Capítulo 118 – A Masmorra e a Verdade
Afinal, essa religião já é estranha desde o início. Mesmo existindo há mil anos, quase não se espalhou além do próprio país. Diferente do nosso mundo, aqui tem magia, então, mesmo que não haja um "milagre divino" explícito, o que dizer dessa baixa taxa de disseminação?
Se eu conseguisse usar magia de cura no meu mundo original, num piscar de olhos já viraria o líder de uma nova religião. Talvez tivesse gente chamando de fraude, mas, já que curar o ferimento é fato, pelo menos a própria pessoa acreditaria. Só que aqui, sou agradecido, mas não recebem isso como "milagre divino". Aqui é magia. Coisa normal por aqui.
Chamam de religião, mas, se todos ao redor forem doutrinados a ponto de tratar como óbvio, não seria um país que força as pessoas a aceitar? Não é questão de acreditar ou não em deus; é um domínio tipo controle mental.
De fato, nenhum país tem aliança com este aqui. Será que tem algo específico deste país, ou melhor, desta terra?
Já pensei nisso várias vezes, mas comparar com a religião e o senso comum do meu mundo é inútil. Nem sei se este mundo é redondo que nem a Terra.
Sinto algo distorcido, diferente da religião do nosso mundo. Não sinto muito aquele lado de salvar as pessoas ou trazer paz de espírito. O que dá pra sentir é "não perdoar quem se opõe".
Vindo a este país, isso ficou bem claro. Com certeza este país esconde alguma coisa por trás.
— Foi por pensar isso que me deixei capturar de propósito.
— Hã…
Explico isso pro Kohaku, que me olha com um olhar de dúvida, dentro da grade de ferro no subsolo. É verdade, viu. Se eu tivesse feito um estrago total lá, ia parecer que eu sou o vilão unilateral. Se for pra agir, tem que ser depois de conseguir provas concretas. Bom, não dá pra negar que agi no impulso, mas.
— E aí, o que pretende fazer daqui pra frente, senhor?
— …O que você acha que eu deveria fazer?
O Kohaku fica com o olhar de dúvida ainda mais forte. Eu sei, tá, era brincadeira.
— Por enquanto, garantir a segurança da Phillis, acho. Depois, coleta de informação. Antes de mais nada, preciso sair daqui.
A masmorra escura tem uns seis tatames de espaço. Parede de pedra, chão de pedra, grade robusta. Isso não é um tratamento cruel demais pro rei de outro país, mesmo que só de nome? Mesmo tendo negado o deus deles, poxa. Ou será que já viraram um "sem-vergonha que finge ser o soberano de Brunhild"?
É bem possível, hein, assim, mesmo que executem, depois dá pra dar qualquer desculpa. Mesmo que meu país reclame, podem simplesmente dizer que ninguém desse tipo veio aqui, e pronto.
Bom, tanto faz, vamos escapar logo.
— [Mirage].
Crio ilusões minhas e do Kohaku, e as coloco num canto da cela. Já que sumir e causar alvoroço também dá trabalho.
Pensei em usar [Gate], mas tem uma barreira erguida. Deve ter sido aquele padre careca que sugeriu isso. Bom, tem outros jeitos de sair.
— Opa, antes disso, preciso ficar invisível.
Uso a magia de luz [Invisible] e fico transparente, junto com o Kohaku. Com isso, eu e o Kohaku conseguimos nos ver, mas os outros não devem conseguir.
Deformo a grade com [Modeling] e saio da cela. Deixando assim não fica bom, então conserto a grade direitinho.
Subo uma escada estreita, e, ao chegar no andar de cima, saio num corredor de pedra com portas enfileiradas dos dois lados. Mais à frente, dá pra ver outra escada que sobe mais. Ainda estamos no subsolo. Deve ter um guarda de prisão mais à frente.
As portas enfileiradas têm números, e a porta pela qual eu subi tinha o "4" escrito.
— Buscar mapa. Phillis Rugitto.
— Entendido. Busca concluída.
Segundo o mapa do templo exibido pelo smartphone, é a masmorra da porta número "8", à direita, mais ao fundo.
Apago o mapa na hora. O smartphone em si já está invisível pela magia, mas a imagem projetada no ar continua visível. Se me virem, dá problema.
Abro a porta número "8" e desço ainda mais a escada que leva ao subsolo escuro.
A escada acaba logo, e, na cela no fim, a Phillis está lá, cabisbaixa. Que bom, ela está bem. Não parece ter sido torturada nem nada.
Ué? Não está sozinha? Tem mais alguém, deitado no chão.
— Phillis… Phillis…
Como não posso levantar muito a voz, chamo baixinho, sussurrando. Depois de chamar algumas vezes, a Phillis ergue o rosto devagar.
— Uma voz… Quem? Quem é…?
A Phillis começa a olhar em volta, confusa. Ah, é verdade, eu estava invisível.
Desfaço [Invisible] e revelo minha forma.
— Vossa Majestade, o soberano de Brunhild…!!
Deixando a Phillis surpresa de lado, deformo a grade com [Modeling]. Entro de lado, com o corpo torcido. Hã? Essa cela é um pouco maior que a minha. Discriminação, francamente.
— Por que está aqui…?!
— Vim te salvar. Ouvi dizer que você seria executada por minha causa.
— Não! Não é culpa de Vossa Majestade! Eu…!
— Shhh, tá alto demais!
A Phillis tapa a própria boca com as duas mãos, afobada.
………… Fiu, tá tranquilo? Parece que não ouviram, ou acharam que era só resmungo consigo mesma. Não há sinal de guarda vindo.
— Aliás, quem é essa pessoa dormindo aí? É mulher?
— Essa pessoa… não, esta senhora… é Sua Santidade, a Papisa deste país, a senhora Elias Ortola…
— Quê?!
Dessa vez, eu mesmo tapo minha própria boca, com a voz alta que solto sem querer.
Elias Ortola?! A Papisa é…?! Ué, a velha de olhar afiado que encontrei no salão há pouco?! …Não, não é ela. É uma pessoa completamente diferente. Espio de novo o rosto adormecido, mas essa pessoa tem uma expressão bem mais suave. Mesmo tendo mais ou menos a mesma idade da velha de antes.
— Quê?! Essa pessoa é a Elias Ortola?! Eu acabei de me encontrar com alguém que se apresentou como Papisa.
— …Deve ser outra pessoa. Da mesma idade, com olhar afiado?
— É, tinha essa vibe.
— Essa pessoa deve ser a Cardeal Kyurei. Irmã mais velha do Cardeal Zeon.
A irmã daquele senhor de bigodinho antipático, é. Ué, pera aí. Quer dizer que montaram uma falsa Papisa e me deram audiência? Quer dizer que todo mundo que estava ali tá metido nisso? O que tá acontecendo, afinal?
— Desculpa, não tô entendendo nada. Pode explicar direitinho?
Segundo a Phillis, depois de voltar pro país naquele dia, ela relatou os detalhes à Papisa e aos outros. Os cardeais ficaram furiosos com ela, que negava o próprio deus e contestava a doutrina, e ordenaram pena de morte imediata. Só que foi a Papisa que intercedeu, e uma parte dos padres que se opôs.
A Phillis, surpresa por nem imaginar que a Papisa fosse defendê-la, mesmo tendo negado o deus, acabou trazida pra cá do mesmo jeito.
E, depois de alguns dias, dessa vez foi Sua Santidade, já debilitada, que foi trazida pra cá.
— Mas por que colocariam a própria Papisa numa cela desse jeito…
— …Isso é… pra proteger o segredo deste país…
Sua Santidade abre os olhos e olha pra mim. Estava acordada. Os olhos da Papisa: o direito azul, o esquerdo verde-claro. Será que ela também tem olho mágico, igual à Yumina?
— Vossa Majestade… o soberano de Brunhild, é… Sou Elias Ortola…
Sua Santidade se apresenta assim, sentando com dificuldade. Mas parece bem exausta. Antes de mais nada, preciso recuperá-la.
Aplico [Recovery] e [Refresh], recuperando o estado dela. E [Cure Heal], pronto. Fiquei pensando por que ela mesma não fez isso, mas, bom, acreditar no deus da luz não significa necessariamente ter aptidão pra magia de luz. Disseram que atributo de Luz e Trevas é raro, afinal.
Em jogo de fantasia, o padrão é aquele monge que usa magia de cura pedindo emprestado o poder de deus, mas. Se fosse assim, talvez a fé tivesse se espalhado mais.
— …Obrigada. Já estou completamente melhor.
— Que bom. E aí, por que a senhora foi trazida pra cá? Falou algo de segredo do país.
— …………
A Papisa fica em silêncio por um tempo, mas ergue o rosto, decidida.
— Este é um segredo ligado à fundação da minha teocracia, mas já não faz mais sentido esconder de vocês. Como a Phillis disse, o deus da luz, Rals, não existe.
Fico surpreso. Que a própria Papisa negasse o deus supremo. Até a Phillis, ao lado, está surpresa.
— Todos os cardeais sabem disso. Eu também fui informada pela Papisa anterior, quando virei cardeal, saindo do posto de padre.
Quer dizer que, sabendo disso, agiram diante dos fiéis como se o deus existisse mesmo?
Não, mas espera, tem algo estranho aqui. Eu e a Phillis sabemos porque nos encontramos com o deus de verdade, mas, sem isso, não tem como confirmar se um deus existe ou não. Por que conseguem afirmar com certeza que o deus da luz, Rals, não existe?
— Originalmente, esta terra era habitada por bestas mágicas, demônios e espíritos malignos. Foi aí que apareceu o chamado sacerdote da luz, o senhor Ramires. Só que o senhor Ramires não era sacerdote nenhum.
— Não era… sacerdote…?
Ramires é aquele que fundou Ramish, né? Como assim?
— O senhor Ramires não era sacerdote, na verdade era um invocador. Um mago de atributo Trevas.
— O quê…!
— Dizem que o senhor Ramires invocou o deus da luz, Rals, pra purificar esta terra, mas a verdade é diferente. O que ele invocou foi um espírito das Trevas, através de magia de invocação. E, depois de derrotar os demônios e bestas mágicas desta terra com esse poder, o senhor Ramires teve uma ideia de plano e a colocou em prática.
Então era mesmo o que o deus disse: o que foi invocado foi um espírito. E ainda por cima, das Trevas, não da luz. De qualquer forma, invocar um espírito já mostra que esse tal Ramires devia ser um sujeito de habilidade considerável. Mas, um plano?
— O senhor Ramires pensou em usar o poder do espírito das Trevas, o poder de interferir na mente, pra construir um reino nesta terra. Foi aí que criaram a religião de Rals. O espírito das Trevas interferia na mente dos moradores desta terra, induzindo-os a concordar com o pensamento do senhor Ramires. A maioria das pessoas aceitou os ensinamentos do senhor Ramires sem questionar, e nasceu a Teocracia de Ramish.
Ei, ei, que negócio é esse? Isso não é lavagem cerebral? Não, talvez não seja lavagem cerebral direta, mas fazer as pessoas concordarem com o próprio pensamento… quer dizer colocar num estado de hipnose?
— A interferência mental do espírito das Trevas era tão forte assim?
— Ela facilitava aceitar o pensamento do senhor Ramires, mas parece que o efeito era fraco em quem tinha resistência mágica alta. Por isso, criaram a existência de um deus da luz, Rals. Interferência mental e deus. Manipulando esses dois, o senhor Ramires dominou o coração das pessoas.
Que cara absurdo, esse tal Ramires. De fato, esse é um segredo que não pode vazar pra fora. Isso pode até destruir a existência da própria organização religiosa. Uma organização que cultua o deus da luz, na verdade fundada com o poder de um espírito das Trevas.
— …Entendi o segredo da organização. Mas por que Sua Santidade foi presa aqui?
— Por eu ter protegido a Phillis, devem ter desconfiado que eu ia vazar o segredo. Os irmãos, Cardeal Kyurei e Cardeal Zeon, já almejavam o posto de Papa desde o início, então me acusaram como se essa fosse a oportunidade perfeita. Depois, me fizeram beber um remédio estranho, e, quando percebi, estava neste estado. Parece que não me mataram porque queriam que eu abdicasse o cargo pra eles.
Entendi. Quando cheguei há pouco, como eles não sabiam pra que assunto eu vim, e nem tinha a Papisa de verdade, devem ter armado uma encenação pra ver como reagia. Já estavam desconfiados por causa do caso da Phillis também, imagino. Mas foi um jeito de lidar bem malfeito.
— Mas por que Sua Santidade protegeu a Phillis? Da posição de Papisa, não haveria necessidade de ajudar alguém que fez uma declaração capaz de abalar a existência do deus, não é?
É isso mesmo. Da posição de Papisa, a existência da Phillis deveria ser só um estorvo.
— …Eu acreditava em deus, e virei padre. Acreditando que podia trabalhar por deus, quando finalmente virei cardeal, fui informada da verdade. O fato de que deus nenhum existe. Desde então, trabalhei só pela organização religiosa. Depois de saber um segredo tão grande, já não havia como voltar atrás pra mim.
Bom, é natural mesmo. Se ela tentasse sair da organização, com certeza seria eliminada. Morto não fala. Já que descobriu o segredo da organização, é destino compartilhado mesmo.
— E, quando percebi, já estava no posto de Papisa. Um posto vazio, mas mesmo assim não consegui largar. E, dias atrás, ouvi a história da Phillis. A história de que deus existe mesmo.
Dizendo isso, a ex-Papisa vira o olhar pra Phillis. Sorrindo, com a voz animada de felicidade, ela fala comigo.
— Entende como eu me senti naquela hora? O deus da luz, Rals, não existia. Mas deus, de fato, existe, e há uma garota que se encontrou com ele. Não é estranho que eu quisesse ouvir mais das palavras de deus que ela ouviu, é?
— Mas a senhora não pensou que a Phillis podia estar mentindo?
Quando pergunto isso, a ex-Papisa aponta pro próprio olho esquerdo. A cor dos olhos verde-claro fica mais forte.
— Eu tenho um olho mágico que enxerga mentiras nas pessoas, sabe. Esse é um dos motivos de eu ter sido escolhida como Papisa… Percebi na hora que a Phillis não estava mentindo. Fiquei muito feliz de saber que deus existe de verdade. E fiquei com inveja dela. Eu também queria me encontrar com deus…
Sua Santidade murmura isso, comovida. Ah, já sei mais ou menos o que vem a seguir. Ficou bem claro que acabou de plantar a bandeira!
Olho pro Kohaku ao lado. Falei! Já está parado!
— Me chamou?
Envolto em partículas de luz ofuscante, o deus desce na masmorra escura.
Francamente, esse deus tem um jeito leve demais pra essas coisas!