Capítulo 111 – A Região Glacial e o Gelo Mágico
A loja de roupas do Zanack-san e a filial da "Lua de Prata" em Brunhild também começaram a ser construídas, e por aqui já está tomando cara de rua comercial de verdade. Ainda falta bastante suprimento, mas isso a gente vai cobrindo de algum jeito.
Felizmente, como tem poucos cidadãos, a situação de comida não preocupa tanto. Na floresta dá pra colher planta silvestre, fruto de árvore, inhame-da-montanha, e tem bicho como javali e coelho. No rio também tem bastante peixe; como as Majestades de Belfast e Regulus disseram, esta é mesmo uma terra fértil. Bom, talvez seja por isso mesmo que as bestas mágicas proliferavam aqui.
Bom, dá pra dizer que a construção do país vai bem, no geral. Foi nessa hora que a Tsubaki-san trouxe uma informação.
— Ouvi dizer que, no Reino de Elfrau, ao norte do Império, onde se estende a terra congelada de frio extremo, há algo parecido com o círculo de teletransporte que Vossa Majestade menciona.
Uau. Pelo visto, a informação veio de um comerciante que veio de Elfrau até aqui. Dizem que, numa caverna fechada dentro do gelo, há um estranho objeto cilíndrico que ninguém consegue entrar. Ah-ha, é igual à ruína do deserto. A forma parece diferente, mas.
Se aquela Doutora tivesse padronizado a forma, teria sido mais fácil de encontrar com magia de busca. Bastava buscar por "círculo de transporte" e pronto. Mas, mudando de forma toda vez, só dá pra reconhecer como "ruína". Não dá pra saber sem entrar, e, uma vez dentro, fica óbvio, mas, muito educadamente, tem uma barreira erguida lá dentro. A magia de busca também é repelida.
Sendo tão minucioso assim, dá até vontade de suspeitar mal-intencionadamente que é implicância mesmo. Claro, ainda não está confirmado que a coisa dentro daquela caverna seja mesmo um círculo de transporte, mas.
Mas, que bem descoberto, hein. Digno de ninja. Coleta de informação é praticamente especialidade deles, então.
— Então o Mestre vai ganhar mais uma boneca de estimação, senhor.
— …Só de pensar que vai aparecer mais uma que nem você, já fico deprimido.
Respondo com um sentimento amargo à Shesca, que solta isso com naturalidade. Acho, sinceramente, que a personalidade dessas terminais deve ter sido recortada da própria personalidade da Doutora. A postura de "criar coisas" parece bem forte na Rosetta, e a piada safada, na Shesca.
Exibo o mapa e peço pra Tsubaki-san mostrar o lugar sobre o qual ela ouviu falar. Que longe, hein. Norte total, quase o extremo do mundo. Deve ser frio mesmo.
— Por enquanto, Rosetta e Shesca, vão na frente com Babylon. Se fizer frio, entrem na casa do jardim, tá?
— Não se preocupe, senhor. Em Babylon, há uma barreira que mantém a temperatura ideal, então calor e frio não são problema, senhor.
Falando nisso, quando fui ao deserto também não fez tanto calor. Uma função de ar-condicionado de longo alcance, é. Prático. Pensando bem, deve ser uma função necessária pras plantas do jardim. Deve ter espécie fraca ao calor e ao frio também.
Depois de mandar a Shesca e a Rosetta na frente, levo todo mundo até a Leen e conto que encontramos um círculo de transporte; ela pula de alegria. Sinceramente, nem precisava contar, mas, se eu não contasse, o depois seria assustador.
Como vamos pra uma região de frio extremo, todo mundo volta pro quarto pra se preparar. Eu não tenho problema, já que tenho este casaco. Afinal, tem efeitos concedidos de resistência ao frio, ao calor, a cortes, a impactos e a magia. No deserto também não fez calor, então deve ficar tranquilo.
Dessa vez, levo o Kohaku, mas o Sango e o Kokuyō se ofereceram pra ficar cuidando da casa.
— A gente é fraco pro frio, viu. Não é que não consiga se mexer, mas prefiro passar dessa vez, viu.
Entendi. Sendo cobra e tartaruga, dá pra entender. Que inconveniente, hein. Ainda bem que humano não é tão fraco assim pro frio.
…Ingenuidade minha. Subestimei a região de frio extremo. Que frio é esse? A função de resistência ao frio deste casaco tá funcionando mesmo? Deve estar quantos graus negativos. Mas, mesmo assim, todo mundo olha ao redor com a cara mais tranquila do mundo. Como assim?!
— C-como assim vocês tão com essa cara tranquila? N-não tá frio?
— É que a gente tá usando magia de aquecimento. Menos você, todo mundo tá em temperatura normal.
A Leen revela isso. Que negócio é esse, que sacanagem. Só eu ficando de fora?!
— Você mesmo não disse que a proteção contra frio tava perfeita?
Eu disse mesmo! Foi mal, confiei demais! Então, essa magia pra mim também, please!
— Calor, venha; barreira de calor: [Warming].
A luz da magia da Leen envolve meu corpo. Ooh, o frio suaviza. Experimento pegar um pouco da neve acumulada, mas não tá tão gelada. A neve também não derrete de repente. Pelo visto, essa magia não é pra aumentar a temperatura do corpo, mas talvez funcione como uma barreira que protege do frio.
Com o frio já mais calmo, olho ao redor. Uma grande caverna de gelo se estendia na encosta coberta de floresta de coníferas. Uma caverna coberta de gelo seguia sem fim, indo pra baixo da terra. Dizem que dentro dela está a tal ruína.
Ponho os pés na caverna. Mesmo com [Warming] fazendo efeito, senti um calafrio atravessar minhas costas. Ilumino o interior com a magia [Light] e vou avançando aos poucos.
— Cuidado que escorrega. Prestem atenção nos pés, devagar…
No exato momento em que me viro pra avisar todo mundo, escorrego no gelo e caio. Aai. Será a maldição de sempre usar [Slip] nos inimigos?
— O que você tá fazendo, Touya.
— Está bem, Touya-dono?
Seguro as mãos que a Elsie e a Yae estendem e me levanto. Se tivesse um sapato que nunca escorrega, hein. Se tivesse a magia oposta a [Slip], será que não escorregava nem no gelo?
Mesmo nesse estado, a Paula desce a caverna de gelo pulando, com passo leve. Claro, escorrega, e rola caindo de um jeito engraçado. O que ela tá fazendo, hein.
Vendo aquilo, descemos a caverna com ainda mais cuidado. Quase escorregamos algumas vezes, mas conseguimos chegar até a camada inferior sem cair.
— …É alto, hein.
A Lindsey murmura isso olhando pra cima. Dentro da caverna de gelo, era um espaço alto e amplo, com várias colunas de gelo ligando o teto ao chão. O fundo da caverna estava escuro, sem dar pra ver o que tinha lá.
Mando [Light] na frente, e o Kohaku vai guiando. Com o Kohaku, se tiver algo, ele percebe pelo cheiro ou som.
— Senhor. Tem algo à frente. Deve ser a tal ruína, mas parece que virou uma situação meio complicada…
Hã? Então tinha a ruína mesmo. O Kohaku enxerga bem no escuro. Já deve estar vendo. Mas o que é isso de "situação complicada"?
Avanço cuidando dos pés, e entendo o que o Kohaku quis dizer. Um objeto cilíndrico grande, de brilho negro, está coberto por um gelo absurdamente grosso. Que negócio é esse, uma parede de gelo eterno? Uma parede de gelo surgida na caverna. Através dela, dá pra ver, transparecendo, a ruína cilíndrica negra.
— Tá durinho, hein… Será que isso quebra…?
Disparo uma bala da Brunhild na base do gelo, mas é repelida com facilidade. Ah não. Isso é duro que nem uma Phrase.
— Leen… será que dá pra derreter isso com magia?
— Hmm, vou tentar, mas…
Da mão da Leen, sai fogo feito lança-chamas, mas o gelo não derrete. Como assim?
— Não deu mesmo. Esse gelo não é gelo normal. É gelo mágico.
— Gelo mágico?
— Gelo formado pelo acúmulo natural de energia mágica. Não quebra com força pela metade, e nem chama mágica derrete fácil.
Argh. Pensei se dava pra esmagar com [Gravity], mas assim parece que ia acabar esmagando a ruína lá dentro também; mesmo tentando teletransportar só o gelo com [Gate], está tudo grudado com o resto. Derreter é mesmo o melhor jeito? Não, se derreter demais com calor alto, essa caverna inteira pode desabar. Então, só resta quebrar.
— Hmm, será que não tem algum jeito bom…
Toco a parede de gelo. Fria, gelada. Deve estar suavizado pelo efeito de [Warming]; sem isso, provavelmente seria um frio de congelar a pele.
— Tá bem ali, e mesmo assim…
— Se desse pra cavar um túnel, dava pra chegar fácil…
— Túnel…? Ah!
O murmúrio da Yumina acende uma ideia na minha cabeça. Concentro energia mágica na palma da mão. É isso, é isso, essa era a jogada.
— [Modeling].
Gnyon, o gelo se deforma, e a parede à minha frente afunda. Em compensação, o entorno se projeta pra fora, formando algo parecido com um túnel.
Não derrete, não quebra. Então, é só deformar. Já que o objetivo não é remover. É o mesmo método de quando tirei o velho Baba e os outros da prisão em Ishen.
Vou deformando o gelo mágico continuamente e avançando. Por fim, o objeto cilíndrico à frente revela sua forma, saindo de dentro do gelo.
— Bom, será que isso é mesmo um círculo de transporte pra Babylon…
— É grande, hein.
Como a Lu disse, a ruína cilíndrica tem uns seis, sete metros de diâmetro e uns três metros de altura. Tem forma parecida com lata de atum. Dou uma volta ao redor, deformando o gelo com [Modeling], mas não tem entrada em lugar nenhum. Não tem nada parecido com porta, nem um ponto que atravessa ao tocar, que nem no deserto.
Hnnn? Como assim?
De repente, lembrando da forma de lata de atum, me vem à cabeça a parte onde a lata abre. Em cima, será?
Deformo o gelo em formato de escada e subo, tomando cuidado pra não escorregar. Deixo todo mundo esperando embaixo.
Não tinha nada em cima da ruína, mas, num único ponto, no centro, havia uma depressão de uns 1 metro de diâmetro. Será isso? Estico o pé com cautela, e ele atravessa. Parece que é a entrada mesmo. Aquela parede estranha que só deixa passar quem tem todos os atributos.
— Achei a entrada. Vou entrar agora. Esperem um pouco. Se acontecer algo, aviso pelo Kohaku.
Digo isso pra todo mundo lá embaixo e, decidido, salto sobre a depressão. Atravesso o teto suavemente e pouso lá dentro. Uma luz fraca e turva, seis colunas de pedra e um círculo de transporte. Era mesmo uma ruína de Babylon.
Vou injetando energia mágica de cada atributo em cada coluna de pedra. Ao injetar todas as seis, o círculo de transporte começa a emitir uma luz fraca. Fico de pé no centro e injeto, por último, a energia mágica de atributo nulo. Junto com uma luz ofuscante e cintilante, sou transportado.