Switch Mode

I’ll Become a Villainess That Will Go Down in History – Volume 2 Capítulo 5

Capítulo 5

💗 Apoie o Nihon Project

Vire um apoiador mensal e ajude a manter as traduções saindo, com prioridade de capítulo e outras recompensas.

Apoiar no Apoia.se

Capítulo 5

O que foi aquilo, afinal.

Que rosto cheio de charme foi aquele! O cabelo dele tão sedoso, a pele tão lisa, aquele cheiro tão bom! E, ainda por cima, soltar palavras daquelas com uma voz tão clara.

No instante em que o senhor Duke saiu do quarto, eu me deixei escorregar até o chão. Já não tinha mais força pra ficar em pé. Ainda bem que não tinha ninguém no quarto além de mim.

— Alicia?

Depois de um tempo, o Jill entrou no quarto com uma expressão de surpresa.

Já tinha terminado de ler o livro? Pensei em perguntar isso com ironia, mas nem tinha mais ânimo pra isso.

— O que houve? Vi o Duke saindo do quarto com uma cara feliz, mas você demorou tanto pra sair que…

O Jill disse isso, espiando meu rosto.

Saindo com uma cara feliz? Será que o senhor Duke sabia perfeitamente que eu ia ficar assim e disse aquelas falas de propósito? No começo achei que ele fosse gentil, mas, na verdade, tem um lado sádico… finalmente estou vendo a verdadeira personalidade do senhor Duke.

— Seu rosto tá vermelho… não é febre, né?

— …Não. Vou ficar aqui até me acalmar.

Disse isso, ainda sentada, encostando na parede.

— Entendi.

O Jill assentiu de leve e abriu a janela pra deixar o vento entrar no quarto.

Um vento fresco e suave me envolveu. Senti minha temperatura corporal baixar um pouco. Meu coração foi se acalmando aos poucos. O Jill se sentou ao meu lado e começou a ler o livro. Parece que ainda não tinha terminado.

Eu e o Jill passamos um tempo assim, num espaço agradável, sob a luz quente do sol.

Na manhã seguinte, fomos ao vilarejo de Roana ver o vovô Will. O vilarejo já estava bem mais tranquilo, então ele disse que, da próxima vez, poderíamos ir mesmo de dia.

A voz ainda levemente infantil do Jill ecoou dentro da floresta silenciosa e escura.

— Ei, Alicia.

— O quê?

— Você já conheceu a mãe do Duke?

— Não.

Balancei a cabeça de leve.

— A mãe do senhor Duke já faleceu. Só a vi num retrato. Ela parecia ser uma pessoa bem forte.

— Forte?

— Sim… a mãe do senhor Duke não era deste reino.

— Como assim…

— Chegamos.

Interrompi de propósito a pergunta do Jill.

Só vi aquilo uma vez, antes de recuperar as memórias da vida passada, então eu mesma não tenho certeza absoluta. Por isso, é melhor não falar nada de leviano.

— Será que o vovô está bem.

— Claro que sim.

Dizendo isso, pisei dentro da névoa.

— Hã!?

Foi o Jill quem soltou a exclamação. Eu também fiquei sem voz de tanta surpresa.

O vilarejo de Roana não tinha mais aquele ar pesado e sombrio de antes. Quase ninguém estava caído no chão.

O céu continuava coberto de nuvens como sempre, mas o clima do vilarejo estava ainda mais claro do que da última vez que viemos.

— O que está acontecendo?

— Não sei.

Ficamos parados ali, atônitos.

— Alicia! Jill!

A voz cheia de vigor da Rebecca veio de longe.

— Vovô?

O Jill disse isso, arregalando os olhos, olhando pro homem que caminhava ao lado da Rebecca.

…Inacreditável.

— Quem é?

Murmurei baixinho, paralisada.

Só de caminhar, ele emanava dignidade, e sua presença me deixou intimidada.

Que porte imponente. No instante em que ele apareceu, o ar mudou completamente. Uma pressão maior até do que numa audiência com o rei…

Meu corpo se endireitou automaticamente. Isso deve ser o que chamam de tensão de verdade.

— Alicia, Jill.

Ele disse isso sorrindo. Só a voz continuava a mesma, gentil e calorosa.

É a mesma pessoa, mas será que a atmosfera muda tanto assim?

O cabelo branco, antes um pouco desgrenhado, agora estava penteado pra trás, deixando o rosto bem visível. No olho esquerdo dele, havia o olho dourado já familiar, e, no olho direito, um tapa-olho preto da mesma cor que o meu.

Por que, estando os dois no mesmo estado, a atmosfera é tão diferente assim… As roupas dele estão mais elegantes que o normal.

Ele parou bem na nossa frente. Sem perceber, dobrei os joelhos.

Ilustração

Uma vilã se ajoelhar diante de alguém talvez seja o ato mais impróprio que existe. …Mas meu corpo se moveu sozinho.

Recebi educação nobre completa, e tenho um discernimento acima do normal. Por isso, consigo perceber por instinto quando alguém está acima de mim, ou é alguém que eu não conseguiria vencer. É verdade que o senhor Duke e a senhorita Liz talvez sejam adversários que eu não vença, mas eles estão em outra dimensão comparado ao vovô Will.

Cada célula do meu corpo está dizendo que não tenho chance contra ele. Como ele conseguiu esconder essa dignidade até agora?

— Ali?

A voz surpresa do Jill veio de cima.

— Levante o rosto, Alicia.

O vovô Will se abaixou pra ficar na minha altura, dizendo isso numa voz serena.

Devagar, levantei o rosto.

— Eu não quero que você se ajoelhe diante de mim.

Ele disse isso franzindo levemente os cantos dos olhos.

De alguma forma, é uma sensação estranha ser observada pelo meu próprio olho.

Ele segurou meus ombros com gentileza e me ergueu, levantando meu corpo devagar.

— Alicia? O que houve? É o vovô, viu.

O Jill me olhava intrigado.

— Mestre, você mudou bastante, né~

Em seguida, o tom animado da Rebecca chegou aos meus ouvidos.

— …Como devo chamá-lo.

Diante do meu murmúrio, tanto o Jill quanto a Rebecca arregalaram os olhos.

— Como assim? É o vovô, óbvio.

— Isso, Alicia, o que houve com você?

— Eu sei disso. Mas…

Aquele homem na minha frente não é o vovô Will, é… Seeker Will.

Descobrir a verdadeira identidade dele e mudar de comportamento de repente seria algo terrivelmente deselegante. Nunca faria isso. Da próxima vez que o encontrasse, decidi que continuaria tratando-o como vovô Will, do mesmo jeito de sempre.

Mesmo assim, o homem à minha frente agora não é o bondoso vovô Will de sempre. Fico surpresa por ele ter conseguido esconder essa dignidade e inteligência até agora.

O olho esquerdo dele deveria ser o meu, mas eu não conheço um olhar como aquele.

Profundo, inteligente, com uma pontinha de solidão, como se enxergasse tudo no mundo.

Só de olhar pra aquele olhar, dava pra perceber que ele deve ter vivido uma vida bem mais dura do que eu conseguiria imaginar.

De repente, lembrei de uma coisa que o vovô Will tinha me dito muito tempo atrás.

"Vaidoso demais com sua própria conquista do nível 80, aquele garoto passou a acreditar que conseguiria dominar o nível 100 sem seguir a progressão normal."

Aquele olhar levemente trágico do vovô Will se refletiu nos meus olhos.

Não pode ser, será que aquele "garoto vaidoso" era…

"Ele nunca mais conseguiu usar magia de novo."

— Alicia, o meu nome de tratamento não importa qual seja.

Ele disse isso, sorrindo. O sorriso de sempre.

— Vovô… Will?

Inclinei levemente a cabeça e disse isso com a voz rouca. De algum jeito, fiz um sorriso, mas provavelmente eu estava com cara de choro.

— É verdade, comparado a "vovô", ele agora parece mais um "titio", né. Será que eu também devia chamar ele de "titio"?

— Nesse ponto, acho que tá tudo bem, né?

Dizendo isso, o Jill e a Rebecca riram.

O vovô Will… titio Will observava aquilo com um olhar caloroso.

— Continuem me chamando do mesmo jeito de sempre.

Vendo o vovô Will dizer isso com tranquilidade, quis conhecer o passado dele.

Por que ele foi cegado, expulso do palácio real, e acabou vindo pro vilarejo de Roana.

Já tinha tido essa vontade de saber várias vezes até agora. Mas sempre resolvi dentro de mim que era um assunto em que eu não deveria me meter.

Mas, agora, eu quero saber de verdade, do fundo do coração. Nunca senti tanta sede da verdade como agora.

Respirei fundo de leve e endireitei a postura.

— A história daquele garoto que perdeu a capacidade de usar magia… não era sobre um amigo, era sobre você mesmo, não era, vovô Will?

Disse isso olhando direto pro que antes eram os meus próprios olhos. O vovô Will, sem parecer surpreso, assentiu, olhando pra mim com seriedade.

— …Foi por isso que você foi expulso do palácio real?

— Não, não foi por isso. É que eu não me dava bem com meu irmão mais novo.

O vovô Will disse isso com um sorriso triste.

— Você não se dava bem com o rei?

O Jill franziu a testa.

— Que tal eu contar minha história antiga e sem graça?

O vovô Will disse isso olhando pra longe.

— Tudo bem falar disso aqui?

A Rebecca o olhou preocupada.

De fato, tem gente reunida ao nosso redor. …Mas os olhares de todos são diferentes de quando os vi pela primeira vez.

Mais cheios de esperança do que antes. E dá pra sentir que todos admiram profundamente o vovô Will.

— Não é algo que me incomode que ouçam. …Somos meio-irmãos. Eu e o Luke.

A voz do vovô Will ecoou no silêncio.

Foi um choque, sim, mas, considerando a grande diferença de idade entre o rei e o vovô Will, talvez não seja algo tão surpreendente assim.

Mais do que isso, nunca sequer ouvi um boato de que o rei tivesse um irmão mais velho. A única pista era aquele retrato…

— Minha mãe morreu logo depois de me dar à luz. E, por ter conseguido usar magia antes dos treze anos, fui aclamado como gênio, e, confiando demais na minha própria força, um belo dia, de repente, perdi a capacidade de usar magia. O garoto que era chamado de gênio, destinado a sustentar este reino, virou inútil de uma vez.

— Você disse que são meio-irmãos, então o antigo rei se casou de novo?

O Jill perguntou com calma, e o vovô Will balançou levemente a cabeça.

— Sim. Foi quando ele teve um novo filho com uma concubina.

— Espera. O antigo rei tinha uma concubina?

Não consegui evitar levantar a voz.

…Manter concubinas é proibido neste reino.

— Precisávamos garantir um herdeiro, então uma exceção foi criada.

Dizendo isso, o vovô Will deu um sorriso fraco, com um ar de tristeza.

É verdade que magia é essencial pro rei, mas mesmo assim…

— O filho com a concubina, e as pessoas ao redor…

— Não tinha jeito. Eu tinha perdido a capacidade de usar magia, então o próximo rei tinha desaparecido. …Ela acabou se tornando a rainha oficial assim mesmo.

O vovô Will disse isso interrompendo as palavras do Jill.

Meu peito doeu. …O que ele deve ter sentido…

Ser aclamado como gênio por um breve momento, perder a capacidade de usar magia, e ceder o trono ao meio-irmão — deve ter sido de partir o coração.

— A concubina… a mãe dele, que tipo de pessoa era?

— Uma mulher de baixa nobreza, muito bonita. Sem nenhum conteúdo por dentro, mas…

O vovô Will mostrou uma expressão levemente complicada. Só isso já dava pra imaginar como ela era.

O vovô Will hesitar em falar tão abertamente… deve ser uma pessoa e tanto.

— Meu pai me disse que meu trabalho era apoiar o rei, então me dediquei aos estudos mais do que qualquer um, todo santo dia, pra me tornar o mais inteligente. O motivo de eu ter sido chamado de gênio antigamente não era só pela magia. Era porque eu tinha uma capacidade de pensamento excepcional… bom, talvez isso seja só o que eu quis acreditar até hoje.

Ele sorriu pra nós, franzindo os cantos dos olhos.

O Jill franzia a testa, com uma expressão de sofrimento. Não só ele — todos que ouviam essa história tinham a mesma expressão dolorida. Dava pra ver claramente o quanto o vovô Will era amado ali.

— …O Luke virou rei aos dezessete anos, e eu tinha vinte e oito na época. Naquela época, praticamente era eu quem cuidava do governo. Este vilarejo também não estava num estado tão terrível quanto hoje.

O vovô Will franziu levemente o rosto.

Ah, é por isso que, quando li um livro sobre o vilarejo de Roana antigamente, a descrição era completamente diferente da realidade atual.

Ou seja, este vilarejo foi ficando cada vez mais miserável desde que o vovô Will foi expulso do palácio.

E, além disso, dezessete anos é bem novo pra ser rei. Jovem demais pra carregar o peso de um reino inteiro…

— Logo depois da ascensão… a partir de um certo dia, minha relação com o Luke se rompeu de vez.

Os olhos do vovô Will, ao dizer isso, pareciam implorar por uma chance de voltar no tempo e refazer tudo.

— Propus ao Luke uma divisão administrativa do reino. Que fosse dividido entre as Cinco Grandes Famílias pra governar.

No fundo do coração, concordei totalmente. Também sempre achei que era exatamente esse o motivo de existirem as Cinco Grandes Famílias neste reino. Senão, seríamos só um grupo com poder e dinheiro, nada mais.

— Boa ideia.

O Jill disse isso, com os olhos brilhando de leve.

Bom, ninguém discordaria dessa ideia mesmo.

— Mas a mãe do Luke se opôs a isso.

— Como?

— Por que a mãe do rei entraria nisso?

Eu e o Jill arregalamos os olhos.

— Por dinheiro?

O Jill disse isso com um olhar frio e afiado.

— Ela virou rainha e usou de poder e influência despudoradamente? …Mas, mesmo sendo por dinheiro, alguém deveria tê-la impedido.

Continuei falando as palavras do Jill.

— Sendo mãe do rei, ela deve ter feito o que bem entendeu, não?

A voz do Jill foi ficando cada vez mais baixa e fria.

Quanto mais conhecia a realidade, mais parecia desprezar o rei.

Dá pra entender esse sentimento, mas acho que não é o rei quem tem culpa aqui, e sim a mãe dele. Bom, claro, sendo rei, ele deveria dar conta disso também.

— O Luke amava a mãe dele. E ela amava demais o próprio filho também. Pra ela, eu devia ser uma pedra no sapato.

Dizendo isso, o vovô Will riu.

É verdade que ter atrito com uma madrasta é comum, mas isso levar até o exílio do reino?

— Não me diga que o vovô foi encurralado por um motivo tão bobo assim.

— É exatamente isso. Fui expulso do palácio real, acusado de planejar um assassinato do rei, e, pra que eu nunca mais pudesse fazer mal ao Luke, arrancaram meus olhos. Claro, eu não tinha absolutamente nenhuma culpa nisso.

Diante das palavras do vovô Will, o Jill franziu a testa. Dos olhos da Rebecca, grandes lágrimas escorriam sem parar. De vez em quando, também dava pra ouvir alguém fungando ao redor.

…Alguém com tanto apoio popular assim, e não teve nenhum aliado? Isso mesmo, até meu próprio Otou-sama… comecei a abrir a boca pensando nisso.

— O Otou-sama…

— As únicas pessoas que sabem disso são a mãe do Luke e os próprios servos dela.

— Como? …Nem Sua Majestade sabe?

— Não.

— Mesmo assim, é impossível esconder um segredo tão grande assim.

— Ela era a rainha oficial. Fazer alguém desaparecer sem que ninguém percebesse deveria ser fácil pra ela. E, além disso, na época, eu não era nada, nem rei nem coisa alguma.

— Você não protestou sua inocência?

Percebi minha própria voz tremendo de raiva.

— Deve ter havido gente disposta a me ajudar, sim. Mas quem tentasse ajudar um criminoso com certeza seria morto.

— Então, o que aconteceu com as pessoas que apoiavam o vovô Will naquela época…?

— Pensando bem, é verdade. Os poderosos deste reino, hoje em dia, são só um bando de incompetentes.

Ficamos paralisados diante das palavras do vovô Will.

— Foram exilados.

— Não me diga… foi ela quem fez isso?

O Jill perguntou por todos nós, provavelmente expressando a dúvida de todo mundo ali.

— Sim.

O vovô Will assentiu, sereno.

Naquele olhar já não havia mais tristeza nem raiva, nenhum sentimento aparente.

— Todos os meus aliados foram exilados pro Reino de Lavarre.

…Reino de Lavarre. Faz sentido que tenha crescido tanto. Se eram companheiros do vovô Will, não seria estranho que tivessem ganhado poder naquele reino. Mandar pessoas assim justamente pro Reino de Lavarre — será que a mãe do rei era mesmo tola?

— Quantas pessoas foram exiladas?

— Bom, foram só algumas, mas todos extremamente capazes.

— Ou seja, todos os talentos capazes desapareceram do reino, sobrou só um rei incompetente, e a situação interna foi só piorando.

O Jill disse isso estreitando os olhos. Raiva e ódio transbordavam do olhar dele.

Mostrar só a fachada bonita do reino, enquanto por dentro a vida ia ficando cada vez mais dura. É natural que o Jill, criado nesse ambiente de sofrimento constante, sinta raiva. Até dá vontade de querer vingança.

…E a senhorita Liz, sem saber nada disso, diz levianamente que a vingança não tem sentido. Realmente, uma Santa é impressionante mesmo. Eu, no lugar dela, provavelmente ajudaria essa vingança.

— O rei não sentiu nada quando o vovô sumiu?

— Não, provavelmente o Luke me odeia.

— Mas isso não dá pra saber sem perguntar diretamente a ele, não é?

— …Quando discuti com a mãe do Luke sobre minha proposta, o próprio Luke me disse: "não seja arrogante, você nem é rei."

Será que Sua Majestade tem um complexo de mãe assim tão grande?

— Ah, mas, virar o topo do reino aos dezessete anos, talvez seja natural acabar assim mesmo…

— Espera, Alicia, você tá do lado do rei?

O Jill me olhou intrigado.

— Não é isso, é que talvez Sua Majestade já esteja se arrependendo do que disse, agora.

— Duvido muito.

— Jill, fica quieto.

Lancei um olhar de leve censura pro Jill.

— Achei que fosse algo bem mais sério, já que o vovô Will falou tão a sério que a relação dele com o rei tinha se rompido.

— Já acho isso sério o bastante.

Ignorei o comentário do Jill e continuei falando.

— Por que não conversa diretamente com ele, cara a cara, pelo menos uma vez?

Diante das minhas palavras, o vovô Will arregalou os olhos.

O Jill também ficou de boca aberta, olhando pra mim.

Será que eu disse algo tão estranho assim?

— O vovô Will já tinha dito antes que não precisava mais sair do vilarejo de Roana. Isso era mentira, não era?

— Bom…

— Não sentiu vontade de ver o mundo de novo?

Fui me aproximando devagar do vovô Will. É como se os nossos papéis tivessem se invertido.

— Se você realmente acha que não precisa sair daqui, por que está tentando reformar este vilarejo? …Eu me ajoelhei diante da presença de rei que o vovô Will tinha.

Disse isso sem desviar o olhar nem um instante. Diante dessas palavras, o vovô Will me observou fixamente, e depois abriu um sorriso enorme.

Meu coração deu um salto diante daquele sorriso. Mesmo com a idade, é impressionante o poder de um rosto bonito.

— É verdade… de fato, agora eu quero sair daqui.

Dizendo isso, o vovô Will acariciou minha cabeça, como sempre faz.

— Bom, já é hora de você voltar pra casa hoje. Vamos conversar de novo amanhã.

O vovô Will disse isso numa voz gentil. Assenti obedientemente.

Ainda tenho um monte de coisa que quero saber, mas não posso ficar fazendo o vovô Will relembrar memórias tão dolorosas o tempo todo. Vamos parar por aqui, hoje.

Eu e o Jill fomos em direção à parede de névoa. Foi então que o Jill, de repente, pareceu se lembrar de algo e olhou pra mim.

— O que foi?

— O que será que aconteceu com a mãe do rei?

— …Não sei. Aliás, até agora eu nem sabia da existência dela.

— É verdade.

Depois disso, o Jill não disse mais nenhuma palavra até chegarmos em casa. Ficou com uma cara séria o tempo todo, pensando em algo.

Ah, eu queria logo poder usar magia de novo.

Não é como se eu usasse magia com tanta frequência no dia a dia… mas mesmo assim me sinto ansiosa por não poder usar. …Uma vilã não deveria ficar ansiosa assim. Preciso sempre transbordar de confiança e me manter firme.

Ia pensando nisso distraidamente, a caminho da academia.

— Senhora Alicia, er, nós gostamos muito da senhora…

Assim que entrei na academia, indo em direção ao prédio, de repente fui abordada.

…Parece que vou me envolver em outra coisa incômoda.

O Jill parecia pensar o mesmo, e ignorou a voz, seguindo direto pro prédio.

— Nós odiamos a senhorita Liz.

— Ela é realmente irritante, se achando toda porque é fofa.

— Quem ela pensa que é, entrando no conselho estudantil sendo plebeia?

— Vive grudada com o pessoal do conselho… será que ela gosta de homem?

Senti um certo desconforto naquele jeito de falar, e olhei devagar pra elas.

Oito olhos me observavam fixamente.

— A senhora Alicia também pensa assim, não pensa?

Uma aluna de cabelo laranja-claro disse isso com entusiasmo.

Não sei por que estão pedindo minha concordância. Franzi a testa e olhei pra ela.

— Ela entrou no conselho estudantil porque é inteligente, não é?

As quatro me olharam como se tivessem visto algo inacreditável.

— M-mas ela conquistou o conselho estudantil dando uns olhares!

— Isso mesmo! E ela sempre finge ser boazinha, é irritante!

— Não aguento que uma plebeia como ela esteja nesta academia.

— Ficam bajulando ela só porque é meio fofa, muito chato.

As alunas começaram, uma após outra, a falar mal da senhorita Liz.

…Não sei se isso é o que elas realmente pensam ou se é uma armadilha pra me pegar, mas, de qualquer forma, é uma bobagem.

Não quero perder tempo com elas.

— Se tem reclamação, por que não vão falar diretamente com ela? Se sobra tempo pra isso, é melhor gastar esse tempo se aprimorando. É verdade que ela é uma existência rara, então talvez tenha mesmo conseguido entrar no conselho por isso, mas as demais não têm nenhuma habilidade especial assim, então é uma perda de tempo ficar com inveja.

Falei isso cuspindo as palavras. Talvez por se sentir intimidada com meu olhar, uma das alunas estremeceu.

É verdade que sempre existe uma parcela de gente que odeia quem é popular. Se a senhorita Liz fosse extremamente feia, talvez fosse diferente.

Ignorando as garotas atônitas, comecei a andar em direção ao prédio.

…Ah, é verdade, esqueci de dizer uma coisa.

Virei devagar, olhando pra elas.

— O garoto que está ao meu lado também não é nobre. Mas ele é mais inteligente que vocês. Eu sou meritocrática. Prefiro um plebeu inteligente a um nobre idiota.

Disse isso levantando levemente o canto da boca.

O rosto delas se contorceu, e recuaram, saindo correndo.

Ah, ganhei mais pontos de vilania. Só de sorrir, elas já fugiram.

— Alicia, seus lábios estão relaxados demais.

O Jill disse isso meio resignado. Forcei a expressão pra ficar neutra na hora.

Relaxar tão rápido é meu ponto fraco. Enquanto estou nesta academia, preciso me manter sempre alerta. Nunca se sabe quem está observando.

— Além disso, eu também gosto de você, Alicia. Não no sentido romântico, mas… eu poderia entregar minha própria vida por você a qualquer momento.

Ele me olhou com um rosto sério. Diante daquela confissão repentina, acabei perdendo as palavras.

Mas eu sou uma vilã, então não vou dizer coisas do tipo "valorize sua própria vida".

É a vida dele, então não tenho o direito de opinar sobre a vontade dele. O valor que cada um dá à própria vida é diferente pra cada pessoa. Como usá-la não é algo que eu possa determinar.

— Obrigada. Eu também vou viver de um jeito que não me leve a nenhuma crise que possa me matar.

Acariciei a cabeça do Jill com gentileza.

— A Alicia realmente age que nem homem de verdade… mas, se for morrer, prefiro morrer depois de ficar tão inteligente quanto você.

— …O Jill já não é mais inteligente do que eu?

— Duvido muito.

O Jill disse isso com um sorriso amarelo.

…Mas eu realmente acho que sim. O amplo conhecimento e a profunda percepção do Jill, sem dúvida, superam os meus.

— Acho que é assim mesmo, não é?

Escrevi mais algumas palavras no quadro-negro.

A antiga biblioteca quase não é usada por ninguém, então eu e o Jill costumamos discutir ali com frequência.

Antigamente, quando escrevi sobre como colocar o Reino de Lavarre sob domínio, também não tinha ninguém por perto.

— Mas, com essa quantidade de gente, um ataque surpresa faria essa área cair num instante.

— É mais divertido atormentar aos poucos, devagarzinho.

A gente sempre faz esses joguinhos de estratégia. O cenário é sempre inventado na hora. É tão divertido que às vezes a gente até esquece do tempo.

— Se fosse eu, faria assim aqui.

Dizendo isso, uma mão grande e bonita se estendeu de repente, e ao mesmo tempo senti um leve peso na cabeça.

Essa voz e essa mão… é o senhor Duke. Como ele descobriu que eu estava aqui?

Ignorei o senhor Duke escrevendo algo no quadro-negro e lancei um leve olhar de censura.

— Poderia parar de atrapalhar?

— Até com raiva, você fica fofa.

O senhor Duke disse isso com um sorriso maroto.

…Com certeza está debochando de mim.

Mesmo sabendo disso, meu coração acelera. Odeio isso em mim mesma.

— O senhor Duke ficou totalmente incompreensível pra mim.

— Só estou fazendo o que a Alicia mandou: dizer em voz alta tudo que penso.

— …Ah, é verdade, eu disse isso mesmo. Mas o senhor definitivamente faz isso de propósito, né?

— O quê?

— Meu coração quase explode com as palavras que o senhor Duke solta de repente…

Ao dizer isso, me arrependi.

Isso parece que eu estou consciente demais do senhor Duke.

Ele arregalou os olhos por um instante, mas logo voltou à expressão maliciosa de sempre.

— Hã, então seu coração quase explode.

— O que é essa cara?

Mesmo encarando ele, sinto meu rosto esquentando um pouco.

Eu sou fraca demais pra esse rosto do senhor Duke, que parece ver através de tudo.

— É melhor do que agir só pelo pensamento sem falar nada, não é?

Ele murmurou isso num tom sério.

…Sinto que ele já está mais do que agindo pelo pensamento.

— Duke, sobre essa parte que você escreveu agora… não dá pra derrubar a cabeça do inimigo assim.

O Jill disse isso de repente, olhando fixo pro quadro-negro.

Parece que o Jill estava concentrado, sem se distrair, pensando na opinião do senhor Duke. Eu também olhei pro quadro-negro.

— É verdade, assim o líder deste pelotão consegue fugir.

— Que tipo de líder foge deixando os subordinados pra trás?

O senhor Duke disse isso num tom sério e depois ergueu o canto da boca, como um demônio. Que sorriso arrepiante e satisfeito.

— Em vez de derrubar tudo de uma vez, não seria melhor arrasar de um jeito que traga benefício pro nosso lado?

— É verdade. Ou seja, deixar o líder vivo e forçá-lo a obedecer.

— É bem o tipo de pensamento que a senhorita Liz odiaria.

— E, além disso, se os subordinados dele morrerem todos na frente dele, o líder deve enlouquecer, né~

De repente, uma voz aguda veio de algum lugar, junto com um perfume doce.

…Ela sempre aparece de repente mesmo.

— Por que a Mel está aqui?

— Aí está você~, não faz essa cara de desagrado~

Diante da expressão franzida do Jill, a Mel apontou um doce cor-de-rosa que segurava na mão pra ele.

— Destruir o psicológico do líder é perfeito pro plano que a Ali-Ali chamou de "atormentar aos poucos"!

A Mel disse isso animada, com os olhos brilhando.

— O que a Alicia disse era mais sobre tormento físico.

O Jill falou como se estivesse representando meu pensamento.

— Então, que tal destruir o psicológico dele primeiro e depois espancá-lo até não sobrar nada?

A Mel disse coisas violentas enquanto lambia o doce.

Uma personagem com tanta personalidade assim, e não aparecer no jogo, é realmente estranho.

— Isso realmente é uma boa ideia.

O Jill disse isso, sério, com a mão no queixo.

As pessoas ao meu redor… de alguma forma, são todas cheias de más intenções e calculistas, não são?

— Então, Jill, agora vamos pensar no caso do líder fugir.

— Mas, Alicia, o Duke acabou de dizer que isso não ia acontecer.

— Um plano precisa considerar todas as possibilidades e ter várias versões prontas.

— É verdade, Jill. É bom ter vários planos prontos.

O senhor Duke sorriu diante das minhas palavras.

— Que divertido, essa brincadeira!

A Mel disse animada, e continuamos nos divertindo, absortos na discussão dentro da antiga biblioteca.

— Ali, tá rolando outra confusão de novo.

O Henry-nii-sama veio correndo até nós, agitado.

Será que eu aprontei alguma coisa de novo sem nem saber?

— Aconteceu alguma coisa?

— Ali… você falou mal da Liz em algum lugar?

O Henry-nii-sama me perguntou com os olhos sérios.

Mal dela? Não me lembro de ter falado.

— Não foram elas?

Os olhos do Jill, que brilhavam de leve até agora, escureceram num instante. Só com aquela frase, já entendi.

Ah, de novo caí numa armadilha.

Soltei um pequeno suspiro e abri a boca, olhando pro Henry-nii-sama.

— Eu não falei mal dela, mas encontrei umas pessoas falando mal da senhorita Liz.

Todos entenderam o significado disso num instante.

— Por enquanto, vamos até a Liz.

Concordamos com as palavras do senhor Duke.

— Onde a Kate Liz está?

— Na sala de aula.

— A Mel também vai junto~

Ela disse isso rindo, num tom animado, mas os olhos pareciam os de uma assassina profissional.

Apagamos às pressas o que estava escrito no quadro-negro e fomos direto pra sala onde a senhorita Liz estava.

Sem descanso, uma coisa atrás da outra vai me envolvendo, incrível como isso acontece. Chego a pensar que talvez eu esteja na posição da heroína, no fim das contas.

Pensando nisso, entrei na sala onde a senhorita Liz estava.

— Ah, ela chegou!

Como se estivesse esperando por mim, uma aluna levantou a voz.

— Vim, como vocês queriam.

— Que atitude é essa!

Diante do meu sorriso, a aluna levantou a voz, mas ignorei e fui direto até a senhorita Liz.

Ao redor da senhorita Liz, como esperado, estavam as pessoas que tinham falado comigo de manhã.

Claro, o grupo de sempre também estava presente — meus irmãos incluídos. O senhor Curtis e o senhor Finn pareciam estar ausentes.

Todo dia, sendo olhada com tanto desprezo assim, a gente até se acostuma. Eu, pessoalmente, queria ser olhada com ainda mais raiva. Afinal, uma vilã precisa despertar raiva nos outros só de existir.

— Dessa vez, o que houve?

Perguntei pra senhorita Liz com um sorriso radiante.

— Elas disseram que a Alicia-chan falou mal de mim.

A senhorita Liz abriu a boca sem demonstrar hostilidade nenhuma contra mim.

Como esperado de uma Santa. Normalmente, a expressão seria de repulsa, mas ela permanece tranquila.

— E o que a senhorita Liz acha disso?

— Como elas disseram isso sem provas, pedi ao Henry pra transmitir o recado, pra perguntar diretamente pra Alicia-chan. …Alicia-chan, você falou mal de mim?

Os olhos verde-esmeralda dela me observavam fixamente.

— …Não falei.

— Entendo. Vou confiar na sua palavra.

A senhorita Liz sorriu pra mim. …Ah, faz tempo que eu não via aquele sorriso de anjo.

— Senhorita Liz!? Por que acredita numa pessoa dessas?

— Ela estava xingando você!

— Isso mesmo! Disse coisas horríveis, tipo que você gosta de homem e que se acha demais!

As alunas ao redor da senhorita Liz foram falando, uma atrás da outra.

"Uma pessoa dessas"… que jeito horrível de me tratar. Se ao menos me chamassem de "vilã" desse jeito, seria perfeito.

A expressão da senhorita Liz foi ficando cada vez mais sombria. Vivendo assim, envolvida nesse tipo de confusão todo santo dia, ela deve acabar desconfiando de todo mundo.

Os olhares dos outros alunos também foram ficando cada vez mais afiados em cima de mim. Vendo o quanto sou "vilã", dá até pra entender por que quereriam acreditar que eu estou mentindo.

— Ei, não foram vocês mesmas quem falou mal dela agora há pouco?

De repente, uma voz fofa de garoto ecoou de algum lugar. Todos os olhares se voltaram na hora pra porta.

…O senhor Finn estava parado ali, com um rosto sério. Atrás dele, também estava o senhor Curtis.

— Onde vocês estavam?

O Henry-nii-sama disse isso, quebrando aquele clima tenso.

O senhor Finn, sem mudar de expressão, encarava em silêncio as alunas ao redor da senhorita Liz.

— Eu e o Finn estávamos jogando bola e quebramos uma janela sem querer.

O senhor Curtis disse isso rindo, num tom animado. Não sei se ele não lê o clima ou se está falando isso de propósito, sem se importar com o ambiente.

Ignorando o senhor Curtis, o senhor Finn veio caminhando em nossa direção.

Depois de tantos anos, a aparência do senhor Finn não muda nada.

É impressionante como ele continua igual desde a primeira vez que o conheci. …Dá até pra entender por que todas as mães-corujas do país são loucas por ele. Continuar vendo ele sem mudar assim é o máximo.

— Senhor Finn? O que o senhor está querendo dizer?

A aluna de cabelo laranja-claro, perto da senhorita Liz, contraiu levemente o rosto.

— Pra mim, quem devia se explicar são vocês.

Uma voz doce e um pouco aguda. O senhor Finn tem uma voz bem agradável, sem eu nem perceber antes.

— O senhor Finn tem meio que a mesma vibe do Jill, não tem?

Murmurei isso numa voz baixa, só pro Jill ouvir.

— Hã? Ele não é bonito desse jeito, e nem meu cabelo brilha assim. E, além disso, temos sete anos de diferença.

O Jill franziu a testa na hora e disse isso rapidinho. Será que ele odeia tanto assim ser comparado com o senhor Finn? É verdade que "personagens parecidos demais" é sempre um problema importante.

— Ei, Finn, explica direito pra mim entender.

A senhorita Liz disse isso com uma expressão confusa, olhando pro senhor Finn.

— Bom, resumindo bem, elas estavam falando mal da Liz pra Alicia, e a Alicia ignorou. Isso é o fato que eu presenciei. A partir daqui é só especulação minha, mas… elas ficaram irritadas por a Alicia ter acertado em cheio o que pensavam, e se aproximaram da Liz só pra armar uma cilada contra ela. …Não fico chateado com você por isso, mas o que elas falaram mal da Liz provavelmente era o que elas realmente pensavam, então acho que elas só queriam usar a Liz pra armar contra a Alicia mesmo.

O senhor Finn disse isso sem mudar a expressão nem um pouco.

Eu, que sou a vilã aqui, não deveria dizer isso, mas comecei a sentir pena da senhorita Liz. O senhor Finn é parecido com a Mel também, aquele jeito de ter um rosto fofo mas uma língua venenosa.

Foi então que uma risada aguda cortou meus ouvidos de repente.

— Umas mulheres burras e podres por dentro~

A Mel disse isso animada, apontando pras alunas ao redor da senhorita Liz.

— Não aponte o dedo.

Mesmo a Mel sendo mais velha que eu, sinto algo estranho em ficar repreendendo ela desse jeito.

— Tá bom~

Ela recolheu o dedo, obediente.

O jeito de agir dela é meio infantil. Mas, fora as palavras que solta, ela tem um rosto doce e fofo de garota… talvez seja o famoso "efeito de contraste" que faz alguém ficar ainda mais interessante.

— No fim, se derrota sozinha? Perde em aparência, em habilidade, e ainda por cima tem a personalidade pior que tudo isso, não tem salvação!

A Mel dirigiu um sorriso fofo e enorme pra elas.

As alunas que receberam aquele sorriso mudaram de cor no rosto, tremendo. E, além disso, lágrimas grandes escorriam sem parar dos olhos delas.

Quando a Mel ia continuar falando, o senhor Duke, sem hesitar, deu um tapinha na cabeça dela.

— Já chega, para com isso.

Ele disse isso resignado.

— Parece até um responsável.

Assenti levemente diante do murmúrio do Jill. É verdade, aquilo não parece nem um pouco uma relação de senhor e serva.

A senhorita Liz ainda não parecia entender bem a situação. Parece que o cérebro dela não estava acompanhando o que estava acontecendo bem na frente dela. A insensibilidade é elemento essencial pra uma heroína, mas isso também torna tudo mais lento e complicado. Talvez seja hora de eu, a vilã, dar uma mãozinha.

— Ei, vocês aí… suas mulheres burras.

Me aproximei das alunas trêmulas e falei olhando de cima pra baixo.

— Ah! A Ali-Ali também chamou de burras!

— Fica quieta.

Diante das palavras da Mel, o senhor Duke bateu de novo, de leve, na cabeça dela. …Ele já está bem acostumado a lidar com a Mel.

— Por que vocês estão tremendo tanto assim? Acham que, se chorarem, alguém vai vir socorrer? Sinto muito, mas essas lágrimas não valem nada. Fazer uma coisa tão vulgar e baixa sem estar preparadas pra levar o troco… isso é menos que lixo.

Xinguei elas com palavras que jamais deveriam sair da boca de uma nobre.

Diante das minhas palavras, elas pareceram levar um choque enorme, e ficaram com um olhar vazio, como se tivessem perdido todo sentimento.

— Lixo…

A senhorita Liz murmurou baixinho, e ficou olhando fixo pra mim.

Parece que finalmente sentiu raiva de mim de verdade. Ah, finalmente a Santa Liz voltou.

Era exatamente essa a senhorita Liz que eu queria ver. Não aquele rosto sem energia de agora há pouco — queria mesmo ser encarada por esses olhos cheios de vitalidade.

Ela deve estar pensando em defender até quem falava mal dela.

Será que eu, no fim das contas, entendo a senhorita Liz até melhor do que ela mesma?

Nesse ritmo, quero mostrar até o fim o melhor da minha vilania em quinze anos de vida, sem baixar a guarda.

— Algum problema?

Inclinei levemente a cabeça e sorri pra senhorita Liz. A testa dela se franziu.

— Você acabou de dizer "lixo"?

— Sim, disse.

Respondi sorrindo. Senti as pupilas da senhorita Liz se dilatarem.

— Não me diga que a senhorita Liz vai defender essas que mentiram?

Provoquei ela de propósito.

— Elas talvez tenham feito algo errado, mas dizer "lixo" é exagero demais!

A senhorita Liz levantou a voz, me encarando com um rosto furioso.

— Ora, que fala tão comovente.

— Está debochando de mim?

— Pelo contrário, estou impressionada. Defender quem falou mal de você é algo que eu não conseguiria fazer.

— Eu não as perdoei… só estou brava por você ter dito "lixo".

A senhorita Liz disse isso contendo a voz. Respirei fundo de leve e me recompus.

— Porque, afinal, elas são desnecessárias, não são?

— O quê?

— Elas.

Voltei o olhar pras alunas. A senhorita Liz mostrou uma expressão levemente confusa.

— …O que elas fizeram merece esse tipo de tratamento.

Elas já não mais reagiam com raiva ou tristeza às minhas palavras. Só me temiam, buscando socorro na senhorita Liz.

…Que desenrolar maravilhoso. Fico feliz se os fiéis da senhorita Liz aumentarem.

Ah, mas, se elas ficarem doutrinadas demais pelos ideais bonitinhos dela, isso seria meio incômodo.

— É verdade que o que elas fizeram pode ter sido péssimo.

— Não "pode ter sido", foi péssimo mesmo.

— Por que você só consegue falar desse jeito?

De repente, a senhorita Liz me olhou com pena.

— Elas estão se arrependendo. Que sentido tem continuar culpando ainda mais?

A voz calma da senhorita Liz fez com que os presentes na sala concordassem com ela.

— A senhorita Liz só enxerga demais o lado bom das pessoas.

— O que há de errado nisso? Olhos atraentes são aqueles que buscam o lado bom das pessoas.

— Isso aí não faz nenhum sentido, hein~ Idiota? Pelo contrário, se você não procurar o lado ruim das pessoas, não vai conseguir vencer uma guerra, sabia? Por que não vira freira de uma igreja de uma vez?

A risada da Mel ecoou pela sala.

— Isso, ao contrário, seria falta de respeito com as freiras.

O Jill fez um comentário calmo.

— Ah, então, anjo?

— Isso soa melhor. Nesse caso, a Alicia seria o demônio?

— Mas, na real, quem é o demônio e quem é o anjo, hein~

— Concordo plenamente com isso.

— Vocês dois se dão bem, hein.

O Henry-nii-sama interveio na conversa entre o Jill e a Mel.

Se ele fosse falar algo, eu preferia que fosse pra interromper a conversa deles dois. Mas, mesmo assim, o Jill parece ter aberto bastante o coração com a Mel. Sinto que os dois têm uma sintonia parecida.

Aliás, a conversa dos dois quebrou completamente o clima tenso de agora há pouco!

Bom, já não preciso mais continuar com essa farsa toda. Já falei antes pra senhorita Liz que o ser humano não é feito só de gente boa, mas parece que ela esqueceu isso completamente.

Elas têm um caráter podre. Se eu não fizer com que reconheçam de vez a própria culpa, elas vão só repetir o mesmo de novo…

— Ficou meio sem graça o clima. Vou me retirar por aqui.

No mesmo instante em que eu disse isso, a voz baixa e cheia de hostilidade do senhor Eric ecoou na sala.

— Vai fugir?

— Fugir? De quê?

— A Liz sempre olha de verdade pro lado bom das pessoas, e se esforça pra gostar de qualquer um, não importa quem seja. E, mesmo assim, você foge sem nem olhar pra esse lado dela. Deve estar com inveja de um coração mais puro do que o seu.

O senhor Eric disse isso me encarando com hostilidade. Ele sempre me olha assim mesmo.

Foi se aproximando devagar de mim.

Ah, o que vai começar agora?

Um pouco animada, olhei bem de frente pro senhor Eric.

— Com todo respeito, eu nunca senti inveja de ninguém.

Respondi sorrindo, e o senhor Eric riu debochado pelo nariz.

— Que graça você acha em olhar as pessoas de cima? Antes, achava que você era uma menina esforçada e dedicada, mas parece que eu estava completamente enganado.

— Muito obrigada.

— Você acha que isso foi um elogio?

— Sim.

O que ele disse é basicamente como dizer que eu cresci como vilã.

Os olhos do senhor Eric foram ficando cada vez mais afiados. A sala voltou a se envolver numa tensão pesada.

Coitados de todos. Toda vez que apareço, precisam sentir esse clima pesado assim.

Mas, quanto mais gente ao redor, melhor pra mim. Quero que mais gente veja minha vilania.

— A Liz nunca foge do que está bem na frente dela.

— Como?

Diante da fala fora do contexto vinda de cima, quase respondi de forma boba sem querer.

— A Liz enfrenta qualquer dificuldade. Não importa quem seja o adversário. Ela é o tipo de garota que estende a mão até pra nobres que a odeiam. Se sacrifica pra ajudar quem quer que seja. Quando um lobo selvagem apareceu na academia, ela protegeu todo mundo, mesmo tremendo de medo. Enfrentou o medo porque tinha algo que queria proteger.

— Espera, apareceu um lobo selvagem na academia?

Tinha muito o que dizer, mas o que mais me chamou atenção foi o lobo selvagem.

Um lobo selvagem aparecendo dentro de uma academia, isso é possível?

Ignorando minhas palavras, o senhor Eric continuou falando sem parar.

— Toda vez que tem tempo livre, ela vai até a cidade brincar com crianças pequenas, sempre pensando profundamente no bem deste reino. E você, como é? Sempre desprezando as pessoas… você sim é lixo.

Encarando-me, os olhos do senhor Eric estavam gélidos ao dizer isso.

Ah, que dó, aquela palavra "lixo" voltou pra mim.

No mesmo instante em que o senhor Eric cuspiu aquelas palavras, senti um instinto assassino tremendo vindo de trás!?

…Olhei pra trás, meio hesitante.

O Henry-nii-sama, o Jill, a Mel, e o senhor Duke — o instinto assassino emanado por eles era tão forte que até eu me senti pressionada. Isso deve ser o que chamam de "matar alguém só com o olhar".

Todo mundo na sala com certeza estava arrepiado.

— Er, eu tô bem, então não precisam se meter, tá.

Disse isso tentando acalmá-los, endireitei a postura e me virei de novo pro senhor Eric. Mas ele estava com os olhos arregalados, olhando pra trás de mim.

Ah, o olhar do senhor Eric já saiu completamente de mim.

Bom, é natural desviar o olhar diante de um instinto assassino tão intenso assim.

— Ei, senhor Eric. A senhorita Liz, que quer se sacrificar pra ajudar quem quer que seja, não acha que isso é, no fundo, pura estupidez?

Disse isso de propósito, tentando irritá-lo, pra trazer o olhar dele de volta pra mim.

— Que tipo de mulher desconsiderada não consegue nem definir prioridades. Mesmo sabendo que é uma existência valiosa, defende nobres que a odeiam… se ela fosse realmente inteligente, jamais se sacrificaria assim. Não existe substituto pra ela em lugar nenhum.

— A Alicia-chan também não tem substituto.

A senhorita Liz franziu a testa e me encarou com seriedade.

— Existe sim.

Respondi isso calmamente. Percebi os olhos da senhorita Liz se arregalando um pouco.

— Sempre existe reserva, o suficiente. Não precisa ser exatamente essa pessoa. Sempre dá um jeito de continuar. Todo mundo quer se achar especial, quer ser especial, mas, na verdade, ninguém é assim tão especial. Se quiser procurar gente inteligente, tem gente aos montes; gente que usa magia, também tem bastante. Mas só a habilidade da senhorita Liz, essa sim, não existe em mais ninguém.

Minha voz ecoou pela sala silenciosa.

— Falando só de habilidade, talvez seja assim mesmo. Mas… todo mundo é uma existência preciosa, e não existe substituto pra ninguém.

A senhorita Liz disse isso, aceitando o que eu disse, mas discordando ao mesmo tempo.

— Isso só se aplica a você, senhorita Liz. Por isso, a senhorita não pode só falar de idealismo — precisa mudar de verdade.

— O que você entende… sobre a Liz?! A Liz está bem do jeito que é. Não precisa mudar nada. Se tem algo que falta, nós completamos por ela.

De repente, o senhor Eric levantou a voz, tremendo, do lado.

Ele olhou pra mim com os olhos cheios de raiva e continuou falando.

— A Liz é uma mulher forte e bonita, que enfrentou o medo mesmo tremendo.

Isso ele deveria dizer pra senhorita Liz diretamente, e não pra mim…

A senhorita Liz arregalou bem os olhos, o rosto foi ficando cada vez mais vermelho como uma maçã. Dava pra ver que os olhos dela estavam levemente marejados. Tá bom, tá bom, façam isso vocês mesmos entre si.

Já falei o que eu queria falar… acho que já é o suficiente. Dessa vez, sim, o clima ficou realmente sem graça.

— Vamos.

Virei pros que estavam atrás de mim e disse isso, com o tom de uma vilã de verdade.

Todos ainda pareciam insatisfeitos, mas, de qualquer forma, quero sair dessa sala e descansar um pouco.

— O que você entende sobre a Alicia?

A voz baixa, grave e serena do senhor Duke ecoou na sala.

Como eu tinha virado as costas, não vi que expressão o senhor Eric estava fazendo, mas dava pra imaginar facilmente.

Ele com certeza nunca imaginou ouvir isso do senhor Duke.

Não tem jeito, né. Afinal, os valores da senhorita Liz e os meus são completamente diferentes.

O senhor Eric, o senhor Gale, o Albert-nii-sama e o Alan-nii-sama afirmam o pensamento da senhorita Liz; o Jill, a Mel, o Henry-nii-sama e o senhor Duke afirmam o meu. Hoje, eles vieram me ajudar, mas ainda não sei bem o que o senhor Curtis e o senhor Finn realmente pensam no fundo.

Andando, o Jill caminhava em silêncio ao meu lado, e, atrás, vinham o Henry-nii-sama, a Mel e o senhor Duke.

Ilustração

O Henry-nii-sama sempre se deu bem com todo mundo até agora — será que tudo bem ele vir comigo assim?

Pensando distraidamente nisso, saí da sala de aula.

Naquele momento, até chegar em casa, eu não percebi que a palma da mão do Jill tinha marcas nítidas de unha, com sangue escorrendo de leve.


💚 Gostou do capítulo?

Um PIX rápido ajuda demais a manter o site no ar. Arrecadado esse mês: R$ ...

Fazer um PIX

Comentários

Opções

não funciona no modo escuro
Redefinir