Capítulo 115 – O Embaixador da Teocracia e a Descida do Deus
Bom, nosso Principado de Brunhild também está ganhando aos poucos a forma de país de verdade. Sendo assim, o que vem em seguida é diplomacia, mas, infelizmente, eu não tinha nenhum preparo pra isso. O Principado de Brunhild está cercado por Regulus a leste e Belfast a oeste. Digamos que, contanto que eu mantenha boa relação com esses dois países, não há invasão direta.
Mas isso não quer dizer que não precise se dar bem com outros países. Cada um tem suas próprias circunstâncias, e não é impossível sofrer algum tipo de implicância indireta.
Só que, até agora, ninguém dava atenção a um país pequenininho recém-fundado como este. Os países da Aliança do Oeste me conhecem bem, então há intercâmbio entre nações, mas, quando chega um embaixador de um país com o qual não tenho relação nenhuma, sinceramente, fico um pouco apavorado.
— É um prazer conhecê-lo, Vossa Majestade, soberano do Principado de Brunhild. Sou Nest Leonard, enviado pela Papisa Elias Ortola, da Teocracia de Ramish.
— Igualmente, sou Phillis Rugitto.
— Hm.
Sento no trono da sala de audiências e respondo com uma palavra curta. Ao lado, o Kōsaka-san, ex-Quatro Reis Celestiais de Takeda, aguarda, olhando de relance pra mim.
Eu sei, tá. Não falar muito e deixar o Kōsaka-san lidar com isso, né?
Afinal, ainda não sei a intenção do outro lado. Melhor ficar quieto do que soltar alguma bobagem desnecessária, segundo ele. Eloquência é prata, silêncio é ouro, esse tipo de coisa. E também parece que eu não tenho lá muita dignidade, então é por precaução, pra não ser subestimado.
— Agradeço a saudação tão cuidadosa. Então, qual seria o assunto que os trouxe até aqui, vindo especialmente da Teocracia de Ramish?
O Kōsaka-san, ao lado, fala isso. O Nest-san, ajoelhado diante de mim na sala de audiências, veste um manto branco com bordado de fio dourado nas mangas, e tem cabelo loiro curto. Um senhor com cara de padre mesmo, à primeira vista. Deve ter passado dos quarenta anos. …O cabelo dele parece meio estranho, mas.
Ao lado, também ajoelhada, a Phillis é uma garota de cabelo roxo-claro em corte bob, com um ar tranquilo. Deve ter a mesma idade que eu. Veste um manto branco parecido com o do Nest-san.
Os dois parecem ocupar o posto de sacerdote da Teocracia de Ramish. Deus da luz… Rals, era? Sendo sacerdote dessa tal religião de Rals, dizem que já é uma pessoa de certo poder, lá.
O sacerdote, o Nest-san, começa a falar.
— A Papisa da minha teocracia, Elias Ortola, deseja aprofundar profundamente os laços com o Principado de Brunhild. Sendo assim, para espalhar amplamente a nossa fé em Rals por esta terra, gostaríamos, por favor, que o senhor reconhecesse a religião de Rals como religião do Estado. Em troca, a nossa Ramish, como país-irmão, não pouparia apoio ao principado.
…Hã?
Religião do Estado quer dizer aquilo? Reconhecida pelo Estado, protegida por lei.
— Gostaríamos também que Vossa Majestade recebesse o batismo, e pedimos a construção de uma igreja nesta terra. Se os ensinamentos do deus da luz, Rals, se espalharem, esta terra alcançará um desenvolvimento ainda mais próspero.
O Nest-san fala como se fosse uma proposta maravilhosa, mas meu ânimo só esfria cada vez mais. O que esse homem tá falando? Por que eu teria que receber o batismo de um deus que nem sei quem é direito?
— Os ensinamentos do nosso deus, o senhor Rals, destroem o mal, em nome da luz e da justiça…
— Não quero.
— ………Hã?
O Nest-san, que discursava com veemência, para de repente com minha fala.
— Como assim, "não quero"?
— Quer dizer isso, religião. Meu país não precisa disso.
Falou bastante coisa, mas, no fim, é só recrutamento religioso, né? Sinceramente, isso parece meio suspeito. Deus da luz, era? Será que esse aí existe mesmo?
— O senhor diz que não precisa dos ensinamentos do nosso deus? Vossa Majestade não acredita em deus?
— Não fala bobagem. Não existe ser humano que acredite em deus mais do que eu. Agradeço todo dia.
Respondo de volta ao Nest-san, que me encara. Embora não seja o deus de vocês. Talvez reagindo a essa fala, a Phillis, que esperava atrás do Nest-san, se intromete. Ela não parece estar com raiva. Tem uma cara de estranheza.
— Então por quê? O senhor diz que acredita em deus, mas não tenta espalhar os ensinamentos dele. Não é contraditório?
— Não é, não. Aliás, o deus que vocês mencionam é só o deus da luz, Rals? Se falam de luz, e o deus das Trevas? Não tem outros deuses?
Respondo à pergunta da Phillis com outra pergunta. Diante disso, o Nest-san estufa o peito e responde.
— Deus do mar, deus da montanha, deus da terra, existem vários deuses diferentes. Mas o deus supremo, que está no topo de todos esses deuses, é justamente o deus da luz, o senhor Rals. É o deus absoluto da justiça, que nem o deus das Trevas consegue enfrentar.
— Mesmo assim, parece que não tem poder nenhum, hein.
— Como é que é?!
O Nest-san já não fica só encarando; se levanta gritando, sem nem tentar esconder a raiva. Bom, é natural ele ficar bravo.
— Vossa Majestade está dizendo que o nosso deus é incompetente?!
— Ele é o deus absoluto da justiça, né? Então por que existem criminosos e maus no mundo?
— I-isso… é justamente por isso que nós existimos! Julgar e destruir o mal, no lugar do deus, é o papel que carregamos! Sendo mãos e pés do deus…
— Isso é o poder de vocês. Não o poder do deus. Não confunda isso.
O Nest-san, com o rosto vermelho, treme os ombros. Será que exagerei? Mas não acha que é verdade?
— Então o que o deus em que Vossa Majestade acredita traz pra nós?!
— Nada. É uma pessoa ocupada, afinal. Deve ser algo tipo "cada um resolve o próprio problema sozinho". Parece que só intervém se for algo muito sério mesmo. Deixa eu avisar, não tô negando os ensinamentos de vocês, viu. Se vocês acreditam, tudo bem também.
Cada um tem seu próprio deus dentro do coração. Acho que já tá bom assim. Só que não vem usar isso envolvendo o Estado.
O Nest-san me encara com um olhar de ódio e abre a boca.
— …Pelo visto, Vossa Majestade está enfeitiçado por um deus maligno. Parece que precisa de um batismo de purificação.
— Ah?
O que ele acabou de dizer?
— Kohaku. Segura ele.
— Às ordens.
— Uwaaa?!
O Nest é atacado por trás pelo Kohaku, que invoco, e tem as costas pressionadas pela pata dianteira. Modo tigre branco original.
Caminho até a frente do Nest, imobilizado, e me agacho, cruzando o olhar com o homem apavorado diante do Kohaku.
— Você pode acreditar no deus que quiser. Rezar, pedir a um deus que nem se sabe se existe ou não, faça do seu jeito. Mas não vou permitir que trate meu deus como um deus maligno. Não fala do jeito que quer sobre alguém que você não conhece de nada.
Encaro o Nest, abro um [Gate] no chão e o derrubo. Direto num rio fora do castelo. Depois de o homem sumir, só sobrou o cabelo loiro. Peruca, então, era isso.
De repente, olho pro lado, e a Phillis, que sobrou, parecia sem fôlego de tanta surpresa. Ah.
Droga. Exagerei. Ainda que só de nome, ele era embaixador de outro país. Mesmo que fosse pra mandar embora, devia ter outro jeito. Falaram mal do meu deus e acabei ficando com raiva sem querer. Como aquele velhinho de cara boa seria um deus maligno.
Mesmo assim, exagerei mesmo, né… Ao me virar, o Kōsaka-san estava com a mão na testa, soltando um suspiro longo. Aah… foi mal mesmo, né? Ele até tinha pedido pra eu não falar muito.
— Ééé… o padre Nest está…
— Ah… teletransportei ele pra fora do castelo. Tá tranquilo, não machuquei ele nem nada.
Bom, deve ter ficado encharcado. Talvez pegue um resfriado, no máximo. Mas não é da minha conta.
— Sinto muito. Por favor, perdoe a falta de educação desta vez. Na verdade, esta audiência foi realizada por forte insistência do padre Nest; a Papisa não estava lá muito animada com isso.
A Phillis curva a cabeça. Sério?
— Se conseguisse fazer a religião de Rals virar religião do Estado deste país, não haveria feito maior. Provavelmente era isso que o padre Nest buscava.
Ah, então no fim era ambição de carreira. Mesmo sendo padre, não escapa desse espírito mundano, hein.
— De qualquer forma, meu país não pretende definir uma religião do Estado. Avise isso à Papisa.
— Sim, claro. Só que, ééé… sobre o que foi dito agora há pouco… será que Vossa Majestade já se encontrou com um deus?
Ué? Não acho que tenha dito nada assim na conversa de agora há pouco. Será que falei algo que a deixou desconfiada? Hmm, o que respondo, hein.
— Desculpa. Falando uma coisa estranha… Eu… já nem sei mais se deus existe de verdade…
A Phillis murmura isso baixinho, abaixando a cabeça. Não devia falar isso, não? Sendo padre, ainda que só de nome.
— Sempre tive essa dúvida. Julgar o mal em nome da justiça. Por um lado, acho isso maravilhoso, mas, por outro, achar que alguém é mau só porque é demoníaco ou pertence às Trevas… isso é certo? Quem cometeu um erro uma vez nunca mais pode ser perdoado? Dúvidas assim iam surgindo, uma atrás da outra…
Entendo, mas, já no ponto de duvidar do próprio deus em que acredita, essa menina já não está mal como padre?
Nessa hora, o smartphone no bolso vibra no modo silencioso, avisando uma chamada. Hã? Nesse timing? Mesmo sem olhar quem está ligando, já sei quem é. Afinal, só tem uma pessoa que me liga.
Tiro o smartphone e atendo.
— Alô?
— Oh, quanto tempo. Sou eu, eu.
Golpe do "sou eu, eu", é. Se apresenta direitinho, deus. Mas ligou bem na hora, hein, parece de propósito.
— Será que estava assistindo?
— Por acaso, viu. Não, foi bom ver você soltando aquele discurso na cara dele. Obrigado por ficar bravo por minha causa.
Uaaa, ele tava vendo mesmo. Que vergonha, francamente. Enquanto me contorço de vergonha, a Phillis, com receio, fala comigo.
— Ééé… com quem está falando?
— Deus.
— Quê?!
Vendo a Phillis surpresa, de repente percebo que o Kohaku, parado ao lado, está estranho. Não se move nem um pouco. Ué? O que foi? Ao me virar, o Kōsaka-san também está paralisado. Que negócio é esse?!
— Ah, parei o tempo aí por um instante. Se outros virem, dá trabalho, né.
— Parou o tempo?! E-e-espera, ser visto quer dizer, será que…!
— Achei que devia responder à dúvida daquela mocinha aí. Já vou até aí. Sem se encontrar, ela não vai confiar mesmo. Tchau.
— P-pera…!
Desligou. Hã, sério? Afasto o smartphone do ouvido, e cruzo o olhar com a Phillis.
— Disse que vem agora…
— Vem… quem, exatamente?
— Ééé… deus.
Acima de nós, atônitos, envolto num brilho ofuscante, o deus desce. Uma aura divina (claro, sendo deus) envolve o corpo dele; só de ver, já dá pra sentir a energia divina. O deus desce devagar, pousando direto no chão.
— Oi, sou o deus, viu.
— Que leve isso?!
Não tinha uma fala mais solene pra dizer?! Acabo repreendendo sem querer o deus, que ri contente.