Capítulo 110 – O Recrutamento e o Bentō
— Uau, já tá tomando forma direitinho, hein.
— Não é mesmo, não é mesmo?
Murmuro essa impressão vendo algumas lojas construídas ao longo da estrada, e o senhor Naitō, ao meu lado, balança a cabeça, feliz. Quem comandou toda a supervisão da obra aqui foi essa pessoa, o Naitō Masatoyo, um dos ex-Quatro Reis Celestiais de Takeda. Apesar da cara de bobalhão, dá conta do recado, hein. Mesmo parecendo um funcionário exausto por fora.
Ainda só tem cafeteria, loja de bicicleta, armaria, loja de armadura e loja de ferramentas, mas já dá pra ver como uma pequena rua comercial.
Em locais afastados da estrada, as casas dos cidadãos começam a ser construídas. Falando nisso, achei que lojas e casas seriam feitas no estilo de Ishen, mas não é bem assim. São casas de tijolo, iguais às de Belfast e dos países do oeste.
— Se enfatizar demais a cultura diferente, o pessoal fica com o pé atrás, sabe.
É o argumento do senhor Naitō.
Já dá pra ver alguns viajantes parando por aqui de vez em quando; um começo nada mau, acho. Na armaria, tem até katana, raro por aqui (até shuriken tinha lá); na cafeteria, além de comida de Ishen, dá pra comer rocambole, sorvete, pudim e batata frita.
Gente com um pouco mais de dinheiro chega a comprar bicicleta; parece estar prosperando bem. Do jeito que está, acho que dá pra sobreviver de algum jeito. Bom, como não tem muito cidadão, mesmo sem ganhar tanto, dá pra levar.
— Vossa Majestade. Aqui é o Yajima Itarō, do posto de fronteira do lado oeste. Chegou aqui um comerciante que diz ser conhecido de Vossa Majestade.
Ué? Chegou uma telepatia. Lado oeste, quer dizer um comerciante de Belfast? Deixei pra dar contato comigo através do familiar que fica no posto de fronteira; isso é bem prático, hein.
— Quem? Qual o nome desse comerciante?
— Ele se apresentou como o comerciante de roupas Zanack.
O Zanack-san, é. Veio de Riflet até aqui, hein.
— Entendido. Já vou até aí.
Abro um [Gate] e, num instante, saio no posto de fronteira do lado de Belfast; lá estava uma carruagem enfeitada demais, desconhecida, e, ao lado, o Zanack-san, vestindo uma roupa igualmente desconhecida.
— Ah, quanto tempo, hein. Opa, será que não é bom falar assim com um rei?
— Não tem problema. Seja bem-vindo ao Principado de Brunhild.
Essa é a pessoa que me tratou com gentileza pela primeira vez, quando cheguei neste mundo. Mesmo eu tendo virado rei, isso não muda. Aperto a mão do Zanack-san e começo a conversa.
— Então, qual é o assunto que o traz a este país? Tem algum negócio no Império?
— Isso também. Mas o objetivo principal é começar a negociar neste país também. Gostaria de abrir uma filial aqui. "Rei da Moda Zanack — Filial Brunhild", sabe.
Ah-ha. Entendi. Uma decisão bem ousada, hein. Ainda nem se sabe se as pessoas vão se reunir aqui.
— Não, não. Este é um país que você fundou. Não tem como não se reunir gente. E, sendo assim, garantir um bom lugar antecipadamente não é prejuízo nenhum.
Esse é o raciocínio, é. Nesta fase, não acho que uma loja de roupas vá prosperar, mas também é ruim não ter nenhuma. Agora tá tudo em ritmo de construção e trabalho agrícola, então a roupa deve sujar e se desgastar rápido.
Atravesso o [Gate] e volto pro centro da estrada, apresentando o Zanack-san pro senhor Naitō. Deixo os dois conversarem sobre divisão de terreno, custo de construção, envio de mão de obra necessária, e outras coisas. Nessa área eu sou leigo, então deixo com eles.
Mesmo assim, filial, é. Que espertinho, o Zanack-san também. Estender de Riflet até aqui. Bom, deve ser por ter um contato como eu, mas.
Falando em Riflet, será que o Doran-san e a Mika-san estão bem… Opa?
Pera aí. Só agora percebi, mas este país ainda não tem pousada nenhuma. Achei que aqui fosse só um ponto de passagem, mas não seria necessário um lugar pra viajantes e mercadores itinerantes se hospedarem?
Hmm… pousada, é. Se possível, quero que seja junto com um lugar de comer, um lugar de conseguir informação. Pra isso, preciso de mão profissional… Vou tentar pedir, mesmo sem muita esperança.
— E, sendo assim, tava pensando se dava pra abrir uma filial da "Lua de Prata" no meu país.
— …Isso é meio repentino, hein, cara.
O Doran-san cruza os braços e solta um suspiro. Com toda razão. Eu mesmo tenho consciência de que é repentino demais.
— A pousada, a gente constrói. Quero deixar a administração com o Doran-san e a família. Bom, seria tipo um gerente contratado, digamos.
— Isso conta como filial mesmo…?
O Doran-san inclina a cabeça, em dúvida. Bom, vamos deixar de lado os detalhes.
— E aí, quer chamar a Mika pra essa tal filial?
— Ah, qual é o problema, eu quero ir! Parece divertido!
No refeitório da "Lua de Prata", a Mika-san se intromete de lado, falando com o Doran-san, sentado na minha frente. Parece que a Mika-san está animada.
— Hmm… mas, olha, se a Mika sumir daqui, fica pesado pra gente também.
— Ah, será mesmo? É só pedir ajuda pra Tania-san. Já ajuda bastante até agora, não é?
— B-bobagem, ela é…!
O Doran-san fica de repente todo atrapalhado. A Tania-san é aquela, né. Se não me engano, a viúva que mora no lado norte da cidade. Já cumprimentei ela algumas vezes. O quê? Tem esse tipo de relação com o Doran-san?
— Sem eu por aqui, talvez até fique melhor de vários jeitos, né~. Bom, tirando isso, o rei de um país inteiro veio pedir pessoalmente desse jeito, então não tem como recusar, né?
— …! Aah, tá bom! Vai lá! Depois não vem chorar pra mim, hein!
Com o consentimento meio irritado do Doran-san, a Mika-san faz "consegui!" com um pequeno gesto de punho.
Sendo assim, queria colocar um banho público naquela hospedaria também, mas tem um probleminha. Aquilo eu trago da fonte secreta de Belfast, sabe. Convenhamos, pegar algo de outro país fica mal visto.
Já que Brunhild tem canal de água, será que dá pra transformar em água quente de algum jeito. Não tem o efeito de águas termais, mas deve ser suficiente como banho grande. Dá pra dissolver [Refresh] e [Recovery] na água também.
Por enquanto, levo a Mika-san de volta pra onde está o senhor Naitō, em Brunhild.
— Ora, não é a Mika-san? Será que a "Lua de Prata" também vem pra cá?
O Zanack-san, que estava conversando com o senhor Naitō, olha pra mim e sorri.
— Decidi criar uma pousada estatal, então recrutei ela como gerente.
— Ora, que inveja. Se for fazer uniforme pra funcionária, por favor, use a minha loja.
— Que espertinho pra negócio, hein.
A Mika-san ri, talvez achando que a fala do Zanack-san era brincadeira. Acho que não é brincadeira, não… Aquele era o olhar de um comerciante de verdade.
Peço pro senhor Naitō conversar também com a Mika-san sobre a escolha do local da pousada. Já que é estatal, deixo maior, talvez. Também precisa de espaço pra fazer o banho. Aviso que vou preparar um quarto depois e que venham ao castelo, e me despeço da Mika-san e dos outros.
Enquanto caminho, meio a passeio, pela estrada rumo ao castelo, um irmão e uma irmã, crianças, vêm correndo numa bicicleta pequena, do outro lado.
— Ah, Vossa Majestadeee! Boa tardeee!
— Boa tardeee! Vossa Majestadeee!
— Sim, boa tarde.
Cumprimentando, as crianças passam correndo direto ao meu lado. Cheias de energia, hein. Nada melhor do que elas terem gostado da bicicleta. Nem acredito que essas crianças inocentes fazem parte do clã ninja.
Observo as costas das crianças se afastando e, ao tentar seguir andando de novo, dessa vez uma garota conhecida vem correndo, com algo na mão, à minha frente.
— Touya-sama!
— Ué, Lu. O que foi?
A Lu, que veio correndo, ofegante, estende na minha direção o que estava segurando. Uma marmita de dois andares e uma cantil, é?
— É um bentō. Como o senhor não voltou pro almoço…
— Ah… é verdade, ainda não tinha comido.
Recebo o bentō, saio da estrada e tiro cadeira e mesa do [Storage], à sombra de uma árvore. Ao abrir o bentō, tinha arroz, refogado de carne com legumes, kinpira de bardana, nikujaga, omelete e peixe cozido — uma variedade e tanto de acompanhamentos. Um pouco desarrumado, mas.
— Hã? Isso não foi a Claire-san que fez?
— Ah, sim. É que… fui eu que fiz. Com a Claire-san, e, como o Touya-sama disse que gosta de comida de Ishen, pedi pra Tsubaki-san me ensinar também… foi a primeira vez, então ficou meio malfeito…
— Nossa.
Pra primeira vez, conseguir fazer isso já é mais que suficiente, acho. Como o nikujaga com os hashi. Sim, tá gostoso mesmo.
— Tá gostoso. Nem parece que é a primeira vez.
— Sério?! Que bom!
A Lu expressa a felicidade quase transbordando. Que exagero, hein. Essa menina tem uma expressão emocional bem rica. Mas acho essa parte fofa também. Tanto a Yumina quanto a Lu, no dia a dia, têm aquele ar digno de princesa, então, quando aparece esse lado, dá uma sensação de idade condizente, e acho enternecedor.
— …Aconteceu alguma coisa?
— Ah, não. Achei fofo.
— Fueh?!
Ops, saiu a verdade sem querer. Tento não olhar muito pra Lu, que fica vermelha na hora, e continuo comendo o bentō. Meio encabulado, sei lá. Mas tá gostoso mesmo. Esse nikujaga, principalmente, é bem do meu gosto.
— É-é, éé, Touya-sama, tem alguma comida que não gosta?
— Hã? Não tenho nenhuma em especial. Ah, mas coisa super apimentada eu não aguento.
O frango super picante da Elsie foi horrível… Ninguém além dela mesma consegue comer aquilo tranquilamente.
— Então o que gosta?
— Hmm, comida japonesa mesmo… comida de Ishen, acho. Gosto de qualquer coisa que combine com arroz… ah, esse nikujaga é bem do meu gosto. Perfeito.
— O-obrigada…
Ao elogiar a comida, o rosto que já tinha se acalmado fica vermelho de novo. Que agitação, hein.
— Desde muito tempo tinha interesse em cozinhar, mas no castelo não me deixavam fazer… Desde que conheci o Touya-sama, todo dia é divertido demais.
Bom, é claro, sendo princesa. Não iam deixar ela cozinhar mesmo. Mas, mesmo assim, é um desperdício, deixar um talento desses de lado.
Termino de comer o bentō, guardo a cadeira e a mesa no [Storage], e começamos a caminhar juntos de volta pro castelo.
A Lu, andando ao meu lado, fica olhando de canto de olho pra mim, esticando a mão e recolhendo, esticando e recolhendo, repetidamente, então estico a mão eu mesmo e seguro a mãozinha dela.
Ela, surpresa, aperta de volta com força.
— Ehehe.
Volto pro castelo de mãos dadas com a Lu, que ri encabulada. De fora, deve parecer só um irmão e uma irmã. Bom, não tem pressa nenhuma. Com o tempo, deve chegar a hora de parecermos namorados, ou marido e mulher.
Afinal, vamos viver neste país pra sempre.