Prólogo
───[The World’s Disposal Ground].
Era um lugar onde os poderes negativos do mundo inteiro se reuniam e giravam em redemoinho, e um dos “Evil” cantarolava por ali.
— Fufun♪, será que eu devia cortar em pedacinhos? Cortar é bom, mas queimar também é divertido… Ah, borrifar veneno neles também parece interessante! Que tipo de grito eles vão soltar? Mal posso esperar!
Um dos Evil falava daquelas coisas cruéis com uma inocência infantil.
Sua aparência era a de um garoto jovem, com cabelo vermelho-escuro quase preto e olhos heterocromáticos, um vermelho e um azul.
Então, outro Evil surgiu tremeluzindo bem ao lado do garoto. Esse Evil era um rapaz de cabelo azul-escuro quase preto e olhos dourados, com uma presença meio fora deste mundo.
— ──Você tá de bom humor, hein?
— Hmm? Ah, tô sim. Afinal, finalmente vou poder matar aqueles Holy, né? Tô tão animado que nem consigo dormir.
— …Se você tá tão motivado assim, vai ficar mais fácil eu te pedir uma coisa.
— Hã? O que é? Qual é o pedido?
O Evil de aparência infantil perguntou sobre a fala do rapaz com um ar meio pomposo, transbordando curiosidade. O rapaz sorriu pra ele.
— Fica feliz. Esse é o seu primeiro trabalho. Vá destruir o Regal Kingdom.
— Regal Kingdom?
Era um nome desconhecido pro garoto, que inclinou a cabeça.
— Hmm… Pensando bem, eu não sei nada sobre os países dos humanos. Ahahahahaha.
— Suspiro… Isso não é motivo de riso. Você devia pelo menos saber a geografia deles. Se não souber, nem vai conseguir chegar lá pra cumprir a tarefa.
— Táaa. …E então? Qual é a graça de destruir esse país?
— O Sword Saint tá lá.
— !
Os olhos do Evil infantil se arregalaram com as palavras do rapaz.
— Parece que o Sword Saint tá agora no Regal Kingdom. Além disso, vai se reunir muita gente no Regal Kingdom por causa da celebração nacional que tá chegando… o que acha? É um cenário adequado pra você?
— …..
O Evil infantil, que tava escutando as palavras do rapaz com o rosto baixo, olhando pro chão, agora levantou a cabeça.
Havia───um sorriso malicioso em seu rosto.
— Issoo é incríiiveel! O que é isso? Você vai me dar o Sword Saint? E não só isso, você também tá me dando os outros humanos que tão lá!
— Isso.
— Você não tá mentindo, né? Se você mentir pra mim, eu te mato!
— Não tô mentindo. E aí, o que me diz? Você faz esse favor pra mim?
O Evil infantil balançou a cabeça com um sorriso diante dessas palavras.
— Claro que faço!
— Ufa… que bom. Mas o ataque precisa ser cronometrado pra acontecer durante o festival nacional do Regal Kingdom. Entendeu?
— Não precisa nem me falar! É quando vai se reunir um monte de humano, né? Aliás, essa é a única opção! Eu adoro! Eu adoro! É uma festa de matança! Vou fazer disso a melhor festa de todas!
Na verdade, o Evil infantil tava tentado a partir pra matança agora mesmo, mas se conteve, decidindo aguentar até o momento em que pudesse matar um monte de seres humanos de uma vez.
Sua animação ainda era evidente, mas ele perguntou ao outro Evil sobre algo que o incomodava.
— Mas… por que você deu essa tarefa pra mim? Eu pensei que você ia matar o Sword Saint.
— De fato, o Sword Saint era o candidato mais provável pra matar o Fist Saint, a quem eu emprestei meu poder. Mas isso não significa que eu tenha que matar o Sword Saint. Eu… não, tanto faz, contanto que um de nós consiga destruir o Sword Saint e toda a humanidade.
— Hmm… ah, tanto faz. Vou deixar vocês pensarem nas coisas complicadas.
— Gostaríamos que você também usasse a cabeça.
— Isso é difícil. Eu tô sempre tentando pensar na forma mais divertida de matar. Não tenho tempo pra pensar em mais nada!
— …Ah, deixa quieto. De qualquer forma, vou deixar você encarregado do Regal Kingdom. Nós vamos nos preparar pro ataque aos outros países.
— Tá bom. Então, posso ir agora?
— Pode, mas o que você vai fazer?
— Eeeh? Dar um bom espetáculo, é claro♪.
— …Bem, contanto que eles não saibam que você tá lá, você pode fazer o que quiser.
— Aay! Então vou pra lá o quanto antes, e vou preparar tudo pra poder matar todos os humanos.
A mente do Evil infantil já tava totalmente focada em matar as pessoas daquele lugar desconhecido.
— Ah, é verdade. Posso pegar emprestado alguns dos Fallen Saints?
— Hmm? Os Fallen Saints?
— Isso.
— …Que surpresa. Eu pensei que você planejava fazer tudo isso sozinho…
— Eeh? Isso é inesperado, né? Sabe como é? Às vezes é mais divertido fazer as coisas com várias pessoas, sabia?
— Entendi. Então tá bem…
O Evil com aparência de rapaz estalou os dedos e uma fenda no espaço surgiu, e dois homens emergiram dela.
Um deles era um homem seminu, mostrando um corpo esguio mas muito bem treinado. Tinha cabelo curto azul-escuro e olhos afiados. Carregava uma longa lança nas costas, mais alta que ele mesmo.
O outro homem vestia uma roupa preta que lembrava um pouco um ninja da Terra. A boca também estava coberta por um pano preto, e seu longo cabelo verde estava preso num único coque. Seus olhos, do mesmo verde, pareciam extremamente frios. Havia duas foices de cortar grama penduradas na cintura.
Os dois homens imediatamente se ajoelharam diante dos dois Evil.
— ““────Vocês nos chamaram?””
— Esses dois servem?
— Sim. Parece que são… o Spear Saint e o Sickle Saint, né?
— Isso. Embora as habilidades deles tenham sido reduzidas, ainda são ex-Holy. Acho que não vai ter problema.
Os dois homens que apareceram eram originalmente portadores do título Holy, que se opunha ao Evil. Agora, tinham se tornado peões do Evil, e passaram a ser chamados de “Fallen Saints”.
Os dois “Fallen Saints” curvaram a cabeça em silêncio, mas não conseguiam impedir seus corpos de tremer na presença dos dois “Evil” à frente deles. O poder dos dois Evil era tão grande que dava pra sentir a diferença de habilidade.
Quando o Evil infantil, percebendo o tremor dos dois, olhou pra eles e sorriu maliciosamente, uma nova distorção no local surgiu de repente. Era uma distorção do espaço que parecia escorrer trevas, mas essa distorção foi gradualmente tomando forma, e por fim, um único [Monster] foi criado.
O monstro abriu calmamente seus olhos vermelhos.
— Gugi, Gugyaa…
— Quê?
— I-isso é…
Os dois “Fallen Saints” assumiram uma postura de precaução diante daquele monstro. Então, quando o monstro avistou o Evil infantil, atacou-o. No entanto, o Evil infantil, sendo atacado, simplesmente encarou o monstro com olhos frios.
— Suspiro… É por isso que odeio recém-nascidos. Eles não sabem a diferença de habilidade, não temem a morte, e é por isso que não são divertidos───Que incômodo.
— Gugyiii?
Quando o Evil infantil espantou o bicho com um aceno descuidado da mão, o monstro foi arremessado longe e rolou pelo chão de qualquer jeito.
O Spear Saint, que só estava olhando pra cena estupefato, abriu a boca com um ar de surpresa.
— I-isso, esse monstro…
— Aah, vocês estão vendo isso pela primeira vez, né? Isso é um Evil Beast… que não é uma parte de nós.
— Então, isso é um Evil Beast…
— Isso mesmo.
— Bem, eles são só a cristalização do nosso resíduo. Não são perfeitos, mas dá pra usar se treinar. Afinal, tem um monte deles por aí. Podem ser uma boa força de combate.
— …..
Os dois “Fallen Saints” não conseguiram dizer nada.
— Claro, eles não são nada como nós, mas se vocês lutarem contra essas coisas, até vocês podem morrer. Ahahahahaha!
Os dois “Fallen Saints” empalideceram diante da risada inocente do Evil infantil.
O motivo disso era que agora eles tinham percebido que o Evil possuía um grande número dessas criaturas, que provavelmente os matariam se tivessem que lutar contra elas.
Por mais que olhassem pra aquilo, não conseguiam imaginar o Holy derrotando o Evil.
— Mas você tem que ir com um pouco mais de calma com ele. Senão ele vai ficar inútil.
— Eeh? Por que você não simplesmente cura ele?
— Prefiro matar do que passar por esse trabalho todo. Mas também dá trabalho matar. Então, vou só deixar assim.
— Ahahahahahaha! V-você é terrível!
— Afinal, tem um monte deles por aí.
O Evil infantil, que riu por um tempo, disse ao rapaz, que ainda sorria.
— Bom, então já vou indo. E já que tô nessa, posso levar alguns desses Evil Beasts comigo pra usar também?
— Isso, faça o que quiser. Tenho grandes expectativas.
— Tá, tá, tá. …Ah, ei, vocês dois, que resposta sem graça é essa…? Vou matar vocês se continuarem assim.
— Ah! D-desculpa…
O Evil infantil ameaçou os dois “Fallen Saints”, que ainda estavam estupefatos, e deixou o local. O rapaz, que os observou partir, também foi cuidar dos próprios assuntos.
Só restou o Evil Beast que tinha sido arremessado longe antes.
— Guga, Gugyii…
O Evil Beast não estava mais respirando e parecia prestes a morrer.
Mas──.
— Gii!? Giii───.
De repente, algo parecido com um círculo mágico se abriu embaixo do corpo do Evil Beast agonizante, e o círculo mágico brilhou violentamente.
O Evil Beast tentou desesperadamente escapar do círculo mágico, mas seu corpo não conseguia se mover como queria, e ficou enredado na luz do círculo mágico. E quando a luz diminuiu… a figura do Evil Beast não estava mais lá.
***
Enquanto isso, no mesmo momento em que o Evil agia, um experimento secreto estava sendo conduzido no Regal Kingdom, no porão do castelo que a Lexia e a Luna tinham visitado outro dia.
Um grupo de pessoas em mantos negros ao redor de um grande círculo mágico discutia, cada uma segurando um livro nas mãos.
As pessoas de manto eram feiticeiros do Regal Kingdom.
— ───Como estão as coisas indo?
— ! Vossa Majestade.
Então, o Orghis, rei do Regal Kingdom, desceu as escadas junto de uma mulher num vestido elegante.
A mulher tinha aproximadamente a mesma idade do Yuuya, com longos cabelos loiros em cachos verticais. Seus olhos dourados carregavam uma mistura de extravagância e elegância. A mulher, com os olhos firmes baixos, estava parada atrás do Orghis.
Então um dos homens de manto abriu a boca.
— Tudo está indo bem. Embora eu nunca tivesse imaginado que uma magia dessas existisse…
— Isso é só natural───já que ela invoca heróis e santos de outros mundos.
As palavras ditas pela boca do Orghis não teriam passado despercebidas se o Yuuya estivesse presente.
O Orghis então pegou um livro de um feiticeiro próximo e deu uma olhada rápida.
— Há muito tempo… no mundo dos contos de fadas onde apareceu o dragão lendário de quem tanto se fala ultimamente, existia uma outra figura nesse folclore. Essa era a única pessoa que alcançou o nível de deus──o Sábio. Diz-se que o Sábio criou a magia baseado na experiência de ter vagado até outro mundo uma vez.
— Sim. O Sábio reconheceu a existência de outro mundo e criou magia pra viajar até lá de novo. E conseguimos obter parte do material de pesquisa dele.
— Hmm. E a aplicação dessa pesquisa é esse círculo mágico…
O Orghis disse isso e fitou o enorme círculo mágico desenhado à sua frente.
Por um tempo, muitos aventureiros viajaram o mundo em busca da pesquisa perdida do Sábio espalhada por todo canto, e várias nações lutaram entre si pela posse desse conhecimento. Com o passar do tempo, os países assinaram um tratado pra parar as guerras pela literatura do Sábio, e ficou proibido que aventureiros fossem atrás dela.
No entanto, os fragmentos que já tinham sido adquiridos passaram a ser tratados como tesouros de cada país. Os países que os possuíam foram incentivados a estudá-los.
Só que a magia do Sábio era poderosa demais pra pessoas comuns controlarem.
Além disso, os efeitos de algumas delas são desconhecidos até serem ativadas, e algumas são perigosas.
— Na história, dizia-se que aquele outro mundo se desenvolveu através de uma tecnologia desconhecida que a gente não conhece, e que era muito próspero.
— Estamos tão encurralados a ponto de ter que depender dessa tecnologia desconhecida?
— …Sim.
Um dos feiticeiros assentiu gravemente às palavras do Orghis.
O Orghis também baixou os olhos com uma expressão amarga, mas seus olhos tinham um ar de determinação.
— …Mas, se não fizermos isso… seremos destruídos pelo Evil. Não temos escolha a não ser fazer isso.
— …..
— Como o Sword Saint-dono está aqui, não há com o que se preocupar, mas em muitos lugares… os Holy, que deveriam se opor ao Evil, desapareceram. Isso significa que é possível que tenham sido derrotados pelo Evil, ou talvez…
O Orghis franziu a testa ao imaginar o pior cenário possível.
Pelo próprio Sword Saint, que ele acolhera no Reino, o Orghis tinha ouvido falar do retorno do Evil, bem como do número crescente de Holy desaparecendo.
Claro, o Sword Saint sabia que muitos Holy tinham caído pro Evil, mas isso não foi revelado ao Orghis, porque o Sword Saint sabia que era papel do Holy lutar contra o Evil.
Depois de soltar um grande suspiro, o Orghis chamou a mulher que estava parada atrás dele.
— …Layla.
A mulher chamada Layla é filha do Orghis e primeira princesa desse Regal Kingdom. Com sua boa aparência, alta inteligência e personalidade forte, ela é adorada pelo povo. Assim como a Lexia no Kingdom of Alceria, ela é muito popular.
A Layla respondeu ao chamado do Orghis com elegância.
— Sim, pai.
— Provavelmente seremos condenados pelo mundo inteiro quando realizarmos essa invocação… Estamos tentando trazer pessoas de outros mundos pra nos ajudar a resolver nossos problemas. Não é diferente de um sequestro. Claro, ao trazê-los, pretendemos entretê-los com o país inteiro. Se um herói for invocado, vamos dar a ele todo tipo de mulher bonita. E… você também pode ter que ser oferecida.
— …Eu entendo.
A Layla compreendia a importância da magia que estava sendo realizada ali e a crueldade dela. Se a invocação falhar, não haverá futuro pra raça humana nesse mundo, e se ela tiver sucesso, as pessoas de outros mundos serão convocadas a lutar por eles.
De um jeito ou de outro, não havia escolha.
O motivo pelo qual eles ainda depositavam fé nessa aposta era que ninguém nesse mundo conseguia mais lutar contra o Evil, e não podiam simplesmente ficar parados esperando pra perecer.
A única forma da humanidade sobreviver e escapar das mãos do Evil era depender de um novo poder, mesmo que isso significasse sacrificar outra pessoa. Mesmo que tivessem que cometer o grande pecado de sequestrar um herói de outro mundo e ter o mundo inteiro como inimigo, precisavam fazer isso pra que a humanidade continuasse a viver num mundo transbordando de poder positivo.
E a Layla tinha uma responsabilidade ainda mais importante.
Originalmente, o Regal Kingdom era conhecido como a nação líder mundial em magia, com pesquisa ativa na área. Como tal, tinha conseguido reproduzir parte da magia do Sábio, ainda que de forma limitada.
E a família real, que lidera essa potência mágica, herdou uma grande quantidade de poder mágico de geração em geração, e a Layla, que dizem ter a maior quantidade de poder mágico, era necessária pra ativar essa magia.
— …Essa magia só pode ser ativada por você, a maga mais poderosa desse país. Colocar uma responsabilidade tão pesada em você──.
— Pai. Eu tô bem. Então, por favor, não se preocupe.
A Layla sorriu graciosamente, mantendo a dignidade.
Não só o Orghis, mas também os feiticeiros que trabalhavam por perto, não conseguiram dizer nada. O sorriso decidido da Layla era muito poderoso e bonito.
Diante daquele sorriso, o Orghis ficou surpreso por um momento, mas por fim respondeu com um sorriso amargo.
— Suspiro… Sério… Você é uma garota forte. Isso me faz ter pena do homem que vai te tomar como esposa.
— Claro. É só natural que o homem que se casar comigo seja um homem forte. É por isso que o homem que for invocado… tem que ser forte como um herói…
— Então, não tem como você achar um parceiro de casamento nesse mundo… Não, pensando bem…
— Pai?
De repente, o Orghis se lembrou de algo, e a Layla inclinou a cabeça.
— Não, durante o encontro com a princesa do Kingdom of Alceria outro dia… mal posso acreditar, mas… parece que existe uma pessoa que é seguida pelo dragão lendário.
— O quê!? I-isso é verdade?
— Pela reação da Princesa Lexia, não acho que seja mentira… mas é difícil acreditar que o dragão lendário exista, pra início de conversa. No entanto, o terremoto que sacudiu a terra naquela época foi fora do comum. Alguns folclores dizem que ele originalmente dormia num vale perto do Kingdom of Alceria. Dizem que o dragão despertou e foi domado por um homem.
— N-não pode ser… Então, qual é o nome desse homem?
— Sim. Acho que o chamavam de Yuuya…
— …Esse nome soa bem desconhecido.
— Sim. Eu também nunca ouvi esse nome por aqui. Não é um nome comum no Kingdom of Alceria também, então ele deve ser de outro país. No entanto, dizem que essa pessoa é o noivo da Princesa Lexia. Mas não sei se isso é verdade ou não.
— Suspiro…
— Mas se existisse um homem desses, ele seria um marido adequado pra você, e mais importante, poderíamos contar com ele na luta contra o Evil.
A Layla, que vinha escutando o Orghis, balançou a cabeça.
— Pai. Certamente, se um homem desses existisse, eu me entregaria a ele com prazer. Mas isso é impossível.
— O quê?
— Pra começar, dizem que o dragão lendário foi derrotado pelo Sábio na mitologia do Sábio, não é? Duvido até que ele tenha existido.
— Isso é… mas, baseado no material de pesquisa do Sábio, ele criou magia como essa. Talvez o dragão lendário também tenha existido?
— É exatamente esse o motivo. Isso significa que a história do Sábio que derrotou o dragão lendário enfurecido no conto de fadas também é verdadeira, não é?
— …Acho que isso também é verdade.
— Claro, o terremoto e o rugido foram fora do comum, mas não acho que tenha sido por causa do dragão lendário. Uma lenda ainda é só uma lenda. Então acho que provavelmente é um Ancient Dragon.
— Entendo. Mas mesmo que seja um Ancient Dragon, só de pensar em ter um por perto já é uma ameaça.
— Isso é verdade… mas, de acordo com o que o pai disse antes, esse homem já não está noivo da Princesa Lexia?
— Umu. Foi o que a Princesa Lexia disse… mas, a julgar pela reação da garota que a escoltava, é duvidoso que estejam realmente noivos. Mais importante, quando a princesa do Kingdom of Alceria fica noiva, deveria haver um grande anúncio.
— Isso é… acho que é verdade.
— Ele é uma pessoa misteriosa. Mas, no festival nacional, ele vai ter uma partida contra o Sword Saint. Vamos poder avaliá-lo lá.
— Estou ansiosa por isso.
— Sim. Vamos aproveitar o festival nacional ao máximo.
— Sim. Depois disso, vamos realizar essa magia───.
No Regal Kingdom, um grande plano estava sendo posto em prática, baseado numa forte convicção.
***
A história se passa novamente na “Ousei Gakuen” da Terra.
— Ufa… hoje eu estudei pra caramba!
— Bem, estudar é o que se espera de um estudante, né.
As aulas do dia tinham acabado, e a Kaede se espreguiçou de forma exagerada. Olhando pra amiga, a Rin riu, achando graça.

— Uuh… sim, eu sei disso… mas, pra mim, é sempre melhor ficar me movimentando…
— Mas o teste tá logo ali na esquina. Se você tirar nota baixa, não vai poder participar das atividades do clube, vai?
— Nãooo! Eu não quero nem ouvir falar de teste!
A Rin riu de novo da Kaede, que tapava os ouvidos balançando a cabeça.
— Nossa… vou ter que ficar de olho em você.
— O-obrigada pela ajuda…
A Kaede, que sempre contava com a Rin pra ajudar a estudar quando um teste se aproximava, curvou a cabeça, sincera.
— Sim, sim… a propósito, tudo bem você não ir pra atividade do clube?
— Ah, sim! Hoje eu tenho folga. Então posso brincar o quanto eu quiser!
— Não é justo essa hora que você devia ir pra casa estudar?
— R-Rin-chan, você é muito má!
A Kaede estremeceu com as palavras provocantes da Rin.
Então a Rin avistou a Yukine, que estava prestes a sair da sala.
— Ah, você também vai pra casa, Yukine?
— Ah, Yukine-chan, se você for também, vamos voltar juntas!
A Yukine ficou surpresa por um instante, mas balançou a cabeça.
— …Hoje eu tenho atividade do clube.
— Hã?
— Ah, você tá num clube agora, Yukine?
As duas arregalaram os olhos ao perceber que era a primeira vez que a Yukine participava de uma atividade de clube.
— Yukine-chan, você não era do clube de ir pra casa antes?
— …Era. Mas recentemente eu achei uma atividade de clube que parecia interessante, então entrei.
— Sério? Que clube é?
— Clube de Pesquisa do Oculto.
— ““Clube de Pesquisa do Oculto?””
Tanto a Kaede quanto a Rin ficaram surpresas com o clube inesperado.
— E-eu realmente achei que fosse o clube de música leve ou algo assim…
— Não, Kaede. Isso parecia que ela é integrante de uma banda ou algo assim, mas não é meio preconceituoso?
— S-será?
— …Bem, eu não sabia que existia um clube de pesquisa do oculto.
A Yukine inclinou a cabeça curiosa com a reação das duas.
— Quê? …É tão estranho assim? O oculto é interessante, sabia?
— S-sério?
— Do que se trata, a propósito?
— …É um lugar onde você pode estudar fenômenos que não existem na vida real?
— E-entendi.
Então a Yukine de repente pensou em algo e se aproximou das duas garotas.
— …Já que vocês estão livres, será que vocês não gostariam de vir visitar?
— Hã?
— …Na verdade, a gente não tem muitos membros, e mesmo eu tendo entrado no clube, ele tá prestes a ser fechado. Então precisamos de membros novos.
— N-não… eu já sou membro do clube de atletismo…
— Hmm… acho que é interessante.
— Ah, Rin-chan?
A Kaede revirou os olhos com a reação da Rin.
— Bom, eu vou tentar!
— …Esse raciocínio é aceitável. Por que você não visita uma vez só e vê com os próprios olhos? Eu consegui uma literatura interessante hoje mesmo.
— Sério? Fiquei curiosa.
— Argh…
— Hmm? Você tá com medo, Kaede…?
— C-claro que tô! O oculto é sobre fantasmas e demônios, né?
— …Sim.
— Viu! Como você não vai ficar com medo?
A Rin, sentindo-se um pouco levada pela travessura com a cara assustada da Kaede, disse com um sorriso.
— Bom, tudo bem! Só me escuta hoje!
— Ah, Rin-chan?
— …Hmm. Então eu vou te guiar — disse a Yukine.
— Espera, espera, espera! Eu não disse que ia──.
— Hmm? Pro teste, eu vou acompanhar a Kaede nos estudos, então você pode me acompanhar no clube, não pode? Olha, o teste tá chegando logo, né?
— Argh!
A Kaede gemeu de dor ao ser atingida naquele ponto.
— Bom, vamos!
— …Sim. Por aqui.
— Uuh! A Rin-chan é um demônio mesmo!
A Kaede estava quase chorando, mas seguiu atrás da Rin e da Yukine.
***
A Kaede e as outras chegaram numa das salas vazias, num lugar que elas não costumavam frequentar.
— …Essa é a sala do Clube de Pesquisa do Oculto.
— Argh… o ambiente parece meio sombrio…
— Você tá se preocupando demais com isso, sabia?
— Será…
Apesar da hesitação entre as duas, a Yukine abriu a porta da sala.
— …Por favor, entrem.
Quando entraram, havia um espaço com uma atmosfera diferente, com bonecos de palha, espécimes de insetos, e uma grande panela cheia de um líquido de cor estranha. Também havia livros na mesa, alguns escritos em japonês, mas outros em vários idiomas diferentes.
A Rin olhou ao redor da sala com admiração, já que a atmosfera do clube estava mais organizada do que ela esperava.
— Hee… tá melhor do que eu esperava.
— Ri-Ri-Ri-Rin-chan!?
— Kaede, você tá com medo…?
Por causa do medo, a Kaede agarrou a barra da roupa da Rin e tremeu, mas a Rin não conseguiu segurar o riso.
— A propósito, o que a gente vai fazer hoje? — perguntou a Rin pra Yukine.
— …Isso.
Em resposta à pergunta da Rin, a Yukine tirou um livro da bolsa e mostrou pra ela.
— O que é isso?
— …Achei no meu sebo favorito. É um livro sobre invocação de demônios.
— In-invocação de demônios?
— Hee, isso soa bem oculto.
A Rin riu animada da Kaede, que estava quase desmaiando. A Yukine abriu o livro e explicou enquanto folheava.
— …Comprei isso, pesquisei em casa, e comprei alguns materiais hoje, então vou realmente desenhar um círculo mágico.
— V-você vai desenhar?
— Hmm? Bem, parece que não tinha nenhuma senpai ou outro membro do clube por perto. Tá tudo bem fazer isso sem permissão?
— …Tá tudo bem. Somos só umas poucas, pra início de conversa, mas cada uma pode pesquisar qualquer área que te interesse. O meu interesse são demônios e esse tipo de coisa.
— Entendi.
A Yukine moveu a mesa dela pra beira da sala e estendeu um grande pedaço de papel no chão vazio. Depois desenhou um círculo mágico no papel com um marcador mágico vermelho, se guiando pelo livro de invocação de demônios que tinha pego no sebo.
— Eu achei que você fosse usar algum tipo de sangue pra desenhar o círculo mágico, mas é só com o marcador mágico? — disse a Rin.
— S-s-s-sangue!?
— …Acho que não tem problema.
— Isso é bem por alto…
— …Porque não precisa seguir exatamente à risca.
— O mundo é difícil mesmo, hein.
Diante das palavras da Yukine, a Rin deu de ombros. A Kaede ficou tão chocada com a ideia de usar sangue pra desenhar círculos mágicos que parou de pensar.
Enquanto isso, a Yukine finalmente terminou de desenhar o círculo mágico.
— …Pronto.
— Deixa eu ver… bem, eu não faço ideia do que tá desenhado aqui.
— T-t-t-tá mesmo tudo bem, né?
— Tá tudo bem. Você só precisa se acalmar…
— …De qualquer forma, agora que temos esse círculo mágico, só falta ler o feitiço nele.
— Isso é bem simples, hein?
— …Os demônios precisam ser invocados por humanos pra vir a esse mundo. Então, quanto mais simples o processo, mais fácil fica pros humanos invocá-los.
— Hee? É assim?
— …Acho que sim.
— Você tá só supondo isso…
A Rin ficou involuntariamente surpresa com a afirmação confiante da Yukine. No entanto, a Yukine não parecia particularmente incomodada com isso, e ficou de pé na frente do círculo mágico e começou a ler o feitiço no livro.
— ───
Até a Kaede, que tinha ficado com medo antes, olhou pra Yukine enquanto ela lia o feitiço com uma expressão séria.
E então───.
— ────!
E então ela abriu os olhos e leu o feitiço em voz alta.
— …..
— …..
Nenhuma mudança ocorreu no círculo mágico. A Yukine fechou o livro em silêncio e balançou a cabeça uma vez.
— …Bem, acho que não consigo invocar, né?
— Eeeeehhhhhh!
— …Você é bem honesta, hein?
A Kaede e a Rin ficaram pasmas e passadas com o fato da Yukine ser tão direta.
— …Esse tipo de coisa é bom justamente porque é desconhecido. Não é tão romântico quando você consegue descobrir.
— E-então, qual é o sentido de pesquisar isso…?
— …De qualquer forma, eu falhei dessa vez. Mas foi divertido, e eu curti o clima, então tá tudo bem. Eu não trouxe mais nenhum livro pra tentar, então é isso por hoje.
— Nossa. Acabou tão rápido. A atividade do clube de hoje já terminou então?
— …Foi.
— Bom, já que estamos aqui, que tal nós três saírmos e depois irmos pra casa?
— …Tá.
A Rin decidiu fazer planos pro resto do dia, e as três decidiram sair juntas, e a Kaede finalmente conseguiu relaxar.
Mas───.
— Yu-Yukine-chan, Rin-chan…
— Hmm?
— O que foi?
— I-isso é…!
A Kaede, que parecia ter percebido alguma coisa, apontou naquela direção tremendo. A Rin e a Yukine também olharam na direção que o dedo apontava.
— ““Hã?””
Pra surpresa delas, o círculo mágico desenhado com o marcador mágico vermelho tinha começado a emitir uma luz misteriosa.
— O-o que tá acontecendo aqui?
— …Incrível. Esse livro é de verdade…
— Não é essa a questão!
— T-tá ruim, Rin-chan, Yukine-chan! A luz tá ficando mais intensa!
A Kaede começou a entrar em pânico mais do que antes, mas até a Rin não esperava por essa situação e começou a entrar em pânico também.
— Yu-Yukine! Que tipo de demônio você disse que ia invocar?
— …Não sei. Mas eu desenhei um círculo mágico que consegue invocar o demônio mais poderoso do livro.
— Eu sabia…
As bochechas da Rin se contraíram com a resposta da Yukine.
Se o que a Yukine diz é verdade, então o demônio que está prestes a ser invocado é um ser poderoso. Só a ideia de um demônio ser invocado já é algo sério, mas quando é um demônio poderoso, é um desastre.
No entanto, ignorando as três, a luz do círculo mágico aumentou, e por fim, a sala inteira ficou tomada de luz.
— Argh!
— Tá tão brilhante…!
— …Fico imaginando o que vai aparecer.
— Você tem que levar isso mais a sério, Yukine!
Quando a luz finalmente diminuiu, a Kaede e as outras abriram os olhos com receio.
— …I-isso…?
— Isso é…
— …É estranho. Não tem nada aqui!
Não havia nada, nem sequer uma figura parecida com um demônio, no círculo mágico onde a luz tinha se assentado.
— Yukine. Dá pra gente ver o demônio direito?
— …Devia dar.
— Ah, Yukine-chan?
A Yukine assentiu às palavras da Rin e se aproximou do círculo mágico em questão sem hesitar. E tentou tocar o círculo mágico e ergueu o papel onde o círculo estava desenhado, mas nenhuma mudança ocorreu.
— …Sim. Brilhou tanto assim, mas parece que falhou. Que pena.
— Q-que pena, como assim…?
— Bem, eu me surpreendi quando a luz saiu do nada, mas acho que entendo essa decepção.
É uma pena que o experimento da Yukine tenha falhado, considerando que elas poderiam ter conhecido um ser desconhecido, mesmo que a palavra “demônio” trouxesse medo à mente. Por mais alguns instantes, a Yukine releu o livro e checou o círculo mágico que tinha desenhado, mas não conseguiu confirmar a existência do demônio, então terminou de arrumar tudo e saiu da sala do clube dessa vez.
— Eu tava com medo do que ia acontecer, mas foi uma experiência única.
— Eu fiquei mesmo com muito medo, viu…
— Desculpa! Vou te comprar um sorvete ou algo assim agora.
— Argh… Então eu te perdoo.
— Desculpa… você teve que esperar.
— Não, eu não me importei de esperar. Vamos.
As três já tinham esquecido o que tinha acabado de acontecer e estavam discutindo os planos pra se divertir. Naquele momento, a Yukine sentiu um vago desconforto que não conseguia colocar em palavras e olhou ao redor.
— …..?
— O que foi?
— …Não, não é nada.
Ninguém percebeu que havia algo errado com──a sombra da Yukine, e que os olhos dela estavam vermelhos. Assim, vários incidentes estavam ocorrendo em três lugares diferentes ao mesmo tempo.