facilmente.

…Não, espera, não é lama. É a pele dela, em decomposição! Parei a mão, chocada.

— Alicia, você está bem?

O Jill espiou meu rosto.

— Isso é normal aqui. Tem gente muito pior que ela.

O Jill disse isso olhando pra mulher com o rosto sério.

— Provavelmente ela é a garota que ficou presa numa casa incendiada.

O senhor Will disse isso com uma expressão triste.

— …

Do jeito que eu estava, eu não conseguiria salvá-la. Só tenho magias das trevas insignificantes, afinal.

Voltei a limpá-la devagar. …A parte de baixo do joelho direito está necrosada. Provavelmente por causa do fogo. Sinceramente, só de olhar já era difícil de suportar. Primeira vez que vi um ser humano nesse estado.

Como eu posso salvá-la? Sei que preciso me acalmar, mas minha cabeça entrava em pânico, incapaz de pensar em qualquer coisa.

Achar que eu conseguiria salvá-la… que pensamento tolo. Estou me superestimando demais só porque consigo usar um pouco de magia.

— Ali, você está bem? Tem alguma coisa que eu possa fazer?

O Jill me olhava preocupado. Dava pra sentir minha própria respiração ficando ofegante.

— Alicia, se acalme. Respire devagar.

Respirei como o senhor Will mandou. Ele esfregava minhas costas de leve.

— Magia é sobre como se usa. Por mais inútil que uma magia pareça, ela sempre serve pra alguma coisa.

— Isso, eu não sei se é verdade.

Sem conseguir organizar meus sentimentos, acabei falando de forma teimosa.

— Você é inteligente. Com certeza você vai conseguir salvá-la.

— Por favor, não diga coisas sem fundamento assim. Salvar uma vida é peso demais pra mim. Não dá, é impossível!

Deveria estar feliz com as palavras do senhor Will, mas, mesmo assim, acabei levantando a voz. Nunca tinha passado por uma situação dessas antes. Não fazia a menor ideia do que fazer. Nem o conhecimento que li nos livros me vinha à mente. Realmente, nenhuma ideia surgia.

Sem perceber, as lágrimas transbordaram.

— Alicia…

O Jill me olhou fixamente. Sem conseguir me controlar, as lágrimas continuavam escorrendo, contra a minha vontade.

— Não seja tão condescendente consigo mesma.

As palavras do senhor Will ecoaram nos meus ouvidos.

— Alicia, algo assim, resolva sem tanta dificuldade.

Eu e o Jill ficamos paralisados. Foi a primeira vez que o senhor Will me repreendeu.

— Você ainda vai enfrentar situações muito mais difíceis daqui pra frente.

O senhor Will disse isso numa voz grave e pesada.

— Você me disse que queria se tornar a maior vilã do mundo, não disse? Aquilo era mentira?

— Não… quero ser, sim.

Respondi com firmeza.

— Então não pode travar num lugar como este. Que tipo de vilã você quer ser, afinal?

— Uma vilã com ideais altos, que odeia falsidade, que age com coerência em tudo, ponderada, capaz de tomar decisões calmas em qualquer situação, uma vilã forte.

Consegui dizer isso do início ao fim, mesmo hesitante. Dizendo em voz alta, entendi de novo, com clareza.

Isso mesmo, eu vou me tornar uma vilã forte. Uma vilã que não perde nem pra heroína.

— Isso mesmo, Alicia.

O senhor Will sorriu gentilmente pra mim.

— Alicia, força.

O Jill disse isso me olhando com olhos firmes.

Vou fazer. Não posso me chamar de vilã se nem consigo salvar uma única pessoa.

Olhei de novo pra mulher. A pele em decomposição, né… Que tal usar aquela magia? Por enquanto, só resta tentar.

Estalei os dedos. Magia de limpar a pele… achei que só serviria pra tratar espinhas, mas a pele dela foi voltando ao estado original. Até queimaduras conseguem ser tratadas assim… por que eu não pensei nisso antes? O rosto dela também foi voltando ao normal aos poucos… era mais jovem do que eu imaginava. Talvez um pouco mais velha que eu.

O que eu faço com a parte necrosada? Claro que não dá pra regenerar a pele dessa perna. Já apodreceu. Se ainda estivesse perto de morrer, talvez desse pra tratar, mas, uma vez morta, é impossível regenerar. …Só resta amputar.

Se bem me lembro, em cirurgias de necrose, se amputa a parte acima da área necrosada. Ou seja, cortar a partir da coxa dela.

A amputação só vai dar pra fazer com a minha espada. Se eu fizer sem anestesia, ela pode morrer de choque pela dor…

Espera um pouco. A magia das trevas é magia de cura e de destruição ao mesmo tempo, não é? Se eu lançar magia de cura, a dor deveria diminuir. Dessa vez, lancei o feitiço na capa. Certo, ficou limpa de novo.

— O que você vai fazer?

Ignorei a pergunta do Jill e dei um soco no plexo solar dela, desmaiando-a. É melhor ela não ver o próprio pé sendo amputado.

— Droga, deveria ter perguntado o nome dela antes de desmaiá-la.

— Rebecca.

O senhor Will respondeu no lugar dela.

— Rebecca… aguenta firme, viu.

Segurei a espada e respirei fundo devagar. Sentia meu próprio coração batendo cada vez mais rápido.

Logo depois de respirar fundo, baixei a espada com força total. A perna direita dela se soltou num instante, e uma quantidade enorme de sangue jorrou. Estalei os dedos na hora, e o sangramento diminuiu.

— Dói dói dói dói dói!!

Mas a dor acordou a Rebecca. O efeito da magia de cura parece um pouco lento. Não tinha jeito além de fazê-la suportar. Depois de confirmar que o sangramento tinha parado, rasguei a capa no tamanho certo e enrolei ao redor da perna dela.

— Socorro, dói. Sofrendo, dói dói dói dói.

— Ah, para com isso, que barulho! Não foi você quem pediu ajuda?

Como já falei várias vezes, eu não sou boa pessoa. Nessa hora, uma santa provavelmente a encorajaria com palavras gentis, mas eu sou uma vilã. Não pretendo dizer nenhuma palavra doce.

— Minha perna sumiu! Devolvam! Minha perna!

Ela se debatia, gemendo. O Jill a segurava com todo o corpo.

— Rebecca, se eu não tivesse amputado sua perna, você poderia ter morrido.

— Hã!? …Eu ia… morrer?

A Rebecca parou de se debater e arregalou os olhos pra mim.

— Sua perna estava necrosada, as células estavam mortas. A velocidade disso varia de pessoa pra pessoa, então não dá pra falar com certeza, mas, se deixasse assim, a necrose ia se espalhar e talvez você morresse. …Ainda está doendo?

A Rebecca ficou em silêncio diante das minhas palavras. Já deve estar quase na hora do efeito da magia começar a fazer efeito.

— …Não dói.

Ela disse isso com voz rouca.

— Minha pele… como que…

Ela se deu conta de repente e refletiu o próprio rosto na fonte. Arregalou os olhos, surpresa com o reflexo da própria imagem na água.

— Er, obri…

— Não precisa agradecer, viu?

Ela me olhou com os olhos arregalados. Não gostaria que me confundisse com uma boa pessoa.

— Eu não te ajudei por pura bondade.

A Santa também não deve ajudar as pessoas só por pura bondade. É certo que existe sempre a recompensa de ser vista como uma boa pessoa. Querer ser vista como alguém legal, querer ser gentil — com certeza existe sempre esse sentimento. Só que as pessoas chamadas de Santa não pedem essa recompensa de forma tão explícita.

E, se algo desagradável acontecer com elas, com certeza, em algum canto do coração, vão pensar "eu fiz tanto por você, fui tão gentil". As heroínas sempre dizem "se você não tem amigos, eu serei sua amiga" — mas talvez a outra pessoa goste mesmo de ficar sozinha, e isso pode até ser uma gentileza indesejada.

Eu sou o tipo de pessoa que acha que os humanos, no fundo, são todos hipócritas. A única diferença é se escondem isso dentro da sociedade ou expõem isso abertamente.

— Rebecca, você vai me pagar por isso.

A Rebecca mudou da surpresa pra uma expressão levemente amedrontada.

— Pagar?

Do Jill, recebi como pagamento o compartilhamento da inteligência dele.

No caso da Rebecca, o que eu deveria pedir… Olhos castanho-claros, cabelo prateado, um rosto bem-feito que revela inteligência.

— Rebecca, quantos anos você tem?

— Quinze.

Dois anos mais velha que eu…

— Por que pediu ajuda pra mim?

Parece que ela não esperava essa pergunta; me olhou surpresa.

— Você tinha um cheiro bom. Um cheiro que nunca existiria neste vilarejo. Deduzi que provavelmente você era de posição elevada.

— Não teve medo de que alguém de posição elevada pudesse te matar por segurar o pé dela assim?

— Não imaginei que alguém assim viesse voluntariamente até um lugar como este.

A Rebecca disse isso franzindo a testa. Ou seja, foi uma escolha inteligente pra sobreviver. Mesmo tendo conversado pouco, dá pra ver que a Rebecca tem boa percepção.

Foi então que olhei ao redor, por curiosidade. Sem que eu percebesse, a maioria das pessoas me olhava com olhos cheios de esperança. …Não pode ser. Será que, por causa da magia, eles se enganaram com alguma coisa?

Isso é problema. O papel de salvadora é da Santa. Se eu ganhar o título de salvadora deste vilarejo, falho completamente como vilã. Preciso evitar isso de qualquer jeito.

— Alicia?

O Jill espiou meu rosto. Acariciei de leve a cabeça dele e segurei a roupa esfarrapada da Rebecca com as duas mãos, aproximando o rosto dela do meu.

— Rebecca, você vai se tornar a salvadora deste vilarejo. Esse é seu pagamento.

Diante das minhas palavras, a Rebecca ficou de boca aberta.

Ah, será que ela não entendeu o sentido? Não faça essa cara de boba.

— Hã? Salvadora?

— Isso mesmo. Que bom que a mensagem chegou.

— Como assim?

— Bom… quero que você escute as vozes dos moradores deste vilarejo e me conte.

— Só isso?

— Claro que não é só isso. Por enquanto, é isso que eu quero que você faça.

Parece que ela ainda não entendeu minha real intenção. Bom, ela é inteligente, deve entender logo. Por enquanto, eu queria sair desse lugar… só resta usar magia de teletransporte, mesmo. Nunca usei em pessoas ainda, será que vai dar certo?

— Alicia, o que você vai fazer agora?

— Jill, não se preocupe. Deixe comigo.

O jeito como falei agora foi bem digno de vilã! "Deixe comigo" soa muito vilanesco. Que maravilha…

Fiquei embriagada com minhas próprias palavras. Aprendi essa frase lendo a biografia de uma bruxa famosa por ser vilã. É bem útil mesmo.

— Jill, senhor Will, Rebecca, vai dar uma sensação um pouco desagradável, mas aguentem firme.

Estalei os dedos com um estalo. No mesmo instante em que a parede mágica ao redor da fonte desapareceu, teletransportei nós quatro, incluindo eu mesma, pra casa do senhor Will.

…Consegui. Aqui é, sem dúvida, a casa do senhor Will.

— Incrível…

— É a casa do vovô!

— Nossa, isso é impressionante.

Os três ficaram olhando ao redor, atônitos. Aquela expressão de espanto deles… maravilhosa.

— O que é a Alicia, afinal… argh.

Antes que a Rebecca terminasse de falar, dei outro soco no plexo solar dela. Preciso conversar sobre algo importante com o Jill agora, então preciso que ela durma um pouco. Se ela ouvir, vai ser um problema. Sei que dizer que meu método é cruel, mas, sendo eu uma vilã, não tem jeito.

Peguei a Rebecca, que tombou pra frente, e a deitei na cama do senhor Will. …Pensando bem, eu consigo usar magia de fazer as pessoas dormirem. Teria sido mais rápido do que socar pra desmaiar… Só percebi isso agora, já é tarde demais. Desculpa, Rebecca.

Depois de deitar a Rebecca na cama, virei devagar em direção ao Jill.

— Por que você está com essa cara de bobo? Que feio.

— É falta de educação chamar alguém de bobo. Fique agradecido. Jill, você vai poder ir à academia de magia. Bom, como meu assistente pessoal e ajudante, mas ainda assim.

O Jill me olhou sem entender o que eu tinha acabado de dizer. Se ele não reagisse de algum jeito, eu não saberia se ele estava feliz ou não.

— Eu… vou poder sair… daqui?

— É exatamente isso.

Os olhos do Jill ficaram marejados.

— Com isso, eu cumpri minha promessa direitinho. Daqui pra frente, é você quem decide como vai vive…

Antes que eu terminasse de falar, o Jill se jogou no meu peito. Ele se agarrou à minha cintura, com os ombros tremendo. …O que eu deveria fazer numa hora dessas?

Abracei o Jill de volta, gentilmente. Aquele corpo pequeno, tremendo, me pareceu extremamente querido.

…Às vezes, até uma vilã pode ter esse tipo de sentimento, não é?

O Jill, exausto de tanto chorar, acabou adormecendo assim mesmo. Dava pra ver que os olhos dele estavam inchados. Deve ter chorado muito. Acariciei a cabeça do Jill e virei pro senhor Will. Agora é a parte principal.

— Senhor Will, ainda tem vontade de voltar pro palácio real?

Diante da minha pergunta, o rosto do senhor Will ficou subitamente sério. Talvez eu tenha feito ele se lembrar de algo desagradável, mas eu queria que o senhor Will também voltasse pro palácio real. E queria que aquela sabedoria dele fosse usada pra este reino. Não queria deixar alguém tão sábio quanto o senhor Will apagado assim.

— Agora, já não penso mais nisso.

— Como?

— Quando a Alicia disse pra Rebecca virar salvadora, eu quis ver, aqui mesmo, como o vilarejo de Roana vai mudar. Bom, meus olhos não conseguem ver, mas.

Dizendo isso, o senhor Will sorriu, franzindo os cantos dos olhos. Será que minhas próprias atitudes tiraram do senhor Will a vontade de voltar pro palácio!? …É culpa minha.

— Alicia, não se culpe.

De novo, o senhor Will leu meu coração. Sério, como ele sempre percebe assim?

— Alicia, você sabe o quanto me deixa feliz o fato de você agir assim por mim? Enquanto você continuar tendo esse sentimento por mim, eu vou querer viver mais um amanhã neste vilarejo de Roana.

— Não, não é isso, eu não tenho um sentimento tão nobre assim. Estou fazendo tudo isso só pelo meu próprio interesse. O motivo de eu querer que o senhor Will volte pro palácio real é porque eu quero aproveitar essa sabedoria.

Eu não tenho a intenção de dar esperança a ninguém. Isso não faz parte do papel de uma vilã.

— Então por que você se culpou por eu querer ficar aqui?

O senhor Will fala de um jeito que não me dá brecha nenhuma.

— Você pode simplesmente ouvir minha sabedoria aqui, usar pra si mesma, e usar isso lá no palácio real do seu jeito, não pode?

— Eu jamais faria uma covardia dessas.

Falei isso com firmeza. O senhor Will fez, por um instante, uma cara surpresa, mas logo sorriu.

— …Alicia, eu vou continuar aqui.

Essas palavras ficaram claramente gravadas nos meus ouvidos.

— Me desculpe por impor meu próprio egoísmo.

Dizendo isso, curvei profundamente a cabeça. Uma vilã nunca pede desculpas. Eu sei disso muito bem. Mas o senhor Will é o único que realmente me entende. Não quero perdê-lo. Esta é a última vez que curvo a cabeça.

Encostei o frasco que tinha ganho do Otou-sama nos lábios do Jill, derramando o líquido rosa-claro na boca dele. Seria uma pena acordá-lo enquanto dorme. Depois de confirmar que o Jill tinha bebido tudo, levantei ele com um braço só. Valeu a pena todo o treino que fiz até agora.

Tirei do bolso os macarons que tinha trazido pro Jill e entreguei ao senhor Will.

— Dessa vez, coma com a Rebecca, por favor.

— Muito obrigado.

Dizendo isso, o senhor Will me deu um sorriso caloroso.

— Acho que a essa hora todo mundo está dormindo, mas, por precaução, use isto. Cuide bem do Jill.

Dizendo isso, ele colocou uma capa surrada sobre mim. O Jill dormia tranquilamente nos meus braços. Do jeito que estava, não devia acordar tão cedo.

— Criar uma exceção pra alguém do vilarejo de Roana entrar na academia de magia… Alicia, você é realmente incrível.

O senhor Will murmurou algo, mas não consegui ouvir direito. …Se fosse algo importante, ele diria em voz mais alta, então não preciso me preocupar, né.

Fiz uma leve reverência ao senhor Will, saí da casa e atravessei a névoa correndo, carregando o Jill.

— Bom dia, Jill.

Falei isso pro Jill, que tinha acabado de acordar.

O Jill entreabriu os olhos e me olhou meio grogue.

— Alicia?

— Sim, sou eu.

— A cama tá tão fofinha…

De fato, o colchão da cama do senhor Will é bem duro. O Jill ainda parece meio sonolento.

— Onde é aqui?

— É a minha casa. E, a partir de hoje, este é o quarto do Jill. Pode usar como quiser.

Diante das minhas palavras, o Jill arregalou os olhos. Ah, parece que ele finalmente acordou de verdade.

— Meu!?

O Jill olhou o quarto com curiosidade.

— Então, se prepare. A partir de hoje, já vamos pra academia de magia.

— A partir de hoje?

O Jill me olhou surpreso.

— Sim. O processo de transferência já está todo resolvido. Você já deve saber, mas na academia de magia existe uma Santa.

— A Santa que dizem que traz paz ao mundo? Ela existe mesmo?

— Existe mesmo. E, a partir de agora, o que eu vou te contar é absoluto segredo. Você consegue prometer isso? Claro, segredo até dos meus irmãos.

O Jill assentiu com um rosto sério, profundamente. Naquele olhar, dava pra ver inteligência. Ter o Jill junto comigo é realmente reconfortante. Respirei fundo, levemente.

— Eu fui escolhida pra ser a vigilante dessa Santa.

— Vigilante?

— Isso mesmo. Preciso julgar se a Santa tem sabedoria suficiente pra ser digna do topo deste reino, e, se não tiver, preciso guiá-la até que consiga.

— Isso não vai fazer da Alicia uma pessoa muito boa? …Você não queria virar vilã?

O Jill inclinou levemente a cabeça.

— Se eu mudar o ponto de vista, viro perfeitamente uma vilã de respeito. Afinal, a Santa é amada por todo mundo.

— Entendi. Ou seja, mesmo dizendo palavras duras ou tratando a Santa mal pra guiá-la na direção certa, aos olhos dos outros, quem vai parecer vilã é a Alicia.

— Isso mesmo.

Sorri, satisfeita. Como esperado do Jill, raciocínio rápido.

— Você acha que consegue acompanhar minha vilania?

Falei isso pra provocar um pouco, e o Jill sorriu, meio sem graça.

— Quem você acha que eu sou? E, além disso, quando eu conheci a Alicia pela primeira vez, você já era bem impressionante.

…É verdade, não tenho como negar isso. Não me veio nenhuma resposta.

— E também, tem que manter em segredo que você é do vilarejo de Roana.

— Entendido.

— Depois que se trocar, saia do quarto. Vou esperar do lado de fora.

Quanto tempo faz que eu não venho à academia de magia. Como sempre, é um prédio absurdamente luxuoso.

Olhei pro Jill. Ele estava com a boca entreaberta, olhando pra academia.

— …Por que é tudo tão diferente assim?

O Jill murmurou isso numa voz rouca.

Quando o Jill saiu do vilarejo de Roana e viu o sol pela primeira vez, ele chorou. Não sei que tipo de sentimento ele estava vendo, olhando pro mundo em que a gente vive. Só sei que, com certeza, sentiu raiva daquela injustiça.

Eu também não consigo deixar de sentir dúvidas sobre a existência do vilarejo de Roana. Por que aquilo se agravou tanto assim… será que foi desde o reinado do atual rei?

— O que foi que eu fiz de tão errado?

O Jill virou o rosto pra mim. Os olhos dele pareciam levemente marejados, mas não havia sinal de lágrimas escorrendo. Só uma expressão sofrida, franzindo a testa. Aquela expressão me apertou o coração.

— O Jill acha que fez algo de errado?

O Jill balançou a cabeça, negando.

— Então, mantenha a cabeça erguida.

Diante das minhas palavras, o Jill olhou reto pro portão da academia de magia. E foi assim que atravessamos o portão da academia.

Segundo o Otou-sama, desde então, o poder mágico da senhorita Liz não sofreu mais nenhum descontrole.

— É a senhorita Alicia?

— É a irmã do senhor Albert, não é?

— Que fofa.

De repente, um grupo de senhoritas veio na minha direção, falando em vozes agudas.

— Então quer dizer que é irmã do senhor Henry e do senhor Alan?

— Realmente parece bonita como os irmãos.

Por que essas pessoas estão falando comigo sem nem se apresentar antes? Não é a primeira vez que nos vemos?

— Que estranho, vocês.

Diante das minhas palavras, elas ficaram paralisadas. No mesmo instante, ouvi uma voz suave e familiar.

— O que vocês estão fazendo?

Virei devagar em direção à voz.

…Como eu esperava, era a senhorita Liz. Como sempre, os olhos verde-esmeralda dela brilham. Atrás dela, também estavam meus irmãos. Parece até uma guarda de honra da senhorita Liz.

…O senhor Duke ficou bem mais adulto, de alguma forma. Ou melhor, ganhou ainda mais charme. Os outros também estão mais bonitos, claro, mas o senhor Duke é diferente de qualquer um dos outros.

— Alicia-chan, quanto tempo! O que houve?

— Alicia, aconteceu alguma coisa?

Seguindo o senhor Curtis, o Albert-nii-sama me disse isso.

— A senhora Alicia nos disse algo ofensivo…

Antes que eu dissesse qualquer coisa, uma das senhoritas do grupo falou isso. …Será que aquilo era uma ofensa mesmo?

— Alicia, é verdade isso?

O Albert-nii-sama me perguntou como se estivesse duvidando de mim.

— Eu só disse que elas eram estranhas.

— Por que você disse isso?

A senhorita Liz interrompeu. …Eu estava conversando com o Albert-nii-sama, sabia. Por que a senhorita Liz vem se metendo?

— A culpa é da Alicia-chan por isso. Não é doloroso quando dizem algo que fere o coração da gente? Não se deve fazer isso com os outros.

A senhorita Liz sorriu pra mim. …Esse sorriso, eu realmente não suporto.

— Falar com intimidade demais logo no primeiro encontro, sem saber nada sobre quem eu sou, é bem estranho.

Ela deve não ter esperado uma resposta assim. A senhorita Liz ficou muda, me olhando.

— Jill, vamos.

Falei isso e saí do local. Sentindo, nas costas, os olhares carregados de todo mundo, continuei andando sem olhar pra trás.

Nossa, como estou chamando atenção. Que desenrolar maravilhoso. Exatamente como eu esperava!

— Parece que a senhora Alicia disse coisas ofensivas pra uma aluna.

— Dizem que foi um absurdo!

— Parece que teve gente que tremeu e sentou de susto.

— Parece que muita gente chorou, e teve até quem desmaiasse.

Ah, que exagero. Boato mesmo é isso, se espalha num piscar de olhos com detalhes adicionados.

— Só porque entrou por caso excepcional, não precisa se achar tanto.

— Se bem me lembro, foi o próprio rei quem aprovou a entrada dela, não foi?

Boato, ou melhor, esse detalhe até já circula. Que informação rápida.

— E, ainda por cima, dizem que ela falou coisas horríveis até pra senhorita Liz.

— Ela nem se parece com os irmãos.

Também estão falando mal de mim. Parece que, afinal, eu tenho talento pra virar vilã.

— A propósito, quem é aquele garoto que está com ela?

— Que fofinho, hein.

— Ai, ele me olhou feio.

— Segundo os boatos, é plebeu; parece que entrou como assistente pessoal da senhora Alicia.

— Aquele garoto é tão impressionante assim!?

— Então quer dizer que foi a senhora Alicia quem convenceu o rei?

Também dá pra ouvir boatos sobre o Jill. Olhei na direção dele. Ah, que expressão terrível ele está fazendo. O rosto fofo dele fica arruinado. Bom, é assim mesmo que se espera de um assistente digno de uma vilã.

…!

De repente, senti alguém puxando meu braço com força.

— Ei, o que!?

— Alicia!!

Ouvi o Jill gritando meu nome pela última vez, e fui transportada por magia de teletransporte pra outro lugar.

Abri devagar as pálpebras. Uma sala com uma mesa grande no meio, cercada por estantes de livros, com sofás ao redor. Uma sala de reunião? Sinto um cheiro extremamente bom vindo dela.

Olhei pra mão que estava segurando meu braço. Uma mão bronzeada, grande e bonita… senhor Duke?

Devagar, olhei pro dono daquela mão.

Essa distância não está próxima demais? O charme dele quase me faz desmaiar. Espera, será que o senhor Duke sempre foi tão alto assim? Meu coração está prestes a explodir. Calma, Alicia. Uma vilã não se abala com uma coisa dessas.

— Onde é aqui, afinal?

— Sala do conselho estudantil.

— Entendo. Mesmo sendo o príncipe, me chamar por teletransporte assim do nada é falta de educação.

O senhor Duke já não gosta mesmo da senhorita Liz? Por que ele fez isso de raptar a mim assim de repente? Será que foi porque eu disse coisas duras pra senhorita Liz? Nossa… o amor é impressionante mesmo. Será que vou morrer assim mesmo?

— Por que você não recusou o pedido do meu pai?

— …!?

Será que ele está falando sobre o assunto de eu ser vigilante da senhorita Liz? Como o senhor Duke sabe disso!? Isso é grave, será que eu já cometi um erro logo de cara?

Enquanto eu ficava agitada por dentro, o senhor Duke continuava fixando o olhar em mim. Deve ser capaz de perceber num instante se eu tentar disfarçar. Aqui, é melhor agir com dignidade de vilã.

— Como o senhor sabe disso? Deveria ser segredo de estado.

— Informação é algo que dá pra saber, se a gente quiser.

Como esperado de um príncipe capacitado. Já sabe muito bem quem está tentando se aproximar da senhorita Liz.

— E então, o que o senhor Duke pretende fazer comigo?

Diante da minha pergunta, o senhor Duke ficou em silêncio dessa vez. Ou melhor, ele foi baixando o olhar devagar, fixando o diamante no meu pescoço.

…Será que ele vai pedir de volta o pingente?

Mas o senhor Duke estendeu a mão até o meu pescoço e ergueu o diamante.

Será que ele vai arrancar isso assim mesmo. Justamente a cena em que uma vilã é castigada por um príncipe. Poder vivenciar isso é uma honra. Vamos, aceito o desafio.

— No entanto…

De repente, o senhor Duke se abaixou um pouco e beijou o diamante com delicadeza.

— Ahn?

Acabei soltando um som sem querer. Diante de um desenrolar tão inesperado, minha cabeça não conseguia acompanhar.

Espera, o que foi isso agora mesmo? Meu coração está fazendo um barulho absurdo.

Será que isso é… alguma magia pra impedir que a senhorita Liz se aproxime de mim? Mas beijar um acessório que ele mesmo me deu, isso não faria sentido, né. Ah, minha cabeça não funciona mais!

— Que fofa.

Dizendo isso, o senhor Duke pousou a mão na minha cabeça de leve. Isso deveria ser considerado jogada suja. Meu coração está batendo ainda mais forte que antes. Quer dizer, senhor Duke, por que o senhor está fazendo isso de repente? Não parece que o senhor Duke faria isso com qualquer pessoa, e o alvo do coração do senhor Duke é a senhorita Liz, não é? Fazer isso pra maior vilã do mundo é bem perigoso, viu.

— O pedido de Sua Majestade só foi conveniente pra mim, mais nada. Não importa quantas maldades eu cometa, enquanto tiver a permissão de Sua Majestade, ninguém pode reclamar.

— Uma menina que fica com o rosto vermelho por causa de um único beijo meu, que tipo de maldade ela poderia cometer?

O senhor Duke disse isso com o canto da boca levemente erguido, num ar provocador.

…Hã? Será que o senhor Duke sempre teve essa personalidade? Ou melhor, ele está debochando muito de mim, não está?

De fato, ficar com o rosto vermelho sendo uma vilã é um erro imperdoável.

— Eu sou uma pessoa realmente má.

Deixando essas palavras de despedida, saí correndo da sala do conselho estudantil.

— Jill.

Depois de escapar do senhor Duke com sucesso, corri até encontrar o Jill.

— Alicia!

O Jill correu até mim na hora. Soltou um suspiro de alívio ao me ver.

— Você está bem?

— Sim, estou bem.

— Quem te fez teletransportar?

O Jill me perguntou com uma expressão séria.

— Foi o senhor Duke, da família Seeker.

— O filho do rei… príncipe?

— Isso mesmo.

O Jill franziu a testa, pensativo. Queria dizer pra ele não fazer essa cara, senão ele vai acabar com essa expressão de vez, mas, quando o Jill está pensando com essa cara, ele não escuta nada mesmo que eu fale com ele.

— O que o filho do rei quis com a Alicia?

— …Sei lá, deve ter só me provocado.

Claro que os professores não sabem de nada sobre a situação real, mas, por ser aceita como caso excepcional, consegui um privilégio especial: pude pegar emprestado o artigo escrito pela senhorita Liz. Li isso junto com o Jill ontem à noite, e, resumindo em uma palavra, era só idealismo puro. Simplificando, a ideia era que todas as pessoas do mundo são iguais.

Todos os seres humanos são iguais, não se deve discriminar por conseguir usar magia ou não, não se deve estabelecer superioridade entre as pessoas — era esse o teor. É verdade que não está exatamente errado, mas é típico pensamento de heroína.

Minha missão de hoje é mostrar a ela que existem outros modos de pensar. Recompus o ânimo e fui até onde estava a senhorita Liz.

— Está bem luxuoso, hein.

O Jill disse isso com uma cara de desagrado.

— Parece que hoje é um chá da tarde no jardim de rosas.

Entrei no jardim de rosas ao lado do Jill. A partir de agora, vamos estragar essa festa. Sinto muito por todo mundo, mas isso é necessário pra espalhar meu nome como vilã… não, pra não deixar o pensamento da senhorita Liz enviesado. Assim que entrei no jardim de rosas, os olhares de todos se voltaram imediatamente pra nós.

— Ali.

O Albert-nii-sama se aproximou de mim. Desculpa, Albert-nii-sama, agora não tenho tempo pra me preocupar com o senhor.

Fui direto até a senhorita Liz. Ao redor dela, estava reunido o grupo de sempre. Realmente, a heroína é popular mesmo.

O senhor Duke me olha com um olhar penetrante. Gostaria que parasse de me olhar assim. Parece que ele está lendo todos os meus pensamentos.

— Alicia-ch…

— Senhorita Liz, vou perguntar diretamente: a senhorita realmente acredita que todos neste mundo são iguais?

Interrompi a voz da senhorita Liz com minha pergunta.

— Er… por que essa pergunta de repente?

A senhorita Liz me olhou com uma expressão confusa.

— Mudo a forma da pergunta. A senhorita acha que é estranho estabelecer superioridade entre as pessoas, não acha?

— Sim, claro que sim.

— Então, também deveria ser estranho a existência desta academia, não é?

— Hã? Não entendo o que a Alicia-chan quer dizer.

— Li o artigo da senhorita. Antes de mais nada, deixe-me dar minha opinião. Eu acho que se deve, sim, estabelecer superioridade entre as pessoas.

— Isso é estranho. Cada pessoa tem uma habilidade diferente. Não se deve estabelecer superioridade nisso.

— Então a senhorita também não precisaria do cargo de rei?

Diante disso, os olhares ao meu redor ficaram afiados na hora. Fui completamente marcada como inimiga. Exatamente como eu queria!

— Está insultando Sua Majestade o rei?

O senhor Gale disse isso ajeitando os óculos.

— …Alicia-chan, eu acho que o melhor é viver como se é de verdade.

A senhorita Liz me lançou um sorriso de anjo. Os alunos ao redor, incentivados por aquele sorriso, assentiram, concordando com a opinião dela.

— A senhorita Liz está certa.

— A senhora Alicia parece só pensar em si mesma.

— Ela insultou Sua Majestade!

Ouço as vozes dos alunos ao redor. Isso, é exatamente essa a situação de uma vilã! O desenrolar perfeito.

— Não desvie do ponto. Estou falando se se deve ou não estabelecer superioridade.

— Já disse várias vezes, não acho que se deva estabelecer superioridade.

— Então, também é contra estabelecer superioridade entre habilidades diferentes?

— Como?

Por que ela está com essa cara tão confusa. Não entendo.

— Antes de mais nada, foi por ter suas habilidades reconhecidas — ou seja, houve superioridade nisso — que a senhorita conseguiu entrar nesta academia, não é?

— A Liz entrou aqui porque o esforço dela foi reconhecido!!

Diante das minhas palavras, o senhor Eric, de cabelo vermelho como fogo, levantou a voz. Soltei um pequeno suspiro.

— Isso eu já sei bem. Então, se todos os plebeus se esforçassem tanto, ou o dobro do que a senhorita Liz, conseguiriam entrar nesta academia?

Diante da minha pergunta, o senhor Eric ficou calado. Primeira vez que ele me olha com tanta hostilidade. Como esperado, cresci mesmo como vilã.

— Posição, família, tempo, aparência, poder econômico, capacidade — nada disso é dado de forma igual a todos. Mas todo ser humano tem, igualmente, o "direito" de viver como quiser. Como usar esse direito depende do esforço e da capacidade de cada um.

— É isso que a Alicia-chan quer dizer com estabelecer superioridade?

A senhorita Liz disse isso pra mim, como se tivesse compreendido algo.

— Liz! Não precisa ouvir a opinião desse tipo de gente!

Um aluno interrompeu do lado.

— Você também está do lado que concorda com a opinião da senhorita Liz?

— Sim! Sou!

— Então, tenho uma pergunta pra você. Como você pretende criar um mundo sem superioridade nenhuma?

O aluno ficou na hora sem saber o que dizer. …Ele não tinha pensado em nada mesmo.

— Se fosse eu, primeiro eliminaria a parede que simboliza a pobreza deste reino — o vilarejo de Roana.

A senhorita Liz disse isso pra mim com um tom firme. Olhei pro Jill em busca de confirmação. Ele estava olhando pra senhorita Liz com uma expressão de descrença. …Eu sinto o mesmo.

— Fazer isso desestabilizaria a ordem, sabia?

— Você está dizendo coisas diferentes de agora há pouco!

O aluno que estava parado ao lado, boquiaberto, gritou pra mim.

— "Você"? Quem você pensa que é pra falar assim comigo?

Encarei aquele aluno com um olhar carregado de força. Especialmente, vou aplicar pressão mágica pra completar o efeito.

De repente, o ar ficou pesado, e o aluno começou a tremer as pernas. Nossa, como estou vilanesca agora. Se existisse internet neste mundo, com certeza eu transmitiria isso ao vivo.

— Pare!

A senhorita Liz gritou. Com a voz dela, o ar ficou mais leve. Deve ter cancelado facilmente porque o poder mágico dela é maior que o meu. Que inveja, ser heroína!

— Falar de ideais é uma coisa, mas, antes de derrubar a parede do vilarejo de Roana, existem inúmeros problemas que precisam ser resolvidos primeiro.

— Mas o que precisa ser priorizado, acima de tudo, são os sentimentos dos moradores do vilarejo de Roana. Com certeza eles desejam que a parede desapareça. Acho que, só de a parede sumir, já traria paz.

— Eu também acho isso!

— Isso, a senhorita Liz está certa!

— Vá embora, demônio!

— Queria que fosse embora logo daqui.

— Estragou a festa que estava tão boa!

Todos gritavam juntos, como se fossem uma só voz.

Todo mundo aqui é idiota ou o quê… derrubar a parede sem nenhum plano concreto só vai fazer o descontentamento acumulado até agora explodir, e vai virar rebelião, com certeza. A senhorita Liz devia visitar o vilarejo de Roana pelo menos uma vez. Aí sim entenderia o quão difícil é a situação atual. Nem preciso olhar pro rosto do Jill pra imaginar a expressão dele. Deve ter passado do desprezo, indo direto pro desdém.

Já sem vontade nenhuma de continuar rebatendo, dei uma olhada ao redor e, sem querer, cruzei o olhar com o senhor Duke. O senhor Duke parece estar se divertindo com essa situação toda…?

Como vigilante de Kate Liz, acho que é hora de encerrar isso por aqui.

— Por último, deixe-me perguntar só mais uma coisa: a senhorita Liz tem espírito de competição?

Diante da minha pergunta, a senhorita Liz respondeu na hora, com o sorriso de anjo.

— Meu único rival é sempre eu mesma. Quero ser melhor hoje do que fui ontem.

— Entendo. Que pensamento maravilhoso… Mas, veja bem, a rivalidade e o espírito competitivo às vezes fazem as pessoas crescerem. Ou seja, estabelecer superioridade também é necessário pra fazer os seres humanos evoluírem. Afinal, se tudo fosse igual, a individualidade morreria.

Dizendo isso, sorri e deixei o jardim de rosas com o Jill. Acho que já cumpri meu objetivo de hoje, não é?

A senhorita Liz é considerada inteligente, então com certeza ela entendeu o que eu quis dizer. Sem querer, meus lábios relaxaram num sorriso. O Jill parece meio incomodado com meu sorrisinho bobo, mas isso não me importa. Porque, agora mesmo, estou me sentindo maravilhosamente bem.

Será que, a partir de amanhã, todo mundo vai começar a me chamar de vilã? Ah, que satisfação enorme. Hoje à noite vou dormir super bem!

— Senhor Will!

— Vovô!

Depois de voltar da academia e tirar uma soneca, eu e o Jill fomos até o senhor Will no meio da noite.

— Alicia, Jill, sejam bem-vindos.

— Alicia, Jill, boa noite.

Atrás do senhor Will, a Rebecca apareceu, se apoiando numa muleta. Ah, ela parece bem recuperada. De alguma forma, dá pra sentir que ela já encontrou seu papel aqui.

— Como a Alicia me disse, tenho ouvido, ao máximo, a opinião dos moradores deste vilarejo, e…

— Espera um pouco, com isso você não acabou sendo atacada por alguém?

— Pelo contrário, todo mundo tinha medo de mim, na verdade.

— Ah, é que este povo do vilarejo viu magia pela primeira vez.

— Isso mesmo. Por isso, todo mundo acha que eu tenho a Alicia por trás de mim, então obedeceram direitinho.

A Rebecca e o Jill vão levando a conversa adiante sem mim. Ah, esse é um desenrolar excelente, não é? Um chefe secreto por trás da salvadora — e esse chefe sou eu. Ai, não consigo evitar sorrir sem querer.

— E aí, o que a maioria disse?

A Rebecca disse isso com uma expressão séria.

— Oitenta por cento disse que quer causar uma rebelião.

Se as pessoas deste vilarejo realmente decidissem se rebelar de verdade, a cidade vizinha ia com certeza ser destruída. Sempre pensei que, se essa determinação deles virasse realidade, seria o fim. Regras não vão funcionar contra eles.

— O que a gente faz?

A Rebecca esperava minha próxima ordem. Sei que prevenir a rebelião passa por melhorar o vilarejo, mas isso não vai acontecer de um dia pro outro.

— Que tal transformar esse desejo de rebelião em outra coisa?

O Jill disse isso, tocando o queixo com a mão. É o gesto que ele faz quando está pensando.

— Não é uma má ideia, mas acho que a insatisfação com nós, nobres, deve ser mais forte do que eu consigo imaginar. Eu mesma nunca sei quando posso ser morta pelas pessoas deste vilarejo.

— Não, acho que, do jeito que a Alicia está agora, você consegue chamar bastante atenção aqui. Também tem gente que comentou sobre o que aconteceu ontem.

A Rebecca disse isso na hora.

…Chamar atenção? Sinceramente, eu nem tenho a menor vontade de melhorar o vilarejo de Roana. Só não gosto de bagunçar a ordem social, e detesto a discriminação de classe…

— Nenhum nobre nunca tinha vindo até este vilarejo antes, e você realmente me ajudou.

Talvez tenha percebido minha expressão, a Rebecca falou isso com um tom suave. É verdade que, mesmo com pouca conversa, dá pra perceber que a Rebecca tem uma boa percepção. Como que a heroína não consegue fazer isso?

— Alicia? Aconteceu alguma coisa?

O Jill espiou meu rosto. Ah, não devia, mas acabei me perdendo em pensamentos completamente diferentes.

— Não é bom eu ser tão bem-vista assim. Preciso baixar minha popularidade.

— Os pessoal da academia de magia dizem essas coisas bonitas, mas, no fundo do coração, no fundo, eles desprezam a gente do vilarejo de Roana. Então, se a popularidade da Alicia subir aqui, na verdade, é positivo pro seu lado vilã.

O Jill disse isso, num tom neutro, sem expressão.

— Vilã? O que é isso?

A Rebecca me olhou intrigada.

…Isso é top secret, então não posso contar pra Rebecca. Talvez um dia chegue a hora de contar, mas, por enquanto, ainda é segredo.

— Não é nada.

Respondi pra Rebecca sorrindo radiante.

Toc toc, o som de alguém batendo na porta do quarto me acordou de manhã cedo. Sendo tão cedo assim, com certeza não é a Rosetta.

— Ali~?

Hã? …Henry-nii-sama? Levantei da cama depressa e abri a porta.

— Desculpa acordar você dormindo.

— Ah, não, tudo bem. Aconteceu alguma coisa?

— Posso entrar?

— Pode.

Deixei o Henry-nii-sama entrar. É raro o Henry-nii-sama vir sozinho no meu quarto. Sinto algo estranho…

— É que… a Ali não gosta da Liz?

Ah, não esperava uma pergunta tão direta assim. Será que ele vai me pedir pra fazer as pazes com a senhorita Liz?

— Mais do que não gostar, eu não me dou bem com ela.

Já que não tinha motivo pra mentir, respondi com sinceridade. O Henry-nii-sama me olhava sem mudar de expressão. Faz tempo que não olho pra ele com atenção — o Henry-nii-sama ficou bem mais adulto. Parece até mais firme que o Alan-nii-sama. Bom, mesmo sendo gêmeos, é natural que a atmosfera de cada um seja diferente.

— Ultimamente, não tenho visto o Henry-nii-sama e o Alan-nii-sama juntos com frequência.

Diante da minha pergunta repentina, o Henry-nii-sama arregalou os olhos. Os olhos roxos dele ficam bem visíveis assim. Um pouco mais escuros do que quando ele era criança.

— Ultimamente, minhas opiniões e as do Alan não batem.

Dizendo isso, o Henry-nii-sama sorriu levemente. Opiniões que não batem? Até entre gêmeos, existem essas coisas, né.

— Eu e o Alan estávamos juntos desde que nascemos, né? Isso sempre foi normal pra mim, e eu nunca achei um sofrimento nisso. Nós pensávamos parecido, e ele era meu maior compreensor. Mas, desde que a Liz apareceu, aos poucos, fomos mudando.

O Henry-nii-sama disse isso com um leve tom de tristeza. No jogo, se bem me lembro, o Henry-nii-sama deveria se apaixonar pela senhorita Liz.

— Eu tinha orgulho de ser gêmeo com o Alan. Sentia como se nós dois tivéssemos uma única identidade.

— Isso soa meio nojento, hein.

Falei em voz alta exatamente o que pensei. Provavelmente, sem perceber, também fiz uma cara de desagrado.

— É mesmo, né?

O Henry-nii-sama riu sem se ofender.

— A Liz me disse: "Henry é Henry, Alan é Alan. Então o Alan não precisa tentar virar o Henry, e o Henry não precisa virar o Alan."

…Uma fala bem típica de heroína. Com certeza foi dito com aquele sorriso de anjo dela. Mas, se isso fez o Alan-nii-sama mudar de pensamento, por que o Henry-nii-sama não mudou também?

— Diante disso, o Alan-nii-sama achou que finalmente alguém o via de verdade, e se apaixonou pela senhorita Liz?

Diante da minha pergunta, o Henry-nii-sama piscou os olhos, surpreso. Não precisa ficar tão surpreso assim, isso é básico pra quem, na vida passada, jogava otome game.

— E, então, o que o Henry-nii-sama achou?

— Ah, quando ela disse isso pra mim, também senti meu coração disparar, na verdade.

— Sentiu mesmo!?

— Sim, bom, aquele sorriso puro dela, aquela gentileza dela… fui gostando dela aos poucos.

Como esperado, o poder da heroína é imenso mesmo.

— O Albert-nii-sama e o Alan-nii-sama não pensaram diferente?

— O Al-nii e o Alan estão completamente apaixonados pela Liz.

Ou seja, minhas palavras fizeram o Henry-nii-sama se dar conta do próprio sentimento verdadeiro. Mesmo entre irmãos, é meio diferente mesmo, né.

— Foi por isso que veio até aqui só pra me contar isso?

— Não, não é só isso.

O Henry-nii-sama de repente ficou com uma expressão séria e me olhou. Tenho um mau pressentimento.

Se o Henry-nii-sama tem um pensamento parecido com o meu, é natural que a pergunta que ele vai fazer agora não seja uma que eu queira ouvir. Fiz uma cara meio contraída. O Henry-nii-sama me olhava como se estivesse me sondando.

— Ali, o que você está tramando, afinal?

Se ela não gosta da senhorita Liz, é natural sentir estranheza com meu comportamento. A opinião da senhorita Liz também não está errada, só é que eu não gosto dela.

— E, aliás, quem é aquele garoto?

Aquele garoto deve ser o Jill, né? Fiquei intrigada, já que ninguém tinha perguntado até agora. Mas o assunto do vilarejo de Roana é segredo…

— Ele é meu assistente.

— Não é isso que eu quero saber.

— Eu sei.

O Henry-nii-sama soltou um suspiro fundo. Ele já deve saber que, quando eu decido algo, não abro a boca. Como esperado do meu irmão, desiste rápido, o que é bem prático.

— E, além disso, eu não estou tramando nada.

Disse isso sorrindo. Provavelmente o Henry-nii-sama já percebeu que é mentira.

— Então, não vai me contar mesmo, né.

O Henry-nii-sama me olhou com um rosto insatisfeito. Afinal, é segredo mesmo.

Pensando bem, se minhas palavras fizeram o Henry-nii-sama enxergar a senhorita Liz com desconfiança, será que existem outras pessoas assim também? Sinceramente, não sei bem sobre o senhor Duke. Existe até a possibilidade de que ele esteja apenas me envergonhando por implicância.

— A propósito, além do Henry-nii-sama, tem mais alguém assim?

— Não sei, mas acho que todo mundo gosta da Liz.

— É verdade, não teria motivo pra não gostar.

— Bom, o que se passa dentro do coração, ninguém sabe.

Dizendo isso, o Henry-nii-sama olhou pro teto. Provavelmente, consigo adivinhar a próxima frase que ele vai dizer.

— "Quero conversar com aquele garoto."

O Henry-nii-sama arregalou os olhos, me olhando. Sabia que ele ia dizer isso.

Será que dá pra deixar eles se encontrarem? A questão é se o Jill vai abrir o coração pro Henry-nii-sama. Não que eu precise de aliados, mas… acho que o Henry-nii-sama consegue se dar bem com o Jill.

— Pode?

O Henry-nii-sama me olhou com olhos cheios de expectativa. Soltei um pequeno suspiro.

— Pode.

O rosto do Henry-nii-sama se iluminou na hora.

— Obrigado, Ali!

Não fiz nada que mereça agradecimento. Só fiquei curiosa de ver como o Henry-nii-sama ia conseguir abrir o coração do Jill.

— Jill, posso um instante?

— Alicia? O que foi?

— Vou entrar no quarto.

Eu e o Henry-nii-sama abrimos devagar a porta do quarto do Jill e entramos. O Jill nos olhava com uma expressão desconfiada.

— Jill, deixa eu te apresentar. É meu segundo irmão.

— Irmão?

— Isso mesmo. Ele quis conversar com você.

O olhar do Jill mudou. Ele encarava meu irmão como se estivesse em guarda.

— Eu não tenho nada pra conversar com esse cara.

O Jill ficou defensivo. Como será que meu irmão vai lidar com isso? Ah, que interessante. Meu irmão também estava encarando o Jill com um ar intenso, surpreendentemente. Diferente do jeito que eu tinha imaginado. Achei que seria do tipo da heroína, aproximando de alguém trancado no medo sem motivo aparente, dizendo "está tudo bem" com um sorriso pra ganhar a confiança… mas será que o Henry-nii-sama também é parecido comigo?

— O que foi?

O Jill disse isso, sem desviar o olhar do Henry-nii-sama.

— Você é o assistente da Ali, não é?

— Sou.

— Então trate de melhorar sua atitude um pouco.

— Hã? Por que eu precisaria ficar sorrindo e sendo simpático?

— Sorrindo? Isso não é necessário nenhum.

— Então o que você quer dizer?

O Jill levantou uma sobrancelha ao dizer isso.

— Você sabe qual é a característica da pessoa mais assustadora que existe? É aquele cujo rosto não deixa transparecer expressão nenhuma. Você deixa transparecer demais. Quando eu entrei aqui, você teve um instante de medo no rosto, não teve?

— Não tive.

— Teve, sem perceber. Não sei o motivo, mas você tem um medo extremo de qualquer um que não seja a Alicia. Estava totalmente estampado na sua cara.

— Não estou com medo de nada.

O Jill disse isso emburrado. De alguma forma, o Henry-nii-sama parece uma pessoa completamente diferente do de sempre. E o Jill começou a parecer um garoto da idade dele mesmo.

— Não estou dizendo pra não sentir medo. Só estou dizendo pra não deixar transparecer isso na expressão. Já que a Ali te escolheu como assistente, você deve ser bastante capaz, não é?

— E daí?

— Se alguém consegue ler sua expressão, num piscar de olhos, seu ponto fraco fica exposto.

O Jill ficou em silêncio, olhando pro Henry-nii-sama.

Será que o Henry-nii-sama ficar sempre sorridente é justamente pra esconder uma personalidade sombria? Sei que o sorriso do Albert-nii-sama tem algo por trás, mas nunca tinha sentido nada de sombrio vindo do Henry-nii-sama. Sempre achei que fosse um sorriso puro.

— Não importa a vida que você teve até agora, mas, daqui pra frente, você vai ficar ao lado da Ali, não vai? É melhor aprender a esconder bem seu coração. No fim, quem sobrevive é sempre quem tem habilidade pra isso.

Percebi que a guarda do Jill tinha caído por completo. Não estava mais encarando o Henry-nii-sama com hostilidade como antes.

— Meu nome é Jill.

O Jill abriu a boca. Se ele disse o nome dele, quer dizer… vitória do Henry-nii-sama. O Henry-nii-sama sorriu de leve.

— Eu sou o Henry, prazer em conhecer.

— Por aqui.

Uma criada de expressão gentil, usando um vestido bordado em azul-claro, me guiava. Um vestido bem luxuoso, né. Deve ser uma das criadas de posição mais alta.

Er, e por que eu estou agora, por algum motivo, na casa do rei… no palácio real. Ser chamada por Sua Majestade nunca costuma trazer nada de bom.

— É aqui.

Fui levada até uma porta cerca de três vezes maior que a da minha casa. O rei mora num lugar tão luxuoso assim, né. O teto é altíssimo, o corredor comprido tem itens de luxo dispostos por toda parte — só de olhar já cansa.

Na frente da porta, havia dois guardas enfileirados. Queria saber por que fazem essa porta tão grande assim. Com tanta segurança reforçada, uma porta desse tamanho… será que tem um dragão lá dentro?

— Então, com licença.

A criada disse isso, fazendo uma reverência educada, e foi embora. Ah, eu também queria ir embora daqui. Já sei que, atrás dessa porta, não é um dragão, e sim o rei.

Os guardas abriram devagar a porta enorme. Deve ser uma porta bem pesada mesmo… Meu ânimo está igualmente pesado. Acalmei o coração e inspirei levemente.

— Com licença.

Fiz uma leve reverência e avancei. Que quarto enorme. Dava pra correr uma prova de cinquenta metros aqui dentro. Numa mesa comprida, que não parece ter propósito nenhum, o rei está sentado bem no fundo. E, além disso, os chefes das Cinco Grandes Famílias… e a senhorita Liz!? Por que a senhorita Liz está aqui? E, ainda por cima, sentada ao lado do senhor Duke. Normalmente ela sentaria numa posição inferior, não é? Estar sentada ao lado do senhor Duke, à frente do Albert-nii-sama e dos outros, do senhor Gale, do senhor Curtis, do senhor Eric e do senhor Finn — como esperado da heroína. …Então, afinal, que tipo de reunião é essa?

— Alicia, tenho uma coisa que quero te perguntar.

…Ah, não gosto nada disso. Esse clima com certeza não é bom pra mim. Se o Jill estivesse ao meu lado, eu me sentiria mais segura. Mas me disseram pra vir sozinha.

— O Reino de Duran entrou em colapso econômico.

A voz grave e cheia de autoridade do rei ecoou nos meus ouvidos. Colapso econômico? Ah, é exatamente como eu previa.

— Como você soube que isso ia acontecer?

O senhor Joan disse isso me encarando fixamente. Antes de mais nada, eu nunca disse que achava que o Reino de Duran ia entrar em colapso econômico, né. Será que o senhor Joan consegue ler minha mente?

— Faz três anos, a Ali-chan não escreveu isso no quadro-negro? Na antiga biblioteca da academia de magia, sobre como colocar o Reino de Lavarre sob nosso domínio, comprando o Reino de Duran. Por isso, achei que talvez a Ali-chan tivesse previsto que aquele reino entraria em colapso econômico.

O senhor Curtis disse isso pra mim com gentileza. Ah, é verdade, teve isso mesmo.

— Como você sabia disso?

O senhor Joan tem sempre um jeito de perguntar meio assustador. Será que ele sabe que eu sou só uma garota de treze anos? Gostaria que elogiasse mais minha coragem de ter vindo sozinha até aqui.

Respirei fundo, levemente, antes de abrir a boca.

— Contradição entre capacidade produtiva e poder de compra.

Quem demonstrou surpresa foi a senhorita Liz. O rei, os chefes das Cinco Grandes Famílias, o senhor Duke, o Albert-nii-sama, e — surpreendentemente — o senhor Finn não mostraram nenhuma surpresa. Sim, como se já soubessem de antemão… Ah, entendi o sentido dessa reunião. É pra ver como eu vou julgar o pensamento da senhorita Liz, não é? Ou seja, isso é uma espécie de teste pro meu papel de vigilante?

— Contradição entre capacidade produtiva e poder de compra?

A senhorita Liz repetiu minhas palavras, arregalando os olhos.

— Isso mesmo. O Reino de Duran vinha aplicando, há cerca de quatro anos, uma política de produção em massa.

— Eu sabia disso também. Mas isso deveria ter enriquecido a economia, não deveria?

— Só nos primeiros meses. Se for estudar, estude direito.

Sorri e disse isso pra senhorita Liz. Se ela continuar assim e um dia assumir a função de comandar o reino… temo pelo futuro.

— A Liz está sempre estudando, sacrificando até o sono!

O senhor Eric gritou na minha direção. Será que ele é bobo? Só tem tamanho no corpo e na atitude, o cérebro dele deve ser pequeno.

— Acho que é melhor dormir bem do que perder o sono pra ter um conhecimento superficial e impreciso.

— Você não sabe de nada, não fale por falar.

Será que se esforçar é algo que se faz na frente dos outros? Bom, meu senso comum deve estar mesmo desalinhado com o deste mundo.

— Eric, não repreenda a Alicia-chan por isso. Vamos nos dar bem. Eu que estava com falta de estudo, me desculpe.

Dizendo isso, a senhorita Liz se desculpou comigo, parecendo arrependida. Realmente, é bem a cara de heroína, sincera assim. Aliás, desde quando ela passou a chamar o senhor Eric pelo primeiro nome sem honorífico… são bem próximos mesmo.

— Sabe o quanto é grave faltar mesmo que seja um único pedaço de informação, não sabe?

— Vou me esforçar mais.

A senhorita Liz respondeu com firmeza. De alguma forma, todos olham pra senhorita Liz como se estivessem torcendo por ela. Mesmo assim, a expressão do Henry-nii-sama era só teatro, não era? Impressionante. Também não posso ficar pra trás.

— Esforço? A senhorita Liz acha que o esforço sempre é recompensado?

Ri com deboche, olhando pra senhorita Liz.

— Sim. O esforço, se continuado, com certeza é recompensado.

— Esforçar-se sem obter resultado não tem sentido nenhum.

— O resultado sempre acompanha quem se esforça.

Todos assentiam diante das palavras da senhorita Liz. Crianças puras como ela realmente conquistam a simpatia de todo mundo, né.

O senhor Duke e o Otou-sama não reagem. Isso significa… será que existem, além do Henry-nii-sama, outras pessoas fingindo também?

— Aquilo que se consegue continuando a se esforçar não é o resultado, e sim confiança.

Todos os olhares se voltaram de uma vez pra mim. Soltei um pequeno suspiro antes de continuar a falar.

— Voltando ao assunto, o Reino de Duran caiu em colapso econômico porque a produção excessiva o levou a um estado de incapacidade de consumo. …Então, é agora que devemos comprá-lo!

Falei isso com um sorriso radiante. Dizer uma fala dessas sorrindo assim deve render bastante pontuação como vilã.

— Comprá-lo?

— Sim, e transformá-lo em posse do Reino de Dulkis, vendendo um favor a eles. Nesse ritmo, ganhamos também os reinos vizinhos ao Reino de Lavarre como aliados, e vamos isolando o Reino de Lavarre aos poucos.

— O que vai acontecer com o povo do Reino de Duran?

— Não sei. O objetivo é colocar o Reino de Lavarre sob domínio do nosso reino.

— Isso é cruel demais.

A senhorita Liz me olhou com uma expressão severa.

— O povo do Reino de Duran não tem culpa nenhuma.

— Mas, se a situação fosse realmente terrível assim, eles poderiam ter fugido pra qualquer país vizinho, não é?

— Mesmo assim, isso é um absurdo! Você não está nem um pouco pensando no povo do Reino de Duran! Se, depois de ser comprado pelo Reino de Dulkis, eles morrerem de fome, a Alicia-chan não sentiria nada?

— Sim. Ou melhor, a política de depois não é algo que eu decido.

— É irresponsável.

A senhorita Liz me olhou com desprezo. Não só ela, mas o Albert-nii-sama e o senhor Eric também. Os dois já estão completamente rendidos à senhorita Liz.

— Então, o que a senhorita Liz faria?

— Eu faria uma aliança, em vez de comprar!

— Com um reino que entrou em colapso econômico?

— Isso mesmo.

Não consegui evitar rir. Isso deixou até o rei e as Cinco Grandes Famílias sem palavras. É natural que fiquem assim.

— A senhorita Liz é realmente engraçada. Fazer aliança com um reino falido, que benefício isso traria pro nosso reino?

— Ficar olhando só pra lucro faz a gente perder de vista coisas importantes.

O que ela está dizendo? Parece até uma santa mesmo! …Bom, é isso mesmo que ela é.

— O que a senhorita pretende fazer depois de formar a aliança?

— Bom, vou ajudá-los a estabilizar a economia.

Ainda bem que o Jill não está ao meu lado agora. Com certeza ele estaria gritando com a senhorita Liz sem conseguir esconder o que sente.

— A senhorita acha que este reino, que já carrega o vilarejo de Roana, tem margem pra ajudar outro país?

— Isso…

A senhorita Liz travou nas palavras.

— O pensamento da senhorita Liz não leva em conta o futuro nenhum.

— Mas eu desejo a recuperação econômica do Reino de Duran!

— Só desejar? Sem apresentar nenhum plano concreto?

— Então, com ajuda deste reino…

— Sua cabeça tem miolos de verdade aí dentro?

Diante das minhas palavras, a senhorita Liz finalmente ficou sem palavras.

— Ei! Você sabe o que acabou de dizer!?

O senhor Eric levantou a voz, vermelho de raiva. Ah, ser gritada assim pelo cavaleiro da senhorita Liz é exatamente digno de vilã.

— Nessa situação, que benefício teria pro reino formar aliança com o Reino de Duran? O Reino de Duran hoje já está decadente, sem nenhuma utilidade.

— Alicia!!

Finalmente, a paciência do Albert-nii-sama chegou ao limite. Consegui deixá-lo furioso!

— Não deveríamos agir só buscando lucro. Se você agir assim, com certeza vai receber o troco algum dia.

A senhorita Liz disse isso com uma voz calma e serena.

— Seu ideal maravilhoso só vai se realizar se houver lucro pra sustentá-lo. Servir aos outros é decisão sua, mas pensar isso em escala de reino é uma tolice.

— Alicia, saia daqui agora.

O Albert-nii-sama disse isso, contendo a voz. Dava pra ver os punhos dele cerrados, tremendo em cima da mesa. Deve estar bem irritado, mas sou uma vilã. Não vou obedecer ao que o Albert-nii-sama diz.

— Enquanto Sua Majestade não ordenar que eu saia, tenho o direito de continuar aqui.

Endireitei a postura e olhei diretamente pro Albert-nii-sama. O rei, sem dizer nada, franziu a testa e fechou os olhos.

— O que a Alicia-chan faria?

A senhorita Liz voltou os olhos verde-esmeralda pra mim. Ah, de alguma forma, estou ficando com fome. Realmente, é verdade que ninguém consegue guerrear de estômago vazio. Mas isso também faz parte do meu papel como vigilante de Kate Liz. Preciso responder com precisão.

— Se for pra fazer aliança, não faria sentido nenhum este reino ajudar o Reino de Duran. Eles têm que fazer a própria recuperação econômica sozinhos.

— Como?

— …A senhorita Liz sabe qual é o produto especial do Reino de Duran?

— Se bem me lembro, batata, não é?

— Isso mesmo. Mesmo com a economia falida, o produto especial ainda existe.

— Entendo… e se, por exemplo, colocarmos um valor agregado nesse produto especial, e fizermos outros reinos comprarem?

O rosto da senhorita Liz clareou um pouco. Parece que finalmente conseguimos nos entender.

— Até agora, o Reino de Duran nunca exportou batata pra outros reinos!

— Além disso, é só aumentar o preço em relação ao normal e vender pra outros reinos.

— Isso mesmo, assim talvez a gente consiga reerguer a economia do Reino de Duran! A batata do Reino de Duran com certeza consegue ser vendida por um preço alto!

Fico feliz por ela finalmente ter entendido o que eu queria dizer. De alguma forma, sinto uma grande sensação de realização! O teste de vigilância deve ter sido aprovado, não é? Consegui deixar impressão de vilã na frente de todo mundo, e a senhorita Liz também conseguiu chegar à solução — resultado positivo pros dois lados. Sorri satisfeita.

Finalmente consegui escapar daquela sala. Preciso voltar logo pra casa e comer uns macarons.

E assim, refazendo o caminho de volta… deveria ter sido isso. Ué? Será que passei por este caminho? Não me lembro de ter passado por um lugar com um vaso tão grande assim.

Olhei pro quadro na parede. Olhos de um azul profundo, cabelo da mesma cor do céu do quadro… isso é o rei quando criança? Quando jovem, o cabelo dele era um pouco mais claro do que agora. E, ao lado, uma pessoa de rosto bem-feito e gentil parece o pai do rei? …Mas sinto que já vi isso em algum lugar.

— Alicia?

Virei-me devagar diante da voz do senhor Duke. A luz do sol entrava pela janela, e algo brilhou perto da orelha do senhor Duke. Aquilo é… brinco?

O senhor Duke se aproximou de mim. Estreitei os olhos, observando bem aquele brinco. Uma pedra azul cristalina… pedra mágica. É algo que só se pode usar depois de atingir o nível 100. Quer dizer que o senhor Duke já dominou o nível 100? Se bem me lembro, no jogo também, o senhor Duke alcançava isso antes da heroína.

— O que houve?

O senhor Duke disse isso numa voz tranquila. Gostaria que ele não falasse comigo tão de perto assim. É perto demais.

…Se eu disser aqui que, na verdade, estou perdida, seria um problema pra minha imagem de vilã, né.

— Estava… explorando o local.

Respondi com um sorriso ambíguo. O senhor Duke me olhava como se enxergasse através de mim. Deve já ter percebido que estou perdida. Podia parar de mostrar essa tranquilidade adulta assim, viu.

— Te acompanho até o portão?

O senhor Duke disse isso com um leve sorriso. Isso é… um tratamento completamente de irmãzinha caçula, não é? Dentro do jogo, o senhor Duke deveria odiar tanto a Alicia, então por que será que ele passou a demonstrar tanto afeto por mim…

Será que, por acaso, o senhor Duke está agindo assim só como uma atuação pra me eliminar depois? Por trás daquele tratamento gentil comigo, talvez, na verdade, ele me odeie…

— Alicia?

O senhor Duke espiou meu rosto. …Essa distância é perigosa. Se afaste, por favor, meu coração vai quebrar.

O perfume do senhor Duke me envolveu suavemente. Senti meu rosto ficando vermelho.

Que péssimo, uma vilã não deveria demonstrar emoção assim no rosto. O senhor Duke me olhou com um olhar gentil e riu de leve.

— Está bem vermelha.

Eu sei disso sem que ele precise dizer. Ah, não consigo entender a verdadeira natureza do senhor Duke. Achei que fosse uma pessoa fria, mas ele me enxerga por dentro completamente, e ainda é bastante provocador, não é?

— O senhor Duke gosta de me provocar?

O senhor Duke arregalou os olhos por um instante, mas logo relaxou a expressão.

— Não é que eu não goste.

Dizendo isso, o senhor Duke acariciou gentilmente minha cabeça. …Fazer essa expressão enquanto diz isso!? Todas as fãs do senhor Duke no mundo inteiro desmaiariam. Eu também, se não estivesse tentando ser vilã, provavelmente sangraria pelo nariz.

Realmente não consigo entender a personalidade do senhor Duke. Fazer um carinho tão doce assim de repente…

— Vamos.

Dizendo isso, o senhor Duke começou a andar. Nessa hora, devo andar atrás dele? Ou ao lado dele?

Pela minha posição, ficar mais próxima do senhor Duke seria péssimo pra minha imagem de vilã.

Andei um pouco atrás do senhor Duke. Ele ajustou o ritmo dos passos, esperando por mim.

— Er… Henry-nii-sama?

— O quê?

— Por que o Henry-nii-sama está no meu quarto?

— Não gosta?

— Sim.

O Henry-nii-sama me olhou com uma expressão insatisfeita.

— Por que o Jill pode ficar e eu não?

— Porque eu sou assistente da Alicia.

O Jill murmurou isso enquanto lia um livro.

— Será que eu não sou confiável?

O Henry-nii-sama me olhou com olhos tristes, como um cachorrinho abandonado. Mas não vou me deixar enganar.

— Não sei até onde vai a atuação do Henry-nii-sama.

Diante das minhas palavras, o Henry-nii-sama relaxou a expressão.

— Nunca faço teatro na frente da Ali. Sou aliado da Ali.

— Ser aliado do Henry-nii-sama não me traz nenhum benefício.

— Não sei o que a Ali pensa de mim, mas eu sou um homem capaz de matar alguém, se não gostar dessa pessoa.

O Henry-nii-sama disse isso de repente, com um tom sério.

— O senhor já matou alguém?

— Sim.

Diante da resposta firme do Henry-nii-sama, até eu fiquei sem palavras. O Jill também parou de ler o livro e olhou pro Henry-nii-sama. Provavelmente, ele não estava mentindo.

— Quem o senhor matou?

— Isso é segredo~

O Henry-nii-sama disse isso sorrindo maliciosamente, rompendo o clima pesado. Segredo… será que o Henry-nii-sama faz coisas ainda piores que eu? Meu verdadeiro rival não seria a senhorita Liz, e sim o Henry-nii-sama?

— Se você me contar o que está tramando, eu conto o que fiz.

Ou seja, é uma troca. Não posso contar sobre a vigilância da senhorita Liz de jeito nenhum… ah, é isso, se eu só disser que quero virar vilã, tudo bem, não é? Assim, o irmão vai me contar quem matou. Como eu sou inteligente.

— Tudo bem… vou responder. Na verdade, eu quero me tornar uma vilã. A maior vilã deste mundo. Por isso, quero ficar no mesmo nível da senhorita Liz e implicar com essa pessoa tão popular. Bom, agora que entrei na academia, finalmente consegui chegar num nível parecido com o dela.

O Henry-nii-sama piscou os olhos diante das minhas palavras. É claro que ele ficaria surpreso.

— Então era por isso que você queria ficar forte?

O Henry-nii-sama murmurou baixinho. Ah, é verdade, foi essa a resposta que dei há muito tempo, quando eu disse que queria aprender esgrima. Que nostálgico. Só que a parte de "querer virar vilã" ele passou reto por cima, hein. Eu queria que ele reagisse exatamente a essa parte.

— O que significa "no mesmo nível"?

— Estou com nível 80 de magia.

— O quê?

O Henry-nii-sama soltou uma exclamação de choque.

Ah, não precisava ficar tão surpreso assim…

— Acho que, a partir de agora, mesmo que aconteça algo incrível, eu já não vou mais me surpreender.

Eu ia dizer "acho que isso não vai acontecer", mas decidi deixar quieto. Quero saber logo o segredo do Henry-nii-sama.

— Então, Henry-nii-sama, quem o senhor matou?

O Henry-nii-sama, que parecia ter recuperado a consciência de um estado de estupor, ficou com uma cara séria. Devagar, abriu a boca.

— O primeiro foi o jardineiro, o segundo uma criada desta casa, o terceiro também acho que foi uma criada desta casa.

— Espera um pouco.

Não consegui acompanhar as palavras que iam saindo da boca do Henry-nii-sama, calmamente. Quer dizer que aquele jardineiro que sumiu do nada, e as criadas que deixaram de aparecer de repente… foram todos mortos pelo Henry-nii-sama?

Não pode ser. Mentira.

— Quantos ao todo o senhor matou?

— Sete.

O Henry-nii-sama disse isso sem mudar de expressão.

— Qual foi o motivo? Foi diferente pra cada um?

Não consigo imaginar o Henry-nii-sama matando alguém sem motivo.

— Acho que o motivo foi todo o mesmo.

Dizendo isso, o Henry-nii-sama sorriu, meio sem graça. O Jill fechou o livro que estava lendo e abriu a boca.

— Foram alvos de mira pelo patrimônio desta casa?

— Bom, mais ou menos isso. …Bem, "matei" talvez seja um exagero.

Dizendo isso, o Henry-nii-sama sorriu de um jeito ambíguo. …Ou seja, na prática, ele não matou de verdade?

Faz alguns anos que essas pessoas desapareceram, né. Como ele soube que era por causa do patrimônio? A sensação é mais de "eliminados da sociedade" do que "mortos", talvez seja mais sensato pensar assim.

— O primeiro jardineiro estava cultivando ervas venenosas, as criadas tentaram colocar veneno no chá. Os outros também tentaram matar não só a fortuna, mas a minha própria família.

Ou seja, se o Henry-nii-sama não tivesse agido, agora mesmo, todos nós já estaríamos mortos…?

— Se você tem intenção de matar, é porque já está pronto pra ser morto também, não é?

O Henry-nii-sama disse isso com um sorriso de deboche. Ah, aquela expressão agora parecia mesmo com um demônio.

— O Albert-nii-sama e o Alan-nii-sama também sabem disso?

— Sim, sabem. Bom, os dois não participaram desse assunto.

— Por quê?

— Porque os dois se opuseram.

O olhar do Henry-nii-sama demonstrava desprezo pelo Albert-nii-sama e pelo Alan-nii-sama. Mesmo com a possibilidade da família morrer, se opor a matar… ah, provavelmente é por causa dela.

— Kate Liz?

O Jill murmurou isso num tom resignado. A senhorita Liz com certeza seria totalmente contra matar alguém.

— Então, o que acha? Já posso ficar junto com você e o Jill, não posso?

O Henry-nii-sama disse isso sorrindo levemente. Depois de uma confissão dessas, não tem como não revelar meu próprio segredo.

Olhei pro Jill. Ele me encarou com um olhar decidido e abriu a boca.

— Meu segredo é…

O Jill fez uma pausa e olhou reto pro Henry-nii-sama. Dava pra sentir, mesmo em mim, a tensão do Jill.

— Eu sou… do vilarejo de Roana.

O Jill disse isso franzindo a testa. Foi uma confissão dolorosa de se ver.

— …Entendo.

O Henry-nii-sama disse só isso e abraçou o Jill com gentileza.

— Obrigado por ter tomado coragem e me contado.

O Henry-nii-sama disse isso num tom suave. Dava pra ver os olhos do Jill um pouco marejados.

…De alguma forma, os dois pareciam irmãos assim.

— Ei, onde a Ali conheceu o Jill?

O Henry-nii-sama me olhou com um olhar intrigado.

— No vilarejo de Roana.

Assim que respondi sem rodeios, o Henry-nii-sama começou a rir de repente. É verdade que não haveria outro lugar pra eu conhecer o Jill mesmo.

— Como eu esperava da Ali, é impressionante mesmo.

O Henry-nii-sama disse isso rindo de novo.

— Eu também acho isso.

O Jill também deu um sorriso aberto. De alguma forma, não sei bem o motivo, mas estou sendo elogiada, né? Bom, então, tudo bem.

Por um bom tempo, meu quarto ficou envolto na risada alegre do Henry-nii-sama.

Meu braço dói… Por que estou trancada num barraco tão precário assim? Até há pouco eu estava andando normalmente pela floresta da academia.

Se bem me lembro, alguém me deu um golpe forte por trás. Uma dor aguda percorreu minhas costas, e depois disso não me lembro bem de nada. Ser atacada por trás desse jeito é covardia demais. Uma vilã com certeza nunca passaria por uma humilhação dessas. Preciso escapar daqui antes que isso vire boato pra todo mundo. Mas não vejo nada por perto que sirva pra cortar a corda… aliás, onde será que está o Jill? Provavelmente foi capturado junto comigo, não é?

Enquanto eu pensava nisso, ouvi um estrondo — a porta se abriu com força, e três homens de corpo enorme entraram no barraco. Parecem lutadores. Num barraco desse tamanho, com três pessoas assim, já fica apertado. Se pelo menos um deles saísse, já ajudaria.

— Onde está o garoto que estava comigo?

Diante das minhas palavras, os três me encararam de cima, com olhos afiados como lâminas.

— Ei, mocinha, cuidado com o jeito que fala.

— Mas, cara, com esse rostinho bonito, dá pra brincar um pouco com ela.

— Bom, já que mandaram matar mesmo…

— É, vamos nos divertir bastante com ela.

Os três, com físico de lutadores, conversavam entre si, sorrindo de canto. Um arrepio percorreu minha espinha. Que nojento. Se ao menos eu pudesse usar magia agora… espera, o quê!? Não consigo usar. Por mais que eu estale os dedos, nenhuma magia funciona. Não pode ser. Como assim?

— Para de fazer esse barulho de estalar os dedos, é irritante.

Levei um chute no estômago do homem mais corpulento dos três.

— A-ai…

…Dói. Não pode ser. Ser chutada dói tanto assim? Será que eles têm algum trauma com o som de estalar dedos?

O homem que parecia ser o líder, de pele morena entre os três, aproximou o rosto de mim.

— Olha só, os olhos dela, dourados. Ela tem mesmo um rosto bonito.

Ah, queria tanto poder socar essa cara agora, mas meu corpo não se move.

— Não aproxime seu rosto sujo de mim.

Só a boca ainda conseguia se mexer, então consegui dizer pelo menos isso. O homem de pele morena ficou surpreso por um instante, mas logo agarrou o colarinho da minha roupa e me ergueu com força.

— Reconheço sua coragem, mas não abuse demais.

Dizendo isso, ele me deu um soco forte na bochecha.

— …!

Ah, quebrei um dente. Sinto meu próprio sangue escorrendo da boca. Caí no chão assim, e os três homens saíram do barraco.

Quem será o patrão deles, afinal? Meu corpo não se move, mas minha cabeça ainda funciona. Vou sair daqui com certeza, e devolver isso em dobro.

Hã? Percebi que tinha algo preso no meu pescoço. Uma coleira? Por que uma coleira… ah, entendi. Isso é uma coleira que sela o poder mágico. Ou seja, o patrão deles é nobre…?

— Ei, o garoto que a mocinha estava falando é esse aqui?

Dizendo isso, o homem de pele morena entrou de novo no barraco.

…Jill? Fiquei sem voz de tanto choque.

O Jill estava coberto de sangue. A roupa da parte de cima estava toda rasgada, e uma quantidade enorme de sangue escorria da cabeça dele. Senti meu próprio sangue esfriar.

O Jill olhou pra mim com os olhos semicerrados.

— Ali… foge…

O Jill murmurou isso numa voz quase inaudível, prestes a desaparecer.

— Esse moleque é osso duro de roer.

— Argh…

Levando um soco na boca do estômago, o Jill contorceu a testa de dor. Mesmo assim, seus olhos continuavam encarando o homem de pele morena.

Bum — o chão vibrou. O Jill foi jogado bem na minha frente, como se fosse lixo. Minha vista ficou completamente vermelha de raiva.

Não consigo entender. Como alguém consegue usar violência contra um garoto que não tem força nenhuma… Isso é indigno até pra um vilão!

— Ali, você está bem?

O Jill disse isso com voz fraquinha, ainda tentando sorrir. Mesmo estando coberto de sangue, ele estava preocupado comigo?

— Jill, não se preocupe mais comigo. Eu disse que ia te salvar com certeza, não disse?

Murmurei isso numa voz que só o Jill conseguia ouvir. O corpo do Jill estava coberto de hematomas. Quanto foi que eles bateram nele…

— Esse lixo já não serve mais pra nada.

O homem de pele morena disse isso com desdém.

…Hã? O que ele acabou de dizer sobre o Jill?

Senti, pela primeira vez na vida, um desejo genuíno de matar. Nunca vou perdoar. Ter coragem de irritar uma vilã dessa forma…

Não vou ter piedade nenhuma. Vocês, e o patrão de vocês também… eu vou matar.


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