Capítulo 116 – Deus e a Interferência
Vendo o velhinho sorridente parado à sua frente, a Phillis só treme. Por fim, sem conseguir mais ficar de pé, cai de joelhos e curva a cabeça.
— O que foi? Está passando mal?
— Deus, deus…
Como ela parece não estar entendendo nada, eu falo.
— Será que dá pra segurar essa pressão, ou melhor, essa energia divina? Até eu tô achando meio difícil de encarar direto.
— Hã? Ah, é verdade. Aqui é a terra, né. Foi mal, esqueci por descuido. Daqui, se não prestar atenção, o poder vaza.
Suuu, a aura dourada que envolvia o deus se apaga. Ao mesmo tempo, a pressão de espinho que havia até agora também some. Digno de deus mesmo, hein.
— Assim já deve estar bom. Mocinha, como está?
— S-sim…
Mesmo assim, pra Phillis, já é o máximo que consegue fazer erguer o rosto. Não é sem razão. Vendo algo assim, só resta reconhecer essa pessoa como um deus de verdade. Acho que a dúvida da Phillis, "deus existe mesmo?", já teve resposta. Deus existe.
— Conversar aqui também não é lá muito apropriado. Não tem algum quarto adequado por aí?
— Hã? Ah, então vamos pra sala de estar.
Abro um [Gate] conectando com a sala de estar. Ofereço o ombro pra Phillis, que parece ter dificuldade de ficar em pé, e deixo os dois sentarem no sofá. Ia pedir pra prepararem chá, mas, ao ir até a copa, a Cecile-san e a Rene estavam paradas no meio de uma risada. Sem outra opção, sirvo o chá eu mesmo no bule, pego três xícaras e alguns docinhos, e volto pra sala de estar.
Os dois continuavam frente a frente. O deus olhava em volta pro quarto, curioso, mas a Phillis ainda estava totalmente enrijecida, com o olhar perdido.
Sirvo chá nas xícaras e ponho os docinhos na mesa. No momento em que o deus leva a xícara à boca e termina um gole, eu começo a falar.
— Tenho uma pergunta.
— Pode, pode, o que é?
O deus põe a xícara na mesa e vira o rosto pra mim.
— O deus da luz, Rals, existe mesmo?
— Não existe, não. Sinceramente, nunca nem ouvi falar. Nem entre os deuses de nível médio, muito menos entre os de nível inferior, tem alguém com esse nome.
Uau, que corte seco. A Phillis, ao meu lado, faz uma cara de choque. É claro que sim. Afinal, acabaram de afirmar categoricamente que o deus em que ela acreditava não existe.
— Então, o deus da luz existe?
— Isso também não existe. Bom, se for forçar, seria eu, digamos. Já que sou o Deus do Mundo. Mas também sou o deus das Trevas, e o deus do vento e do fogo também. Afinal, esse negócio de "deus de tal coisa" geralmente é deus de nível inferior mesmo.
Quer dizer que a Deusa do Amor também é uma deusa de nível inferior, então. Mas, mesmo assim, ela é bem íntima com o Deus do Mundo. Será que é assim mesmo, no mundo dos deuses?
— E-então, o deus da luz, Rals, que o sacerdote da luz Ramires teria invocado há mil anos, afinal, quem seria…
Sacerdote da luz, Ramires? Ah, é a pessoa que fundou a Teocracia de Ramish, é. Essa pessoa teria purificado a terra usando o poder do deus da luz, se não me engano.
— Invocou, hein. Dificilmente um humano consegue invocar um deus. Bom, tem deus que desce por capricho, então não dá pra afirmar nada.
Você não tem moral pra falar isso. Vossa Excelência desceu completamente por capricho agora mesmo.
— Pela história, acho que não é um deus, não. Deve ser algo tipo um espírito. Se for espírito da luz, não é impossível de invocar.
— Que vago. Não dá pra, tipo, voltar no tempo e ver como foi?
— Não é impossível, mas… dá trabalho, viu? Principalmente pra mim. Falando na língua de onde você veio: pausar uma TV que tá passando gravando agora é fácil, mas dá pra achar, sem índice nenhum, o comercial que passou num programa de madrugada há um ano, numa pilha de DVD antigo?
Que exemplo difícil de entender! Mas, de alguma forma, dá pra entender! Entendi que é um trabalho absurdo, pelo menos.
— Então… nossa doutrina, afinal, era…
A Phillis, completamente negada pelo deus, fica desanimada. Já que aquilo em que ela acreditava desmoronou, não é sem razão, mas…
— Vocês não conseguem viver sem deus? Não conseguem agir pela própria crença, vontade e responsabilidade? Tudo bem ter deus como apoio do coração. Podem acreditar em nós do mesmo jeito que acreditam em pai, irmão, amante ou senhor. Mas não devem depender de nós. Deus não faz nada. Quem salva vocês são vocês mesmos. É a força de vocês que chama milagre e move o mundo. Nós só ficamos de olho, observando.
Bom, esse deus aí interfere bastante também, acho. Não é tão rígido assim quanto ele diz, né.
Mas vou ficar quieto. Coisa que é melhor não dizer, esse tipo de negócio. Ao lado, a Phillis já está chorando aos pouquinhos. Não é clima pra fazer piada.
— Bom, mas, dizendo isso, no fim, não dá pra negar que ficou meio largado mesmo. Se eu não tivesse mandado o Touya-kun, talvez nem desse mais uma espiada por uns dez mil anos.
Uaaa! Estragou tudo! Que "nós só ficamos de olho, observando", uma ova! Não tá observando nada! Tá largado mesmo! Bom, talvez tenha muitos outros mundos pra administrar, mas!
— Tá tudo bem assim…?
— Hmm, vai soar duro, mas, mesmo que este mundo seja destruído, isso é responsabilidade dos próprios humanos deste mundo. Basicamente, os deuses não fazem nada. Não, claro, se for uma crise de destruição causada pela interferência de um deus, aí assumimos a responsabilidade. Tipo descida de deus maligno.
Não quero que uma coisa dessas desça de jeito nenhum. Isso é bem vago mesmo, hein. As regras se contradizem um pouquinho aqui e ali, digamos.
— Bom, basicamente, o que a gente quer é que as coisas deste mundo sejam resolvidas pelos próprios humanos deste mundo. Mesmo que apareça um rei demônio e comece a conquistar o mundo, contanto que o rei demônio seja alguém deste mundo, nós não intervimos. No máximo, damos uma arma pra derrotar o rei demônio, esse tipo de coisa. Afinal, não gostamos de um mundo onde as pessoas sofrem.
Entendi. Se não for interferência direta, esse tipo de coisa é permitido. Mas, sabe, isso já é meter a mão o suficiente, né. Dizer que o deus não interfere mesmo que o mundo seja destruído, e ao mesmo tempo dar uma superarma capaz de derrotar o rei demônio com certeza. Que negócio é essa superproteção pela metade?
— Não adianta ficar dependendo dos pais pra sempre, né. Os humanos deste mundo já não são mais crianças. Conseguem pensar sozinhos, caminhar sozinhos. Então, dificuldade e provação também precisam abrir caminho por conta própria. Deus está de olho, viu. De vez em quando.
O "de vez em quando" não precisava dizer. Bom, ser vigiado o tempo todo também não seria lá muito bom, mas.
— O que eu faço daqui pra frente…? O deus da luz, Rals, não existe. Aquela doutrina era uma ilusão criada por seres humanos. Tudo o que fizemos foi sem sentido nenhum?
— Não é sem sentido. Se com isso alguém foi salvo. A partir de agora, basta fazer, "pelas pessoas", o que antes fazia "por deus". Sem se prender à doutrina.
— ………Sim.
Talvez seja impossível mudar de pensamento de uma hora pra outra. Afinal, deve ser algo como um padrão de vida em que ela acreditou a vida toda. Espero que, aos poucos, ela se liberte dessa maldição.
— Bom, então vou indo. Não é bom ficar com o tempo parado por muito tempo, né.
Se, quando o tempo voltar a andar, a gente não estiver lá, pode dar problema, então todos voltamos por ora pra sala de audiências.
O Kohaku e o Kōsaka-san continuam paralisados, como sempre. Se não fosse uma situação dessas, eu queria pregar alguma peça, mas vou deixar quieto.
— Bom, então. Viva com força, mocinha. Se cuida.
Sorrindo, contente, o deus se transforma em partículas de luz e desaparece.
Depois de um instante, o Kohaku e os outros voltam a se mexer. Olham pra gente com uma cara de estranheza. Como o lugar está um pouco diferente de antes de parar, talvez pareça que se moveram num instante só.
— …Parece um sonho. Será que o que aconteceu até agora foi de verdade…
— Foi real. Você se encontrou com deus. Como assim você não vai acreditar?
— …É verdade.
No sorriso sereno dela, sinto uma luz de determinação nos olhos diferente de antes. Será que ela conseguiu organizar as coisas dentro de si.
Depois disso, ela apresenta um conjunto de desculpas e deixa a sala de audiências.
E assim terminou minha primeira diplomacia. Mas, depois disso, levei um sermão daqueles do Kōsaka-san. Bom, admito que, como diplomacia, entra na categoria de pior possível.
Como fiquei um pouco preocupado, pedi pra Tsubaki-san mandar um ninja subordinado até Ramish. Deixei um passarinho invocado com ela pra contato por telepatia, avisando pra entrar em contato se acontecesse alguma coisa.
Alguns dias depois, fico sabendo que a padre da Teocracia de Ramish, Phillis Rugitto, foi destituída do cargo e sentenciada à execução, pelo crime de traição à fé.