Capítulo 4 — Yuti’s School Life
— Certo, pessoal, sentem nos seus lugares. Temos uma nova aluna de transferência hoje!
Depois que voltaram do outro mundo pras férias, a vida escolar da Yuti no ensino fundamental finalmente começou. Tudo era novo pra Yuti, desde vestir o uniforme desconhecido até abrir mão do arco que ela sempre carregava consigo, e assim por diante.
Até agora, a Yuti tinha vivido sozinha com sua mestra, o “Bow Saint”, e nunca tinha praticado se comunicar com humanos. Por isso, ela tava preocupada se conseguiria se encaixar num ambiente onde o Yuuya e a Kaori não estavam presentes.
Só que o Yuuya e os outros não sabiam da ansiedade da Yuti porque não aparecia no rosto dela, nem ela falava sobre isso. Com esses pensamentos pesando nela, enquanto a Yuti esperava ansiosa na frente da sala de aula, vozes animadas podiam ser ouvidas de dentro.
— Uma aluna nova!
— Eh, é menino ou menina?
— Vai ser bom se for uma garota bonitinha!
— Mesmo que seja uma garota bonitinha, ela não vai te levar a sério mesmo, sabia?
— C-cala a boca!
— Sim, sim, silêncio, por favor! Bom, então, Yuti-san, pode entrar.
— …..
Quando a Yanagi-sensei, a professora titular que ia cuidar da Yuti, deu o sinal, ela entrou na sala com apreensão.
O contato da Yuti com existências como o Yuuya e a Kaori fez ela sentir menos ódio e medo dos humanos do que sentia quando sua Mestra morreu. Só que ela ainda tinha sentimentos confusos ao considerar o fato de que os humanos eram parcialmente responsáveis pela morte da Mestra dela.
Ainda assim, ela tinha bem consciência do fato de que os humanos ali não eram responsáveis pela morte da Mestra dela.
A Yanagi-sensei, que cuidava da turma da Yuti, tinha uma personalidade calma, o que era algo pelo qual a Yuti era grata, dada sua situação.
— …..
No momento em que a Yuti entrou na sala, os alunos que antes estavam barulhentos ficaram todos em silêncio de uma vez. Isso deixou a Yuti ansiosa, como se tivesse algo errado com ela, mas a Yanagi-sensei não pareceu se importar e escreveu o nome da Yuti no quadro.
— Sim, Yuti-san. Se apresente, por favor.
— A-afirmativo.
A Yuti deu um pequeno aceno e abriu a boca levemente, examinando os alunos da sala com receio.
— Eu sou a Yuti. …P-prazer em conhecer todos vocês…
A Yuti acabou se apresentando de um jeito tão simples porque não sabia o que dizer.
Então───.
— Que fooofaaa!
— Eh!?
A sala toda explodiu em uníssono.
— Eh, o quê!? Ela não é incrivelmente fofa?
— Eu esperava um garoto bonito, mas uma garota tão fofa assim também serve! Prefiro que não seja ninguém a essa garota!
— Ela parece uma boneca!
— Yuti, né? Você é estrangeira?
— Err, umm…
As reações inesperadas dos alunos deixaram a Yuti completamente confusa. Até agora, ela sempre tinha resolvido seus problemas pela força, e a Yuti não sabia o que fazer nessa situação onde seu poder era inútil.
Além disso, a Yuti não tava acostumada a ser recebida tão favoravelmente assim no outro mundo, onde os seres humanos não interagiam desse jeito sem cautela.
— Sim, sim, pessoal. A Yuti-san tá se sentindo incomodada! Se tiverem perguntas, façam durante o intervalo, por favor!
Percebendo que a Yuti tava incerta sobre como reagir a essa recepção, a Yanagi-sensei pôs um fim à comoção dos alunos, e se virou pra Yuti com um sorriso gentil.
— Então, Yuti-san, você pode sentar naquele lugar vago.
— Certo.
Quando a Yuti chegou no lugar mostrado pela Yanagi-sensei, ela respirou fundo. Então uma garota sentada ao lado dela falou com a Yuti.
— Ei, Yuti-san. Eu sou a Haruna! Prazer em te conhecer, tá?
— P-prazer em te conhecer também…
A Yuti ficou surpresa por ser abordada tão abruptamente, mas o clima animado da Haruna aliviou um pouco os nervos da Yuti.
***
A Yuti terminou a chamada com sucesso e começou as aulas, mas um grande problema permanecia.
Era… …….
— …Confusa. Não consigo entender.
Já que a Yuti nunca tinha estudado antes, era natural que ela não conseguisse resolver nem problemas simples. Felizmente, a Kaori ensinou ela sobre escrita e outras coisas desse mundo. Ela também adquiriu a habilidade [Language Comprehension], então consegue falar, ler e escrever sem problemas, mas ela lutava em outras áreas.
Embora a Yuti tropeçasse academicamente, ela mostrou seu verdadeiro potencial na aula de educação física seguinte. Na aula, as garotas estavam jogando basquete, mas a Yuti não entendia as regras.
— Haruna.
— Hmm? O que foi? Yuti-san.
Por isso, quando ela juntou coragem pra falar com a Haruna, que tava sentada ao lado dela, a Yuti perguntou sobre basquete.
— Desconhecido. Não sei nada sobre basquete.
— Eh, sério? Quer dizer que você nunca jogou isso antes?
— Afirmativo. Nunca vi também.
Ouvindo as palavras da Yuti, não só a Haruna, mas as garotas por perto ficaram pasmas.
— V-você não conhece basquete…? Existe um país assim?
— Então, eu ensino você.
Felizmente, ninguém zombou da Yuti por não conhecer basquete, e todo mundo foi gentil o suficiente pra ensinar ela. Depois de ouvir a conversa, a Yuti entendeu a maioria das regras do basquete e pegou uma bola de basquete que tava largada por perto.
— Confirmação. Eu tenho que colocar essa bola através daquela rede. Isso tá correto?
— Sim, isso mesmo.
— Posso jogar de qualquer lugar?
— Eh? Bem, sim. Mas, como esperado, dessa distância é───.
— Hmm.
A Yuti pulou levemente no lugar e jogou a bola na direção da cesta distante. Então a bola passou pela rede numa linha reta sem errar. Assim que a bola caiu inofensivamente no chão, a Yuti se virou pra confirmar com a Haruna.
— Isso tá correto?
— …..
Só que ninguém conseguiu responder à pergunta da Yuti. Não só as garotas, mas também os meninos que também tavam tendo aula no ginásio, e até a professora abriram a boca de espanto com a proeza física da Yuti.
— Hmm? O que foi?
— Hah! O-o que foi isso agora… Yuti-san, essa é realmente sua primeira vez jogando basquete?
— Afirmativo.
— De jeito nenhum!
A Yuti não conhecia as regras de nenhum esporte da Terra, muito menos basquete, mas ninguém ia acreditar nisso depois de ver os movimentos dela. Primeiro, a Yuti confirmaria as regras e tal, e a partir daí, o jogo de verdade seria jogado…
— Yuti-san!
— Hmm.
— Eeeeeeee! Três pontos de novo!
Como discípula do “Bow Saint”, não era nada mais que brincadeira de criança pra Yuti colocar a bola num alvo imóvel… a cesta.
Sempre que ela arremessava, a bola entrava. Não importava o tamanho da quadra pra Yuti. Só que, assim que as pessoas ao redor perceberam que a proeza de pontuação da Yuti era extraordinária, o time adversário tentou pará-la.
— A gente tem que parar o arremesso da Yuti-san!
— Não deixa ela arremessar! Se ela arremessar, vai entrar!
Algumas delas eram do clube de basquete, e em circunstâncias normais, se marcassem alguém em particular, ficariam grudadas e incapazes de fazer qualquer coisa.
Mas mesmo isso não funcionou contra a Yuti.
— De jeito nenhum, como assim?
— A-a gente não consegue pará-la!
A Yuti escapou por entre o grupo de garotas que tentavam pará-la e fugiu facilmente do cerco. Então ela recebeu um passe das companheiras de time. O time adversário não desistiu e se moveu pra impedir ela de arremessar.
— Não vou deixar ela arremessar!
— …..
— Eh?
Então, a aluna que veio pará-la arregalou os olhos de surpresa. O motivo foi que a Yuti não tava olhando pra cesta e só ficou parada, distraída. Além disso, a Yuti então jogou a bola levemente, como se não tivesse pensamento nenhum sobre pra onde a bola iria.
Então…
— Eh, o quê!?
— Quando isso aconteceu?
A bola jogada pela Yuti caiu nas mãos de uma companheira de time que passava por ali, e a companheira que recebeu a bola arremessou depressa.
A Yuti tinha generosamente usado a técnica do “Bow Saint” que ela usava quando lutou contra o Yuuya e os outros. Ela tinha previsto onde e quando suas companheiras de time passariam, e fez o trabalho divino de apresentar a bola precisamente de acordo com isso.
— Como a gente vai ganhar disso…?
A voz desanimada do time adversário escapou involuntariamente, mas todo mundo na sala concordou com as palavras deles. Depois disso, o desempenho excepcional da Yuti continuou, e a partida acabou terminando de um jeito totalmente unilateral.
***
— Yuti-san, você é incrível!
— Hmm? É assim?
Quando a aula de educação física terminou, e a Yuti tava trocando de volta pro uniforme, a Haruna disse com um brilho nos olhos.
— Isso mesmo… e tinha também alunas do clube de basquete no time adversário…!
— Clube de basquete?
— Sim, isso mesmo! Nosso clube de basquete é bem forte, sabia? Não acredito que você consegue ganhar decisivamente contra essas garotas sozinha…
— Negação. Não fui só eu. Todo mundo tem seus arremessos.
— Não, foi tudo por causa dos passes da Yuti-san!
— Isso mesmo.
— Eh?
Então uma das alunas, que tava escutando a conversa entre a Yuti e a Haruna, veio conversar com elas. Ela tem um corte de cabelo curto e um jeito meio moleca. Ela se aproximou enquanto enxugava o suor do rosto.
— Opa, você ainda não sabe meu nome. Sou sua colega de classe Natsuki; prazer em te conhecer!
— Natsuki…
— É, é. E eu apanhei no jogo mais cedo, mas sou membro do clube de basquete.
— Membro do clube de basquete?
— Un, bem, a Yuti-san nos derrotou de forma unilateral. Foi por causa do apoio dela que as outras garotas conseguiram pontuar. Bem, os passes da Yuti-san foram tão precisos que parece que ela sabe que alguém vai chegar lá…
— Afirmativo. Eu sei, então joguei a bola.
— Se é esse o caso, isso é realmente incrível…
A Natsuki achou que as palavras da Yuti eram uma piada e riu.
— De qualquer forma, já que você é tão forte, Yuti-san, quer entrar pro clube de basquete? Na minha opinião, você é muito bem-vinda…
— Pergunta.
— Hmm? O que é?
A Yuti olhou pra Haruna e Natsuki com uma expressão séria e inclinou a cabeça.
— Clube de basquete, membro do clube de basquete, o que é isso?
— “Eh?”
— Eu sei o que é basquete. Mas não sei sobre clube, ou membro de clube.
Com as palavras da Yuti, as duas ficaram perplexas já que não esperavam por isso.
Só que a Haruna, que se recuperou imediatamente, perguntou ansiosa.
— Err… será que não tinha atividades de clube onde você tava antes, Yuti-san?
— Atividade de clube?
— Ah, não tinha, hein…
Julgando pela reação da Yuti, ela conseguiu perceber.
— É tão raro não ter atividades de clube…
— É. É mais como… não acredito que não tinha um clube de basquete com uma joia de pessoa dessas. …É um desperdício.
Com as palavras da Natsuki, não só a Haruna, mas as outras garotas que escutavam por perto assentiram em uníssono.
— Desconhecido. O que é essa atividade de clube?
— Ah… não sei bem o que dizer sobre atividades de clube, mas acho que é mais como um grupo de pessoas que se reúnem depois da aula pra fazer esportes e outras atividades que querem, com um objetivo parecido em mente.
— …Difícil de entender. Então, eu tenho que estar num clube?
— Não que você tenha, mas… tem alguma coisa que você quer fazer?
— Afirmativo.
A Yuti assentiu concordando, já que de repente lembrou que não tinha tocado num arco nesse mundo.
— Arco…
— Arco? …Talvez você queira dizer Kyūdō ou Archery?
(N/T: Kyūdō é o tiro com arco japonês.)
Com as palavras da Natsuki, a Yuti olhou pra cima vigorosamente, e se aproximou animada da Natsuki.
— Kyūdō? Archery? Desconhecido. Só um arco, posso usar?
— V-você pode usar, mas… Yuti-san, você tá interessada em experimentar Kyūdō ou algo assim?
— Negativo. Eu sempre uso.
— Você tá usando?
— Tô surpresa. Bem, talvez você devesse aparecer e entrar pro clube de Kyūdō ou algo assim. O que você acha? Eu tô de folga hoje, então posso te mostrar por aí se você quiser?
— Ah, eu também, eu também!
A Yuti assentiu vigorosamente em resposta à oferta gentil delas.
— Certo, então nós três vamos pro clube de Kyūdō depois da aula!
— Isso mesmo. Ainda assim… tô um pouco desapontada que não é basquete, mas também tô surpresa que é Kyūdō.
— Surpresa? Por quê?
— Porque… não, se você vivia no exterior, não é surpresa que você conheça tiro com arco.
A Natsuki murmurou pra si mesma, e a Haruna fez uma pergunta genuína pra Yuti.
— Falando nisso, onde você morava, Yuti-san?
— Floresta.
— “Hã?”
— Floresta.
— “…..””
A Haruna e a Natsuki perguntaram de novo, mas a resposta da Yuti não mudou. Considerando a resposta da Yuti, elas se entreolharam inconscientemente.
— C-com floresta, você quer dizer, uma floresta de verdade?
— Não, não tem muita gente morando na floresta hoje em dia, né? Talvez fosse a Província de Aomori* ou algo assim?
(N/T: Mori = floresta.)
— Ah, é possível. …Mas não parece ser esse o caso, e parece que você é estrangeira, né?
— Hmm… mas seu japonês é fluente…
— C-certamente…
A existência da Yuti tava se tornando cada vez mais um mistério pra elas, e as duas só assentiram com a cabeça.
— Então, onde você mora agora?
— Casa do Yuuya.
— “Hã?”
— Casa do Yuuya.
— “…..””
De novo, não só as duas… mas todo mundo presente ficou em silêncio.
A Haruna, que imediatamente se recuperou, perguntou com receio.
— E-espera um pouco. O Yuuya é alguém… que a gente também conhece? Na nossa escola, tem uma pessoa muito famosa com o mesmo nome…
— Hmm? Desconhecido. Mas ele tá na mesma escola. Acho que se chama ensino médio?
— A-a propósito, qual é o sobrenome dele…?
— Pelo que eu lembro… Ten, Ten, Jou?
— …..
E de novo, silêncio.
E então──.
— Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeehhhh!
— Hã?!
Um grito ecoou pelo vestiário feminino.
— Não-não-não pode ser! Yuti-san, você mora com o Tenjou-senpai?
— Não, que tipo de relação você tem com o Tenjou-senpai, antes de tudo?
— Ficar sozinha com o Tenjou-senpai… Q-que inveja…!
A saraivada de perguntas que se seguiu deixou os olhos da Yuti girando.
— Eu disse algo estranho?
— Não, não é estranho nem nada, mas… ué, isso é estranho…?
— Esse não é o ponto; é o fato de que você tá morando com o Tenjou-senpai! O que isso significa?
— Desconhecido. Não tenho certeza. Mas tô aos cuidados do Yuuya.
— Você não tem certeza?!
As palavras que saíam da boca da Yuti uma atrás da outra estimulavam a curiosidade das garotas.
A Yuti inclinou a cabeça diante das garotas animadas.
— Pergunta. O Yuuya, ele é famoso?
— Ele é tão famoso, sabia! Porque seria loucura não gerar boato por ser tão bonito!
— Não é só isso. Ele também mostrou suas habilidades físicas tremendas no torneio de jogos com bola outro dia, e mais importante, ele expulsou os delinquentes que invadiram a escola antes…
— Ah, isso! Isso foi incrível! Ele tava jogando os delinquentes um atrás do outro!
— Delinquentes? …Não tenho certeza. Mas o Yuuya é mais que capaz disso.
Sabendo da proeza de luta do Yuuya, a Yuti assentiu com as palavras da Haruna e das outras.
— Não posso dizer com certeza porque são só boatos, mas ouvi dizer que ele também repeliu um urso que atacou durante uma excursão escolar.
— Eeh? Isso tem que ser mentira. Certo, Yuti-san?
— Negação. O Yuuya, se for um urso, ele consegue jogar longe.
— Sério isso!?
A Haruna e as outras ficaram cada vez mais surpresas com as palavras da Yuti. As garotas continuaram fazendo várias perguntas pra Yuti, e quase se atrasaram pra próxima aula.
***
Fiquei incomumente ansioso o dia todo.
O motivo disso foi…
— Falando nisso, ouvi dizer que uma garota incrível tá entrando no ensino fundamental.
— H-heh, é assim?
— Ela é estrangeira, e agora ela é o assunto da escola.
…Sim, é sobre a Yuti.
Enquanto a gente tava no intervalo, o Ryo tava me contando os boatos sobre a Yuti, mas do meu ponto de vista, eu não conseguia deixar de ficar na ponta da cadeira.
E-ela não cometeu nenhum erro grande, cometeu? Tá tudo bem, né?
Além disso, tô me perguntando se o Ouma-san, que agora tá em casa nesse mundo, tá se comportando direito.
Consegui explicar a situação pro Owen-san e os outros e trouxe ele pra casa sem problema, mas o Ouma-san é um dragão considerado lenda no outro mundo. Ele não ia se importar com o senso comum humano.
Além disso, o Ouma-san não tava feliz no início, mas os olhos dele brilharam quando ele viu a comida que preparei, as ferramentas da Terra, e assim por diante. E ele finalmente admitiu que eu tinha domado ele.
Só que a parte mais memorável da troca com o Ouma-san foi voltando da capital, quando ele viu a casa do Sábio-san.
— …Essa casa seria segura, mesmo se eu atingisse com um golpe de verdade. Aquele cara é o mesmo de sempre… quero dizer, a própria existência dele já não é mais relevante…
Sábio-san, você tá sendo reconhecido como uma irregularidade por esse dragão legendário.
Fiquei curioso sobre a relação entre o Ouma-san e o Sábio-san, então perguntei.
— Como o Ouma-san e o Sábio-san se conheceram…?
— A primeira vez que nos encontramos foi… há muito tempo atrás…
Dizendo isso, o Ouma-san olhou fixamente pra algum lugar distante.
— Eu ainda não era tão calmo quanto sou agora. Eu tava mostrando meu poder quando ele apareceu de repente e me atingiu com um golpe… O choque que recebi naquela hora ainda tá fresco na minha mente.
Sábio-san, o que você tava fazendo?
— Eu nunca tinha sentido medo antes na minha vida. Só que naquela hora, pensei que ia ser morto. Mas ele só me deu um sermão e não me matou. …Então, o Yuuya foi a segunda pessoa a me dar um sermão na minha vida.
— E-entendo…
Eu não tinha a intenção de dar um sermão nele; eu só tava explicando de um jeito normal e convincente.
— De qualquer forma, foi aí que a relação entre o Sábio e eu começou, e passamos muito tempo juntos, mas… ele se foi. Me deixando sozinho.
A expressão no rosto do Ouma-san ficou um tanto triste enquanto ele dizia isso.
— É por isso que fiquei tão surpreso quando consegui sentir o cheiro dele vindo do Yuuya. Seu tom e atitude são diferentes, mas fundamentalmente você é parecido com ele. Nunca pensei que você fosse herdar a casa, as armas e as habilidades do Sábio.
O Ouma-san, que tava prestes a dizer aquilo, arregalou os olhos quando percebeu alguma coisa.
— Será que… ele previu isso pra me mandar um novo amigo…? Isso é impossível. Mas é daquele cara que a gente tá falando… Kuh…
— Ouma-san?
Chamei o Ouma-san, que tava perdido em pensamentos, e ele começou a murmurar alguma coisa em voz baixa, mas o Ouma-san foi direto pra casa do Sábio-san. Fico pensando o que se passa na cabeça dele.
De qualquer forma, graças ao Ouma-san, consegui aprender um pouco mais sobre o Sábio-san, e agora entendo que ele é, como esperado, um ser extraordinário.
Mas quando penso nisso, tinha sapatos na casa do Sábio-san que não eram feitos do couro do Ouma-san, mas do Dragon God. A avaliação do Ouma-san sobre o Sábio-san não era exagerada. Fico pensando quem ele realmente é.
Eu tinha ficado inquieto o dia todo dadas as muitas situações. Fiquei enjoado bem na hora que a Kaede se aproximou de mim vigorosamente.
— Yuuya-kun!
— S-sim!
— É verdade que você mora com a aluna nova do ensino fundamental?
Ah…
Eu tava tão preocupado com as informações do outro mundo e as habilidades físicas incomuns da Yuti que tinha perdido completamente a cabeça. Por isso, não consegui reagir imediatamente às palavras da Kaede. Involuntariamente congelei, e os olhos do Ryo também se arregalaram.
— Yuuya, é verdade o que a Kaede diz?
— Eh? Não, isso é…
— E então?
A Kaede, que se aproximava de mim com tanto vigor, colocou pressão em mim.
C-como eu devo responder isso? Antes de tudo, como eu explico minha relação com a Yuti!
Enquanto eu pensava freneticamente numa explicação, percebi que o corredor tava barulhento. Não só eu, mas o Ryo também percebeu isso e virou a atenção pro corredor.
— Hmm? O que diabos aconteceu…
No momento em que o Ryo olhou na direção do corredor, o Shingo-kun entrou vindo do corredor, parecendo agitado.
— Yu-Yuuya-kun! Sabe, aquela aluna nova tá te chamando!
— Heh!
Enquanto eu soltava uma voz boba com a virada inesperada dos eventos, a Yuti entrou na minha sala vindo de trás do Shingo-kun.
— Achei. Yuuya, você tá aqui.
— Yu-Yuti…
Quando a Yuti me avistou, ela veio na minha direção sem prestar atenção aos arredores.
— Pergunta.
— Eh? O-o quê?
Não consigo evitar responder espontaneamente já que ela perguntou de um jeito tão direto e natural.
— Prevenção. Yuuya, você me impediu de carregar um arco. Mas na aula de educação física de hoje, quando eu disse que queria usar um arco, a Haruna disse que tinha o clube de Kyudo. Antecipação. Eu quero ir. Tá tudo bem?
— Só tô dizendo que não é seguro carregar um arco por aí no dia a dia… Se você quer ir pro clube de Kyudo, acho que tá tudo bem.
— ! Sério?
— Não tenho motivo pra mentir sobre isso, sabia.
Mas se a Yuti entrasse pro clube de Kyudo, tenho certeza que ela teria um grande papel nele.
Então a Yuti deu um sorrisinho incomum, e congelei no lugar quando vi isso.
— Gratidão. Yuuya, obrigada.
— É-é isso aí.
— Partindo. Então, vou indo agora. Acho que posso tá suando um pouco, então prepara meu banho, tá? Tchau.
Depois de dizer só isso, a Yuti saiu no ritmo dela.
…E o nome Haruna foi mencionado nas palavras da Yuti antes, será que ela fez uma amiga sem problema nenhum?
Enquanto eu ficava aliviado de ouvir sobre a situação da Yuti, virei pra Kaede e os outros de novo.
— Bem… é sobre minha relação com a aluna transferida, né?
— “Não, você não pode mais nos enganar!”
Certo.
Claro, se a gente se chama pelo nome bem na frente delas, a gente não seria estranho, seria?
Desisti e comecei a explicar, escolhendo minhas palavras da forma mais clara possível.
— Uhm… aquela garota de antes se chama Yuti, e ela é filha de um conhecido de alguém a quem devo muito, bem… esse conhecido teve um acidente e assim a pessoa a quem devo muito me pediu pra cuidar dela porque tava ocupado, ou algo assim…
Não sei se essa explicação foi aceitável, mas esse é o limite de detalhes que posso fornecer. Na verdade, embora a Yuti não seja filha do “Bow Saint”, parece que elas eram como mãe e filha em certo sentido, então não tem problema em me referir à Yuti como filha do “Bow Saint”. Do contrário, seria mais confuso se eu tivesse descrito ela como discípula de outra pessoa.
— M-mas ela tá morando sozinha com o Yuuya-kun, né?
— B-bem, sabe. Eu também fiquei confuso com a repentina situação, mas já que ela não tinha mais nenhum lugar pra ir, ela disse que ia ficar na natureza selvagem se eu não a acolhesse…
— A-argh…! Que inveja que ela pode morar sozinha com o… Yu-Yuuya-kun…!
— Hmm?
A Kaede pareceu querer dizer alguma coisa, mas gemeu como se não conseguisse achar as palavras. Não, também concordo que tem muitos problemas pra um rapaz e uma moça morarem sozinhos. Mas não posso dizer isso…
No final, passei uma tarde desconfortável sentindo os olhares não só da Kaede, mas também dos outros colegas de classe em mim.
***
Depois da aula, depois de receber permissão do Yuuya pra visitar o clube de Kyudo, a Yuti foi levada até o salão de Kyudo pela Haruna e pela Natsuki. Quando chegaram, a professora titular delas, a Yanagi-sensei, tava lá, usando o traje de Kyudo, instruindo os alunos.
— Yanagi-sensei.
— Ara? Haruna-san, Natsuki-san? Por que vocês estão aqui? Hmm…
Quando foi chamada, a Yanagi ficou momentaneamente surpresa ao encontrar a Yuti atrás da Haruna e da Natsuki.
— Yuti-san. Você tá talvez interessada em Kyudo?
— Parece que sim!
— Mas escuta, sensei. Na aula de educação física hoje, a gente jogou basquete com a Yuti-san, e ela era tão forte que ninguém conseguia acompanhar ela, inclusive eu.
Surpresa com as palavras da Natsuki, os olhos calmos e gentis da Yanagi-sensei se arregalaram.
— Ara ara, isso é verdade? Se é esse o caso, ela não devia entrar pro clube de basquete?
— Eu sei. Mas cabe a ela decidir qual clube entrar… Certo? Yuti-san?
— …..
— …Yuti-san?
A Haruna e a Natsuki chamaram a Yuti, mas a Yuti não ouviu as vozes delas e seu foco tava atraído pelos alunos que atiravam flechas.
Diante dessa cena, a Yanagi-sensei riu.
— Ara ara, a Yuti-san parece bem interessada em tiro com arco. O que você acha? Quer tentar atirar uma vez?
A Yanagi-sensei entregou pra Yuti o arco e as flechas que ela segurava, e a Yuti finalmente voltou o olhar pra lá e olhou pro arco e pras flechas.
Quando a Yuti recebeu eles, a Yanagi-sensei imediatamente tentou ensinar ela, mas…
— Então, Yuti-san. Antes de atirar, você precisa vestir algo que te deixe confortável pra se mover──.
— Desnecessário.
— Eh?
A Yuti ignorou as palavras da Yanagi-sensei e caminhou pra frente devagar, entrando no lugar onde os alunos tinham acabado de atirar.
Os alunos que tavam praticando ficaram surpresos ao ver a Yuti e ficaram se perguntando o que tava acontecendo, mas a Yuti não pareceu se importar e encarou o alvo à distância e perguntou pra Yanagi-sensei atrás dela.
— Pergunta. Devo mirar no meio daquele alvo?
— É-é isso. É o alvo, mas… não é tão fácil assim───.
A Yuti puxou o arco antes que a Yanagi-sensei pudesse terminar suas palavras e disparou uma flecha descuidadamente.
A Yuti atirou do jeito habitual dela, que ignorava os oito estágios em que o Kyudo é baseado.
Mas o resultado foi claro.
A flecha disparada pela Yuti perfurou o meio do alvo posicionado diretamente na frente deles, e as pessoas ao redor ficaram todas silenciadas com a cena. Só que a Yuti não pareceu se importar nem um pouco e continuou disparando flecha atrás de flecha.
— E-espera, Yuti-san!
Com as ações repentinas da Yuti, a Yanagi-sensei tentou apressadamente chamar ela, mas sua voz não alcançou os ouvidos da Yuti.
E assim, as flechas da Yuti, uma atrás da outra, atingiram o meio do alvo em rápida sucessão, criando um grande número de “Flechas Emendadas” onde a ponta da flecha perfurava o disparo anterior.
Mas isso não era suficiente, a Yuti aumentou seu foco, e ao entrar em seu próprio mundo, ela disparou flechas continuamente.
— I-incrível…
— Nunca pensei em acertar o centro com tanta precisão assim…
— I-isso não é loucura?
— Ei, olha! A parede de trás tá…!
— Eh, tá de brincadeira?
Os alunos que assistiam a performance da Yuti perceberam um problema e começaram a zumbir. Foi porque as flechas disparadas pela Yuti finalmente estilhaçaram o alvo e começaram a penetrar a parede atrás dele.
E então, a Haruna e a Natsuki, achando que isso era uma coisa ruim, correram pra pará-la.

— Yu-Yuti-san, Yuti-san!
— Para, ei, para!
— …Hã!
A voz da Haruna e da Natsuki finalmente alcançou os ouvidos da Yuti, já que ela disparou decisivamente uma última flecha pra um lugar onde nem parede mais tinha. Depois de terminar, a Yuti se virou pra Yanagi-sensei e os outros com um pouco de empolgação.
— Satisfeita.
— …..
Só que ninguém conseguiu comentar sobre as ações, a habilidade ou a aleatoriedade excessiva da Yuti. Na verdade, ninguém esperava que o alvo, ou até a parede, fossem destruídos, então não sabiam o que dizer.
A Yuti inclinou a cabeça diante da falta de resposta, mas de repente sentiu uma sensação desconfortável dentro do próprio corpo.
Era uma sensação de desconforto que só podia ser sentida porque os nervos tinham sido aguçados pela concentração que tava em vigor até um momento atrás.
— ? Essa sensação é… Evil?
Embora estivesse ciente do desconforto, a Yuti decidiu não se preocupar com isso, já que não tinha nada particularmente errado. Ao invés disso, agora, poder disparar flechas na escola era satisfatório.
Quando a Yuti assentiu satisfeita, a Yanagi-sensei finalmente voltou a si e murmurou pra si mesma.
— F-flecha emendada… mesmo uma flecha é cara, porém.
— N-não, mais importante, o que a gente faz com o alvo e a parede…
— …Isso também é verdade…
— ?
A Yuti não entendeu o significado das palavras da Yanagi-sensei, porque até agora, ela mesma tinha preparado arcos e alvos por conta própria.
***
— ───Agora, finalmente!
Os olhos vermelhos, que brilham estranhamente no espaço escuro, riem felizes.
— Eu me perguntei o que aconteceria comigo por causa daquele maldito porco… mas valeu a pena persistir de algum jeito.
E os olhos vermelhos encaram pra cima.
— Você não é mais necessário. Assim que eu me recuperar um pouco mais, vou escapar daqui…
E os olhos vermelhos se dissolveram na escuridão.