Capítulo 2 – Summer Festival
──Num certo restaurante de alto padrão.
É um restaurante conhecido que celebridades, presidentes de várias empresas, e políticos frequentam, e não é um lugar que pessoas comuns conseguem entrar com facilidade. Num lugar desses, a Miu comia meio desconfortável.
— ──Miu. Você sabe do que a gente vai falar hoje, né?
— …Sim.
Um homem de meia-idade com um rosto bem desenvolvido que se parecia com o da Miu de algum jeito, comia do outro lado da modelo com uma expressão severa no rosto. O homem à frente dela era o pai da Miu e o motivo da tensão dela.
— Então, vai ser rápido. Foi arranjada uma proposta de casamento pra você. A outra parte é um jovem que administra várias instalações de entretenimento no exterior, incluindo um grande cassino. Recentemente, ele tem tentado começar um novo negócio com o dinheiro que ganhou administrando os cassinos. Depois de ouvir a história dele em detalhes, sinto que ele tem um futuro muito promissor. Ele vai se encaixar bem na nossa família.
— …..
Pode ser adequado pra você, mas não é pra nossa família. Embora a Miu sentisse isso diante das palavras do pai, ela não disse isso em voz alta.
O pai da Miu era o presidente de uma das maiores empresas do Japão, e a Miu era na verdade a filha do presidente. No entanto, em vez de seguir as ideias do pai e entrar na empresa dele, a Miu pulou pra indústria do entretenimento e se tornou uma modelo muito famosa.
Portanto…
— …Desculpa. Ainda tô trabalhando como modelo──.
— Não me diga que você tá recusando isso por causa de algum show business bobo?
— Ugh!
Sendo perfurada pelo olhar afiado do pai, a Miu ficou tensa. Na verdade, ela queria fazer ele se desculpar por chamar o trabalho de modelo dela de perda de tempo agora mesmo. No entanto, ela não conseguia controlar a resposta do corpo, que era um reflexo subconsciente arraigado nela por anos, e só conseguia ficar em silêncio.
O pai da Miu falou com ela como se estivesse falando com uma filha mal-educada.
— Miu. Eu aprovei suas atividades de entretenimento porque acredito que vai levar a um aprimoramento da imagem da nossa empresa. Mas além disso, você também prometeu ajudar nossa empresa a crescer se houvesse uma oportunidade pra isso.
— Isso!
— Não me diga que você esqueceu disso?
A Miu, que estava sendo encarada severamente de novo, segurou a língua de novo.
— Bem, isso é pro seu próprio bem também. Não sei sobre modelagem ou seja lá o que for, mas seu futuro tá garantido se você trabalhar pra mim em vez de estar no mundo instável e imprevisível do entretenimento. Por que você não consegue entender isso?
— …Você não sabe como eu me sinto sendo modelo.
— Não sei. E nem tô interessado nisso.
— Hã!?
— Não importa o que você diga, pretendo prosseguir com essa proposta de casamento.
— …..
A Miu abaixou o rosto frustrada diante das palavras do pai. O pai dela soltou um suspiro de exasperação diante da visão dela.
— Nossa… o que há de errado com você… se você se casar com alguém que eu apresentar, seu futuro vai estar garantido…
— …Não é isso que eu procuro…
— ──Miu. Não me decepcione demais.
— Uh!
O corpo da Miu ficou tenso diante do som da voz fria do pai.
— Você carece de consciência como membro da família Midou. Pelo bem do desenvolvimento da família Midou e pelo seu futuro, esse casamento é muito importante.
— …Mesmo assim, eu…
A Miu disse isso numa voz fraca como se estivesse espremendo, mas então teve uma ideia estranha.
— B-bem então… Se eu conseguir trazer um homem que faça o pai se sentir mais tranquilo, aí você vai cancelar a proposta de casamento, né?
— Você?
— S-sim!
A Miu encarou o pai com uma expressão séria. Mas a expressão do pai dela era fria como se ele soubesse que era impossível.
— Já te disse várias vezes que esse casamento é pro seu futuro e vai afetar muito o desenvolvimento da família Midou. No entanto, se você conseguir trazer um parceiro parecido… não, um até melhor, não vou ter reclamação nenhuma.
— Bem então…!
— Bem, não acho que você consiga. Tenho algum conhecimento do seu círculo social. Nunca existiu um homem na sua vida que você conheceu pessoalmente, existiu? Não espero que você consiga trazer alguém que atenda esses requisitos do nada.
Depois de dizer isso, o pai dela retomou a refeição. Era como se ele não tivesse mais nada a dizer, e a Miu também não conseguia dizer mais nada.
***
Bem quando eu tava me acostumando ao treino com a Iris-san, o Mestre Usagi e a Iris-san me disseram que hoje seria um dia de folga, já que eu tinha treinado muito ultimamente. No entanto, como eu tava pronto pra treinar de novo hoje, fiquei intrigado com a pausa repentina.
O que eu devo fazer…? Já terminei meu dever de casa de verão cedo pra poder sair com a Kaori e os outros antes, e já que tenho uma pausa do meu treino normal, posso muito bem parar de fazer treino voluntário também pra descansar o corpo.
Gemi por um tempo, mas então tive uma ideia.
— Isso mesmo! Já que tenho um dia de folga, vamos dar uma caminhada na Terra depois de tanto tempo!
— Woof!
— Fugo~!
O Night e o Akatsuki guincharam alegremente diante das minhas palavras. Então, o Ouma-san, que estava deitado no cômodo, abriu um olho.
— Você vai sair?
— Sim.
— Entendi. Bem, não acho que vai ser um desastre, mas tenha cuidado.
— Eh?
— Já senti a presença do Evil antes, mesmo aqui na Terra. Já que os mundos estão conectados por aquela porta, não é surpreendente que qualquer coisa possa acontecer.
Quando fui visitar a casa de férias da Kaori, encontrei o Evil Beast no lugar onde fizemos o teste de coragem, e parece que o Ouma-san tinha sentido a presença disso enquanto estava nessa casa. Como sempre, ele é incrível…
— E você, Yuti?
— Espera. Vou ficar em casa. Ainda não terminei meu dever de casa.
— É-é assim?
Sorri amargamente ao ver a Yuti lutando com o dever de casa de verão espalhado na mesa. Não só ela precisava estudar pro ensino fundamental, mas também precisava se atualizar com a matéria do ensino primário pra acompanhar as aulas dela, então precisava estudar mais que os outros. Era muito trabalho, mas eu sempre tava disposto a ajudar se ela encontrasse algum problema ou não entendesse alguma coisa nos estudos.
Saímos pra uma caminhada, deixando a Yuti e o Ouma-san cuidando das coisas.
— Faz tempo que a gente não faz uma caminhada dessas.
— Woof.
— Fugo.
Enquanto o Night usava coleira e guia, o Akatsuki não tinha nada nele. O motivo era que o Akatsuki não gostava disso. O Akatsuki era frequentemente no próprio ritmo e não fazia nada perigoso, e me escutava, então deixei ele assim por enquanto.
— Hmm?
Enquanto eu caminhava tranquilamente pelo percurso, percebi um quadro de avisos na cidade. Tinha um anúncio de um festival de verão que aconteceria amanhã à noite.
— Um festival de verão…? Falei sobre ir com todo mundo quando voltamos da casa de férias da Kaori… mas o que eu devo fazer?
Infelizmente, não tenho smartphone, então não tenho como entrar em contato com todo mundo.
…Acho que devia só comprar alguns aparelhos novos e coisas pra casa. Não era impossível se cadastrar num smartphone sem consentimento dos pais? Se é assim, eu gostaria de evitar ter um…
Mesmo sendo meu dia de folga, fiquei deprimido porque me lembrei de algo que não gosto.
— Woof!
— Hmm? O que foi?
Percebi que o Night estava encarando uma certa direção. Quando virei o olhar na mesma direção, vi a Miu-san sentada na margem do rio do nosso percurso de caminhada, encarando o rio num clima sombrio.
Ela parece estar perdida em pensamentos… Será que aconteceu alguma coisa com ela?
Felizmente, não tinha muita gente ao redor, e ninguém parecia ter percebido ela, então a chamei.
— Miu-san?
— Eh…? Ah, Yuuya-san!
Quando a Miu-san me reconheceu, levantou a voz surpresa.
— Faz tempo, né?
— Sim! Ah… desculpa que a presidente da minha agência forçou você a fazer aquilo antes…
— N-não! Por favor não se preocupe com isso. Acho que foi uma boa propaganda pra nossa escola…
Sim, a presidente da agência à qual a Miu-san pertencia tinha me pedido pra cobrir o jogo de bola da Ousei Academy outro dia.
— O que foi? Você parecia estar com algo na cabeça…
— Ah, haha… desculpa, mostrei meu lado constrangedor.
— Ah não! Tem algo errado?
— Não, não é nada sério…
A Miu-san estava a ponto de dizer alguma coisa, mas balançou a cabeça uma vez e olhou pro rio de novo.
— …Sim, é isso mesmo. Como o Yuuya-san disse, eu tava com problema…
— Ah, u-um, já é tarde agora, mas você não precisa falar sobre isso se não quiser.
— Fufufu. Certamente, é um pouco tarde. Mas tá tudo bem. Você se importa de escutar por um momento?
— S-sim.
Enquanto eu me sentava devagar ao lado da Miu-san, ela encarou o rio e começou a falar em sussurros.
— Pra falar a verdade… acho que talvez eu não consiga continuar trabalhando como modelo.
— Eh?
Meus olhos se arregalaram diante das palavras inesperadas dela. Afinal, a Miu-san era uma modelo extremamente popular. Ela já esteve na capa de várias revistas, e não passava um dia sem eu vê-la em algum anúncio na rua.
Se eu puder acrescentar, não achei que a presidente da agência à qual a Miu-san pertence deixaria ela sair tão facilmente. Será que teve algum tipo de problema com o trabalho dela?
Como se estivesse respondendo minha pergunta, a Miu-san continuou.
— Claro, não é que eu queira fazer isso. É só que minha família não acha que eu deva continuar trabalhando…
— Sua família…
As palavras da Miu-san trouxeram os rostos dos meus pais de volta à minha cabeça, mas balancei a cabeça rapidamente pra afastar o pensamento.
— Amo meu trabalho como modelo. Amo modelar, e não quero desistir. Mas não é um mundo onde eu posso continuar trabalhando enquanto tem atrito com minha família.
Eu não sabia muito sobre a indústria do entretenimento, então não podia afirmar com certeza, mas tenho certeza que os problemas que ela enfrentava eram bem complicados. Além disso, nunca conheci os pais da Miu-san, então não podia dizer nada sobre eles, e não devia me meter nos assuntos da família deles.
Não consegui dizer uma palavra pra Miu-san, que lutava com os pensamentos e coçava a vontade de dizer algo. A Miu-san riu, parecendo um pouco revigorada.
— …Desculpa por falar sobre isso com um Yuuya-san sem relação nenhuma…
— Ah não! Eu não…
— Não. Eu gosto do meu trabalho. Só queria que alguém escutasse que eu amo meu trabalho e que é algo do qual posso ter orgulho… Meu pai negou… isso de mim.
Fiquei sem palavras quando a Miu-san sorriu tristemente pra mim.
De repente, a Miu-san se levantou e se espreguiçou com toda força.
— Hmm! Faz tempo que não vou pra uma caminhada, mas consegui encontrar o Yuuya-san assim, e mais importante, o Yuuya-san me escutou. É uma boa ideia dar uma caminhada. Andei meio deprimida ultimamente…
Quando vi a Miu-san agindo animadamente pra esconder o clima em que estava antes, minha boca naturalmente se moveu.
— Miu-san.
— Sim?
— Você tem tempo amanhã?
— Eh? Ah, você quer dizer amanhã? Não tenho nenhum trabalho amanhã, então tenho tempo sim…
— Ouvi que tem um festival de verão perto daqui amanhã. Pode tirar sua cabeça das coisas um pouco…
— Eh? I-i-i-isso vai ser… um e-e-encontro.
A segunda metade das palavras dela era baixa demais pra ser ouvida, mas continuei.
— Claro, contanto que você tá bem comigo…
— N-não! Tá tudo bem! Não tem problema nenhum!
Por um momento, fiquei pressionado pela Miu-san, que parecia mais animada do que eu esperava, mas então dei um suspiro de alívio.
— Fico feliz… então vamos nos encontrar aqui amanhã às 18h.
— S-sim!
Foi assim que acabei indo com a Miu-san pro festival de verão amanhã.
***
— …Não, isso não é meio descuidado da minha parte? Eu…
No dia seguinte. Comecei meus preparativos cedo pra não me atrasar pro compromisso com a Miu-san, mas de novo, senti que tinha sido descuidado demais ao convidá-la.
O festival pro qual íamos não era tão grande quanto o realizado na cidade. No entanto, ainda era grande, e eu não precisava pensar no que aconteceria se a Miu-san, uma pessoa muito famosa, aparecesse num lugar desses.
O maior problema de todos era que eu era desproporcional demais pra ela. Na verdade, sou tão desproporcional que é quase engraçado. Tá tudo bem? Eu…
— Uwaaahh… de repente tô ficando ansioso…
— Woof…
Enquanto eu segurava a cabeça com as mãos, o Night latiu preocupado e colocou uma pata na minha perna pra me consolar. Obrigado, Night. Mas eu queria fazer a Miu-san se sentir melhor, mesmo que só um pouco. Quando pensei nisso, minha boca se moveu naturalmente…
No entanto, quando pensei nisso mais calmamente, percebi que mesmo que eu quisesse animá-la, seria um pouco exagerado acreditar que ir a um festival comigo poderia animá-la. Não sei por que eu não percebi isso na hora.
— Bem, tá na hora de ir!
Enquanto eu pensava nisso e naquilo, a hora combinada tava se aproximando rápido, e saí de casa apressadamente.
O Night e o Akatsuki ficaram em casa hoje. Claro, o Ouma-san e a Yuti, que ainda não tinha terminado o dever de casa, disse que ia se concentrar nisso. O dever de casa era importante, mas acho que tá tudo bem sair com amigos.
Já que era um festival de verão, a maioria das pessoas na rua usava yukata, mas eu tava vestido com uma roupa normal.
Como você provavelmente esperava, eu não tinha nenhuma yukata ou algo assim, então não tinha jeito, mas escolhi usar roupas o mais decentes possível pra não envergonhar a Miu-san quando eu andasse ao lado dela…
Conforme me aproximava do lugar combinado, as ruas ficavam cada vez mais lotadas. E senti que as pessoas ao redor estavam um pouco animadas.
Sim, a Miu-san estava parada quietinha no lugar combinado.
──Ela estava vestida com uma yukata. Fiquei paralisado, mas a Miu-san percebeu minha presença e sorriu.
— Ah, Yuuya-san!
— Eh, ah, sim!
Quando respondi, meu corpo ficou tenso. A Miu-san caminhou até mim com uma expressão curiosa.
— Hmm? O que foi?
— N-não! Isso… não esperava ver você de yukata…
— Ah… u-um, é… estranho?
— Estranho? Não, claro que não! Fica perfeito em você!
— S-sério? É só que… você tá um pouco perto…
— Eh? A-aah! D-desculpa!

A Miu-san perguntou se a yukata dela era estranha, então cheguei mais perto do que devia… É realmente um pouco de descuido.
— N-não é que eu não goste… é só que fiquei um pouco constrangida…
— …..
Quando eu trabalhava como modelo, conseguia ficar próxima sem muita dificuldade, mas agora que as bochechas da Miu-san estavam tingidas de vermelho, me senti sem jeito. I-isso é constrangedor…!
Enquanto os dois nos sentíamos sem jeito, percebi que o burburinho ao redor tava ficando mais alto.
— E-ei, isso é…
— Ah, é. Essa é a Miu-chan, a modelo… né?
— Ela tá usando yukata, então eu sabia que ela tava esperando alguém em particular, não a trabalho, mas…
— Ela tem um cara incrivelmente bonito ali…
— Não é que a Miu-chan ser ídolo importe, nem ela pertence a uma agência que proíbe romance, né? Então, tá tudo bem, não tá?
— Mesmo que eu entenda isso na cabeça, não consigo acompanhar com minhas emoções… É só que eles são tão inocentes… eles nem se tocaram nas mãos ainda, tocaram?
— ““Eles são do ensino fundamental?””
Não sei; estamos nos destacando mais do que eu esperava!
— Miu-san! Vamos sair daqui por enquanto!
— C-certo!
Rapidamente seguimos pro local do festival, nos sentindo um pouco sem jeito.
— Uau! É incrível!
Quando chegamos no local do festival, os olhos da Miu-san brilharam. O local do festival tinha muitas barracas de comida ao longo do rio, e os fogos de artifício estavam programados pra começar por volta das 19h.
Então de repente, a Miu-san sorriu um pouco tristemente.
— …Antes de começar a trabalhar como modelo, eu nunca tinha tido a chance de vir a um festival desses. Então é meio estranho conseguir aproveitar um festival assim…
— …Essa é na verdade a primeira vez que eu venho a um festival também.
— Sério? Se é o Yuuya-san, achei que você teria vindo com sua namorada…
— Não, não, não, eu nunca tive namorada.
As palavras da Miu-san me fizeram sorrir amargamente. Não tenho namorada… É impossível demais eu ter uma namorada.
E não me lembro de ter vindo a um festival com meus pais nunca. O vovô viajava o mundo todo, e agora que penso nisso, eu nunca tinha participado de um evento normal com ele assim. Não tem nada que eu possa fazer agora, mas gostaria de ter saído mais com meu avô enquanto ele ainda estava vivo…
Quando fiquei um pouco triste, a Miu-san abaixou a cabeça como se estivesse pensando em algo.
— Entendi… Yuuya-san, você não tem namorada, hein…?
— Eh?
— Ah, não! Não é nada!
Se a Miu-san diz isso, então deve ser nada.
Quando ambos ficamos animados com nosso primeiro festival, percebemos que o ambiente ao redor tava zumbindo de novo.
— E-ei, isso é…!
— Não pode ser, é a Miu-chan!
— Mais importante, aquele cara com ela é o modelo masculino de quem falavam antes… não é?
— …A gente tá atraindo atenção de novo?
— É-é. Bem, vamos parar de nos preocupar com isso e só aproveitar, né?
— Sim!
Tô preocupado com os olhares ao redor, mas não podemos fazer nada se nos preocuparmos demais, então decidimos só aproveitar o festival.
— Uau… tem tantas barracas de comida diferentes!
— Sim, tem. Ah, você gostaria de comer alguma coisa? Tem uma loja de raspadinha ali…
— Vamos tentar!
Imediatamente entrei na fila da loja de raspadinha que vi e pedi algumas.
— Faz tempo que não como raspadinha.
— Você só consegue comer raspadinha se tiver uma chance dessas.
Demos uma pausa da barraca e comemos a raspadinha que tínhamos comprado.
— Você pegou sabor blue Hawaii, Yuuya-san?
— Sim, e a Miu-san tem o sabor morango, né?
— Sim! …Falando nisso, ouvi dizer que o xarope da raspadinha na verdade tem o mesmo sabor.
— Eh, isso é verdade?
— Aparentemente, o sabor base é o mesmo, mas só mudando o cheiro ou a cor, o sabor fica diferente.
— Eeh?
Se isso é verdade, então deve ser uma ilusão do cérebro (?). Seres humanos são misteriosos.
Enquanto eu encarava a raspadinha nas mãos, a Miu-san riu baixinho.
— Tem dois sabores, então por que a gente não experimenta?
— Eh?
— Sim, aaahhn.
— !?
Senti meu corpo ficar tenso diante da ação repentina da Miu-san.
— Mi-Mi-Mi-Miu-san?
— Aqui, come rápido, ou vai derreter.
— Eh, ah, sim!
Quando ela disse que ia derreter, quase reflexivamente mergulhei a boca na colher tipo canudo que a Miu-san me estendeu.
Então a Miu-san me perguntou feliz.
— Como tá? Você sente o mesmo sabor?
— …Não consigo sentir gosto nenhum.
— Eeehh?
A boca da Miu-san se contraiu de frustração diante da minha resposta.
Não, eu tava nervoso demais pra sentir o gosto! Sou só eu? Será que tô me preocupando demais?
— Posso experimentar também?
— Eh?
Além da minha angústia, a Miu-san colocou a raspadinha que eu tava colhendo diretamente na boca.
— Mi-Miu-san?
— Hmm~…
Então, depois de mover a boca pra sentir o gosto por um tempo, ela colocou a língua pra fora.
— …Desculpa, também não consegui descobrir.
A língua da Miu-san tava avermelhada, assim como a bochecha dela.
***
Depois de descansar, andamos pelo festival de novo. Não só eu, mas parecia que a Miu-san tava constrangida enquanto nos alimentávamos com a raspadinha, e o clima permaneceu sem jeito por um tempo.
No entanto, o nervosismo foi desaparecendo gradualmente, e conseguimos aproveitar os jogos…
— Ah, tiro ao alvo!
A Miu-san encontrou uma barraca de tiro ao alvo e correu até ela. Tinha uma variedade de prêmios em exibição, incluindo doces, armas de ar, e bonecas.
— Ah, aquele bichinho de pelúcia é tão fofo!
A Miu-san apontou pra um enorme gato de pelúcia.
Um homem que parecia ser o dono da barraca se aproximou de nós.
— Ah, que Nee-chan linda. Você deve ser uma desafiante de verdade pra mirar nisso.
— Isso é um dos prêmios?
— Claro. Tudo que você vê aqui é prêmio; contanto que você consiga derrubar, você fica com ele. Que tal? Quer tentar?
— Sim!
A Miu-san respondeu feliz, pagou o dinheiro, e decidiu jogar o tiro ao alvo.
Mas…
— H-hã?
O bichinho de pelúcia que a Miu-san queria era um alvo grande, e embora ela não errasse o alvo, ele não se mexia não importa quantas balas o acertassem. Bem, acho que isso é natural. Quanto maior o alvo, mais pesado ele é, e é muito difícil derrubá-lo com uma arma de brinquedo e balas de cortiça.
No final, a Miu-san usou todas as balas dela no bichinho de pelúcia, mas ele não se mexeu nada.
— Ah…
— Que pena. Você vai ter que tentar de novo quando tiver vontade.
— Como esperado, é difícil.
A Miu-san voltou até mim com um sorriso amargo.
…Hoje, convidei a Miu-san pra se divertir comigo.
Portanto…
— Miu-san, por favor espera um momento.
— Eh?
— Senhor, por favor deixa eu tentar uma vez.
— Ah, agora o namorado é o desafiante?
— N-não, ele não é meu namorado…
A provocação do dono da barraca de tiro ao alvo fez tanto eu quanto a Miu-san corarmos ao lembrar do evento da raspadinha mais cedo, mas recuperei a compostura, e depois de pagar o dono da barraca e receber as balas, fui até a mesa mais próxima do bichinho de pelúcia que a Miu-san queria.
— Esse irmão também quer tentar por aquele bichinho de pelúcia? Bem, dá pra ver que você quer se exibir pra sua namorada───.
Dava pra perceber que o dono da barraca de tiro ao alvo tava dizendo alguma coisa, mas eu tava focado no bichinho de pelúcia. Então ativei minha habilidade [Weakness Detection] no bichinho de pelúcia.
Algumas partes do bichinho de pelúcia pareciam brilhar. Essas áreas brilhantes provavelmente eram os pontos fracos do bichinho de pelúcia. A única pergunta era se o poder da cortiça seria suficiente pra derrubá-lo…
Olhei pros outros prêmios enquanto me concentrava em derrubar o bichinho de pelúcia de novo. E então, como se a habilidade [Weakness Detection] estivesse me mostrando o caminho pra me livrar do bichinho de pelúcia, pontos brilhantes apareceram em outros prêmios.
Nesse caso…
Mirei na pequena caixa de doces ao lado do bichinho de pelúcia.
— Hã? I-irmão. O bichinho de pelúcia tá ali───.
Ouvi o dono da barraca dizendo alguma coisa, mas não hesitei em disparar a arma naquela direção.
As balas que disparei voaram exatamente pra onde eu mirei. A pequena caixa de doces que foi atingida pela bala girou e voou numa velocidade incrível, batendo em outro prêmio próximo.
O outro prêmio era um prêmio ligeiramente maior em formato de caixa comparado ao anterior. A pequena caixa quase caiu da prateleira, mas no processo, bateu em outro prêmio. Aquele prêmio era uma arma de ar grande que estava colocada num equilíbrio perfeito. Quando a arma de ar caiu, o impacto sacudiu a mesa inteira na qual o prêmio estava colocado, e o bichinho de pelúcia que eu tava mirando caiu.
— Hã?
— I-incrível!
— Senhor… isso significa que eu ganhei, né?
Ele ficou paralisado de surpresa, e quando perguntei isso a ele, assentiu repetidamente com a cabeça. Que bom então.
Depois de receber o bichinho de pelúcia como prêmio do dono da barraca de novo, ainda sobraram algumas balas, mas encerrei o jogo nesse ponto e entreguei o bichinho de pelúcia pra Miu-san.
— Aqui está.
— Eh? M-mas, foi o Yuuya-san quem conseguiu…
— Eu consegui pra você, Miu-san. Então por favor pega.
— Yuuya-san… Sim, obrigada!
A Miu-san então recebeu o bichinho de pelúcia e sorriu. Sim, valeu a pena pegar só por isso.
E então o dono da barraca de tiro ao alvo, que nos observava, veio nos provocar.
— Hyu! Tô tão feliz por você, Nee-chan! É um presente do seu namorado!
— C-como eu disse, não sou namorado dela!
Se um mal-entendido desses se espalhar, pode afetar o trabalho da Miu-san.
— Namorado…
Enquanto eu tentava desesperadamente esclarecer o mal-entendido, não percebi que a Miu-san estava pensando em algo.
Então, ao vencer o grande bichinho de pelúcia, atraí a atenção das pessoas ao redor, e de novo, gente se reuniu ao nosso redor. Sentindo que eu ficaria preso nessa situação, imediatamente sugeri à Miu-san.
— I-isso mesmo! Miu-san, vamos ver os fogos de artifício agora!
— V-você tem razão!
Depois de conseguir a aprovação da Miu-san, rapidamente nos movemos pra um lugar onde poderíamos ter uma boa vista dos fogos de artifício, longe das multidões. No entanto, nessa hora da noite, todo lugar tava lotado de gente; mesmo no nosso destino, tinha muita gente.
No entanto, os fogos de artifício foram lançados no céu, então não era impossível vê-los.
Então──.
— Uau!
— …É incrível.
Gritamos admirados enquanto assistíamos aos fogos de artifício sendo exibidos. Os fogos coloridos ficaram ótimos no céu noturno, e com o som alto e a vibração dos fogos, eles ressoaram bem nos nossos olhos e corações.
…Nunca tive a chance de ver fogos de artifício assim antes. Claro, eu sabia que existiam exibições de fogos e festivais, mas nunca tinha tido tempo de aproveitá-los antes.
Enquanto encarava os fogos, falei com a Miu-san ao meu lado.
— Miu-san. Não sei o quanto posso ajudar com seus problemas. Mas se você tiver dificuldade, sempre pode me convidar pra se divertir assim pra tirar sua cabeça das coisas.
— Yuuya-san…
Enquanto encarava os fogos por um tempo, de repente senti um puxão na barra da minha roupa. Quando olhei naquela direção, percebi que a Miu-san estava me olhando como se tivesse decidido alguma coisa.
— Miu-san? O que foi?
— …Um, Yuuya-san…
— Sim.
— Eu… comigo… você quer namorar comigo?
— …..Eh?

O som dos fogos de artifício lançados parecia estar longe demais.
***
— Nossa… Yuuya, você devia se preocupar mais comigo.
Enquanto o Yuuya aproveitava o festival com a Miu, o Ouma, que não conseguia sair na Terra, estava deitado na casa, parecendo meio amuado.
Diante da visão do Ouma, a Yuti, que fazia o dever de casa na mesma sala de estar, olhou pra cima.
— Compromisso. Ouma-san, você é uma existência inacreditável nessa Terra. É por isso que você não pode sair descuidadamente por aí.
— Eu sei disso também! Sim, é realmente irritante que meu corpo se sinta tão… inconveniente.
— Woof.
— Fugo.
O Night ficou confuso com a infidelidade do Ouma. O Akatsuki estava deitado de barriga, parecendo desinteressado.
— Eeei, tá tão chato, tão chato! Tô entediado demais!
O Ouma rolava por aí feito uma criança mimada, mas então de repente se lembrou de algo e se levantou.
— …Isso mesmo. Acho que ainda tem um lugar nessa casa onde eu não fico entediado!
— Pergunta. Onde?
— O depósito!
Quando o Ouma disse isso, a Yuti imediatamente entendeu a que o Ouma tava se referindo. O depósito era o cômodo onde o avô do Yuuya guardava sua coleção de itens, incluindo a Door to Another World.
— Concordo. Mas, tá tudo bem entrar sem permissão?
— Hmm. Depende de mim como eu passo meu tempo nessa casa. Ele devia ser grato que eu não ando por fora nessa Terra.
— Confusa. Quanto a isso, bem…
— E eu também sou um membro da família do Yuuya. Então, não tem nada de errado em passar o tempo como eu quiser nessa casa, tem?
— …Tanto faz. Só se certifica que o Yuuya não fique bravo com você.
Percebendo que era inútil dizer qualquer coisa ao Ouma, a Yuti retomou o dever de casa. O Ouma bufou pra ela.
— Hmph. Mesmo que você não me diga, já pensei nisso.
— Woof…
No entanto, o Night achou que seria ruim se algo acontecesse enquanto o Yuuya estava fora, então virou a cabeça pro Ouma confuso. Então o Ouma soltou um suspiro.
— Suspiro… Você não precisa se preocupar com isso. Não vou explodir essa casa nem fazer nada maluco assim. Só vou passar um tempinho explorando aquele depósito.
— Woof!
Isso é óbvio! O Night latiu como se quisesse dizer isso.
— …Fufufu. Aquele cômodo é tão arrepiante que até me faz estremecer.
O depósito girava com uma torrente densa e impossível de poder que até o Ouma, o Genesis Dragon, mal conseguia entender.
O Ouma decidiu se mover pro depósito.
— Não sei por que o Yuuya não consegue sentir nada quando vê esse cômodo. Será que ele é um exagero, ou é só burro…
Ele imediatamente olhou ao redor e começou a vasculhar os itens que estavam colocados ali.
— Como pensei, esse lugar é interessante. Tem muitas coisas que nem eu sei o que são… Não. Essas não são as únicas coisas que não entendo!
Como o Ouma disse, tudo no depósito era desconhecido pra ele.
— Isso é… um caixão? Embora tenha o formato de um ser humano… é um caixão bem luxuoso.
A primeira coisa que ele tocou foi um caixão dourado que parecia conter um faraó egípcio.
— Mmm… É estranho. Não tem sinal nenhum de abertura. Certamente tá trancado com algum dispositivo mágico, mas é construído com um sistema mágico que nem eu conheço… e seria difícil abrir à força. Claro, se eu fosse com tudo, provavelmente conseguiria fazer isso, mas se fizesse, provavelmente acabaria explodindo essa casa também…
O Ouma quietamente desistiu de abrir o caixão.
— Não tem jeito… Então, e essa máscara?
A próxima coisa que interessou o Ouma foi uma máscara preta com um sorriso sinistro nela. No geral, tinha uma aparência miserável e diabólica, e parecia que alguém seria amaldiçoado ao usá-la.
— …Essa máscara é escandalosa. Tem uma quantidade aterrorizante de poder mágico nela.
Parecia estar amaldiçoada.
— Não, espera, isso é estranho. Por que uma coisa dessas ficaria largada por aí?
Não importa o que ele pense, a máscara na frente dos olhos do Ouma não é algo que deveria ficar desatendida.
Porque…
— …Se eu recebesse a maldição do poder mágico dessa máscara, até eu morreria se não tomasse cuidado.
Que surpresa, parecia que até o Ouma podia ser amaldiçoado até a morte.
O depósito também estava cheio de outras coisas variadas, tipo moedas antigas, chaves de uso desconhecido, e pergaminhos ilustrados japoneses antigos.
O Ouma murmurou exasperado.
— …Não seria fácil derrotar o Evil só com os itens que tão aqui? Pelo menos, usando o poder mágico daquela máscara, acabaria com um só golpe. Bem, antes de mais nada, nem devia ser tocada, então não dá pra carregar por aí…
Na verdade, alguns dos itens no depósito têm poderes muito mais perigosos que a máscara amaldiçoada, mas o Ouma e o Yuuya não têm a opção de usá-los sem saber os detalhes.
— Bem, sinto poderes parecidos de outras coisas também…
Enquanto o Ouma tava prestes a dizer isso, virou o olhar pra um certo objeto.
— …Não consigo sentir poder nenhum disso. O que é isso? Isso é…
O que o Ouma olhava era um objeto cúbico flutuando num pedestal. O objeto cúbico tinha várias linhas azul-brancas passando por ele, dando uma aparência meio mecânica.
A base na qual o cubo flutuava também tinha um brilho azul no centro.
— O que é essa coisa? Não sinto nenhuma magia ou poder de feitiço…
O Ouma se aproximou do objeto e o tocou cautelosamente.
— U-umu… como pensei, é um material que não conheço… E esse pedestal também é estranho. Tava pensando que talvez fosse o vento que mantinha ele flutuando, mas, pra minha surpresa, não conseguia sentir nada.
O Ouma moveu a mão pelo espaço entre o pedestal e o objeto cúbico pra garantir que não tinha nada ali.
— Então… e isso?
O Ouma pulou e se agarrou ao cubo, que estava flutuando no ar.
— O-oh! Consegue aguentar meu peso? Fumu… Então, e isso?

Enquanto se agarrava ao cubo, o Ouma verteu seu poder mágico no cubo. Ele queria ver se o objeto cúbico reagiria a algum tipo de magia. O Ouma continuou vertendo sua magia nele, mas não teve resposta nenhuma. Como resultado, o objeto cúbico ficou preenchido com uma quantidade de magia tão forte que poderia apagar uma galáxia inteira.
O Ouma, que tinha se agarrado ao objeto por um tempo e vertido magia nele, eventualmente soltou um suspiro.
— Suspiro… mesmo depois de tudo isso, a resposta ainda tá──.
No momento em que o Ouma tava prestes a dizer aquilo, a luz azul que brilhava no centro do pedestal de repente desapareceu. Então, quando a luz se apagou, o objeto cúbico flutuando no ar caiu no chão.
— Owaa!
O Ouma ficou atrapalhado com o objeto cúbico que tinha caído no chão; era evidente que era culpa do Ouma.
— O-o-ei! Por que caiu de repente? Não parecia ser problema nenhum até agora.
O Ouma andou de um lado pro outro na frente do objeto cúbico e bateu nele com a mão em pânico.
— Eeii, flutua! Flutua de novo! Senão… o Yuuya vai brigar comigo!
O Genesis Dragon tava preocupado em ser repreendido pelo Yuuya. Embora tendo dito isso, o Ouma era incapaz na frente do Yuuya.
Ele desesperadamente levou o objeto cúbico até o pedestal e bateu nele com a mão. Mas o objeto cúbico não flutuou.
No entanto──.
— Nu!?
De repente, uma linha azul de luz correndo pela superfície do objeto cúbico brilhou fortemente, e algo translúcido emergiu do objeto cúbico.
— O-o que é? Isso é…
A coisa que emergiu do objeto cúbico era um chamado holograma, e parecia ser uma planta técnica de algum tipo. Alguém com conhecimento especializado ou o dono oficial do objeto poderia ter entendido o que era, mas o Ouma não fazia ideia do que era.
— U-umu? O que é? Essa figura desconhecida é…
O Ouma inclinou a cabeça diante da planta técnica, mas depois de um tempo, a planta técnica desapareceu.
— …Ótimo! Não vi nada! É isso!
A decisão final do Ouma foi fingir que não tinha visto nada. O Ouma assentiu satisfeito, colocou o cubo no pedestal, e voltou andando pra sala de estar.