Capítulo 10
Eu tive meus pais assassinados logo depois de nascer, e sempre fiquei sozinho no vilarejo de Roana. Sem nenhuma força pra sobreviver por conta própria, trabalhei a vida inteira como escravo sob as ordens de quem matou meus pais.
Quem me salvou primeiro foi o Will… o vovô. Sinceramente, todo santo dia era só sofrimento, e eu não fazia a menor ideia do sentido de viver. Foi numa dessas ocasiões, quando os ferimentos das surras que eu levava sempre pioraram a ponto de eu não conseguir mais me mexer, que o vovô me acolheu e me fez beber uma água com remédio, e minha febre baixou de vez.
O vovô me disse que quem me salvou foi a Alicia, filha mais velha da família Williams, uma das Cinco Grandes Famílias Nobres. Eu, por conta própria, imaginei que fosse só o capricho passageiro de rica, algum tipo de piedade. Um senso de justiça vazio, do tipo "coitadinho, então vou ajudar". Mas a Alicia era uma dama muito além de tudo que eu conseguia imaginar. Ela disse, sem nenhuma piedade, que, se eu quisesse morrer, era só morrer.
Mas também disse que tinha uma responsabilidade. Responsabilidade por ter feito eu viver.
Eu escolhi viver. E, como pagamento por ter me salvado, a Alicia pediu pra compartilhar minha inteligência com ela. Achei que fosse uma ideia absurda, mas ela vinha trazer, quase todo dia, uma quantidade enorme de livros, e foi ela quem me tirou daquele vilarejo de Roana, que era literalmente um inferno.
Quando vi o sol pela primeira vez na vida, pensei que foi bom não ter morrido sem conhecer algo que brilhava com tanta intensidade. Tudo no mundo parecia novo, reluzente e bonito pra mim. Não falei em voz alta, mas repeti isso muitas vezes dentro do meu coração — obrigado por me salvar.
Jurei que, um dia, eu viveria até o fim da minha vida por ela… pela Alicia.
E agora, essa mesma pessoa está bem na minha frente, com os olhos dourados em chamas. O cabelo negro brilhante balançava suavemente. Parecia que era o próprio instinto assassino da Alicia que fazia aquilo balançar daquele jeito.
Aquele perfil era firme e digno, olhando de frente, sem desviar, pros homens que me espancaram sem parar. Fiquei incapaz de tirar os olhos de tanta beleza.
A Alicia levantou devagar o canto da boca e abriu os lábios.
— O lixo são vocês… adeus.
Senti um arrepio gelado subir pela espinha. Nunca tinha visto a Alicia com um olhar tão prestes a matar alguém.
— Não brinca comigo!
O que parecia ser o líder tentou bater na Alicia. Mas, num piscar de olhos, a Alicia desapareceu da frente dele, e, quando percebi, já estava atrás daquele homem.
Foi tão rápido que eu não consegui entender como ela chegou até lá. Os outros dois ficaram confusos, olhando pra Alicia. Ainda pareciam não entender o que tinha acontecido.
— Você eu mato por último.
A Alicia levantou o canto da boca e sussurrou isso no ouvido dele, por trás. Aquele sorriso me fez estremecer o corpo inteiro. Antes que o homem se virasse, a Alicia deu, com leveza, um chute giratório por trás. Acertou exatamente na cabeça dele. Não pode ser, chute giratório acertando de verdade assim? E ainda por cima com as mãos amarradas atrás das costas, que equilíbrio incrível.
— Jill, dá pra soltar essa corda?
A Alicia disse isso vindo na minha direção. Consegui, de algum jeito, erguer o corpo, e tentei desamarrar a corda dela. …Está apertada. Mas preciso soltar isso de qualquer jeito, senão quem vai morrer não sou eu, é a Alicia. Só de pensar nisso, um medo repentino me atacou.
A Alicia não pode, de jeito nenhum, morrer num lugar como este. Reuni toda a força que consegui e, de algum jeito, afrouxei um pouco a corda.
— Não se ache demais, sua pirralha!
Gritando, o homem mais corpulento pegou uma espada e tentou golpear a Alicia por trás.
— Alicia!! Cuidado!!
No exato instante em que gritei isso, a Alicia virou o corpo e cuspiu algo pela boca. O homem gemia com as mãos cobrindo os olhos. Sangue escorria dos olhos dele… parecia lágrimas de sangue. O homem, cambaleando, jogou no chão algo que tinha nas mãos.
…Dente? O que estava rolando no chão era um dente tingido de vermelho vivo. Alicia, seu dente estava quebrado?
— Sua…
O homem apertou com força a espada que segurava com as duas mãos, encarando a Alicia. Que músculo enorme. Uns três vezes maior que o braço da Alicia. Quando ele me bateu, foi o que mais doeu. Aliás, cadê o outro homem que tinha saído?
— …!
A Alicia, franzindo levemente o rosto, forçou a corda até se soltar. As marcas da amarração ficaram nítidas na pele dela.
A Alicia ergueu o canto da boca de forma sinistra. Talvez provocado por aquela expressão, o homem musculoso avançou de frente contra a Alicia. Observei os movimentos dela com atenção total. Assim como antes, a Alicia sumiu do lugar num instante, e, num piscar de olhos, já estava atrás do homem, atacando-o com a própria espada que ele carregava.
…Ela usou o próprio corpo. Já sendo pequena por natureza, ela ainda abaixou mais o centro de gravidade, entrou no ponto cego dele, arrancou a outra espada que estava presa na cintura do homem e girou pra trás.
Em velocidade e técnica, a Alicia estava disparadamente acima. Nunca imaginei que fosse chegar a esse ponto. Capaz de tomar decisões calmas e adequadas em qualquer situação, com capacidade física extraordinária, uma beleza rara, e ainda por cima sabe usar magia… com certeza ela vai virar lenda. Tive certeza disso. Mesmo numa situação como essa, meus lábios relaxaram num sorriso. Eu era assistente de uma pessoa incrível mesmo.
Vi uma sombra de pessoa atrás da Alicia. Aquele que eu achava que tinha sumido, voltou. Ele erguia um machado grande acima da cabeça. A Alicia, com uma cambalhota reversa ágil, ao mesmo tempo cravou a espada que tinha acabado de roubar do homem musculoso no coração do homem do machado. Foi um movimento tão bonito que quase fiquei hipnotizado.
— Argh…
O homem, que deveria ter sido esfaqueado, caiu segurando o peito com uma das mãos. …Ela não tinha esfaqueado de verdade?
Parece que ela, na verdade, tinha desmaiado ele com o punho fechado sobre a espada, batendo no peito dele. Que habilidade incrível… Mesmo agindo com toda a raiva, a Alicia parecia estar tentando não ultrapassar um certo limite.
Esqueci a dor do meu corpo e fiquei só olhando pra Alicia. A Alicia tomou o machado do homem desmaiado.
— Uoooooh!
O homem musculoso avançou direto contra a Alicia.
Sem demonstrar nenhum medo, a Alicia encarou fixamente a espada que vinha na direção dela e baixou o machado com força total. A espada do homem musculoso quebrou, incapaz de resistir à força do machado dela. Não pode ser, quebrar a espada assim… Fiquei impressionado com a velocidade e a força do golpe da Alicia. Mesmo com um braço tão fino… será que ela é forte assim mesmo sem magia? Provavelmente, o motivo de ela não conseguir usar magia é aquela coleira. Já li num livro antes — uma coleira que sela o poder mágico.
— Minha… espada…
O homem musculoso, atônito, olhava pras próprias mãos vazias. A Alicia jogou o machado no chão e saltou com toda a força. Que impulso nas pernas. Sem parar, segurou a cabeça do homem musculoso com as duas mãos e deu uma joelhada no rosto dele. No exato instante em que a Alicia pousou no chão, o homem musculoso cambaleou, cobrindo o rosto. A Alicia pegou de volta o machado que tinha derrubado e ergueu bem alto. O homem musculoso tremia de medo, incapaz até de recuar mais.
— Ei…
Solto sem querer um som diante da atitude instantânea da Alicia. Achei que ela fosse partir a cabeça dele em dois, mas parou o movimento bem antes disso. Os olhos que a Alicia direcionava ao homem musculoso continham puro instinto assassino.
Mesmo assim, por que ela parou…?
— Parem com isso agora!!
De repente, um grito veio de fora da porta. Aquela voz aguda… Voltei o olhar devagar pra porta.
…É a Kate Liz. Ao redor dela, estava o grupo de sempre daqueles rapazes bonitos. Um monte de gente inútil. Senti instintivamente que a mulher que fez a Alicia parar era ela.
…Ela foi impedida. Pela magia da Kate Liz.
O homem de pele morena, o líder, e o musculoso ficaram de boca aberta. Pareciam não entender nada da situação.
O rosto da Alicia foi ficando cada vez mais duro. Ela tentava desesperadamente mover o corpo, mas não conseguia, e nem a voz saía. Dava pra ver que a Alicia estava lutando com todas as forças contra o poder mágico da Kate Liz. Franzia a testa, com uma expressão de sofrimento.
…A Kate Liz é a Santa. Ninguém consegue vencer o poder mágico dela. Olhei pra fora da porta e gritei o mais alto que consegui.
— Kate Liz! Pare com isso!
Meu grito parece ter feito o homem líder voltar a si.
— Gahahaha, então não consegue se mexer, é?
Dizendo isso, mostrando os dentes sujos numa risada escandalosa, o homem líder tirou uma faca pequena do bolso. Foi a primeira vez que vi, no rosto da Alicia, um lampejo de aflição.
— Alicia!!
Sei que gritar não ia mudar nada da situação, mas não consegui evitar gritar.
— Ei, você fica pra trás.
O homem líder disse isso com uma expressão satisfeita pro musculoso.
Fiquei profundamente frustrado por não conseguir me mexer. Por mais que eu tentasse mover as pernas, elas simplesmente não obedeciam. Foi só nesse momento que percebi que minha perna estava quebrada. Tentei, de qualquer jeito, rastejar em direção à Alicia usando as mãos. Nesse instante, o pé grande do homem líder pisou com força na minha mão, vindo de cima.
— Ahhhhh
O pé dele esmagava minha mão, girando com força.
Tentei levantar o rosto, de algum jeito, mas, antes disso, ele me deu um chute violento na barriga. Voei pelo ar com facilidade.
A Alicia, ainda incapaz de se mover, me olhava com olhos preocupados. Com o olhar, tentei transmitir a ela: se preocupe consigo mesma, não comigo.
Bum — bati no chão com um baque. Uma dor intensa correu por todo o corpo. Talvez eu morresse assim mesmo.
Mas, mais do que qualquer dor, o que eu não conseguia suportar era a ideia da Alicia desaparecer deste mundo. Se um corpo tão maltratado quanto este servisse, eu daria tudo. Se um corpo tão destroçado quanto este servisse, eu daria minha própria vida. Por favor, Deus, salve a Alicia. Nunca mais vou guardar rancor de Deus de novo. Nunca mais vou reclamar de nenhuma situação injusta.
Então, por favor, não deixe só a Alicia morrer.
Implorei isso do fundo do coração.
— …!
Mas, sem piedade nenhuma, algumas gotas de um líquido vermelho vivo caíram bem na minha frente. Um calafrio gelado percorreu minha espinha, e senti todo o sangue fugir do meu rosto.
Se a Alicia tivesse sido esfaqueada, como eu conseguiria continuar vivendo daqui pra frente?
Meu corpo tremeu diante daquele sangue vermelho vívido. Levantei o olhar, com medo, na direção da Alicia.
…Azul.
O que entrou no meu campo de visão não foi uma Alicia tingida de vermelho, e sim um cabelo azul profundo e bonito. Pele bronzeada, olhos azuis translúcidos. Aqueles olhos estavam cheios de instinto assassino.
— …Duke.
Murmurei isso numa voz que ninguém conseguiria ouvir. Na mão esquerda do Duke, estava cravada a faca do homem. Ou melhor, tinha atravessado completamente. Então o sangue que caiu na minha frente era do Duke.
A Alicia olhou pro Duke com os olhos arregalados. …Magia de teletransporte. O que ele estava fazendo até agora? Não aparecer justamente na hora em que a mulher que ama está prestes a morrer… um príncipe assim só deveria existir em histórias. Fiquei encarando o Duke, pensando isso.
…Hã? A dor do meu corpo foi diminuindo aos poucos. De repente, meu corpo foi coberto por algo negro e brilhante. Magia de cura? Olhei de relance pra trás.
— Me desculpe mesmo por chegar atrasado.
O Henry, de olhos roxo-profundos, me olhava com preocupação.
— V-você é…
Ouvi a voz trêmula do homem. Voltei o olhar pra Alicia e pro Duke. O homem líder recuava, o corpo tremendo descontroladamente. O Duke sacou, com a mão direita, a espada presa no lado esquerdo da cintura, apontando pro líder. O olhar dele, encarando o homem, era gelado o suficiente pra congelar qualquer coisa.
O Duke enfiou o punho com força na barriga do homem. O homem desmaiou instantaneamente e caiu ali mesmo.
— Isso, eu queria fazer.
Essa foi a primeira frase que a Alicia disse. Ter mentalidade forte o bastante pra dizer isso numa situação dessas… não é demais?
A Alicia baixou o machado com uma expressão de decepção. Parece que já conseguia se mexer de novo.
— Ah, mas ainda falta um.
A Alicia disse isso levantando bem alto o canto da boca. Dava pra ver o rosto do homem musculoso se contrair diante daquela expressão.
— Poupa minha vida, por favor.
— Você acha que eu vou te perdoar tão facilmente assim?
— Por favor!
— Cala a boca.
O Duke disse isso, deu um soco de lado no homem, e o desmaiou. A Alicia ficou paralisada por um instante, e depois ficou repentinamente mal-humorada. Parecia estar brava por terem roubado a própria presa.
Ao contrário da Alicia, o Duke a observava franzindo a testa. Devagar, algo azul e reluzente começou a envolver a Alicia.
…Que bonita, a magia. Ao mesmo tempo em que o Duke curava a Alicia, ele também ergueu uma parede ao redor deste barraco. A Alicia sempre chama isso de "parede", mas, pensando bem, isso não seria mais uma "barreira"?
— Por que… uma parede?
A Alicia murmurou intrigada. Parece que ela disse exatamente o que eu estava pensando.
— Pra ninguém interromper de fora.
O Duke disse isso numa voz extremamente fria. Interromper… eles não eram companheiros? Tentei erguer o corpo pela metade, mas não conseguia fazer força direito. O Henry percebeu na hora e me apoiou, erguendo meu corpo, e me explicou a situação.
— O Jill e a Alicia sumiram de repente durante o intervalo do almoço, e todos nós ficamos um bom tempo procurando vocês pela academia inteira.
— Como vocês descobriram este lugar?
Diante da minha pergunta, o Henry sorriu meio amarelo.
— O Duke capturou num piscar de olhos o patrão desses três, e arrancou a informação dele.
— "Hã?"
Minha voz e a da Alicia se sobrepuseram. Nunca imaginei que eles estivessem procurando o patrão.
— Ei, esse patrão ainda está vivo, não está?
A Alicia disse isso num tom sério. …Será que ela quer matar até o patrão. A Alicia levantou uma sobrancelha, olhando pro Henry como se estivesse sondando. Percebi o rosto do Henry se contrair um pouco.
— O que eu vi foi um patrão espancado quase até a morte.
Senti meu corpo estremecer. A Alicia também estava de olhos arregalados.
— Depois de já ter arrancado toda a informação.
Então foi o Duke quem fez isso. …Entendi. O Duke não é nenhum príncipe de história de conto de fadas.
— O patrão é nobre, então mesmo o Duke deve ter levado um tempo pra destruir a casa inteira.
Percebendo a situação, comentei isso, e o Duke e o Henry piscaram os olhos, surpresos.
— Enquanto isso, ele mandou os outros pra cá, mas eram só incompetentes. E ainda por cima tentaram matar a Alicia.
Disse isso com deboche na voz, olhando pros homens caídos fora do barraco.
— Provavelmente não. Quem mandou eles até aqui foi Sua Majestade o rei. Não é, Henry-nii-sama?
A Alicia disse isso como se tivesse compreendido algo. De alguma forma, parecia até feliz. O Henry assentiu com uma expressão séria.
— O que isso quer dizer?
— Eu sou só um peão descartável. Esse sequestro foi uma oportunidade de ouro pra Sua Majestade o rei. Usar nosso sequestro pra medir a capacidade da senhorita Liz… que jogada, hein.
Não acreditei no que ouvi das palavras da Alicia. O rei faria mesmo uma coisa dessas?
— Quem vai salvar o mundo não sou eu, Jill. É a Santa. Não importa o quanto eu seja inteligente, isso não significa nada.
A Alicia tinha uma expressão de satisfação. …Deve estar pensando, no fundo do coração, "isso sim é ser vilã".
A Alicia respirou fundo, levemente, e voltou o olhar pro Duke.
— …Quem era o patrão?
— Neil, da família Johnson.
O Duke respondeu isso com tranquilidade. …Quem? Deve ser nobre, mas não faço ideia de quem seja.
— Neil?
Parece que nem a Alicia conhece. Internamente, senti um alívio. Tenho vergonha da própria ignorância.
— É a família que usa magia da terra.
O Henry respondeu no lugar dele. Ainda assim, a Alicia parecia não entender.
— É aquele que, na hora do chá da tarde, chamou você de "você" com desrespeito.
Foi aí que finalmente entendi. Ah, era um dos fiéis daquela Kate Liz.
— Ou seja, ele tentou me eliminar porque eu era um estorvo pros olhos da senhorita Liz?
A Alicia disse isso num tom animado e feliz. Estava escrito na cara dela: "então eu já virei uma vilã do nível de alguém querer me eliminar". Mesmo depois de passar por um perigo desses, a Alicia pensar assim… acho que ela é meio boba mesmo. Bom, esse tal de Neil também é bem idiota, tentando matar alguém tão facilmente por amor à Kate Liz.
— Ali, isso não é motivo pra se alegrar.
Dizendo isso, o Henry soltou um pequeno suspiro. Achei que houvesse alguma conspiração ainda mais sombria por trás disso… Foi nessa hora que cruzei o olhar com o Duke.
— Eu sou o Jill. Chegou tarde, mas, obrigado por salvar a Alicia.
As palavras escaparam sem que eu percebesse. Só pelos olhos dele, dava pra saber que ele era uma pessoa perspicaz. Foi a primeira vez, na vida, que eu disse meu próprio nome por conta própria. Os três me olharam surpresos.
— Eu sou o Duke. Foi mal, Jill. Da próxima vez, não vou cometer um erro desses.
Dizendo isso, o Duke sorriu de leve. Mesmo eu sendo homem, quase fiquei hipnotizado por um rosto tão bonito.
— O Jill tem raciocínio rápido, hein.
— Ele é meu assistente, sabia?
Diante das palavras do Duke, a Alicia disse isso com orgulho. Meu peito se aqueceu. A Alicia estava se gabando de mim. Nem imaginava que isso me deixaria tão feliz assim…
Meu coração ficou extremamente quente, e tive que segurar com força as lágrimas que quase transbordaram. Alguns anos atrás, eu achava que seria melhor se todos os nobres desaparecessem. Mas agora, quero que continuem vivendo. A Alicia, o Henry, e até o Duke. …Justamente por isso.
— Ainda assim, tem algo estranho.
Falei em voz alta exatamente o que eu estava pensando. Os olhares dos três se voltaram pra mim.
— Aquela Santa provavelmente nem consegue trazer paz pra este reino. Tanto a Kate Liz quanto o séquito dela são todos realmente idiotas.
Disse isso com frieza. Estava bastante irritado com a Kate Liz e os seguidores dela, que quase mataram a Alicia.
— Você também está insultando de leve meus irmãos, sabia?
— Bom, mais ou menos.
Quando eu disse isso, a expressão da Alicia relaxou.
— Não seria melhor a gente sair logo deste barraco?
A Alicia disse isso olhando pra fora. Eu não queria nem ver o rosto da Kate Liz, mas também não dava pra ficar pra sempre num barraco cheio de homens desmaiados.
— É verdade.
O Duke disse isso e estalou levemente os dedos, fazendo a parede desaparecer. Percebi agora há pouco que existem magias que precisam estalar os dedos e outras que não precisam. Como a Alicia sempre estala, eu achava que fosse assim mesmo, mas na hora da magia de cura ela não estalou os dedos… Bem, como eu sou uma pessoa que não consegue usar magia, essas coisas eu não entendo muito bem.
— Bom, vamos então.
— Espera, o quê!?
As vozes do Henry e da Alicia se sobrepuseram. Quando percebi, a Alicia já estava sendo carregada no ombro do Duke. Parece que carregar ela assim é o jeito mais fácil, já que ela pode se debater a qualquer momento…
— Me põe no chão.
— Você tá ferida.
— Eu consigo andar sozinha.
— Não se debata. Você vai cair.
A Alicia estava resistindo com o rosto completamente vermelho. Até as orelhas estavam vermelhas. Foi a primeira vez que vi a Alicia com uma expressão envergonhada. Hoje é um dia de ver vários lados diferentes da Alicia. O Duke parecia estar de alguma forma feliz. Mas dava pra sentir, pela atitude dele, que estava genuinamente preocupado com a Alicia.
— Jill, você também para de se debater.
Dizendo isso, o Henry me ergueu também.
— Hã? Eu consigo andar sozinho.
— Diga isso quando sua perna não estiver quebrada.
Dizendo isso, o Henry riu de um jeito debochado. O Henry é bem treinado, então, mesmo que eu resistisse, não ia adiantar nada. Aliás, sem eu perceber, minha perna já estava completamente curada.
— Minha perna já sarou.
— Está sarada, mas vamos manter você em repouso mesmo assim.
Antes que eu terminasse de falar, o Henry disse isso num tom de brincadeira. Mas, pela expressão dele, dava pra ver que ele também estava preocupado comigo. Decidi obedecer ao Henry em silêncio. Ser motivo de preocupação de alguém… não é uma sensação ruim. E, assim, finalmente saímos do barraco.