Capítulo 4
Ali era uma sala de verdade vazia, só com uma mesa e quatro cadeiras. Finalmente consegui ficar a sós com a Alicia. Já tinha decidido que não ia mais me conter com ela.
A Alicia deve achar que minha personalidade mudou de repente, mas eu só estava me segurando o tempo todo.
As reações dela, quando eu a provoco, são tão fofas que eu quero continuar vendo. O jeito como ela tenta esconder desesperadamente o próprio nervosismo é adorável.
Fiquei encostado na porta, com os braços cruzados, pra que a Alicia não conseguisse fugir.
— Então, qual é o assunto?
A Alicia me lançou um olhar de leve censura, com o rosto um pouco corado.
— Não era você quem tinha algo pra falar comigo?
— Como?
— Ontem, parecia que você queria me dizer alguma coisa. O que era?
— Er… tenho bastante coisa que quero perguntar.
— Isso vai ser interessante.
Vendo ela hesitante, confusa, dá vontade de provocar um pouco mais.
A Alicia soltou um pequeno suspiro, meio resignada.
Já consigo imaginar mais ou menos o que ela quer dizer. Deve ser sobre como eu puni quem falou mal dela.
— Er…
— Só apliquei um pouco de pressão.
Falei antes que ela perguntasse. Diante das minhas palavras, a Alicia arregalou os olhos. "Como você soube!?" — ela não disse em voz alta, mas estava escrito no rosto.
Em dois anos, a aparência dela amadureceu, se tornando uma mulher linda, mas por dentro nada mudou.
— Quem sofreu essa pressão deve ter sido difícil pra ela, imagino.
Fingi uma expressão de descontentamento diante do jeito formal dela de falar.
Até quando ela vai continuar me tratando com essa formalidade? Sinto distância nisso.
— O jeito de falar.
— …Você odeia tanto assim?
— Sim, odeio.
Concordei com sinceridade. Talvez porque, antes de ela se trancar na cabana, eu passasse a impressão de ser calado, ela me olhou surpresa.
— Só isso que você quer saber?
— Tem mais coisa, mas… por que o senhor Duke, sendo príncipe, aplicaria pressão assim?
Diante das palavras dela, não consegui evitar erguer o canto da boca.
Pergunta boba. Não sei se a Alicia é perspicaz ou distraída. Ela recuou um pouco diante do meu sorriso.
A luz do sol entrando pela janela fez os olhos dela brilharem ofuscantes.
— …Esse é o jeito que eu encontrei de proteger a Alicia.
Vendo a confusão dela, sinto minha razão quase escapar. Sem perceber, fiquei olhando pra ela com uma seriedade que até me surpreendeu.
Nunca quis proteger alguém assim antes. Só a Alicia move meu coração sem condições. Sinto que a Liz tem sentimentos por mim, mas nunca conseguiria pensar nela do mesmo jeito que penso na Alicia.
A Alicia ilumina meu coração.
— Eu achava mesmo que o senhor Duke fosse um excêntrico.
— Vindo de você, isso é engraçado.
Nunca imaginei que ela me chamaria de excêntrico. Não consegui evitar soltar uma risada.
— Só deixei todo mundo pensar isso, mas, na verdade, sou uma pessoa extremamente sensata. É a mesma lógica que a Alicia usou agora há pouco no refeitório. As pessoas, sem perceber, atribuem valor às outras baseadas em pequenos gestos. Aplicar pressão num aluno que falou mal de você, só isso, já basta pra me olharem como um príncipe estranho. Se eu continuar assim, todo mundo vai me avaliar como um príncipe decepcionante, e eu posso viver com liberdade.
— Liberdade?
A Alicia inclinou a cabeça, intrigada.
— Sim, liberdade. …Eu também tentei ir ao vilarejo de Roana, antes de você ir lá.
Com minhas palavras, ela pareceu entender tudo.
Nascer príncipe deste reino significa quase não ter liberdade nenhuma, a vida inteira. Não posso nem fazer uma inspeção sozinho, e, desde pequeno, sempre tem alguém por perto. Um mundo absurdamente sufocante.
— Por mais que eu use magia de nível 100 e seja inteligente, se for um excêntrico tolo, ninguém espera nada de mim, não é?
— Não parece uma lógica tão simples assim.
— Bom, é bem mais tranquilo do que ser um príncipe só de excelência.
— Isso… é verdade. O senhor Duke é mesmo um grande estrategista.
Ela murmurou isso admirada.
Sem um certo grau de cálculo, não dá pra sobreviver neste mundo. A Alicia ainda não sabe, mas o mundo da nobreza é bem sujo. Eu queria que ela conhecesse esse mundo o mínimo possível. Só queria que ela ganhasse todo o conhecimento que desejasse e expandisse seu próprio mundo, do jeito que quisesse. Se for isso que ela deseja, eu vou apoiar com todas as forças.
— Um erro de cálculo meu foi achar que, se eu fizesse algo um pouco exagerado, isso chegaria aos ouvidos da Alicia e a faria sair da cabana… mas parece que isso não funcionou.
As pupilas da Alicia se dilataram. Confusa, ela abriu a boca devagar.
— …O senhor Duke… gosta de mim?
Só agora?
Fiquei paralisado, arregalando os olhos diante das palavras dela. Mesmo demonstrando tanto assim, ela não tinha percebido meus sentimentos. Nesse caso, talvez eu devesse ser ainda mais direto…
— Ah, não, deixa pra lá.
Ela tentou retirar o que disse, atrapalhada, mas já era tarde demais. Fui me aproximando devagar da Alicia.
— Quer que eu conte?
— Não, tudo bem.
Ela respondeu na hora, mas eu continuei avançando. A Alicia esbarrou na janela. Já não tinha mais pra onde fugir.
Vendo ela cada vez mais nervosa, quero que ela fique ainda mais abalada por minha causa. Quero monopolizar o coração da Alicia.
Ela se esforçava pra manter uma expressão tranquila, mas não conseguia bem. Isso era absurdamente adorável.
Apoiei um braço na janela, cercando a Alicia.

— K-kabedon.
Ela murmurou algo baixinho, olhando pra baixo, mas não entendi o significado.
A Alicia se esforçou pra recuperar a compostura, endireitou a postura e olhou pro meu rosto com uma expressão serena.
Já fui olhado inúmeras vezes até agora, mas ser observado assim, atentamente, por uma mulher que eu amo, é diferente. Nunca imaginei que isso me deixaria tão tenso assim…
Senti o rosto esquentar levemente. Até agora, quase nunca deixei transparecer meus sentimentos, mas não consigo controlar bem minhas emoções.
— Não fica me encarando tanto assim.
— Se não gosta, que tal cobrir meus olhos com a mão?
Ela sorriu, um pouco maliciosa. Parecia satisfeita por ter virado o jogo a seu favor.
— Que cabelo bonito, de verdade.
Com uma voz clara, ela passou os dedos de leve pelo meu cabelo. Talvez por eu estar curvado, nossos rostos ficaram bem próximos.
Os dedos finos dela tocaram meu cabelo com gentileza.
…Meu coração não aguenta. No caso dela, o assustador é que é tudo inconsciente. Fico incomodado de ser só eu sentindo isso.
Segurei as bochechas dela com as duas mãos, apertando de leve.
— O que você tá fazendo?
Ela soltou uma exclamação, arregalando os olhos diante do gesto repentino.
Achando ela fofa, cruzei o olhar com os olhos dourados dela. A Alicia tentava desesperadamente se afastar de mim, mas, com a força dela, eu nem me movia.
Esse corpo tão delicado, com aquela coordenação motora toda. Impressionante, pensei de novo. Quero continuar vendo ela se esforçando pra escapar dos meus braços.
A Alicia vai ficar ainda mais encantadora daqui pra frente, e vai se tornar uma das mulheres mais belas deste mundo.
Soltei um pequeno suspiro.
— Quero te prender.
No mesmo instante em que disse isso, encostei minha testa na dela. Olhei reto nos olhos dela.
O rosto dela foi ficando cada vez mais vermelho. Sem pensar se ela ia me odiar por isso, meu corpo se moveu sozinho, seguindo o coração.
— …!
De repente, senti um impacto na cabeça. Não doeu tanto assim, mas ficou latejando um pouco.
Entendi que a Alicia tinha jogado a própria cabeça com força contra a minha. A autora da cabeçada segurava a própria testa, com uma cara de dor.
Fiquei tão surpreso que não consegui falar nada. Ela mostrava uma expressão firme e digna. Diante daquela aura, fiquei atordoado, apoiando de leve as costas na mesa atrás de mim.
Ela se aproximou de mim assim, e fez exatamente a mesma coisa que eu tinha feito antes.
A Alicia segurou minhas bochechas com as duas mãozinhas, erguendo levemente o canto da boca.
— Prender? Não me subestime. Fiquei trancada na cabana por dois anos porque eu tinha um objetivo. Não foi porque o Otou-sama me prendeu.
Aqueles olhos que me encaravam brilhavam, fixos firmemente no futuro.
Puxei o braço da Alicia com força e a abracei. Senti o batimento cardíaco dela acelerar.
— Desculpa, minha razão quase escapou.
— …Hã?
Respirei fundo, pra me acalmar.
— Quero que você tenha mais consciência do quanto estou perdidamente apaixonado por você.
O corpo dela ficou paralisado. Pensei se ela não podia simplesmente se render a mim assim. Não sei se o batimento cardíaco que ecoa nos meus ouvidos é meu ou dela.
— A Alicia sustenta as próprias convicções, não poupa esforços pra alcançar seus objetivos, encara a realidade do mundo de frente, é inteligente, forte, sempre digna e bonita.
Depois de dizer isso, observei a reação dela. Sentíamos, os dois, o calor um do outro.
Sem dizer nada, vermelha, imóvel, senti do fundo do coração que queria valorizá-la de verdade.
— Você é uma ótima mulher.
Sussurrei isso, por fim, no ouvido dela.
— !!
Por um instante, senti o corpo dela se contrair.
Bom, acho que é melhor parar por aqui… se eu continuar mais tempo com ela, eu que vou ficar em apuros.
Soltei a mão da Alicia e caminhei em direção à porta. Abri a porta e olhei pra ela mais uma vez.
O rosto vermelho como uma maçã, atônita.
Eu queria que ela perdesse a compostura assim por minha causa mais vezes.
Pensando nisso, sorri satisfeito e deixei o local.