Capítulo 20 – Talento e Maldição
Cyril Ashley, filho mais velho do Marquês Highon, não era originalmente da família Ashley.
Como o atual Marquês Highon só tinha uma filha, Cyril, sendo o mais talentoso entre os parentes distantes da família, foi escolhido como seu filho adotivo.
Embora tivessem laços de sangue com a família do Marquês Highon, a família de Cyril não possuía nenhum título nobiliárquico, o que os colocava na base da hierarquia. Ainda assim, Cyril era tão talentoso que chegou a ser escolhido como filho adotivo deles.
Ter um status como esse na escola o deixara orgulhoso, levando-o a pensar que era uma pessoa excepcional, um escolhido.
Mas Cyril, orgulhoso e radiante após se tornar filho adotivo da família Ashley, conheceu a filha da família Ashley…
…e isso o fez desesperar.
A filha do Marquês Highon — a meia-irmã de Cyril — possuía um intelecto excepcional.
Dizia-se que a Casa do Marquês Highon era uma família de “intelectuais”. E sua meia-irmã era tão intelectual que fazia até mesmo Cyril parecer incapaz de se comparar a ela.
— Se é assim, por que o adotaram?
Cyril, à beira de perder o sentido da própria existência, tentou desesperadamente aprender sobre todos os campos possíveis.
No entanto, a distância entre ele e a meia-irmã nunca parecia diminuir. Na verdade, quanto mais aprendia, mais percebia a diferença entre si mesmo e ela.
Foi nesse momento, quando estava em seu ponto mais baixo, que o segundo príncipe, Felix Ark Ridill, estendeu a mão para ele.
“Você me emprestaria sua força? Cyril Ashley.”
Naquele momento, Cyril disse que não tinha esse tipo de “intelecto”, mas Felix apenas sorriu antes de lhe dar uma resposta.
“Eu não o escolhi por você ser da família Ashley. Eu o escolhi porque você é você, Cyril.”
Naquele momento, ele tomou sua decisão.
A partir daquele momento, decidiu dedicar toda a sua vida a essa pessoa.
* * *
— Como tesoureira, seu trabalho vai ficar corrido no final e no início do mês. Vou listar aqui tudo o que precisa ser feito, então certifique-se de não deixar nada de fora.
Cyril Ashley era descaradamente agressivo com Monica, mas ainda assim explicou o trabalho minuciosamente.
A única coisa que a incomodava era um grande copo em cima da mesa. Durante a explicação, Cyril entoava brevemente um cântico antes de deixar cair um ou dois cubos de gelo dentro do copo vazio.
Tendo ficado curiosa com a situação, assim que a explicação terminou, Monica falou timidamente.
— E-Er, o que o senhor vai fazer com esse gelo…?
— Cada vez que você cometer um erro, um desses cubos de gelo vai ser enfiado na sua boca.
— Hiieeeee!
Cyril mexeu nervosamente no broche em sua gola com os dedos, antes de deixar cair mais um cubo de gelo no copo.
Monica de repente percebeu. O ar frio que se espalhava ao redor dele diminuíra durante o tempo em que Cyril fazia os cubos de gelo.
Será que o motivo de ele estar fazendo esses cubos de gelo era esse…?
— Se você tem tempo de olhar ao redor, olhe para os documentos.
— Desculpa…
Monica rapidamente voltou o olhar para os documentos, mas, para ser sincera, o trabalho que tinha agora não era assim tão complicado.
Afinal, antes de vir para esta escola, Monica fora obrigada a trabalhar com todo tipo de números, como finanças, registros de caixa, tendências de vendas de produtos, dados demográficos, entre outros. Comparado a isso, o trabalho contábil atual não era nada.
Depois de terminar a explicação, Cyril girou o copo cheio de gelo, bufando de descontentamento.
— Eu estava planejando enfiar isso na sua boca, caso você fosse ruim em memorizar coisas, mas… aparentemente, não foi necessário.
Parecia que essas palavras eram a “aprovação” de Cyril.
Depois de bater no peito, aliviada, ela foi encarada por Cyril.
— Por que você fica agindo tão assustada e tímida?
— E-Er… E-Este…
— Na verdade, não gosto dessa sua atitude servil.
Isso era algo que costumavam dizer a Monica.
— Por que você é tão servil?
— Você deveria se orgulhar do seu talento.
— Se você se despreza, o que dizer daqueles que nem chegam perto do seu talento?
— Você foi escolhida por Sua Alteza. E seu talento também foi reconhecido por ele. Então, por que você não demonstra nenhum orgulho disso?
Não seja tão servil. Não se despreze. Tenha confiança em si mesma. Você tem talento.
Quantas vezes já lhe disseram isso, desde que dominara a magia sem cântico?
Mesmo assim, Monica não conseguia recusar essas palavras.
Não era que ela negasse o orgulho. Ter orgulho de algo em que se é bom é uma coisa boa. Acreditar no próprio talento também é maravilhoso. Se fosse possível, Monica gostaria de ser assim.
…mas ela não conseguia fazer nada disso.
— D-Desculpa… eu simplesmente não consigo… me sentir orgulhosa de mim mesma…
Monica disse, murmurando, enquanto balançava a cabeça.
— É simplesmente… impossível…
No passado, quando estudava na Minerva, Monica tinha apenas um garoto a quem podia chamar de amigo.
Ele cuidava dela porque era tímida. Como ela não conseguia falar bem na frente dos outros, ele a acompanhava para praticar seus cânticos. E isso deixava Monica feliz.
Mas, quando Monica dominou a magia sem cântico e passou a ser conhecida como um gênio, a amizade deles começou a se desviar.
“Aposto que você vem me desprezando o tempo todo, não é?”
Não, você entendeu errado, era o que ela queria dizer, mas essas palavras não chegaram até ele.
E, sem conseguir se reconciliar com ele, Monica se formou na Minerva e se tornou uma dos Sete Sábios.
É uma memória amarga que ainda persiste na mente de Monica, mesmo agora.
Monica baixou a cabeça, mas as sobrancelhas finas de Cyril se franziram, enquanto ele curvava os lábios em formato de “へ”.
— A palavra que mais odeio é “impossível”.
— Desculpa…
Em resposta à repreensão de Cyril, tudo o que Monica conseguia fazer era baixar o olhar e se desculpar.
Ela se lembrou de quando o pai lhe dissera. Ele dissera que o talento às vezes pode ser uma maldição.
Para Monica, o talento era uma maldição. Ele sempre lhe tirava as coisas que ela queria.
— Seu pai, seus amigos.
— Olá, como está indo?
A voz alegre trouxe Monica de volta à realidade. Ao virar o olhar, viu Felix espiando sua mesa.
Cyril endireitou as costas e respondeu prontamente.
— Já expliquei todas as nossas obrigações regulares e o trabalho a ser feito no início e no final do mês. Só falta o que está relacionado a eventos.
— Ah, vai ter um torneio de xadrez e um festival escolar antes do recesso de inverno. Você vai ter que contar a ela sobre isso também.
— Assim farei.
Enquanto Cyril assentia, Felix olhou para o copo na mesa e o ergueu de leve. Os cubos de gelo se chocaram uns contra os outros, fazendo um som de chacoalhar.
— Você não está se sentindo bem, Cyril?
— Não, estou bem, Vossa Alteza.
— Bem, que bom, mas… vá com calma, está bem?
O que aquela conversa queria dizer, ela se perguntou.
Será que o senhor Ashley se sente mal quando faz gelo?
O ar frio que era liberado regularmente, o gelo criado propositalmente no copo, o broche tocado nervosamente… Para falar a verdade, Monica só tinha uma ideia do que estava acontecendo.
Será que ele…
Enquanto Monica encarava o broche de Cyril, um dedo se estendeu de lado e cutucou a bochecha dela.
Se olhasse de lado, veria Felix cutucando alegremente a bochecha macia de Monica.
— Não fique só olhando para o Cyril, olhe para mim também.
— D-Desculpaaaa…
— Você! Como ousa demonstrar tamanho desrespeito a Sua Alteza?!
— E-E-E-Eu… Desculpaaaaaaaaaa…
Quando Monica se desculpou, Cyril bateu com as palmas na mesa.
— Não consegue falar direito?!
— D-D-Desc-Desculpa…
— Quem disse que você pode falar gaguejando?!
— Cyril, não implique demais com ela, tá?
Felix conteve Cyril calmamente, impedindo-o de gritar com ela, mas este falou com voz severa.
— Não estou implicando com ela, Vossa Alteza! Estou disciplinando-a!
— Eu pensei que disciplinar fosse trabalho da dona. Se for assim, é meu trabalho.
Ela sentiu que seus direitos humanos estavam sendo tirados sem hesitação.
Por ora, Monica decidiu se refugiar na tarefa de contar os cílios de Felix, para escapar da realidade.