Capítulo 2
Já se passaram dois anos desde que a Alicia se trancou naquela cabana.
Pareceu longo, mas também passou num piscar de olhos. É contraditório, mas foi exatamente essa a sensação.
Eu passei todo santo dia só lendo livros, sem parar. Se a Alicia estava ficando mais forte, eu também precisava ficar mais inteligente, pra continuar merecendo estar ao lado dela como assistente.
Finalmente… finalmente vou poder encontrar a Alicia. Quanto tempo esperei por este dia.
Quase sem dormir, acordei cedo demais e fui ficar em pé na frente da cabana. Três e meia da manhã. Ainda não tinha sinal de ninguém acordado. O ar estava frio, e uma névoa escura cobria o céu inteiro.
Eu cresci um pouco. Ainda pequeno demais pra um garoto de onze anos, mas cresci.
Será que a Alicia mudou?
Dois anos inteiros sem trocar uma palavra com ninguém, só subindo de nível de magia sozinha dentro daquela cabana de madeira. Eu não aguentaria. Dá pra ver bem o quanto é forte a convicção dela de "querer virar vilã".
Quando será que ela vai sair? Fiquei observando ansioso a cabana.
Já fazia dois anos que eu esperava o dia de poder encontrá-la.
Logo depois que a Alicia sumiu, cada dia parecia absurdamente longo. Nem o conteúdo dos livros que eu tanto amo entrava direito na minha cabeça. Era o quanto eu dependia dela.
Foi o próprio pai da Alicia quem me avisou que, hoje, ela ia sair da cabana.
Williams Arnold. Ele foi muito bom comigo. Sempre me deixou usar a biblioteca à vontade, e, quando eu acabava dormindo lá mesmo, dizem que era ele quem me carregava até o quarto.
No início, eu o odiava de verdade. Ficava furioso, no fundo do coração, por ele ter imposto aquela condição à Alicia.
Mas ele era quem mais se arrependia do que tinha feito.
Quando perguntei ao Arnold se ele não ia buscar a Alicia, ele disse que era melhor eu ir.
Eu já pretendia ir de qualquer jeito, mas nunca imaginei que o próprio Arnold diria isso.
Vi o Henry e o Duke só umas poucas vezes por ano nesse período. Basicamente, eu ficava sempre na biblioteca.
Enquanto eu pensava nisso, a porta da cabana rangeu, guiiiiiiii, como se estivesse gritando de dor.
Meu coração disparou. …Finalmente vou poder ver a Alicia.
Só dava pra ouvir o batimento do meu próprio coração. Suor escorria pelas minhas mãos. Prendi a respiração.
— Que madrugador, Jill. Quanto tempo.
Fiquei paralisado, hipnotizado pela aparência da Alicia.
Meu coração, que até agora batia tão forte que doía, pareceu parar num instante, como uma ilusão. Prendi a respiração diante da beleza extraordinária dela.
O rosto não tinha mudado, mas a atmosfera era completamente diferente de dois anos atrás.
Uma mulher bonita parada em meio à névoa… como uma deusa que desceu à terra por engano.
O cabelo negro, da cor de asa de corvo molhada, tinha crescido até a cintura; os olhos dourados, levemente puxados, firmes e imutáveis, brilhavam ainda mais místicos. E, talvez por nunca ter saído da cabana nem uma vez, a pele estava branca como neve pura, os lábios finos e bem-feitos, levemente avermelhados. Deve ser exatamente isso que chamam de "beleza".
Aqueles olhos que me observavam tinham um brilho sedutor, e eu fiquei olhando pra Alicia completamente atordoado.
A Alicia foi se aproximando devagar de mim. Meu coração batia tão forte que parecia prestes a explodir. De perto, dava pra ver que ela também tinha ficado mais alta. Dava pra sentir inteligência no olhar dela.
— Jill? Você se lembra de quem eu sou, né?
Havia algo levemente mais leve no tom de voz dela, diferente de antes.
Sem palavras diante da transformação dela, assenti devagar, com força.
— Que bom. Antes de encontrar todo mundo, preciso ir a um lugar. Vem comigo.
De novo, parece que o jeito de falar dela mudou bastante. Será por causa de tanto tempo sem conversar com ninguém?
Dizendo isso, a Alicia segurou meu braço e saiu correndo em direção à floresta.
Ela provavelmente estava indo pro vilarejo de Roana.
O vovô sempre disse que era perigoso, que só podíamos ir à noite — será que tudo bem ir agora? Esse pensamento passou pela minha cabeça.
Dentro da floresta, tudo parecia um pouco mais sinistro do que o normal. De manhã parecia até mais assustador que à noite.
— Espera, Alicia! Você tá descalça!
Percebi isso já um pouco dentro da floresta. A sola dos pés da Alicia estava completamente preta.
— Tudo bem. Mais importante, aconteceu alguma coisa diferente nesses dois anos?
A Alicia parecia não se importar nem um pouco com a sujeira nos pés.
— …Alicia, seu jeito de falar mudou, né?
Espiei o rosto dela, tentando entender.
A Alicia franziu a testa como se estivesse pensando.
— Deve ser porque não tinha ninguém pra conversar. Tá tão diferente assim?
— O tom ficou mais leve.
Quando eu disse isso, a Alicia sorriu de leve e disse "é mesmo?".
…Bonita.
Parece que aquele ar de "quero forçar uma aura de vilã" desapareceu.
Como se a inteligência e a elegância aparecessem naturalmente no sorriso.
— É verdade, talvez tenha mudado mesmo.
— Você realmente não falou com ninguém em dois anos?
A Alicia mostrou uma expressão levemente incomodada. Uma expressão que ela nunca tinha mostrado enquanto declarava, orgulhosa, que queria virar vilã.
— Achou que eu fiquei menos "vilã"?
Fiquei paralisado, pego no flagra.
Não pode ser, será que chegou o dia em que ela consegue ler minha mente… será que ela usou magia?
— Não é magia.
A Alicia disse isso, levantando um pouco o canto da boca.
Ah, esse rosto. Aquele sorriso levemente malicioso… essa é a Alicia de sempre.
— Então, por quê?
— Não é porque a expressão do Jill é fácil de ler?
Não pode ser. Achava que, nesses dois anos, eu tinha conseguido esconder bem meus sentimentos… E, além disso, hoje já consigo criar várias expressões diferentes conforme a situação.
— Isso foi mentira.
A Alicia riu, formando rugas nos cantos dos olhos. Meu coração disparou por um instante.
Realmente, ela não parece a Alicia que eu conheço.
— Eu não mudei nada.
…De novo, ela leu meu pensamento.
Enquanto eu arregalava os olhos, a Alicia de repente começou a rir.
— Desculpa, Jill. Sua reação foi tão engraçada que acabei brincando com você.
— Como assim?
— Não faz essa cara tão contrariada.
— Explica direito.
— Fiquei pensando, nesses dois anos, em como será que o vovô Will consegue ler tanto o coração das pessoas mesmo sem enxergar.
— E aí, encontrou a resposta?
— Hmm, nem um pouco. Mas descobri uma coisa.
A Alicia disse isso com um ar de quem se orgulha de si mesma.
De alguma forma, ela parece mais viva do que antes.
— Dentro da cabana só existia eu, mas fora da cabana tem um monte de gente, né? Óbvio, mas.
— É verdade.
Assenti, concordando.
— Ou seja, você ficou mais sensível às mudanças de fora?
— Como esperado do meu assistente.
Dizendo isso, a Alicia bagunçou meu cabelo com a mão.
Ser reconhecido por ela é, talvez, o maior prazer que existe pra mim.
— Tom de voz, expressão, atitude, ar ao redor… entendi de novo o quanto é difícil ler o coração das pessoas só pelo clima e pelo som. Ainda assim, ainda estou muito longe do vovô Will.
— Você é incrível, Alicia.
— Não tem nada de incrível nisso.
Ela disse isso com toda a naturalidade. Não parecia modéstia, parecia que ela realmente pensava assim.
— Eu não conseguiria fazer esse tipo de esforço.
— Esforço? Não é isso. Talvez seja perseverança, mas eu só estou fazendo o que é necessário pra virar vilã.
— Mas, sei lá, você parecia mais vilã há dois anos. Tipo, aquela cara de incômoda de agora há pouco…
— Ah… sinceramente, eu não sabia como responder.
Dizendo isso, a Alicia mostrou de novo aquela expressão incomodada. Parecia hesitar se devia me contar ou não.
Eu nunca contaria pra ninguém, mas quem decide isso é a Alicia.
A Alicia fechou os olhos de leve e respirou fundo. Depois abriu os olhos devagar e olhou pra mim.
— Só uma vez, a Okaa-sama veio me visitar.
— Sua mãe?
— Isso, a Okaa-sama.
A Alicia disse isso enquanto se abaixava pra passar por baixo de um galho torto.
Pensando bem, eu nunca tinha visto a mãe da Alicia.
— O que ela disse?
— Que o Albert-nii-sama, o senhor Gale e o senhor Curtis dominaram o nível 80, que o senhor Duke ultrapassou o nível 100… e, pensando bem, parece que a senhorita Liz também dominou o nível 100.
— Quê?! Hã?!
Não consegui evitar soltar um som estranho.
Como eu não tinha o menor interesse, não sabia de nada disso.
Pensando bem, o Duke tinha ganhado mais um brinco. Uma pedra mágica verde-jade ao lado da azul. Deve ter sido por ter ultrapassado o nível 100.
…Isso não é coisa de "incrível", é mais que isso.
Até agora, ninguém neste reino tinha conseguido atingir o nível 100. Por que uma coisa sem precedentes está acontecendo tão de repente, tudo de uma vez?
— Isso é estranho.
— Bom, são os protagonistas do jogo, é normal juntar um bando de super-humanos.
A Alicia murmurou isso numa voz baixíssima, quase impossível de ouvir. Mesmo pedindo pra repetir, ela provavelmente não diria de novo. Afinal, ela murmurou justamente pra que eu não ouvisse.
— Ouvi um boato por aí, que a Kate Liz está super popular tanto na academia quanto na cidade.
— Ah, como eu esperava. Ela, no fim, nunca foi ao vilarejo de Roana?
— Claro que não. É só conversa fiada, dela.
— Bom, se ela virar popular, minha reputação como vilã também sobe.
Dizendo isso, a Alicia riu satisfeita.
Ela é realmente estranha. Deveria estar agindo só em benefício próprio, mas, de alguma forma, é atraente, e eu não consigo deixar de gostar dela.
— Sua mãe não disse mais nada?
— Hmm, só disse que, se eu fosse fazer, que fizesse até o fim.
— Só isso? Não era o que eu esperava.
— Minha mãe é meio esquisita. Normalmente é despreocupada e tranquila, mas tem uma certa coragem de aço escondida… enfim, é estranha.
Quase disse "vocês duas se parecem nisso", mas resolvi não falar.
— Já dá pra ver a névoa… aliás, Jill, como você foi até o vilarejo de Roana nesses dois anos?
— Isto.
Mostrei o frasco com o líquido rosa-claro pra Alicia. Ela deve não ter imaginado que eu teria uma coisa dessas. A Alicia arregalou os olhos.
— Como você conseguiu isso?
— O pai da Ali me deu.
— O Otou-sama…
A Alicia murmurou baixinho.
Uma expressão misturando surpresa e alegria.
— Parece que se chama Abel.
Balancei levemente o frasco enquanto dizia isso.
Essa era a quinta vez que eu vinha aqui nesses dois anos.
E, ainda por cima, só quatro vezes no primeiro ano. Expliquei tudo direitinho sobre a Alicia pro vovô e pra Rebecca.
Os dois ficaram surpresos, mas entenderam na hora.
Fazia um ano que eu não vinha aqui. Como sempre, a névoa mágica formava uma grande parede. Este vilarejo é um inferno pra mim. A Alicia, talvez lendo minha expressão, bateu de leve na minha cabeça duas vezes, com carinho.
Respirei fundo e atravessamos a névoa junto.
Que estranho, o clima do vilarejo parece diferente do normal… será impressão minha?
Talvez por ser de manhã, os moradores já estavam bem acordados, e num instante os olhares de todos se voltaram pra nós. Olhares afiados nos atravessavam como lâminas.
Isso é ruim. A Alicia vai ser atacada…
Mas ela, sem se intimidar nem um pouco, encarava todos de frente, com postura firme.
…Ah, é verdade, a Alicia sempre foi assim mesmo.
— O que houve?
Uma voz familiar ecoou ao longe. Os moradores abriram caminho. Quem apareceu foi um rosto que eu sentia saudade. Ela parecia ter ficado bem mais alta desde a última vez que a vi.
Uma garota de cabelo prateado longo preso, olhos castanho-claros, arregalou bem os olhos ao nos ver.
— Ali… cia?
Atrás da Rebecca, também estava o vovô.
Assim que o vovô apareceu, o clima dos moradores mudou completamente. De alguma forma, o vovô parecia ser o líder deste vilarejo. O que será que aconteceu nesse último ano?
— Quanto tempo, Rebecca.
A Alicia disse isso, erguendo gentilmente o canto da boca.
Os olhares de todos se concentraram na Alicia. E a maioria prendia a respiração diante da beleza dela.
Vendo de fora, parecia até que uma Santa tinha vindo salvar este vilarejo. Claro que jamais eu diria a palavra "Santa" pra Alicia, nem que me obrigassem. Afinal, ela não tem nem um pingo de intenção de salvar este vilarejo.
— Ficou muito mais bonita.
A Rebecca disse isso, ainda olhando fixamente pra Alicia.
— Sério? Obrigada.
A Alicia agradeceu com sinceridade.
— Alicia.
Dizendo isso, o vovô se posicionou ao lado da Rebecca.
O vovô sempre teve uma postura firme, cheia de dignidade. Cabelo branco, mas quase sem rugas; mesmo sem os olhos, dava pra ver que os traços do rosto eram bem-feitos.
Sábio e gentil, ele é a pessoa que eu mais admiro.
— Vovô Will!
A Alicia exclamou, animada. Perto do vovô, ela parece ganhar de volta o rosto de uma garota da própria idade.
— Você parece bem.
O rosto do vovô se abriu num sorriso.
A Alicia se aproximou do vovô e o abraçou com força. Ele ficou paralisado por um instante, mas logo acariciou a cabeça dela com gentileza.
Os dois são tão próximos que quase dá inveja.
Eu devia ter passado mais tempo com o vovô do que a Alicia, mas parece que o laço entre os dois é ainda mais profundo.
— Vovô Will, será que o senhor pode se abaixar um pouco?
Diante do pedido da Alicia, o vovô, com uma expressão intrigada, obedeceu, se abaixando.
Ficamos observando em silêncio. A Alicia aproximou o rosto dos olhos do vovô.
O que ela está prestes a fazer?
De repente, ela começou a entoar um encantamento. Uma língua que eu nunca tinha ouvido. Estava recitando como quem canta uma música. Instantaneamente, uma pequena luz clara começou a flutuar suavemente no ar.
…Será que é a língua antiga do Reino de Dulkis?
Quase ninguém no mundo deveria conseguir usar esse idioma. E, além disso, dizem que leva dezenas de anos pra dominá-lo.
…Será que ela se trancou na cabana justamente pra dominar essa magia?
A voz clara dela ecoava pelo vilarejo silencioso. A luz branca reluzente foi envolvendo devagar o vovô e a Alicia. A luz era tão ofuscante que eu não conseguia manter os olhos abertos.
Mesmo dominando o nível 100, achei que não haveria ninguém capaz de usar uma magia que exige a língua antiga.
A luz foi ficando cada vez mais forte e maior; fechei os olhos com força. A luz intensa atingiu meus olhos por um instante, mas o estímulo desapareceu logo em seguida.
Ao mesmo tempo, a voz da Alicia também parou de ser ouvida. Abri as pálpebras devagar.
…Era essa magia.
De alguma forma, eu já desconfiava, mas mesmo assim meu corpo inteiro se arrepiou. Os moradores do vilarejo também estavam paralisados, boquiabertos. Tinha até quem ficasse com a boca escancarada, incapaz de se mexer.
A Rebecca estremeceu o corpo inteiro e deu um sorriso meio tenso.
— Incrível…
A Rebecca murmurou, arregalando os olhos.
De fato, ninguém conseguia acreditar no que via.
Do olho esquerdo da Alicia, saía algo como uma fumaça negra, oscilando no ar.
E, no olho esquerdo do vovô, agora havia um olho dourado, brilhando.
A Alicia esboçava um sorriso de alívio. Parecia aliviada por a magia ter dado certo sem problemas.
O vovô olhava pra Alicia sem conseguir falar. Ele ainda não parecia entender o que tinha acontecido com ele mesmo.
…É isso. Como eu imaginava, era isso mesmo.
Minha suspeita se transformou em certeza.
— Vovô Will?
A Alicia aproximou um pouco o rosto do vovô. Ele colocou a mão devagar na bochecha da Alicia. Aquela mão tremia visivelmente.
— A Alicia tinha um rosto tão bonito assim…
O vovô disse isso numa voz emocionada, segurando as lágrimas. Parecia que, a qualquer momento, elas iam transbordar. Senti algo quente subindo do fundo do meu peito.
— Não acredito.
— O vovô Will ganhou os olhos de volta.

— Quem é essa garota linda…
— Será que ela pode nos tirar daqui…
Assim que uma pessoa começou a falar, todos começaram a falar ao mesmo tempo. Num instante, o burburinho tomou conta do lugar.
Mas, comparado ao normal, o jeito como os moradores conversavam parecia estranhamente contido. Antes, com certeza teria gente xingando abertamente, mesmo sabendo que não tinha chance nenhuma, só de saber que a Alicia consegue usar magia.
— O que aconteceu com este vilarejo…
— Já que a Alicia estava se esforçando tanto pra chegar ao nível 90, achamos que a gente também devia se esforçar. Bom, na prática, foi o mestre quem melhorou a segurança daqui quase sozinho.
A Rebecca respondeu ao meu comentário solto pra mim mesmo. Ela chama o vovô de "mestre".
— Os mais rudes acabaram fugindo pro fundo do vilarejo, de rabo entre as pernas. Ainda assim, às vezes eles aparecem e causam confusão. Hoje em dia, dá pra dizer que o vilarejo está meio dividido entre uma parte boa e uma parte ruim.
A Rebecca disse isso rindo de leve.
Quem colocou tudo isso em movimento, com certeza, foi o vovô e a Rebecca — mas o eixo central de tudo é a Alicia. Ela nem percebe, mas atrai as pessoas naturalmente. E é muito boa em conquistar o coração dos outros.
— Alicia, muito obrigado mesmo. Consigo ver os rostos… os rostos de todo mundo deste vilarejo.
Com as palavras do vovô, o silêncio voltou a tomar conta do lugar. Uma única lágrima escorreu devagar pela bochecha dele. As lágrimas dele deixaram o vilarejo inteiro emocionado.
Foi a primeira vez que vi o vovô chorar.
— Se ela deu os olhos por magia, isso quer dizer que, se o mestre morrer, os olhos voltam pra Alicia?
Foi a Rebecca quem quebrou o silêncio com um comentário sem noção nenhuma da situação. Ela perguntou olhando pra mim, como se espiasse meu rosto.
— É isso mesmo. Quando a pessoa morre, o olho volta pro dono original.
Mas, mesmo assim, não é algo que se faria facilmente, entregar o próprio olho a outra pessoa.
E, além disso, a Alicia não está esperando nenhuma recompensa do vovô por causa disso. …Esse gesto — dá pra dizer que é digno mesmo de uma Santa. Isso significa que o caminho rumo à vilania ainda está bem longe.
Um sorriso escapou naturalmente do meu rosto.
Quando a Alicia transferiu o olho pro vovô, descobri uma coisa. O vovô é bem mais jovem do que eu imaginava.
— Ele é bem bonito, hein.
— Verdade, ele é lindo.
— Você curte velho, é isso?
— Deve ter uns cinquenta anos.
— Mas o cabelo é branco de vez.
— O jeito de falar também é bem de velho.
Algumas vozes jovens e animadas chegaram aos meus ouvidos. Não sei se estavam elogiando ou zoando.
— Vovô Will.
A Alicia chamou o vovô numa voz calma e serena.
Pelo jeito dela, dava pra ver que ela também já sabia. A Alicia falava com o vovô só com o olhar. E o vovô também parecia entender o que ela queria dizer.
…Naquela hora, achei que já tinha visto aquilo em algum lugar. Foi por isso que perguntei ao Duke.
O quadro pendurado na parede do palácio real — quem eram aquelas duas pessoas.
— Meu nome é Seeker Will.
Uma voz grave, baixa e cheia de dignidade ecoou, como se apertasse o próprio ar ao redor.