Capítulo 124 – A Seleção e os Aprovados
Dia da seleção. Os candidatos cujo número de crachá foi relatado pelos moradores da cidade, pelos subordinados da Tsubaki-san ou pelos gatos não conseguiram nem passar pelo portão do castelo. Claro, teve gente que insistiu, mas, quando eu contava em detalhes o que a pessoa tinha feito neste país, ela ia embora murcha. Com isso, uns 50 foram desclassificados, sobrando cerca de 950. Só um vigésimo a menos, é? Ainda falta muito.
Entramos no castelo e reunimos os candidatos no espaço do campo de treinamento. Subo num palco montado às pressas, junto com o trio capitã e vice-capitães — Rain-san, Norn-san e Nicola-san — e o velho Baba e o velho Yamagata. Do lado do palco, deixo a Elsie, a Lindsey, a Yae, a Yumina, a Lu e a Tsubaki-san de prontidão.
Manipulo o smartphone e aumento o volume com a função de alto-falante.
— Antes de mais nada, sejam bem-vindos ao Principado de Brunhild. Sou Mochizuki Touya, o Grão-Duque deste país. A partir de agora, vamos fazer a seleção da nossa Ordem de Cavaleiros, mas, sendo bem direto: aqui o salário não é alto. Além de vigiar o país, a Ordem de Cavaleiros também tem bastante trabalho braçal variado. Como dá pra ver pelas feras atrás de mim, também não fazemos favoritismo por status ou raça. Só fiquem os que estiverem de acordo mesmo assim.
Assim que declaro isso, os candidatos começam a murmurar. Alguns já voltam em direção ao portão do castelo. Bom, eu não esperava mesmo que todo mundo ficasse. Se já tem insatisfação nesse ponto, é melhor desistir logo aqui mesmo.
— Bom, primeiro, vamos ver o preparo físico de todos. Saiam pelo portão do castelo e deem uma volta completa ao redor do fosso do castelo.
Diante da minha fala, todos fazem uma cara meio decepcionada, como quem levou um golpe em falso. O perímetro do castelo é de mais ou menos dois quilômetros. Devem estar achando curto demais pra medir preparo físico.
— A propósito, a colocação não importa muito. Basta darem a volta no próprio ritmo. Se desistirem… se ficar pesado demais e quiserem abandonar, é só tirar o crachá que estão usando que voltam pra cá. Então, vamos lá.
Assim que termino de falar, lanço a magia em todos, que já iam disparar a correr.
— [Gravity]!
— Guaah?!
Todos, subitamente carregados de peso, ficam se arrastando pelo chão.
— Lancei uma magia de peso em todos vocês. Deem a volta assim mesmo. Se acharem que já não dá mais, como falei antes, tirem o crachá que serão teletransportados de volta pra cá.
As pessoas que estavam se arrastando vão se levantando uma a uma e saem pelo portão do castelo, num passo lento. Não chega a ser marcha de tartaruga, mas é bem mais devagar do que andar normal.
Não é peso o suficiente pra impedir de se mexer, então dá pra andar. Mas deve gastar uma quantidade absurda de energia. Só por precaução, coloquei os ninjas vigiando, pra ninguém trapacear ou cair no fosso sem querer.
— A colocação não importa muito mesmo?
— Hmm… bom, serve até de referência até certo ponto, mas isso aqui não é um teste pra medir preparo físico, sabe.
Respondo com naturalidade à pergunta da Rain-san. De fato, isso mostra quem tem melhor preparo físico. Mas não é isso que eu queria saber.
— Se não é teste de preparo físico, pra que serve isso então?
— Determinação.
— Determinação?
Digamos que seja o nível de seriedade da pessoa. Quem desiste fácil demais não serve. Provavelmente é do tipo que joga a toalha assim que a coisa aperta. Isso é um problema.
Se, depois de certo tempo, alguém não voltar, vamos resgatar. Quem desistiu antes disso é o verdadeiro desclassificado. Quem, mesmo sem desistir, continuar tentando chegar à linha de chegada, esse é aprovado.
Enquanto converso isso com a Rain-san, os que desistiram vão sendo teletransportados de volta um após o outro. Que rápido, hein. Se esforça mais um pouco, cara.
Removo o [Gravity] e restauro o preparo físico deles com [Refresh], mandando-os embora rapidamente. Bom, quantos vão sobrar?
Os cerca de 950 candidatos caíram de uma vez pra uns 480. Ou seja, quase metade desistiu.
Entre os primeiros colocados, tinha bastante fera e demônio de preparo físico excelente, mas isso não importa muito. Afinal, basta não desistir pra ser aprovado. Deve ter várias razões — só de curioso, ou reconheceu a própria falta de capacidade — mas o fato de ter desistido não muda. Valeu o esforço.
Lanço magia de cura em todos que chegaram, que passaram sem desistir, restaurando o preparo físico de volta ao normal.
Bom, o próximo teste, então.
— O próximo será um teste prático. Podem usar a arma que preferirem. Se conseguirem me acertar um golpe em até 30 minutos, estão aprovados. Vou enfrentar vocês com essa espada de madeira. Então, vamos começar.
Pego a espada de madeira e anuncio o início, mas ninguém vem pra cima. Hã? Enquanto acho estranho, um deles levanta a mão hesitante.
— Ééé, e a ordem?
Ah, é isso.
— Não tem ordem. Venham todos de uma vez. Podem usar toda a força.
Devem ter achado que estava zombando deles com isso, porque todos avançam juntos, brandindo as armas nas mãos.
— [Accel]!
Uso a magia de aceleração pra escorregar entre eles, acertando um golpe de espada de madeira em alguns que estão totalmente abertos. Como o número é grande mesmo, eles continuam vindo um atrás do outro. Mas eu simplesmente desvio, e, se aparece brecha, acerto um golpe.
Se não tiver uma brecha bem clara, não ataco por conta própria. Nesse teste, deixo o velho Baba, o velho Yamagata, a Elsie e a Yae avaliarem a técnica dos participantes, e, se julgarem que alcançaram certo nível, anotam o número. Pra quem, claramente até pros meus olhos, não chega nesse nível, sinto muito, mas dou um golpe e elimino.
De vez em quando vem um golpe afiado, mas, com o [Accel] ativado, desviar não é problema nenhum. Quando percebo, mais da metade já está caída, e a maioria dos que sobram só está de pé porque não desabou ainda.
— Até aqui. Acabou o tempo.
A Rain-san anuncia o fim do teste. No mesmo instante, todo mundo se senta no chão. Mas, aliás, durante a luta, dei de cara com uns conhecidos e levei um susto.
Olho na direção dos dois que estão caídos. Ah, são mesmo a Rebecca-san e o Logan-san. Os dois são aventureiros que a gente ajudou lá no Deserto de Rabi. Eles inclusive faziam segurança no café de leitura que eu administro em Belfast, mas por que estão aqui?
Assim que percebem meu olhar, os dois levantam a mão de leve. Quero perguntar, mas tem olhos ao redor, e, se ficar claro que somos conhecidos, pode dar problema. Não é impossível que apareça alguém reclamando de favoritismo.
Por ora, lanço magia de cura em todos que estão caídos e recolho o papel com as anotações do velho Baba e dos outros.
— Bom, vamos anunciar o resultado. Quem tiver o número chamado, venha pra cá; quem não tiver, infelizmente está desclassificado. Podem voltar pelo portão do castelo. Então, vamos começar o anúncio. Crachá número 3, 14, 21…
No fim, sobraram pouco mais de 100. Além de quem eu acertei por estar totalmente aberto, também foram desclassificados os que não atacaram com afinco. Numa hora de mostrar a própria técnica, assim não dá pra avaliar.
A propósito, tanto a Rebecca-san quanto o Logan-san foram aprovados. Isso não foi decisão minha, então não é favoritismo.
Já reduziu bastante. Agora é decidir na entrevista.
Levo os aprovados até o prédio dos cavaleiros dentro do castelo. Deixo eles esperando numa sala separada e preparo a entrevista na sala ao lado. A entrevista fica a cargo de mim, da capitã Rain-san, da Yumina, e mais uma pessoa. Já tinha chamado essa pessoa que vai ajudar pra este país com antecedência.
— Desculpa incomodar assim. Agradeço o trabalho de vir até aqui.
— Não, isso aqui não é nada. Tenho uma dívida com o senhor que não consigo pagar nem de longe.
Sua Santidade responde com um sorriso gentil. Eu tinha entrado em contato com a Teocracia de Ramish com antecedência, pedindo cooperação. Alguns cavaleiros sagrados de escolta também estão de prontidão no fundo da sala. A entrevista da avaliação final vai ser feita com o olho mágico de Sua Santidade, que enxerga mentiras, e o olho mágico da Yumina, que enxerga a essência.
Como ela é meio famosa, peço pra usar [Mirage] e mudar a aparência da Papisa. Nessa hora, recebo o pedido de deixá-la parecendo um pouco mais jovem. Vira uma pessoa completamente diferente, então acho que não devia fazer diferença nenhuma… mas a psicologia feminina é complicada, hein.
— Então vou chamar de cinco em cinco.
O Nicola-san sai da sala e volta trazendo cinco pessoas. Duas feras, três humanos. Convido eles a sentarem nas cadeiras colocadas no centro da sala.
— Então, a partir de quem está à esquerda, digam nome, idade e terra natal, por favor.
Eu e a Rain-san fazemos perguntas inofensivas, e, nesse meio tempo, a Yumina, sentada à minha esquerda, checa a essência dos cinco com o olho mágico. Toda vez que os cinco à minha frente respondem nossas perguntas, a mão esquerda da Papisa, à minha direita, fecha ou abre. Isso é um sinal combinado com antecedência: quando está falando a "verdade", fica aberta. Quando fecha, é "mentira". Vamos fazendo as perguntas observando isso.
Não pretendo desclassificar ninguém só por ter mentido. Todo mundo tem coisa que não quer falar, e revelar algo pode trazer problema de vários tipos. Mas não dá pra confiar em alguém que é mentira do começo ao fim.
Bom, mesmo respondendo com sinceridade, quem diz "eu sou mais importante que o povo", "faço qualquer coisa por dinheiro", "traio sem pestanejar", esse eu não aprovo.
Terminada a entrevista dos primeiros cinco, assim que todos saem da sala, a Yumina fala primeiro.
— O terceiro e o quinto, contando da esquerda, é melhor deixar de lado. Parece que estão tramando alguma coisa ruim.
— De fato, esses dois mentiram bastante. Mas tinham um pôquer face impressionante.
— Pôquer face…? Ah, é a técnica de não deixar a expressão ser lida, no pôquer, né.
Por ora, marco um X nesses dois e peço pro Nicola-san trazer os próximos cinco. Vou ter que fazer isso mais umas 20 vezes? Que trabalheira.
— Ah, cansei…
Terminada a entrevista de todos, desabo exausto sobre a mesa. Lutar contra uma multidão inteira era muito mais fácil que isso.
Não chega a ser um duelo de raposa contra texugo, mas ver gente que mente respirando com naturalidade, com cara de paisagem, sorridente, me deixa enjoado. Enxergar mentira também é um poder incômodo, hein.
— No dia a dia, eu procuro não ativar muito. Tem coisa que não precisa saber, afinal.
Como diz Sua Santidade, se ficar enxergando tudo o tempo todo, vai acabar caindo em desconfiança de tudo mundo, né. Será que forcei demais? Depois vou organizar um jantar pra agradecer o esforço dela.
Por ora, descontando os desclassificados, sobraram 64 aprovados. Um pouco acima da vaga, mas, nesse tamanho, deve dar pra resolver.
37 homens, 27 mulheres. Mais mulheres do que eu esperava. Deve ser porque, em outros países, mulher dificilmente consegue entrar numa Ordem de Cavaleiros. Com um recrutamento "sem distinção de gênero, raça ou status" desse jeito, era natural que aparecessem também candidatas fortes de verdade.
A propósito, o motivo da Rebecca-san também era esse. O Logan-san, pelo visto, também estava procurando um emprego fixo de verdade. Parece que vai se casar. "Com a Rebecca-san?", pergunto, e os dois, em uníssono, respondem "por que logo com esse aí", quase ofendidos. Parece que é com outra mulher. Foi mal.
Dos 64 aprovados, 22 eram feras ou demônios. Como tem uma fera como capitã, até entendo os feras aparecerem, mas os demônios foram meio inesperados.
"Demônio" (魔族) é, entre as espécies de forma próxima à humana, chamadas de povos-demi (feras também entram nessa categoria), aquelas mais próximas de feras mágicas/monstros. Vampiro, Lâmia, Ogro, Alraune entram nessa categoria. Eles conseguem conversar normalmente e não são hostis aos humanos, mas quase ninguém tenta se aproximar deles de verdade.
Afinal, tem gente que simplesmente odeia a aparência e as características raciais deles. Em alguns países (como Ramish antigamente), chegam a ser alvo de extermínio.
Por isso, entrevistei os demônios com um rigor especial, mas os cinco demônios aprovados não deram problema nenhum no olho mágico da Yumina, e disseram a verdade também na avaliação do olho mágico da Papisa. Como todos desejavam viver na sociedade humana, esses cinco (um Vampiro, um Ogro, uma Alraune e duas Lâmias) foram aprovados.
Eu tinha aquela imagem de vampiro chupador de sangue, mas parece que não tem problema nenhum se ele não chupar sangue. Igual cigarro ou bebida, parece que tem quem goste e quem não goste. O Vampiro que veio pro meu país disse que não curte sangue. Cara esquisito.
De qualquer forma, acho que assim já dá uma boa forma geral. Ainda tem várias coisas miúdas pra resolver. Mas vai virar uma Ordem de Cavaleiros bem heterogênea. Bom, assim é mais interessante mesmo.