Capítulo 1



Já faz um ano e meio que a Alicia está trancada naquela cabana.
Eu nunca imaginei, naquele momento, que ela fosse aceitar. Afinal, eu tinha imposto uma condição impossível.
Era uma condição pensada justamente pra fazê-la desistir, mas acabou tendo o efeito contrário: só serviu pra acender ainda mais a vontade dela.
Achava que conhecia bem o caráter da minha filha, mas pensei que, se eu impusesse uma condição rigorosa o bastante — subir o nível de magia até 90 pra continuar como vigilante da Kate Liz —, ela com certeza acabaria cedendo.
Ninguém mais consegue rivalizar com o talento raro da Kate Liz. Enquanto a Alicia está longe, os "fiéis da Liz" só aumentam, e, quando ela se formar na academia, sem dúvida vai reinar como a lendária Santa.
…Não vejo a Alicia desde então, nem uma única vez.
Só a Rosetta, criada exclusiva dela, leva comida, roupa e livros até lá.
Claro, as duas não têm contato direto. Só deixam a comida e as roupas do lado de fora da cabana. A cabana até tem um banheiro, meio decadente, mas ainda dá pra morar se quiser. Mas eu achava que seria difícil demais pra ela, que sempre viveu num ambiente tão confortável, de repente passar pra uma vida tão simples. Achei que ela desistiria rápido.
E, mesmo assim, a Alicia já vem suportando essa situação há mais de um ano.
Eu, no fundo, faço um desejo dos mais baixos: que ela desista logo.
Quando a Alicia foi sequestrada, me arrependi profundamente por não ter conseguido, à força, fazê-la abandonar o papel de vigilante da Kate Liz naquela hora.
Ouvi depois em que estado ela ficou, e senti o coração se despedaçar de dor. Minha filha poderia ter morrido.
Achei que precisava fazê-la parar com isso perigoso o quanto antes, mas ela disse que ia continuar sendo vigilante da Kate Liz. E aceitou a condição que eu impus, e foi direto pra cabana.
Já que fiz essa promessa com a Alicia, preciso assumir a responsabilidade pelas minhas próprias palavras.
Assim que ela entrou na cabana, convocamos uma reunião de emergência das Cinco Grandes Famílias, e eu expliquei tudo o que tinha acontecido.
O Joan me disse "fez isso por conta própria, hein", mas eu insisti com força que, se a Alicia não alcançasse o nível 90, não seria possível vigiar e fazer a Santa crescer de verdade. Ao mesmo tempo, também torço, no fundo, pra que ela saia de lá sem ter conseguido cumprir a condição.
Afinal, por que minha filha precisa carregar um fardo tão pesado assim?
É verdade que a Alicia, assim como a Santa, é uma anomalia sem precedentes. Ela conseguiu usar uma magia que só deveria ser possível a partir dos treze anos aos dez. Mesmo assim, isso não seria basicamente sacrificar minha própria filha em nome do reino?
Daqui a um ano, a Kate Liz vai completar vinte anos e chegar ao último ano da academia. Assim que se formar, ela não vai ter escolha a não ser sair pro mundo como a Santa. Por isso, não há tempo pra hesitar. Entendo isso perfeitamente. Ainda assim…
— Enquanto a Alicia não alcançar o nível 90, não posso aceitar que ela seja reconhecida como vigilante da Santa. O que vocês pensam que é a minha filha?
Falei isso contendo minha raiva o máximo que consegui. Os quatro fecharam a boca.
Depois de um silêncio, o rei — o Luke — falou baixinho: "contra anomalia, se usa anomalia."
Depois da reunião de emergência, decidi ir falar com o garoto chamado Jill, que a Alicia tinha trazido consigo.
O menino que saiu do quarto com uma cara emburrada parecia bem menor que um garoto comum de nove anos.
Conforme eu contava tudo, a expressão dele foi ficando cada vez mais dura. Contei também que, enquanto a Alicia estivesse ausente, ele não poderia ir ao vilarejo de Roana.
Em troca, entreguei a ele um frasco com um líquido rosa-claro chamado Abel. Disse que, com aquilo, ele poderia atravessar a parede a qualquer momento e voltar ao vilarejo de Roana — e ele me lançou um olhar de fúria terrível.
Um instinto assassino tremendo demais pra um garoto de nove anos.
"Adultos bobos são um problema pras crianças, hein" — foi isso que o Jill disse, debochando de mim, antes de sair do quarto.
Eu não consegui rebater nada, só fiquei olhando as costas pequenas dele se afastando.
Desde aquele dia, o Jill passou o ano inteiro trancado na biblioteca da nossa casa.
Os empregados levavam a comida até lá. E ele só toma banho uma vez a cada dois dias.
Às vezes, dava pra vê-lo correndo em direção à floresta no meio da noite — provavelmente indo em direção ao vilarejo de Roana.
O filho mais velho, o Albert, e o gêmeo Alan, não pareciam demonstrar nenhuma preocupação especial com a Alicia.
Mas o outro gêmeo, o Henry, foi o único que levantou a voz contra mim.
Por que eu impus uma condição tão absurda daquelas. Será que eu não sabia que, mesmo sendo impossível, a Alicia aceitaria mesmo assim.
Desde aquele dia, o Henry parou de falar comigo.
E, além disso, passei a ser encarado até pelo filho do Luke, o príncipe deste reino, o Duke. Ele não disse nada, mas os olhos dele, ao me olhar, carregavam raiva e desprezo.
Minha esposa, furiosa, me deu um soco na bochecha. …E só isso.
Ser pai é algo difícil. Achava que entendia bem a minha filha, mas talvez eu tenha subestimado a Alicia.
Quando ela tem um objetivo, nunca desiste até alcançá-lo. Naquele momento, acabei ficando irritado também, e disse uma condição impossível de se cumprir.
E assim, um ano e meio depois de a Alicia entrar na cabana, encontrei uma carta deixada na frente da porta.
Da Alicia, pra mim.
"Pro Otou-sama: escrevo isto porque, por acaso, ouvi agora mesmo uma conversa dos jardineiros. Parece que o Otou-sama está se arrependendo do que me disse. Ainda é cedo demais pra se arrepender. Por favor, se arrependa só depois que eu conseguir cumprir a condição. — Alicia"