Capítulo 3
O vovô Will só disse "venha de novo" e nos mandou, a mim e ao Jill, de volta pra casa.
No instante em que ouvi o nome do vovô Will, mesmo já tendo previsto, ainda assim fiquei arrepiada. Trabalhava no palácio real… então era isso que significava.
Tinha um monte de coisa que eu queria perguntar, mas decidi me comportar e não insistir naquele momento.
Ao chegar em casa, ainda não parecia ter ninguém acordado, então voltei direto pra cabana, e o Jill também saiu correndo, dizendo que tinha algo pra resolver no próprio quarto.
Fiquei deitada de costas na cama, pensando em várias coisas.
O quanto será que o Jill cresceu nesses dois anos?
Aqueles olhos cinza pareciam ter ganhado ainda mais inteligência do que antes.
Nesses dois anos, me dediquei de corpo e alma a dominar magia. Ler livros, treinar o corpo, praticar magia — todo santo dia, essa mesma rotina, sem parar. Não conversar com ninguém, ficar sozinha o tempo todo… sinceramente, foi bem duro. Várias vezes quis realmente desistir, cheguei perto de quebrar. Mas eu tinha um objetivo, e precisava manter meus ideais elevados, senão eu falharia como vilã — foi assim que consegui me manter firme. Acho que ganhei, no mínimo, força mental e paciência de sobra com isso.
Aprender a língua antiga do Reino de Dulkis foi um sofrimento e tanto. Nunca imaginei que a magia de nível 87, "transferir as próprias coisas pra outra pessoa", exigisse recitar em língua antiga.
Mas, como resultado, nesses dois anos, consegui dominar nada menos que o nível 91!
Levantei da cama de um pulo.
Meu campo de visão está diferente do normal. O mundo que eu vejo ficou mais estreito. Não enxergo bem do lado esquerdo, mas, bom, acho que vou me acostumar com o tempo.
O que mais preciso tomar cuidado é com a noção de distância. Às vezes, o mundo parece plano de repente. Foi por isso que tropecei tantas vezes andando pela floresta.
Olhei pra baixo, pros meus próprios pés. Estava saindo um pouco de sangue da sola. …Andar descalça mesmo é perigoso.
Estalei os dedos de leve.
…Hã?
Nenhuma mudança.
Um calafrio percorreu meu corpo, e um suor frio começou a escorrer. Estalei os dedos de novo.
Nada acontece — !?
Senti todo o sangue fugir do rosto.
Por que eu não consigo usar magia?
Toc toc, o som de alguém batendo na porta ecoou pelo quarto.
— Sou eu.
A voz clara do Jill veio do outro lado da porta.
O choque de não conseguir usar magia foi tão grande que eu não consegui nem responder. Talvez estranhando o silêncio, o Jill abriu a porta devagar e entrou na cabana.
— Alicia? Aconteceu alguma coisa?
Virei o olhar meio hesitante pro Jill, e vi que ele segurava nas mãos algo parecido com um tecido preto comprido.
— O que é isso?
— Ah, isto é um tapa-olho. Acabei de fazer.
Dizendo isso, o Jill me estendeu o tecido preto que segurava.
…Tapa-olho?
— Foi o Jill quem fez?
— Bom, foi. É fácil.
O Jill ficou um pouco encabulado.
Conseguir fazer isso num tempo tão curto assim… ele é habilidoso demais.
— Obrigada.
Falei isso e coloquei o tapa-olho na hora. Olhei meu próprio rosto no espelho.
Ah, ficou até bem legal em mim. Acho que ganhei bastante clima de vilã com isso.
De alguma forma, o Jill parece menor do que antes. Ter o campo de visão pela metade muda tanto assim a percepção…
— Então, o que houve?
O Jill me olhava como se estivesse vendo através de mim.
Achei que tinha disfarçado bem, mas ele descobriu na hora. Bom, não adianta esconder, então não tem jeito além de contar.
Respirei fundo uma vez e disse, com calma e clareza:
— Parece que eu não consigo mais usar magia.
O Jill arregalou os olhos por um instante, mas logo colocou a mão no queixo e franziu a testa. Murmurava algo baixinho. Foi então que ergueu o rosto de repente e me encarou.
— Acho que, em cerca de uma semana, você deve conseguir usar de novo.
— Como você sabe disso?
— Estava escrito num livro. O olho também tem poder mágico… e, como você perdeu de repente, deve ter sido isso que fez você não conseguir mais usar.
— O nível continua o mesmo?
— …Isso eu não sei.
O Jill fez uma expressão levemente incomodada.
Se o nível tiver caído, vou ser tirada do cargo de vigilante da Kate Liz.
— Ei, o vovô não consegue usar magia?
O Jill me perguntou intrigado.
…Ah, é verdade, o vovô Will era da família real.
Nobres normalmente conseguem usar magia. Mas nunca vi nenhum sinal dele usando magia. E, além disso, se o nome dele é Seeker Will, isso significa que ele é irmão do rei atual, e mesmo assim estava no vilarejo de Roana… espera, como assim? Quanto mais eu penso, mais minha cabeça vira uma bagunça.
— Talvez o Duke saiba.
O Jill murmurou baixinho, sem expressão nenhuma.
De fato, o senhor Duke talvez saiba. Mas acho que ele não vai contar o motivo.
— Mais do que isso, o que você vai fazer agora?
O Jill perguntou num tom sério.
— Bom… por enquanto, quero ir à academia e confirmar como as coisas estão agora.
— Hã? Vai pra academia?
O Jill me olhou com uma expressão de resignação.
Ah, não esperava que ele ficasse tão surpreso assim.
Antes de mais nada, preciso confirmar a situação atual da senhorita Liz. É melhor conhecer logo a força do inimigo.
— Ei, dá pra continuar como vigilante da Kate Liz sem conseguir usar magia?
— A propósito, é verdade que o Henry-nii-sama e o Otou-sama estão super tensos um com o outro?
Ignorei a pergunta do Jill e fiz a minha.
Enquanto eu estava na cabana, tinha um bilhete com esse tipo de informação na bandeja que traziam comida. E também ouvi fofoca de jardineiros.
O Jill soltou um pequeno suspiro, com uma expressão de resignação.
— É verdade. O Henry só ficou implicando com ele.
— Coitado do Otou-sama.
O Henry-nii-sama não sabe que eu virei vigilante da Kate Liz a pedido do rei. Mas não é como se eu estivesse atuando como vilã só porque o rei mandou.
Todo otome game tem sempre uma heroína. E, contra ela, precisa existir uma vilã. Só que, no meu caso, é mais como corrigir o pensamento puro demais da heroína pra proteger a ordem do reino. Por sorte ou azar, nossos valores são tão diferentes que só consigo mesmo entrar em confronto com a senhorita Liz.
E o Henry-nii-sama acha que o Otou-sama me impôs uma condição absurda. Deve estar pensando que ele é um pai péssimo, que colocou a própria filha numa situação difícil sem nenhum motivo.
Bom, é verdade que, sem conhecer a situação real, dá pra entender por que ele ficaria com tanta raiva.
No meu caso, eu já estava disposta a ser odiada por todos os meus irmãos, já que eles também são alvos de conquista da heroína, mas só o Henry-nii-sama foi diferente. Ele é um irmão que realmente se preocupa com a irmã.
…Mas, no jogo original, no fim das contas, até esse irmão acaba traindo, né. Não, tudo bem assim! Uma vilã vive como uma mulher solitária, acima de tudo.
— Certo! Vamos pra academia agora.
— Agora? Quer dizer que você não vai encontrar o Arnold?
O Jill acertou em cheio, casualmente.
Ugh. Ele tocou num ponto sensível. Porque, se eu o encontrar, com certeza vou ser obrigada a fazer o teste de nível de magia. No estado atual, sem conseguir usar magia, seria péssimo.
Aliás, o Jill já está chamando meu pai de "Arnold" sem eu nem perceber… será que ficaram bem íntimos?
— Sim, pretendo fugir do Otou-sama por uma semana. Por enquanto, vou trocar de roupa rápido, espera lá fora.
— Tá bom… ei, um pouco tarde pra isso, mas… por que você quer virar vilã, Alicia?
Fiquei um pouco travada com a pergunta do Jill.
Vilã é meu ideal, mas, quando me perguntam por que quero ser assim, fico sem resposta certa.
Mas eu senti que devia ser assim… "porque é legal" seria uma resposta infantil demais.
— Porque é o meu destino.
Respondi isso, com uma resposta qualquer que me veio à cabeça na hora, dizendo com um sorriso radiante, super estilo vilã.
Depois de me arrumar e sair da cabana, o Jill arregalou os olhos ao me ver.
Será que ele ficou hipnotizado? Bom, já tenho quinze anos. Resolvi mudar completamente a atmosfera.
O vestido preto de renda que pedi pra Rosetta preparar pra este dia tem bordados na mesma cor dourada dos meus olhos… deve estar passando uma aura de vilã e tanto.
Prendi o cabelo num rabo pra destacar os brincos grandes, e isso já dá um ar bem mais adulto de uma vez. E, além disso, sinto que o diamante que o senhor Duke me deu, no meu peito, finalmente combinou comigo.
— …Ficou linda.
— Eu sei.
Diante do Jill me olhando meio atordoado, levantei o canto da boca num sorriso.
— …Ainda assim, acho que vai ser difícil esconder que você não consegue usar magia.
— Eu sei.
— Então por que você parece tão feliz assim?
— Uma vilã sempre encontra dificuldades pelo caminho.
— É superando isso que se vive a vida de vilã, né.
— Exatamente isso.
— A Alicia realmente é incrível.
O Jill riu, resignado. Parece que vai me acompanhar mesmo nessa loucura.
Como esperado do meu assistente… ou melhor, parceiro.
Sorri com orgulho, tentando esconder o nervosismo por dentro que eu não queria que transparecesse.
A academia de magia, que eu visitava depois de tanto tempo, parecia ainda mais luxuosa que antes.
Talvez seja só porque fiquei tanto tempo na cabana que tudo agora parece luxuoso.
— Alicia, só um aviso: a partir daqui, é melhor pensar que estamos num campo de batalha.
— Por quê?
— Deve ser… difícil.
O Jill hesitou nas palavras.
Por que ele está tão sem jeito assim? Não parece o Jill de sempre.
— Fala logo.
Ele soltou um pequeno suspiro, meio resignado.
— A Alicia é do tipo que não se importa com insulto, é forte, então acho que vai ficar bem… mas não se deixe enganar.
— Por quem?
Diante disso, o Jill soltou um suspiro longo e profundo.
Será que eu disse algo tão estranho assim? Sou elogiada justamente quando me xingam, e insulto é bem-vindo. Mas o que ele quer dizer com "enganar"?
— Você tá em desvantagem na academia. Os alunos que ficaram felizes com o sumiço da Alicia…
O Jill parou de falar no meio. Deve ter tido consideração comigo.
Não precisava se preocupar em terminar. Aliás, agora mesmo, estou me sentindo maravilhosamente bem.
Eu já era uma vilã de respeito desde dois anos atrás!
Vilã autoproclamada é uma coisa, mas vilã reconhecida por todo mundo é sempre melhor.
— Ou seja, o que eu quero dizer é: não vai fazer nada que faça você largar a academia, tá bom?
— Fica tranquilo.
Disse isso sorrindo pro Jill. Ele parece não confiar muito em mim.
Fiquei ainda mais curiosa pra conhecer a situação da academia. Ver com os próprios olhos vale mais que ouvir cem vezes.
Atravessamos o portão da academia de magia depois de dois anos.
Depois de um tempo, alguns alunos apareceram. No instante em que nos viram, começaram a cochichar entre si com expressões de espanto.
Por que as pessoas sempre baixam a voz pra falar mal dos outros? Se falassem abertamente, eu poderia rebater à altura, como uma vilã de verdade.
— Ei, não é a Williams Alicia?
Uma voz aguda ecoou. Meu nome já circula até entre gente que eu nem conheço.
— Olha, ela tá de tapa-olho.
— Que absurdo, sendo mulher.
— Que nojo.
— Deve ter sido uma maldição que apodreceu o olho dela.
De repente, ouvi risadinhas abafadas.
Incrível, sinto que estou recebendo o dobro de insultos graças ao tapa-olho. Vou agradecer a ele.
Olhei pro Jill; ele caminhava com um olhar tão frio que quase parecia capaz de congelar as pessoas.
— É incômodo ela andar por aí tão despreocupada assim.
— É bonita, mas por dentro é feia.
— Eu acho que a senhorita Liz é bem mais bonita.
— Não dá pra comparar com ela.
— Nunca conheci ninguém com um coração mais puro que o dela.
— Para de brincadeira, ela não chega nem aos pés da senhorita Liz.
Devem achar que não estou ouvindo, mas todas as vozes chegam perfeitamente aos meus ouvidos.
Quanto mais falam de mim, mais me sinto num êxtase de prazer, mas o Jill vai ficando com uma expressão cada vez mais severa.
Ainda assim, receber tanto insulto assim tem um quê de purificante. Talvez a frase da senhorita Liz, "o esforço é sempre recompensado", estivesse certa mesmo.
— Melhor nem vir mais pra academia.
— Eu queria que ela fosse embora logo.
— O Albert-sama, o Alan-sama e o Henry-sama são todos tão maravilhosos…
— Só ela é o fracasso da família? Que pena pra família Williams.
— Rosto bonito, mas não sabe fazer nada… só atrapalha, mesmo.
Dei uma olhada pra quem estava me insultando. No mesmo instante, os rostos deles se contraíram. Sem nem precisar olhar feio, o ar ficou tenso num piscar de olhos.
Conseguir amedrontar as pessoas assim com um olho só… eu realmente tenho talento pra vilã!
— O-o que foi?
— Não tenho medo nenhum de você.
Uma vilã de verdade não perde tempo com figurantes.
Ignorei todos e continuei andando. Essa academia é grande demais à toa, então até chegar ao prédio principal é longe.
— Você foi expulsa por entrar à força no quarto do senhor Duke!
— Isso, aposto que passou esses dois anos brincando com homens!
Ouvi vozes ásperas vindo de trás, e parei no mesmo instante.
Só pela voz e pelo ar, dava pra sentir um desprezo tremendo direcionado a mim.
Ah, quer dizer que, sem eu perceber, virei uma expulsa. Que assustador, o poder dos boatos.
E ainda por cima, o motivo… é bem digno de vilã!
Quantos pontos de vilania será que ganhei só hoje?
Enquanto estava trancada na cabana, foi bem duro, mas parece que também tem coisa boa nisso. A história ficou tão exagerada assim.
— Você não combina com o senhor Duke.
— Aposto que trouxe esse garotinho só pra melhorar sua reputação.
— Ela quer mostrar pra todo mundo que está "protegendo" essa criança.
— Que pena de verdade. Tratar uma criança só como ferramenta.
— O senhor Duke veria na hora através dessas mentiras rasas.
Os olhos do Jill emanavam um instinto assassino tremendo. Parecia prestes a explodir a qualquer momento.
— Ah, eu realmente queria que ela tivesse ficado noiva do senhor Liz.
— É, por que o senhor Duke ficou noivo de alguém assim?
— Aposto que ele já está se arrependendo.
…Espera um pouco.
Lancei um olhar pro Jill. Parece que ele entendeu o que eu queria dizer, e assentiu de leve.
Quando foi que eu fiquei noiva do senhor Duke!?
— Er, será que eu poderia falar com você um instante…
De repente, ouvi uma voz fofa vindo de lado. Virei o olhar devagar na direção da voz.
Er… quem é essa?
Olhos cor de feijão-azuki me olhavam fixamente. Um visual que fazia pensar "isso sim é elegância recatada".
— Er, acho que seria mais sensato você deixar esta academia.
Por um instante, não acreditei no que ouvi. Nunca imaginei que até uma garota com cara de presidente de turma fosse falar uma coisa dessas.
— Como?
O Jill falou antes de mim.
— Isso mesmo!
— A Jane tem razão!
— Vai embora!
Todo mundo aderiu à opinião da garota, e o ambiente ficou barulhento de repente.
Então essa moça recatada se chama Jane. Aquele sorriso satisfeito dela me irrita. Queria que parasse com esse sorriso repulsivo.
— A saída é por aqui.
Dizendo isso, ela agarrou meu braço com força, tentando me arrastar pra fora da academia.
— Ei, Ali.
No mesmo instante em que o Jill falou, sacudi a mão com toda a força pra tirar o braço dela do meu.
…Ops. Como foi de repente, acho que errei a força.
— Uh…!
A Jane soltou um som grave, muito diferente do que sua aparência sugeria.
Ah, ela voou longe mesmo. Quem diria que o resultado do meu treino diário apareceria justamente numa hora dessas.
A Jane caiu com um baque no gramado.
O Jill me olhou de boca aberta. O tumulto de até agora ficou em silêncio, como se nunca tivesse existido.
— Ei, Jill, com isso eu não vou ser expulsa, vou?
Sussurrei pra ele, mas não obtive resposta.
Será que assustei tanto assim? …Nesse caso, sendo uma vilã, que tal aproveitar a chance pra intimidar mais um pouco todo mundo?
Virei devagar, olhando pra trás. Nos olhos de todos, dava pra ver medo e agitação.
Isso, isso mesmo, era exatamente esse olhar que eu queria ver.
— Quem eu derrubo primeiro, hein? ♪
Disse isso sorrindo, olhando pra todos com desdém.
Assim que falei, percebi que talvez tenha soado meio vulgar. Deveria ter dito de um jeito mais elegante de vilã. Bom, já não adianta mais me arrepender agora.
O rosto de todos foi ficando pálido num instante.
— Uhuhuhuhuhu.
De repente, uma risada que não lia o clima nenhum ecoou. Virei o olhar na direção da risada e vi uma garota pequena descendo de uma árvore, se aproximando de mim.
Esse tipo de gente é melhor não se envolver… meu instinto está gritando isso.
Olhos redondos cor de framboesa, cabelo rosa em duas maria-chiquinhas… parecia uma boneca de verdade.
Não me lembro de uma garota tão fofa assim no jogo.
Um cheiro doce pairava suavemente no ar.
— Oi, Alicia-chan! Eu sou a Mel, prazer!

Ela disse isso com uma voz fofinha, parando bem na minha frente, encarando fixamente meu rosto.
— Que fofa demaaais! Pele fresquinha, esses olhos lindos… um deles tá tampado, mas mesmo assim! Esse tapa-olho também tá um charme! Mas, meu Deus, que garota linda! Quero te comer de tão fofa!
Ela disse isso aproximando muito o rosto do meu.
Uma garota do tipo "perigo, não tocar".
O Jill parece pensar a mesma coisa. Os olhos dele me diziam claramente: essa aí é perigosa.
— A propósito, se procura os irmãos da Alicia-chan, eles estão todos reunidos no conselho estudantil, não devem estar na sala de aula.
A Mel disse isso rindo, sem eu entender bem o que achava tão engraçado.
— A propósito, do meu ponto de vista, o conselho estudantil de agora tá péssimo! Ah! O noivo da Ali-Ali é o presidente do conselho, viu~
Hã? Ali-Ali? Ela tá falando de mim?
— E parece que ele não tá se dando bem com a Liz-chan, vice-presidente~. Por causa da Ali-Ali, essa academia tá um caos!
Do nada, o que é isso. Presidente do conselho que não se dá bem com a senhorita Liz — não me diga que é o senhor Duke?
— Eu sou colega de turma do Henry e do Alan, sabia…
— Quê? Colega dos meus irmãos? Então tem dezoito anos?
— Isso mesmo. Pode me chamar de Mel.
Ela não parece nem um pouco alguém mais velha que eu… e o jeito de falar a fazia parecer ainda mais nova.
A Mel olhou pro Jill. Ele continuava olhando pra ela com desconfiança e cautela.
— Você também é fofo. Qual seu nome? …Ué, não fala?
— É Jill.
Respondi no lugar dele.
— Aaah~
A Mel olhou pro Jill com um olhar frio, de cima pra baixo. Senti, com o corpo inteiro, que ela era realmente perigosa.
— Ei, Ali-Ali, não precisa ficar tão em guarda assim.
Dizendo isso com um sorriso, ela de repente segurou minha mão e a do Jill com força. Nesse instante, a paisagem à nossa frente pareceu ondular.
Ah, é magia de teletransporte. …Ela também consegue fazer isso.
Fechei os olhos e prendi a respiração. O Jill, percebendo isso também, fechou os olhos e prendeu a respiração na hora.
Enjoar é a última coisa que eu quero.
Percebendo que estávamos num lugar diferente, abri as pálpebras devagar. Um verde intenso preenchia meu campo de visão. Um ar extremamente fresco.
…Floresta? Parece não ter ninguém por perto.
— Onde é aqui?
O Jill perguntou olhando ao redor.
— Fica tranquilo, é dentro da academia. Aqui não tem ninguém, dá pra conversar à vontade.
— Conversar sobre o quê?
— Já disse, não precisa ficar tão em guarda assim~
— Vou ficar.
O Jill respondeu antes de mim. A Mel fez uma cara levemente contrariada pra ele.
Até essa cara é fofa. Não parece nem um pouco ter dezoito anos.
— Relaxa, eu realmente gosto da Ali-Ali.
— Mesmo sem nunca ter se encontrado com ela?
— Já vi de longe, ela é super famosa.
— Só isso?
— Bom~, mas eu faria mesmo qualquer coisa pela Ali-Ali.
— Não dá pra confiar.
— O que eu preciso fazer pra você confiar em mim?
A conversa continuava só entre o Jill e a Mel.
Por que a Mel diz que gosta tanto assim de mim? Nunca conversamos nem uma vez.
— A propósito, o que aconteceu com esse olho?
O rosto da Mel estava transbordando de curiosidade. Ignorei a pergunta dela e lancei outra questão.
— O que você gostou em mim?
— E a minha pergunta?! …Bom, tudo bem, se não quer contar. Foi na antiga biblioteca que te vi pela primeira vez. Naquela época, só pensei "nossa, que menina inteligente", mas foi na hora do chá da tarde que… aquela hora eu senti um arrepio no corpo inteiro.
Dizendo isso, a Mel mostrou uma expressão de êxtase.
— Eu odeio a Kate Liz de verdade! Ela me irrita demais!
O rosto da Mel foi ficando cada vez mais vermelho. Mentalmente, também parece uma criança.
— Se é só pra ouvir reclamação, eu já vou indo.
Fiz menção de sair andando. Aí, a voz baixa e serena da Mel chegou aos meus ouvidos.
— Não sou só eu que a odeia.
A expressão dela mudou completamente, virando uma pessoa diferente da Mel de agora há pouco.
— Eu gosto do jeito de pensar realista da Ali-Ali. Me apaixonei por ela naquele chá da tarde de dois anos atrás, mas, ainda agora há pouco, quando você derrubou a mão da Jane, também foi demais! Me apaixonei de novo. Aquela garota adora a Kate Liz. É praticamente uma devota.
A expressão da Mel ia mudando o tempo todo.
— De qualquer forma, o que eu quero dizer é que estou do lado da Ali-Ali.
— Eu não preciso de aliados.
Recusei com um sorriso.
— O que você está fazendo?
Uma voz de repente familiar ecoou. Uma voz masculina clara e envolvente… senhor Duke?
Virei o olhar na direção da voz. Lá estava o senhor Duke, mais alto do que antes, mais viril também. Ganhou mais um brinco, cor jade. Virando um homem adulto, emanava uma aura ainda mais ofuscante — quase difícil de olhar diretamente.
As pessoas realmente mudam tanto assim em dois anos.
— Uma mandíbula tão definida, olhos como um mar bonito, pele de um tom escuro lindo, corpo forte…
A Mel olhava extasiada pro senhor Duke. Ela ergueu ainda mais a voz.
— Reencontro dos noivos depois de tanto tempo! Vamos lá, um abraço apaixonado!
— Espera, desde agora há pouco, o que é essa história de noivos? Eu não me lembro de ter virado noiva do senhor Duke.
Pensei que talvez os outros também tivessem falado algo parecido, mas o senhor Duke está destinado a ficar com a senhorita Liz, né. O que será que originou um boato desses?
— Sobre o noivado, eu mesmo vou explicar direito pra Alicia.
…Como? O senhor Duke e eu, noivos?
Será que, enquanto eu passava dois anos trancada na cabana, virei noiva sem nem saber?
— Senti sua falta.
— M-muito tempo sem vê-lo.
Sendo uma vilã, por que estou ficando tão nervosa desse jeito? Nunca imaginei que ele diria "senti sua falta" assim, de repente. Numa hora dessas, o que se diz normalmente?
— O senhor Duke também não mudou nada, não é mesmo.
— Sim. Alicia, você ficou ainda mais bonita nesses dois anos. Mas o que houve com esse tapa-olho?
— A, a relação da Mel com o senhor Duke é…?
Sou péssima demais em mudar de assunto. Será que não dá pra fazer isso com mais elegância?
— Relação de senhor e serva.
Ele respondeu como se fosse algo sem importância nenhuma.
Entendo… espera? Achei que uma serva de um príncipe seria alguém bem mais formal.
— Er, e essa história de noivado, como assim?
— Isso é só um boato. Você já dormiu no meu quarto uma vez, lembra? Desde então, vários boatos começaram a circular. …Bom, eu não me importaria de fazer isso de verdade quando quiser.
O senhor Duke ficou olhando fixamente pra mim. Naqueles olhos azuis, eu me refletia, e, se eu não tomasse cuidado, sentia que seria sugada pra dentro deles.
Uma vilã não se abala com uma coisa dessas. Mesmo assim, meu rosto foi ficando cada vez mais quente.
— Er, tem algo no meu rosto?
Achei uma pergunta idiota, mas, incapaz de suportar aquele clima doce que o senhor Duke emanava, acabei falando isso mesmo assim.
O senhor Duke não disse nada, só tocou de leve na minha bochecha. Naquele instante, meu coração deu um salto. Não estou acostumada com esse tipo de contato físico com o sexo oposto! Mesmo sendo uma vilã, ainda sou uma pessoa pura, viu.
— Então, o que houve com esse tapa-olho?
Ele disse isso num tom preocupado, e tentou tocar no meu tapa-olho.
— Não toque.
Com medo de que ele descobrisse que eu não tinha mais o olho ali, acabei batendo na mão dele por reflexo. Diante da minha rejeição ao senhor Duke, o ar ficou tenso num instante.
Ah, por que sempre acaba assim. É melhor eu simplesmente contar logo.
— Eu doei o olho pra uma pessoa.
Disse isso mantendo o sorriso, num tom propositalmente leve. Os olhos do senhor Duke se arregalaram bem.
— Como assim!?
Quem falou primeiro foi a Mel. A voz aguda dela soou como uma explosão.
— Então, é isso…
No exato instante em que tentei explicar de novo, a mão do senhor Duke, que eu tinha afastado antes, tocou minha bochecha de novo.
De alguma forma, senti mais força dessa vez…
Olhei devagar pro rosto do senhor Duke. …Será que é isso que chamam de "cara de demônio"?
O senhor Duke me olhava com um olhar severo.
— Por quê.
Aquela voz era gravíssima, e todo o meu corpo se arrepiou. …Ele está bravo.
Engolida por aquela atmosfera, não consegui dizer nada. Que pressão tremenda.
O Jill e a Mel também pareciam surpresos com o comportamento do senhor Duke.
— Você não faz ideia de com que sentimento eu venho acompanhando tudo até agora. Sei que você vem, desde pequena, interpretando o papel de vilã, e que se diverte com isso. Se é isso que a Alicia deseja, eu…
O senhor Duke parou de falar no meio da frase.
A raiva de agora há pouco tinha desaparecido dos olhos dele. Mas agora, mais do que raiva, ele tinha um olhar triste e dolorido que dilacerava meu coração.
Espera, será que ele descobriu que eu estava interpretando o papel de vilã…?
De fato, o senhor Duke talvez tivesse percebido. Mas nunca imaginei que ele diria isso de forma tão direta assim.
— …Eu não me lembro de ter pedido pro senhor Duke me acompanhar.
Quando percebi, essas palavras já tinham saído da minha boca. Sabia que era terrível, mas achei que uma vilã diria exatamente isso.
Deveria estar feliz por conseguir rebater como uma vilã de verdade, mas por que meu coração dói tanto?
— Entendo, foi mal.
O senhor Duke sorriu de um jeito sofrido. …Nunca tinha visto uma expressão dessas nele.
Me arrependi profundamente das minhas próprias palavras. Mas o que já foi dito não tem como recuperar. Ele afastou a mão da minha bochecha devagar e se afastou.
Fiquei parada, olhando atônita pras costas dele. Aquela expressão do senhor Duke não saía da minha cabeça.
Nunca imaginei que uma única palavra dita sem pensar traria tanto arrependimento assim.
A vilã que eu queria ser… não é essa.
— Ali-Ali é idiota? Isso foi horrível.
A Mel me encarou. Foi a voz mais baixa que ouvi dela hoje. As palavras dela me atingiram fundo no peito.
— Eu sei — quis dizer isso, mas não conseguiu sair a voz. Quanto mais minha cabeça se confundia, menos eu conseguia dizer qualquer coisa.
— Mas, bem, se preocupar de verdade ou não é questão do próprio Duke ficar remoendo sozinho, então não tem jeito.
A Mel murmurou isso meio resignada.
— Desculpa por ter falado horrível sem saber a situação da Ali-Ali.
Ela de repente curvou a cabeça pra mim. Fiquei surpresa com a atitude repentina da Mel. O Jill também arregalou os olhos, olhando pra ela.
Nunca esperei ser desculpada assim.
Conseguir pedir desculpas pelas próprias ações é impressionante. Claro, mas tem tanta gente que não consegue fazer isso.
— Mas, sabe, acho que o Duke também passou por bastante coisa até agora~. Bom, isso não tem nada a ver com a Ali-Ali. Enfim, você pode pelo menos escutar minha história?
Assenti levemente com a cabeça.
— A Kate Liz, sabe, quando apareceu pela primeira vez perto do Duke e dos outros, a primeira coisa que ela disse foi "status não importa, quero ser amiga de vocês". Bom, pro Albert-sama e pro Gale-sama, isso deve ter parecido fresco e raro. Já que ninguém nunca tinha se aproximado deles falando assim, sem se acanhar por serem das Cinco Grandes Famílias.
A Mel fez uma expressão de quem mordeu algo amargo.
Será que ela tem tanta antipatia assim pela senhorita Liz? É verdade que, só de ouvir essa primeira fala, eu também ficaria enjoada.
Aliás, agora que reparei, a Mel chama o próprio senhor sem honorífico, mas trata o Albert-nii-sama e o senhor Gale com "-sama"…
— Você ficava observando de perto o tempo todo?
O Jill perguntou intrigado. Ela riu com orgulho.
— Isso mesmo. Sumir de presença é minha especialidade.
Apesar de já ser bem chamativa na aparência, também consegue virar sombra às vezes… esse tipo de pessoa é a mais assustadora.
— A Kate Liz é insensível, sem noção, invade o coração das pessoas sem pedir licença, sabe? Ser curiosa é bom, mas ela não lê o clima nem um pouco. No começo, todo mundo se incomoda com essa invasão sem cerimônia, mas, com o tempo, isso vai se tornando algo bom.
— Ou seja, ela vai conquistando o coração das pessoas, uma por uma, e ainda por cima sem nem perceber isso.
O Jill logo concordou com a opinião da Mel. A Mel roeu a própria unha de leve, encarando o chão com irritação.
Aquele rosto fofo ficando arruinado. O tom leve e animado de antes virou algo pesado e envenenado num instante.
— A Mel nunca teve contato direto com a senhorita Liz?
— Eu só observo.
— Aliás, por que será que o Duke nunca se apaixonou pela Kate Liz?
O Jill perguntou com a mão no queixo.
— …Hmm, não seria porque ele já tinha visto uma mulher ainda mais impressionante antes?
Dizendo isso, a Mel virou o olhar na minha direção.
— Quê? Eu!?
Admito que talvez eu não seja uma dama comum, mas estou longe demais do tipo de mulher que o senhor Duke gosta. Ou será que, sem querer, eu deixei uma impressão forte demais no cérebro do senhor Duke antes mesmo da senhorita Liz? Mas eu sempre almejei ser a vilã, e era uma mulher bem desagradável, não é…
— O jeito de pensar da Ali-Ali é completamente diferente do da Kate Liz, né? É verdade que ela fala coisas muito boas, e o pensamento em si não está errado. Mas é só idealismo.
A Mel disse isso rindo, e o rosto dela me causou um certo medo.
— Ela não age, né. Mas a Ali-Ali é realista e olha pro futuro. Pode ser cruel dependendo da pessoa, mas você realmente coloca em prática… normalmente ninguém iria até o vilarejo de Roana.
— Hã?
Diante da minha exclamação de surpresa, a Mel se deu conta e fechou a boca.
Ela fez uma expressão de "ops, falei besteira" olhando pra mim.
— Como a Mel sabe disso?
— Er…
— Foi o senhor Duke quem contou? Um servo é influenciado pelo pensamento do próprio senhor, então a Mel tem uma resistência natural contra a Kate Liz. Foi por isso que você desenvolveu simpatia pela Alicia mesmo sem nunca terem conversado.
O Jill disse isso com naturalidade. …Esse garoto tem mesmo só onze anos?
— Acertooou! Como esperado do Jill, é inteligente mesmo! O primeiro a investigar que o Jill era do vilarejo de Roana foi o próprio senhor. Ah, mas o rosto dele quando descobriu isso foi impressionante. Deve ter ficado morrendo de preocupação, mas ele nunca mostrou essa expressão na frente da Ali-Ali, né?
A Mel riu, satisfeita.
A expressão e o tom de voz dela mudam mesmo muito rápido. Talvez seja a pessoa com a personalidade mais forte que já conheci.
— O senhor sempre ficava de olho pra ver se havia algum perigo ao redor da Ali-Ali. Ah, mas fica tranquila, não é como se estivesse te vigiando. Aquele Duke ficou aguentando bastante, sabe, se contendo só pra observar de longe. Bom~, também é meio estranho dizer "observar" alguém que nem pediu pra ser observado, né?
…Essa última frase doeu no coração. Mas foi eu quem causou isso.
— Cerca de um ano depois que a Alicia sumiu da academia, as vozes falando mal dela aumentaram bastante de repente. Provavelmente todos achavam que você não voltaria mais.
A Mel começou a falar sem nenhuma hesitação. …Acho que eu e a Mel podemos combinar bem.
— Quanto mais isso acontecia, mais o humor do Duke ia piorando. Ele quase parou de sorrir de vez… foi nessa época que a Kate Liz se aproximou dele. "Vamos tomar um chá juntos", "eu quero ver seu sorriso".
Bem a cara da senhorita Liz mesmo. Certificado nível expert em heroína.
— É exatamente o que você está imaginando agora, Ali-Ali. O Duke a tratou com frieza.
— Mas a Kate Liz interpretou o comportamento do Duke como vindo de alguma tristeza ou solidão, e foi cada vez mais se aproximando dele, tentando fazê-lo abrir o coração.
O Jill completou a fala da Mel, como se tivesse presenciado a cena com os próprios olhos.
A Mel arregalou os olhos, olhando pro Jill.
— Você sabia?
— Não, só achei que a Kate Liz faria isso mesmo. Só um palpite.
— Hã~
— Mas, com a insensibilidade da senhorita Liz, o Duke ficou de saco cheio, e agora o conselho estudantil está dividido entre a facção do Duke, presidente, e a facção da Kate Liz, vice-presidente, é isso?
— Acertou em cheio!!
Ela parecia ter desenvolvido interesse pelo Jill.
Ver a mudança de atitude dela em relação ao Jill não era nada desagradável de assistir. Pelo contrário, tinha uma certa clareza refrescante. Imagino que, se a senhorita Liz soubesse que o Jill é do vilarejo de Roana, olharia pra ele com pena e compaixão.
Já a Mel observa como objeto de interesse. E, uma vez que gosta de alguém, gosta com tudo, sem se importar com a situação da pessoa.
Ela disse que gosta de mim, mas deve ter chegado a essa conclusão depois de me observar exaustivamente.
— Ei, Mel. Você sabe onde o senhor Duke está agora?
— Nesse horário, deve estar almoçando na varanda do refeitório, área exclusiva do conselho estudantil. Ali-Ali, vai atrás do Duke?
— Isso, tenho coisas que quero dizer e perguntar.
Disse isso e comecei a sair da floresta. Mesmo tendo frequentado a academia só um pouco, ainda me lembro do caminho até a varanda.
Assim que começamos a andar, sem perceber, a presença da Mel já tinha desaparecido. O Jill também percebeu isso.
…Se ela consegue apagar a própria presença assim num instante, faz sentido ela poder aparecer a qualquer hora, de qualquer lugar.
— A propósito, que tipo de elemento a Mel usa…
— Magia da terra.
Interrompi meu próprio murmúrio, e a voz veio de algum lugar indefinido. …Ainda estava por perto, então.
Espera, será que ela disse magia da terra agora? Primeira vez que ouço isso!
A magia específica da terra é interessante mesmo. Gravar a voz das pessoas, sumir de vista… nada disso tem a ver com terra, mas.
Esse otome game é meio esquisito nesse ponto — a magia da terra sempre acaba sendo tratada como coisa de figurante.
Os olhares dos alunos estão afiados. Não estar mais recebendo insultos na minha frente deve ser efeito de ter derrubado aquela aluna há pouco.
— Vamos entrar aqui?
O Jill disse com o rosto levemente contraído, em frente ao refeitório.
A densidade populacional do refeitório é sempre tão alta assim? Esse deve ser o lugar com mais gente em toda a academia. …Cheguei toda animada, mas continuar chamando atenção até chegar ao senhor Duke também é trabalhoso.
— Vamos.
Falei isso com determinação. O Jill também assentiu, como quem já tinha se resignado. No instante em que entramos no refeitório, todo mundo parou de falar e voltou a atenção pra nós.
Ah, não esperava que o efeito fosse tão instantâneo assim.
Ao andar devagar, os alunos ao redor foram se afastando, abrindo caminho pra mim.
…Impressionante. Parece até que sou uma rainha.
Sem deixar transparecer nada na expressão, assenti satisfeita por dentro.
Os olhares que me observavam eram de dois tipos: surpresa e censura. Nunca imaginei que chegaria a esse ponto de ser olhada assim até por gente que nem me conhece. Podiam falar em voz alta, mas ninguém abre a boca. Pararam até de comer, só olhando pra mim.
Ninguém deve imaginar que, sendo olhada desse jeito, meu coração está transbordando de satisfação como vilã.
— Você parece até uma celebridade.
Sussurrei pro Jill, sem deixar os outros ouvirem.
Ouvindo isso, o Jill soltou um pequeno suspiro.
— Não "parece", você É uma super celebridade.
O Jill disse isso pra mim, numa voz baixa.
— Como, depois de dois anos fora da academia, eu fiquei tão famosa assim?
— Sei lá.
— Queria que fosse por ser vilã…
— …Acho que é mais ou menos por isso mesmo.
Devo estar sendo bem julgada pelo Jill. Mesmo ele sendo bem mais novo que eu.
— Aquele ali não é o Duke?
O Jill puxou levemente minha saia.
Devagar, virei o olhar na direção que o Jill apontava. …Segundo andar?
A Mel tinha dito que era na varanda, mas ele está normalmente no segundo andar do refeitório.
Um sofá grande e luxuoso, um lustre suntuoso, música elegante… no fim das contas, só nobres selecionados entram ali.
Ainda assim, que rostos familiares. Todo mundo ficou tão mais adulto em dois anos. …Mas o jeito como me olham também mudou bastante.
Normalmente, nunca receberia esse tipo de olhar nem do meu próprio irmão. Bom, é mais espanto ao ver meu rosto do que hostilidade. Reencontro depois de tanto tempo, e ainda por cima de tapa-olho, é claro que causa espanto.
Só o senhor Duke parecia ter um motivo diferente. Justo agora, depois daquilo tudo, nunca imaginaria que eu apareceria aqui.
Endireitei a postura e fui devagar em direção à escada. Subi degrau por degrau, com cuidado.
Que expressão será que todos estão fazendo, me esperando lá em cima?
Terminei de subir o último degrau.
— Quanto tempo.
Fiz uma leve reverência, dizendo isso com um sorriso radiante no rosto.
— Ali-chan, o que houve com seu olho?
O senhor Curtis disse isso num tom animado, como se estivesse fingindo não notar o clima.
— Qual é o assunto?
Diferente do senhor Curtis, o Albert-nii-sama disse isso franzindo a testa.
— Ora, esse não é um jeito de tratar a irmã que reencontra depois de tanto tempo. Essa é a hora de um abraço de reencontro!
O Albert-nii-sama fez uma cara de desagrado.
Em que tipo de pessoa eu me tornei na cabeça deles? Provavelmente, considerando o estado da academia hoje, felizmente vários boatos ruins circularam, e devo ter virado uma vilã e tanto.
…Ainda assim, todos eles têm mesmo um charme e um magnetismo absurdos, sendo alvos de conquista de otome game. Vão ficando cada vez mais bonitos. Será que vão virar esculturas registradas na história?
— Não pretendo participar da sua brincadeira. Ouvi dizer que você deixou a Jane desmaiada?
— A Jane é minha amiga.
Se aproveitando das palavras do Albert-nii-sama, a senhorita Liz abriu a boca.
Que voz clara e bonita, pensei comigo mesma.
Coisa rara pra ela, parecia bem irritada. Bom, é natural ficar brava quando uma amiga é maltratada.
— Amiga, hein.
Falei isso com deboche.
— Sim, amiga!
A senhorita Liz insistiu, levantando a voz.
— Mas eu não sou amiga dela. Isso é assunto entre a senhorita Liz e a Jane; a senhorita se meter no que é entre mim e a Jane não seria fora de lugar?
Diante disso, talvez incomodada, ela ficou levemente vermelha e me encarou.
— Mesmo assim, ela ainda é minha amiga. Não posso ficar calada!
— …Se ela me revidasse, eu entenderia. Mas não quero ser sermoneada pela senhorita Liz.
Respirei fundo e continuei a falar com um sorriso radiante.
— Não se meta em assuntos que não são da sua conta.
Os olhos da senhorita Liz se arregalaram. Ela me olhava como se não acreditasse no que ouvia.
— Que fala mais horrível.
O senhor Gale me olhou com uma expressão feroz.
— Mulher vulgar.
O senhor Eric disse isso com desdém.
— Ora, isso é falta de educação com uma dama.
— Que parte de você é dama?
— Vocês mudaram bastante desde a época em que fomos juntos à cidade.
— Quem mudou foi você.
— Será mesmo?
Inclinei levemente a cabeça, mantendo o sorriso. Uma atitude propositalmente teatral, digna de vilã. Isso, isso mesmo, ganha pontos de vilania.
— De qualquer forma, vim aqui porque tenho um assunto com o senhor Duke.
Fui diretamente até ele. Sentado sozinho no sofá, ele emanava uma pressão tremenda. Só ele tinha uma aura completamente diferente de todo mundo.
— O que foi?
— Achei que estaria abatido, deprimido pelas minhas palavras.
O senhor Duke franziu a testa.
— Já ouviu a expressão "gentileza indesejada"?
Disse isso encarando o senhor Duke, com firmeza. O Jill achou que eu tinha vindo pedir desculpas, e olhou pra mim, surpreso, incapaz de dizer nada. Isso é literalmente ficar sem palavras.
— Mas fiquei sinceramente feliz por você ter se preocupado comigo. Muito obrigada.
Antes que o senhor Duke dissesse qualquer coisa, falei isso e curvei a cabeça devagar. Sei que foi errado falar daquele jeito com quem se preocupou comigo, e eu mesma reconheço isso.
Não sei que expressão o senhor Duke está fazendo agora. Mas sinto que o ambiente ao redor está envolto em tensão e surpresa.
Vi a sombra da mão do senhor Duke se estendendo em minha direção.
— E mais uma coisa.
Murmurei baixinho, olhando pro chão, e, antes que a mão dele tocasse minha cabeça, agarrei o colarinho do senhor Duke com uma das mãos, com força.
…O corpo de um homem é surpreendentemente firme.
O senhor Duke me olhava de olhos arregalados. Parecia não entender o que estava acontecendo.
— Antes de mais nada, se quer me acompanhar de perto, por que não diz isso diretamente pra mim? Não ache que ficar calado é legal. Se não disser em voz alta, eu não vou entender.
O senhor Duke ficou paralisado, ainda me olhando fixamente. Levantei só um lado da boca num sorriso.
— No meu caso, em vez de "acompanhar", eu prefiro protegê-lo de perto, sabia?
Dizendo isso, soltei devagar a mão do colarinho do senhor Duke.
Deixando-o atônito, comecei a caminhar em direção à escada, sentindo, quase dolorosamente, os olhares pesados sobre mim.
Assim que terminei de descer a escada, uma risada caiu de cima.
Uma risada como uma tempestade de chuva forte. Nunca tinha ouvido o senhor Duke rir assim.
Levantei o olhar devagar. Ele estava apoiado no corrimão, olhando pra mim de cima.

Aqueles olhos pareciam transbordar de alegria e felicidade.
— Alicia, a partir de agora vou falar tudo que eu pensar sem me segurar. Pode ficar preparada.
O senhor Duke sorriu de um jeito malicioso, provocador. …Parecia os olhos de uma fera que encontrou sua presa.
— Nunca vi o Duke assim.
O senhor Finn murmurou, observando o senhor Duke.
— Nossa~, Ali-chan é demais mesmo.
O senhor Curtis disse isso enquanto seus ombros tremiam de tanto rir. Até tinha lágrimas nos olhos.
…Não precisava rir tanto assim.
— A garota mais forte vai me proteger de perto. Que reconfortante.
— Eu também queria ser protegido pela Ali-chan.
— Alicia, tão zoada assim.
O Jill disse isso do meu lado, rindo de leve.
Quase disse que ele também estava me zoando, mas guardei essas palavras dentro do coração, virei as costas pro senhor Duke e os outros, e fui a passos rápidos em direção à saída do refeitório.
O senhor Duke não disse mais nada depois disso.
Por um instante, todo o ambiente ficou agitado, mas não sei que expressão ele estava fazendo nesse momento.
Sinto que, se eu virasse pra trás, seria uma derrota. Aqui, preciso me segurar.
…Ah, é verdade, esqueci de perguntar sobre o vovô Will pro senhor Duke.
Lembrei disso um tempo depois de sair do refeitório e ranguei os dentes de frustração. Parei de andar, cobri a testa com a mão e soltei um suspiro profundo.
(O olhar do Duke, cheio de carinho por Alicia, encantou todos os alunos que estavam no refeitório.
Homens e mulheres, todos ficaram hipnotizados por aqueles olhos, e até o Jill ficou preso ao local. Só a Alicia não sabia do olhar gentil, transbordando de amor, que o Duke tinha lançado a ela.)
— Alicia.
Assim que eu ia entrar na sala de aula, ouvi a voz do senhor Duke atrás de mim. Virei devagar e vi o senhor Duke e o senhor Curtis parados lado a lado.
Como eles chamam atenção. Realmente, o brilho que emanam é completamente diferente de uma pessoa comum.
Eles pareciam acostumados com a reação dos alunos ao redor, mas eu já quero sair correndo desse lugar barulhento cheio de gritinhos.
— O que houve?
Respondi com um sorriso falso.
— A partir de hoje, você vai assistir às aulas junto com a gente.
— Como?
— A Ali-chan entrou nessa academia como caso excepcional mesmo, e é inteligente, então vai ficar bem.
De jeito nenhum. Justo agora que não consigo usar magia.
E, além disso, assistir aula junto com o senhor Duke e os outros significa que a senhorita Liz também vai estar ali, não é?
Não posso me expor de forma vergonhosa na frente dela.
— Recuso.
Disse isso com um sorriso radiante e tentei ir embora.
— Foi mentira aquilo de "vou te proteger de perto"?
O senhor Duke disse isso com um sorriso malicioso.
…É verdade, eu disse isso no calor do momento.
— A Ali-chan não é do tipo que mente, né.
Senhor Curtis… o senhor sabe do meu caráter e está falando isso de propósito, não é?
— Mas assim, de repente, ir direto pro último ano não seria estranho?
O Jill me deu uma mãozinha ali.
Ah, Jill, obrigada! É verdade, eu tenho dois anos de lacuna, e voltar já pulando cinco anos de série é meio absurdo.
E, além disso, no último ano estão o Albert-nii-sama e o senhor Gale. Com certeza o clima vai ficar hostil.
— Então, e se o motivo for que eu quero ficar perto da Alicia?
Como?!
Sem querer, fiquei de boca aberta.
Que droga, uma vilã não deveria demonstrar emoção assim no rosto. Ou melhor, o personagem do senhor Duke não está meio quebrado desde agora há pouco?
— Isso não é egoísmo demais?
— Só estou falando com sinceridade o que eu penso.
— …Preferia quando você era mais quieto.
— Disse alguma coisa?
— Não, nada.
Ah, isso é autodestruição pura. Foi porque eu disse besteira.
Mas não quero ser vista como uma mulher que não assume a responsabilidade pelas próprias palavras. …Mas, mesmo assim, isso não está fora do senso comum demais? O que eu faço!
— Vem logo.
Dizendo isso, o senhor Duke me pegou no colo, jogando-me sobre o ombro.
— Hã?
De novo essa posição? Na frente de tantos alunos de novo?
Minha dignidade de vilã…
— Me põe no chão!
— Você fez isso antes também.
— O lugar e a situação são completamente diferentes!
— Esse jeito de falar é melhor. A partir de agora, não use mais formalidade comigo.
— Por que eu teria que obedecer uma ordem sua!?
Por mais que eu me debatesse com força, o senhor Duke me segurava firme, sem se abalar nem um pouco.
— Curtis, vamos.
— Entendido… quer que eu carregue você também?
O senhor Curtis disse isso olhando pro Jill.
O Jill balançou a cabeça com força, recusando.
Ei, Jill, não me abandone assim. Me ajuda.
— Isso é sequestro!
— O jeito de falar.
— Nunca disse que ia obedecer ao senhor Duke.
— A Alicia adora a Liz, sabia? Ela também está na sala.
Dizendo isso, o senhor Duke deu um sorriso malicioso.
…É de propósito. Não imaginei que ele fosse tão malicioso assim. Já desconfiava um pouco, mas…
Será que ele sabe que eu não consigo usar magia? Sendo o senhor Duke, de nível 100, não seria estranho ele já ter percebido.
De qualquer forma, se eu não conseguir agir direito perto da senhorita Liz, vou perder minha reputação de vilã!
— Er… na hora do aperto, o senhor pode me dar uma mãozinha?
Perguntei isso de forma indireta.
— Não era você quem gostava de resolver tudo sozinha?
O senhor Duke parece ver através de todas as minhas intenções.
…Nunca imaginei que chegaria um dia em que eu me arrependeria tanto das próprias palavras. Ser vilã não é fácil.
— Fica tranquila, o Duke com certeza vai te ajudar.
O senhor Curtis sussurrou isso perto da minha orelha, sem que o senhor Duke ouvisse.
— Já chega, me põe no chão.
— Você é bem teimosa mesmo.
Dizendo isso, o senhor Duke finalmente me colocou no chão, com cuidado. Claro, só depois de já estarmos dentro da sala de aula do senhor Duke e dos outros.
Ah, estou sendo extremamente notada. A pessoa mais odiada da academia sendo carregada pela pessoa mais popular da academia, e entrando na sala assim…
— Por que a Alicia está aqui?
O Albert-nii-sama foi o primeiro a falar. Ele me olhava da última fileira.
De alguma forma, essa sala parece com aquelas salas de faculdade da vida passada. É bem grande…
Olhando rapidamente, parece que, quanto mais pra trás, mais alta é a posição social.
— A partir de hoje, a Alicia vai assistir às aulas com a gente.
O senhor Duke disse isso sem expressão nenhuma.
Será que o senhor Duke sempre teve essa atitude com o Albert-nii-sama?
— Esse garoto também?
O senhor Gale olhou pro Jill com uma expressão desconfiada. O Jill, sem se intimidar nem um pouco, encarou o senhor Gale de volta. …Sinceramente, eu já queria sair correndo daqui. Sinto que não vou aprender nada com essa atmosfera assim.
— Vamos, sentem-se logo.
De trás, ouvi uma voz suave e gentil.
Essa voz…
Virei devagar. Era aquele professor que, dois anos atrás, tinha me emprestado o artigo da senhorita Liz. Um senhor de idade meio gorducho, com óculos redondos, de rosto gentil.
— Professor John?
Assim que eu disse isso, o professor John me olhou com uma expressão de surpresa.
— Ora, você se lembrou de mim.
O professor John sorriu, me dirigindo um sorriso caloroso.
Ah, que sensação nova. Nunca imaginei que alguém sorriria pra mim assim, nesta academia.
— Professor John, a partir de hoje, a Alicia vai assistir aula aqui.
O senhor Duke disse isso olhando nos olhos do professor John.
Não é um pedido, é uma afirmação. Não precisava colocar tanta pressão assim. Não é como se ele fosse algum velhinho teimoso e problemático…
Gente como o professor John é que devia ser chamada de "velhinho". Pensando bem, o vovô Will ainda é bem mais jovem do que isso. Só o considerei um "vovô" porque eu era pequena quando o conheci.
— Entendido.
O professor John concordou de bom grado.
…Queria que ele tivesse recusado.
Meu desejo desapareceu num instante.
O senhor Duke segurou meu pulso e começou a subir os degraus um por um. O lugar mais alto, no fundo, parece ser onde ficam as Cinco Grandes Famílias. Como exceção, a senhorita Liz também está sentada ali.
Ah, não quero ir.
Mas eu não vou fugir. Se eu fugir, o senhor Duke logo vai me pegar de novo.
Sentia os olhares de toda a sala voltados pra mim. Hoje realmente é um dia de chamar atenção o tempo todo.
E, sem escolha, fui sentada, do jeito que o senhor Duke queria.
Que desconforto tremendo.
Os alunos da frente lançam olhares de esguelha; o senhor Gale e o Albert-nii-sama me encaram feio; a senhorita Liz me olha com desconfiança; o senhor Curtis e o senhor Duke assistem tudo com uma cara divertida; o Jill ouve a aula do professor John com os olhos brilhando de seriedade…
— Bom, quem sabe responder essa questão?
O professor John disse isso pra toda a turma.
Algumas mãos se levantaram aqui e ali. A senhorita Liz também levantou a mão. Que aplicada.
— Sim.
Do meu lado, o Jill levantou a mão bem alto. Não pode ser. Não consegui evitar encarar o Jill.
Essa é uma aula pra gente com nove anos de diferença de idade de você, viu?
— Ah, você é…
O professor John olhou pro Jill, surpreso. Num instante, todos os olhares se voltaram pro Jill.
— Não deve ter levantado a mão só porque quer chamar atenção?
— Como uma criança poderia saber?
— Como esperado, ele só tá do lado daquela mulher.
— Deve estar atrapalhando a aula.
Vozes murmuradas chegaram aos meus ouvidos. O Jill não deu a mínima pras vozes ao redor.
— Então, Jill. Você acha que a doença das manchas se cura com qual erva?
A doença das manchas é aquela que faz manchas verdes surgirem pelo corpo inteiro e leva à morte.
Se bem me lembro, ela surge por causas desconhecidas. E a erva que o professor John acabou de perguntar é bastante valorizada.
— Madi.
O Jill disse isso numa voz serena.
— A Madi é uma flor que floresce, dizem, no topo de penhascos altos, e só se consegue colher poucas unidades por ano. E, aliás, o reino onde a doença das manchas mais se manifesta é o Reino de Lavarre. Ou seja, é bem provável que a causa da doença das manchas esteja lá.
O Jill falava com calma, os olhos cinza brilhando. A sala inteira estava com os olhos voltados pra ele. Nem o professor John esperava que ele soubesse até a causa, e ficou olhando pra ele com os olhos bem abertos.
Jill, quando foi que você ficou tão inteligente assim…
— Exatamente isso. Acredita-se que a origem da doença das manchas esteja no Reino de Lavarre. Muito bem.
Dizendo isso, o professor John sorriu com gentileza.
— No Reino de Lavarre corre o rio Deigon, o maior rio do mundo, mas dizem que é também o mais sujo do mundo. Ou seja, eu acredito que uma bactéria específica do rio Deigon seja a causa da doença das manchas.
O professor John começou a explicar pra toda a turma.
O Jill não é nobre. Ele tem plena consciência de que, sem poder mágico, é impotente. Por isso, deve estar se esforçando pra ser o mais inteligente de todos.
— O Jill é incrível, hein.
O senhor Curtis disse isso olhando pro Jill.
Mais do que incrível. Se ele chegar aos vinte anos assim, talvez vire o maior estudioso do mundo. A maior vilã do mundo e o maior estudioso do mundo — que combinação perfeita. Não consegui evitar sorrir sem querer.
— O verde brota do azul, e é mais verde que o azul.
Murmurei isso baixinho, olhando pro Jill.
— O que é isso?
O Jill perguntou intrigado. …É um provérbio da vida passada, que significa que o discípulo pode superar o mestre.
— Sei lá.
Disfarcei com um sorriso vago.
Depois que a aula terminou, finalmente consegui sentar com o Jill num banco tranquilo no pátio interno, sem ninguém por perto, pra pensar no que fazer dali pra frente.
— Voltar pra casa deve ser perigoso.
— Acho que alguém já deve estar relatando isso pro Arnold.
— É bem provável mesmo.
— Se você não quer voltar de jeito nenhum, que tal ficar um tempo na casa do Duke?
— Como?
Isso é impossível, já que nem somos noivos de verdade.
O Jill continuou falando, com um rosto sério.
— Acho que o Duke entenderia a situação… e, aliás, talvez seja bom você considerar de verdade um noivado com o Duke.
— É, é verdade. O senhor Duke e eu noivos, que absurdo.
— …Sei lá.
O Jill murmurou baixinho.
— Alicia!
Hã? Essa voz que conheço bem… virei o rosto pra ver quem era, e fui abraçada antes mesmo de conseguir olhar.
Normalmente, é assim que um reencontro emocionante deveria ser. Bom, já nos vimos no refeitório antes, mas mesmo assim. Ele tem uma força e tanto.
— …Isso dói, Henry-nii-sama.
Quando eu disse isso, o Henry-nii-sama afrouxou a força dos braços.
Ainda continua me abraçando?
— Fiquei surpreso agora há pouco.
O Henry-nii-sama disse isso ainda me abraçando. Dava pra sentir claramente o quanto ele estava preocupado comigo. O Henry-nii-sama devagar afastou as mãos e olhou fixamente pro meu rosto.
…Será que ele ficou um pouco mais alto?
Eu também cresci, mas o Henry-nii-sama também deve ter crescido bastante.
— Ficou grande.
Dizendo isso, o Henry-nii-sama acariciou minha cabeça.
— O senhor se preocupou tanto assim comigo?
— Claro que sim. Bom, talvez não tanto quanto o Duke.
— O senhor Duke… então era verdade mesmo…
O senhor Duke, até agora, nunca demonstrou nada assim. Não teve abraço emocionado nem nada parecido…
— É certeza que ele foi quem mais se preocupou com a Ali.
Pensando bem, quando o encontrei na floresta, ele parecia calmo, mas a respiração estava ofegante, e o cabelo estava um pouco desalinhado…
Será que ele correu apressado até mim? Naquele momento, fiquei tão surpresa com o aparecimento repentino dele, e mais focada na Mel, que não prestei muita atenção nisso.
— Deixando isso de lado, o boato sobre a Ali está tremendo por aí.
— Sim, eu sei.
— E pra apagar esse boato, o Duke…
— Apagar o boato?!
— Espera, deixa eu terminar de falar. O que você acha que o Duke fez pra apagar os xingamentos contra a Ali?
…Espera, isso é pergunta com múltipla escolha?
Não tenho como saber. …Mas o senhor Duke é bem gentil, então acho que ele não fez nada tão terrível assim.
— Suspensão, talvez?
Quando eu disse isso, o Henry-nii-sama riu com desdém pelo nariz.
— Se fosse só isso, teria sido até bom.
— Acho que a gentileza dele é só reservada pra Alicia. O Duke, apesar da aparência, é frio, exceto com quem confia.
O Jill interveio, sem nenhuma expressão.
— Jill, isso é exagero. Por mais que seja, o senhor Duke não é tão frio assim.
— Hã, é assim que você o vê, Alicia? Eu, na primeira vez que vi o Duke, senti um arrepio gelado na espinha.
— Foi por… ele ser lindo demais?
Perguntei sem entender de verdade, e o Henry-nii-sama riu de leve.
— Isso também, mas… mesmo criança, ele tinha uma expressão de adulto assustadoramente madura. E os olhos eram frios o bastante pra congelar qualquer um.
Quando o conheci pela primeira vez, não senti nada assim.
— Mas ele se dá bem com o Henry-nii-sama e os outros, não dá?
— Bom, mais ou menos. Demorou um tempo até ele começar a conversar com a gente também.
— Hoje em dia, já não é mais só uma relação superficial com o Albert e os outros?
— Deve ser. O Duke já é adulto, então não deixa transparecer na expressão, mas, quando alguém falava mal da Ali, o instinto assassino dele era tremendo.
— Aliás, o que aconteceu com quem falou mal de mim?
Lembrei que ainda não tinha recebido resposta pra essa pergunta de antes, e perguntei de novo.
O Henry-nii-sama fez uma pausa, franzindo a testa antes de responder.
— Os dois pararam de vir pra academia. A partir daí, quase ninguém mais falou mal de você na frente do Duke.
— Quê?
— Até o Al-nii e os outros pararam completamente de falar mal da Ali na frente do Duke.
Fazer eles pararem de frequentar a escola… o que será que o senhor Duke fez?
Aliás, mesmo assim continuar popular… realmente, no fim das contas, é tudo aparência mesmo, né.
Sei que o senhor Duke tem um passado pesado, lembro vagamente disso do jogo. Não me recordo dos detalhes, mas…
Se bem me lembro, era algo sobre, à medida que ele se apaixonasse pela heroína, a verdadeira natureza dele ir se revelando… espera? Mas agora, será que, por eu ter me envolvido com ele, o roteiro mudou?
Por ter se envolvido comigo, a vilã? …Nesse caso, será que o senhor Duke ainda mantém aquele lado assustador, do jeito que era no jogo?
— Mas hoje, faz tempo que eu não via o Duke rir assim.
O Henry-nii-sama disse isso levantando levemente o canto da boca, satisfeito.
— Tenho várias coisas que quero perguntar, mas… acho que é mais rápido perguntar direto a ele.
Sorri pro Henry-nii-sama e tentei ir embora.
— Ah, aliás, Ali, o que houve com esse olho?
— Só agora!?
O Jill fez esse comentário antes de mim.
— Perdi a hora certa de perguntar.
Será que devia contar pro Henry-nii-sama? Ou seria melhor deixar como mistério?
A Mel e o senhor Duke já sabem, mas… provavelmente não vão espalhar.
— Se não quiser dizer, não precisa forçar. …Fica legal, o tapa-olho.
Dizendo isso, o Henry-nii-sama sorriu, enrugando o rosto todo.
— Fui eu quem fez.
— O Jill fez? Habilidoso.
— Né? A Alicia fica com um ar de impacto até só com um olho.
O Jill tentou desviar o assunto, gentilmente.
…Não tem mais ninguém aqui, e, se é pra contar, é agora. O Henry-nii-sama, com certeza, vai entender minha situação.
— Doei o olho pra uma pessoa.
Falei isso olhando diretamente pro Henry-nii-sama. Ele arregalou os olhos por um instante, mas depois acariciou minha cabeça de leve.
— A Ali sempre me surpreende. Já que foi você quem decidiu, eu não vou dizer nada.
— Eu gosto disso no Henry-nii-sama.
— Que bom saber. …Mas com certeza o Duke vai ficar bravo.
— Já ficou bravo… ou melhor, ficou mais resignado.
— Você já contou pra ele!?
O Henry-nii-sama levantou a voz.
— Foi por isso que fui ao refeitório mais cedo.
Diante disso, o Henry-nii-sama ficou olhando fixamente pra mim, pensando em algo.
Bom, pela minha atitude de então, ele provavelmente não imaginava que eu tivesse contado pro senhor Duke sobre o olho. …Pensando bem agora, fiz uma coisa bem ousada na frente de todo mundo.
Agarrar o colarinho de um príncipe é digno de vilã mesmo!
Só com isso, já vou ficar registrada na hist… não, não é tão fácil assim.
— Então era por isso que o Duke estava tão de mau humor.
O Henry-nii-sama disse isso com um sorriso resignado, como se tivesse entendido tudo.
— Bem, então vou indo.
— Ah, mais uma coisa.
Assim que tentei ir embora, ele segurou meu braço, me impedindo.
— Você conseguiu dominar o nível 90?
O Henry-nii-sama me encarou nos olhos ao dizer isso.
Ah… justamente essa pergunta era a que eu não queria ouvir!
Gritei isso dentro do coração.
— Henry-nii-sama, o que o senhor disse?
— Já disse, se o nível 90…
— O Senhor Nível fez noventa anos? Isso é impressionante.
O Jill me olhou com uma expressão de "isso vai ser difícil de defender".
Eu sei que é forçado, mas o que eu deveria dizer na hora?
— Ei, Ali, isso foi de propósito, né.
— O nível é… 91.
— Como assim, você conseguiu? Que bom… espera, 91?
Noventa ou noventa e um, não muda muita coisa, eu acho, mas ele ficou surpreso mesmo assim.
— Só que… ah, não, nada.
— "Só que" o quê?
— Ah, é o Duke.
— Jill, não vou cair nessa isca de novo.
— É sério, ele tá vindo mesmo.
O Jill disse isso apontando pra trás de mim, levantando um pouco a voz. O Henry-nii-sama olhou devagar pra direção que o Jill apontava, sem soltar meu braço, claro, pra eu não fugir.
Também virei devagar. …É verdade. O senhor Duke está vindo em nossa direção. Tenho coisas que quero perguntar a ele também, mas, primeiro, preciso fugir daqui!
Já que chegou a esse ponto… só resta o último recurso.
Pisei com toda a força no pé do Henry-nii-sama. Ele soltou um som sem voz e se encolheu.
Meu sapato é de salto, então deve ter doído bastante…
— Jill! Vamos!
Aproveitando o instante em que a mão do Henry-nii-sama se soltou, gritei pro Jill e saí correndo. Ele também saiu correndo às pressas.
— Jill! Mais rápido!
O Jill está carregando livros nos braços, então corre devagar. E, comparado a mim, que treino regularmente, ele não tem quase nenhuma resistência física.
— Ali! Espera!
O grito do Henry-nii-sama veio de trás. Achei que ouvi, de leve, a risada do senhor Duke também.
Corri até perto do Jill e o abracei. Depois, o coloquei sobre o ombro e continuei correndo. Assim é bem mais rápido. Não é hora de me importar com os olhares ao redor.
— Espera, Ali? Me põe no chão!
— Fica quieto! Se te pegarem, é o fim!
— …Inacreditável.
Ouvi o suspiro profundo do Jill. Segurei o Jill assim e saí correndo pra fora da academia de magia.
Vista de fora, deve parecer que sou uma sequestradora que raptou uma criancinha. A atitude de agora certamente rende mais pontos como vilã!
Depois de confirmar que o Henry-nii-sama não estava mais nos perseguindo, coloquei o Jill no chão.
— O que a gente faz agora? Vamos voltar andando pra casa assim mesmo?
— Vai ser assim mesmo.
— Alicia é… idiota?
O Jill me olhava com uma expressão que já tinha passado até da resignação.
— Por quê? Eu bolei um plano pra fugir de lá; deveria até me elogiar por ser esperta.
— Se voltar pra casa e for pega pelo Arnold, dá tudo errado.
— Por isso! É só voltar a morar na cabana por mais uma semana.
— O Arnold foi ele mesmo quem me contou que a Alicia sairia da cabana hoje. Isso não perde o sentido?
— A cabana tem tranca, então tudo bem! É isso… operação viver escondido!
— Que sem graça! Realmente, depois de dois anos sozinha na cabana, deve ter faltado alguns parafusos na sua cabeça.
Que língua afiada.
É verdade que o nome do plano é meio sem graça, mas é uma boa ideia. A cabana até tem banheiro decente…
Aliás, esse é o plano mais seguro e simples que existe. Realmente não tem outro jeito além desse.
— Eu, de alguma forma, estou cansado.
— Eu também.
Voltamos pra casa a pé, trocando algumas palavras pelo caminho.
— No fim, ontem esquecemos de novo de ir ver o vovô Will.
— É, chegamos em casa já tava escuro, e estávamos cansados.
De algum jeito, hoje também consegui chegar à academia sem que o Otou-sama descobrisse… mas continuar nessa situação por muito tempo vai ser sofrido.
Se o Albert-nii-sama e o Alan-nii-sama tiverem relatado o que aconteceu ontem…
E, além disso, não tem como o cocheiro ficar calado. Com certeza ele já contou pro Otou-sama.
Mas, sem carruagem, demora demais até a academia. Eu, como treino, aguento numa boa, mas sinto muito pelo Jill. Ainda assim, agora é uma corrida: até quando dá pra continuar fugindo do Otou-sama!
— Senhora Alicia.
Enquanto eu, mentalmente, declarava desafio contra o Otou-sama, de repente uma voz suave e um pouco aguda ecoou. Virei o olhar e vi uma garota que eu nunca tinha visto antes, parada ali. Bem o tipo de personagem figurante, sem nenhuma característica marcante.
Cabelo castanho preso em duas partes, olhos castanho-escuros, rosto… comum.
— Precisa de alguma coisa?
— Er… eu queria que a senhora me acompanhasse um pouco.
— Como?
— É que! …Er…
— Por quê?
— Hã?
— Por que você quer que eu te acompanhe?
Diante disso, a garota ficou em silêncio, começando a ficar nervosa.
Por mais que seja, isso é suspeito demais. Por mais curiosa que eu seja, não vou seguir alguém desconhecido feito protagonista de história que se mete em confusão sem pensar.
— Me diga o motivo.
— Er… isso…
— Não consegue nem responder direito?
— …Desculpa.
— Desculpas não resolvem nada. Eu quero saber o motivo.
— Não, er… com licença!
Dizendo isso, a garota saiu correndo.
O que foi isso, afinal. Será que ela está sendo ameaçada por alguém?
— …É suspeito demais, o que a torna ainda mais suspeita.
— Não precisa pensar tão fundo assim. Ela parecia só uma garota tímida.
Sem nos preocuparmos mais com ela, seguimos em direção ao prédio principal.
De algum jeito, consegui fugir e passar a manhã inteira sem ter que assistir aula junto com o senhor Duke e os outros.
Os olhares ao redor continuavam intensos… mas ainda é melhor do que assistir aula ao lado do senhor Duke. Enquanto minha magia não voltar, preciso continuar fugindo assim.
— O Jill pode assistir aula com o senhor Duke e os outros, sabia?
— Eu fico com a Alicia.
O Jill respondeu sorrindo.
Ao chegar no refeitório, de novo todos voltaram a atenção pra mim de uma vez.
E, ainda por cima, ontem os olhares eram mais de surpresa, mas hoje predominam olhares de censura.
…O quê?
Hostilidade, raiva, desprezo — vários sentimentos diferentes estavam sendo direcionados a mim.
Se eu soubesse claramente o que fiz pra merecer esses olhares, tudo bem, mas não me lembro de ter feito nada do tipo. Queria saber o motivo.
Mas, como vilã, é bem-vindo!
Se existisse um "certificado oficial de vilã" neste mundo, com certeza eu já teria o nível máximo.
— Ela chegou.
O murmúrio de uma aluna carregava claramente hostilidade contra mim.
— É a Alicia.
Ouço alguém sussurrando isso. Meu nome já é conhecido até por gente que eu nunca vi.
"Não sabe responder direito?"
De repente, ouvi minha própria voz vindo de algum lugar. Era o que eu tinha dito àquela aluna há pouco.
"Não sabe responder direito?"
Palavras cheias de espinho e deboche ecoaram repetidas vezes pelo refeitório.
…Que vergonha, ouvir a própria voz repetida assim.
Isso é magia, né? Gravar a voz… qual era mesmo o nome dessa magia… ah, não me vem à cabeça. Falta de estudo da minha parte, também.
— Será que alguém pode parar com isso?
Disse isso levantando um pouco o canto da boca. Dei uma olhada rápida pro segundo andar, mas hoje não tinha ninguém ali.
Já que é pra fazer isso, deveriam fazer na frente da senhorita Liz e dos outros.
— Por quê? Foi você mesma quem disse, não foi? Devia ficar orgulhosa disso!
Uma aluna abriu a boca.
Com aquele jeito de aluna exemplar, com certeza é amiga da senhorita Liz.
Cabelo repartido ao meio, preso embaixo das orelhas… cheio de pontas duplas, com um visual desleixado.
— Por que você está me encarando assim?
— Ah, desculpa. Só estava pensando que você não tem nenhum charme.
— Como é que é!?
A aluna gritou, indignada.
…Meus tímpanos quase estouram. Que voz. Será que o plano dela é acabar com meus ouvidos?
Os olhares ao redor já não são mais só de censura ou desprezo, e sim de quem quer mesmo me expulsar desta academia. As antigas vilãs devem ter enfrentado dificuldades assim também. Não posso perder pra elas.
— O que está acontecendo?
Ouvi a voz da senhorita Liz vindo de trás.
Que timing! Maravilhoso! Isso mesmo, uma heroína precisa entrar em cena numa hora dessas. A produção deve estar satisfeita também.
— Não fica satisfeita, Alicia.
O Jill disse baixinho. Ele já nem faz mais cara de resignação, só um rosto sério.
Atrás da senhorita Liz, o grupo de sempre.
Mesmo nessa situação, as garotas do refeitório soltam gritinhos animados ao ver eles aparecerem.
— O que houve?
A senhorita Liz perguntou, e a aluna de agora há pouco empurrou passando por mim, correndo até ela. Falando com o grupo masculino de rabo de olho.
— Senhorita Liz! Fui vítima de algo horrível. Ela também foi horrível com a Marika!
Queria que ela parasse de olhar tanto pros homens. Não ensinaram pra ela que, quando fala com alguém, deve olhar direto nos olhos da pessoa?
Devia perceber que também está sendo desrespeitosa com a senhorita Liz, que tanto idolatra.
…E, além disso, apontar o dedo pras pessoas também não é nada elegante.
— Ei, você, antes de falar mal dos outros, devia corrigir a própria atitude.
Disse isso encarando ela. Por um instante, pareceu se intimidar, mas logo levantou a voz de novo.
— Marika! Diga de novo o que aconteceu!
— Hã!? Ah… sim!
A aluna de ares de exemplar falou num tom firme com a garota que tinha me abordado antes.
Ah, então o nome daquela garota suspeita é Marika. Nome raro pra este mundo.
"Não sabe responder direito?"
De novo, minha voz ecoou vinda de algum lugar.
"…Desculpa"
"Desculpas não resolvem nada"
Era a mesma conversa de antes. Mas cortaram partes pelo meio, de propósito.
— Mesmo pedindo desculpas, e nem sequer perdoar…
— Ela a encurralou com um tom tão duro.
Finalmente entendi o sentido dos olhares ao redor. Editaram a gravação pra soar como se eu estivesse fazendo bullying com ela. Manobra e tanto. Que golpe bem dado!
— Mel.
Ouvi a voz clara do senhor Duke, baixinho.
…Hã? Mel?
— Uhuhuhuhuhu.
Então aquela risada meio sinistra ecoou de novo. Um perfume doce flutuou no ar.
— Oiê!
— Ecs.
Sem eu perceber, a Mel já estava sorrindo do meu lado. O Jill soltou um som de nojo.
— Você é aquela…?
A senhorita Liz inclinou levemente a cabeça. No mesmo instante, a Mel mudou a expressão e se aproximou dela.
— Você se lembrou de mim? Nos vimos só uma vez! Mel tá emocionada!
Pelo texto, deveria soar num sentido bem positivo, mas por que isso me dá tanto arrepio na espinha?
O tom de voz é alegre, mas há uma hostilidade escondida em algum lugar. E, mais que tudo, o olhar dela está afiado demais.
Se existisse alguma técnica de "matar com o olhar", ela com certeza venceria o campeonato. Olhos grandes e fofos, rosto de boneca, mas quando fica brava, vira um demônio.
— Não precisa fazer essa cara complicada. Eu, assim que cumprir meu papel, já vou embora daqui mesmo, viu.
A Mel continuou falando, com um sorriso enorme no rosto.
— Eu vi o momento em que aquele áudio foi gravado, sabe.
Ela começou a se contorcer toda, como se estivesse provocando todo mundo.
— Fala logo.
O senhor Duke a apressou com o olhar frio.
— Ah, tá bom, tá bom.
A Mel fez beicinho diante das palavras dele.
"Precisa de alguma coisa? Er… eu queria que a senhora me acompanhasse um pouco. Como? É que! …Er… Por quê? Hã? Por que você quer que eu te acompanhe? Me diga o motivo. Er… isso… Não consegue nem responder direito? …Desculpa. Desculpas não resolvem nada. Eu quero saber o motivo."
De novo, a conversa que tive antes começou a tocar no refeitório.
Ah, palavra por palavra, exatamente do jeito que aconteceu. …Incrível.
— Magia específica de elemento terra.
O Jill murmurou baixinho ao meu lado.
Entendi. A magia da terra é mesmo impressionante… mas não tem absolutamente nada a ver com terra, não é?
Esse jogo, no que diz respeito à magia, foi feito meio de qualquer jeito, não foi?
— O que é isso?!
A aluna do lado da senhorita Liz gritou, a voz tremendo.
O refeitório começou a se agitar. O clima que antes era direcionado a mim agora parece estar se voltando pra ela.
— Por que tanta pressa? Uhuhu.
Por um instante, a Mel pareceu um demônio.
— É melhor confirmar se não tem mais alguém com a mesma magia por perto antes de usar isso, viu~! Ah, mas eu tô invisível, então não dá pra ver mesmo! Opa!
A Mel disse isso com uma voz fofa e colocou a língua pra fora. Ninguém consegue acompanhar o ritmo dela.
— Já chega, Mel.
O senhor Duke disse isso numa voz calma.
Provavelmente, nesse estado, só o senhor Duke consegue chamar a Mel de volta.
— Aah! O Duke realmente sabe usar bem as pessoas, viu~
A Mel disse isso fazendo um pequeno biquinho, e, no mesmo instante, desapareceu.
…Parece um fantasma.
— Parece um fantasma mesmo.
O Jill disse isso, arregalando um pouco os olhos.
Ah, sintonia perfeita.
— O que significa isso? Explique direito.
A senhorita Liz disse num tom bravo pra aluna. A Marika ficou visivelmente sem graça e nervosa de repente.
Fazer papel de me difamar não é tão fácil assim — murmurei isso internamente.
— Er… senhorita Liz, mas…
— O quê?
— Ela também me insultou dizendo que eu não tenho charme nenhum!
A aluna levantou a voz e apontou o dedo pra mim.
— Não estou entendendo bem a situação.
A senhorita Liz mostrou uma expressão confusa.
— Sim. É verdade que eu disse que ela não tem charme nenhum.
Falei isso abrindo a boca, soltando um suspiro. O que ela diz é confuso e sem lógica, mas preciso deixar bem claros os fatos.
— Alicia-chan… por que você disse uma coisa dessas?
— Porque foi o que eu achei.
— Ela é muito charmosa!
A senhorita Liz levantou a voz.
Quanto mais brava fica, mais aqueles olhos verde-esmeralda brilham.
— Pra alguém tentando difamar outra pessoa em público?
Encarei ela com deboche.
— Isso… é verdade que isso não é certo. Mas ela é uma garota muito charmosa.
— Então, senhorita Liz, o que a torna charmosa?
— …A Ema é gentil, atenciosa, confiável, uma garota maravilhosa.
Hm hm. Então ela se chama Ema.
— E a aparência?
— Como?
— Não estou falando do interior dela, e sim do charme externo.
Encarei a Ema enquanto dizia isso.
— Aparência?
A senhorita Liz franziu a testa. O refeitório, sem perceber, tinha ficado em completo silêncio, com uma tensão pairando no ar.
— Isso mesmo, aparência. Quero que avalie o charme externo dela.
— …Isso não tem sentido. …A aparência não é tudo.
A senhorita Liz me olhou com um olhar sério.
As pessoas não se resumem à aparência — a senhorita Liz com certeza diria exatamente isso! Era exatamente essa frase que eu esperava dela!
— Eu gosto dela do jeito que ela é, sem enfeites.
A senhorita Liz levantou a voz, como se estivesse afirmando que seu próprio pensamento estava certo.
Os fiéis da senhorita Liz ao redor ficaram comovidos com essas palavras, assentindo com força.
— Isso que a senhorita chama de "atribuir superioridade"?
A senhorita Liz disse isso pra mim, como se tivesse chegado a uma conclusão.
— Não é questão de gostar ou não gostar, é questão de avaliação, sabia. No mundo, a aparência é tudo.
— Isso está errado.
— Será mesmo?
— É verdade! É verdade!
— Alguém como você, tão podre por dentro, devia sumir daqui.
De repente, o ambiente ao redor ficou barulhento. Parece um zoológico. Queria que os figurantes ficassem quietos.
— Você conhece o experimento de deixar uma pessoa desmaiada na rua, uma vestida de trapos e outra bem-arrumada?
Assim que eu disse isso, o ambiente ao redor ficou em silêncio de novo.
— Sabe o que aconteceu em cada caso?
Perguntei de novo, observando a senhorita Liz como quem sonda. Ela fechou a boca.
…Como imaginei, ela entende rápido as coisas. Como esperado de uma Santa.
— A pessoa vestida de trapos, todo mundo finge não ver e passa reto. Mas quem está bem-vestida logo recebe ajuda, alguém chama socorro na hora. Mesmo sendo a mesma pessoa.
Levantei levemente o canto da boca.
— O ser humano, sabe, sem perceber, escolhe as pessoas por quem se importar.
— Isso não tem nada a ver com a falta de charme da Ema.
…A Ema, do lado da senhorita Liz, me olhava assentindo.
— Se fosse avaliar a aparência da senhorita Ema, eu diria… três pontos.
Quando eu disse isso, olhando ela de cima a baixo, a Ema ficou com o rosto vermelho como uma maçã, boca escancarada.
A senhorita Liz também fez a mesma cara, me encarando.
— Alicia, ao contrário, quantos pontos você deu pra ela?
— Dei três pontos por misericórdia.
Respondi na hora, à pergunta do Jill.
— Nunca imaginei que a palavra "misericórdia" sairia da boca da Alicia.
— Que desrespeito.
— Retire o que disse! Ela é fofa, não tem defeito nenhum!
A senhorita Liz gritou com os olhos erguidos.
Quero registrar em foto este confronto de agora. A vilã enfrentando a Santa. Maravilhoso!
— Bom… então vou te explicar. A senhorita Ema é nobre, não é mesmo? Mesmo assim, tem tantas pontas duplas, e esse repartido no meio de agora, será que passa a ideia? Aquele penteado já não combina. E a barra da saia, comprida demais sem necessidade, deixa as pernas parecerem grossas, longe de qualquer visual elegante e refinado. …Não tenho vontade nenhuma de me envolver com alguém com essa aparência.
Ela também não deve ter nenhuma vontade de se relacionar comigo, provavelmente.
Os olhos da Ema brilharam. Não sei se era ódio, raiva ou frustração o que estava por trás.
— Não estou dizendo que ser simples seja ruim. Só acho que ela não fez o esforço de se cuidar.
— Você não a conhece direito, não fale coisas irresponsáveis desse jeito.
— É justamente por não conhecer que as pessoas julgam desse jeito. Prova disso: tem gente até que me olha com nojo por eu estar usando um tapa-olho. Mesmo que meu coração fosse absolutamente puro, quem não conhece meu interior só me veria como uma mulher assustadora, não é mesmo?
A senhorita Liz pareceu se convencer com essa expressão.
Ah! Se eu continuar insistindo assim, ela talvez até mude de opinião. Como vigilante, estou fazendo um ótimo trabalho.
— E não é só aparência, cada gesto também conta. Rir cobrindo a boca com a mão, ou rir escancarando a boca — a diferença de impressão é enorme. Aparência e comportamento, ambos revelam quem a pessoa é. Ela negligenciou isso, e ainda por cima fez uma coisa tão baixa quanto essa… por quantas pessoas será que ela já perdeu, sem nem perceber, só por causa disso?
Sorri, com elegância. A Ema deu um passo pra trás, com uma expressão assustada.
— Você mesma está diminuindo seu próprio valor.
— Mesmo assim, ela ainda pode se corrigir daqui pra frente.
A senhorita Liz disse isso, como se estivesse mudando de estratégia.
…Bom, bom, será que posso interpretar isso como ela ao menos entendendo o que eu quis dizer?
— A primeira impressão é muito difícil de mudar depois. A gente sempre acaba olhando pra pessoa pensando "ah, ela é assim mesmo".
— Esse jeito de pensar é que está errado. É só não olhar assim.
— Isso é só idealismo bonito. A boa impressão se constrói aos poucos, com esforço contínuo… como a senhorita Liz faz. Mas essa impressão pode desmoronar num único instante, por causa de uma atitude descuidada.
— Ela ainda pode mudar, agora mesmo, o suficiente.
A senhorita Liz olhou reto pra mim, com um olhar sério.
Um olhar que acredita mesmo que ela pode mudar. É por isso que a senhorita Liz é amada por todo mundo.
— É verdade. Eu não conheço a Ema, e talvez ela realmente consiga. …Mas achar que todo mundo consegue é presunção sua.
— !!
Sou a vigilante da senhorita Liz, então acho que dizer até esse ponto não deveria trazer nenhuma punição. Até a senhorita Liz parece não ter mais argumentos.
Que alívio!
Além disso, nunca imaginei que minha própria voz seria gravada assim. Ser vítima de uma armadilha… acho que já virei uma grande vilã de verdade.
Bom, já não tem mais motivo pra continuar aqui, é hora de me retirar.
…Ah, é verdade!
Fui devagar até a Ema, tendo uma súbita lembrança. No silêncio, só o som dos meus passos ecoava.
A Ema me olhava com um olhar levemente amedrontado.
— Já que a sua amada senhorita Liz diz que você é encantadora do jeito que é, por que não para de esconder essas sardas?
Sussurrei isso perto do ouvido dela. Seu rosto mudou completamente de cor, os olhos se arregalaram.
— Como… você percebeu… isso…
Ela disse isso com a voz rouca, me olhando.
Foi pura coincidência que eu tenha percebido, na verdade. Só notei porque dava pra ver de leve. Já que ela se preocupa até com esconder as sardas, deveria se esforçar ainda mais daqui pra frente pra se aprimorar.
E assim, tentei sair do refeitório.
Meus irmãos abriram caminho pra mim, andando com toda a dignidade. Claro, os olhares continuavam extremamente afiados.
O senhor Curtis e o senhor Duke, como sempre, me observavam com uma expressão divertida. Gente capaz de curtir uma situação dessas deve ter mentalidade de setenta anos.
— Alicia-chan… você, desse jeito, um dia vai acabar completamente sozinha.
No instante em que eu ia sair do refeitório, ouvi a voz clara da senhorita Liz.
"Um dia", ela diz, mas eu já estou praticamente sozinha mesmo.
E, além disso, enquanto o Jill estiver ao meu lado, vou ficar bem.
— Eu sei disso.
Virei o rosto, sorri, e saí do refeitório junto com o Jill.
— Será que a senhorita Liz consegue distinguir entre si mesma e os outros?
Perguntei isso andando pelo corredor comprido e sem ninguém.
— Sei lá.
Mais do que minha fala, o Jill estava totalmente absorto no livro que estava lendo agora.
Podia me dar um pouco de atenção, pelo menos… que garoto sem graça.
Aliás, ler andando é perigoso, deveria parar com isso.
No instante em que eu ia dizer isso, meu corpo de repente flutuou no ar.
— Hã?
Sem eu perceber, um braço forte estava enrolado na minha cintura. Que tipo de músculo é esse, pra me erguer com um braço só?
— Realmente é magrinha.
Uma voz doce e clara ecoou atrás de mim, no meu ouvido.
Num instante, meu corpo se virou, e as costas robustas dele entraram no meu campo de visão. Toda vez que o senhor Duke me carrega, é sempre desse jeito, como um saco de arroz.
— Me solte.
— Vai fugir de novo?
Mesmo eu sendo uma vilã, lidar com um senhor Duke tão sedutor assim é difícil demais!
Queria que ele voltasse pro tempo em que ainda tinha um resquício de garoto, quando o conheci pela primeira vez.
— Jill, vou pegar a Alicia emprestada.
— Pode.
Jill! Não pode ser, você me traindo assim!
Ao menos, gostaria que ele tirasse os olhos do livro. Será que o livro é mais importante que eu?
— Já que o Jill autorizou, vamos.
— Pra onde!?
Dizendo isso, o senhor Duke me levou pra uma salinha bem ao lado. Fui arrastada com tanta força que nem consegui reagir com voz nenhuma.