Capítulo 127 – O Urso do Trovão e o Reencontro Inesperado
Assim que chego na montanha, procuro os Ursos do Trovão pelo smartphone, e tem uma quantidade e tanto. Pra uma montanha só, esse número é demais. Com certeza tem a subespécie aqui.
Mas, com essa quantidade toda, só dá pra dizer que foi sorte não ter tido muito estrago perto de onde as pessoas vivem. Na prática, parece que destruíram plantações, então já teve algum estrago, mas não terem atacado gente foi uma bênção. Será que essa montanha tem fartura demais de animais de caça e frutos silvestres?
— Bom, tanto faz, vamos resolver isso logo.
Travo mira em todos os Ursos do Trovão da montanha e penso um pouco antes de lançar magia neles. Se eu derrotar assim direto, vai desperdiçar o material que dava pra tirar. Se não me engano, a pele do Urso do Trovão deve vender por um preço bom. E o fígado também deve servir de ingrediente pra remédio, né? A carne não é ruim, mas parece que também não é lá essas coisas. Se eu chamuscar tudo com magia, o valor da pele não cai só pela metade, some completamente.
Hmm, o melhor mesmo é matar com lâmina, e, de preferência, com arma de perfuração, que é o que menos danifica a pele. Não, na verdade, o ideal seria veneno, asfixia, ou parada cardíaca. Mas [Paralyze] não chega a causar parada cardíaca.
— Confirmar número de indivíduos de Urso do Trovão.
— Confirmando… concluído. 23, incluindo os filhotes.
Mesmo sendo filhote, não dá pra deixar passar. Se crescer, pode virar ameaça. Fico um pouco pesaroso, mas…
De qualquer forma, vou abatê-los um por um, com um tiro no coração. Deve terminar numa hora, no máximo. Primeiro, abro um [Gate] rumo ao mais próximo.
— Ufa. Deu um trabalhão, hein.
A subespécie foi mais resistente do que eu esperava, sem deixar brecha fácil. Aproveitando que eu só podia atacar o coração, ela vinha disparando descargas elétricas pra todo lado, e desviar foi chato. Mesmo assim, consegui derrotar e guardar em [Storage], igual aos outros Ursos do Trovão.
Com isso, não tem mais Urso do Trovão nessa montanha. Agora falta transformar esse material em dinheiro na Guilda. Ah, e também preciso cancelar o pedido que essa cidade fez. Bom, "cancelar", mas acho que o pedido nem deve ter chegado ainda na Guilda, então acho que não vai aparecer nenhum idiota reclamando que roubei o pedido dele.
— Ééé, qual era mesmo? Ah, Senka. A cidade de Senka.
Procuro no mapa a cidade onde fica a Guilda que recebeu o pedido. Fica pra oeste daqui, então.
Ativo a magia de voo e vou de uma vez. No fim das contas, essa magia é bem prática mesmo, hein. Se usar [Accel]+[Boost], talvez consiga a mesma velocidade, mas isso aqui é bem mais fácil. Bom, em aceleração instantânea, [Accel] ainda leva vantagem, e [Fly] não aumenta a velocidade de pensamento. Cada uma com seus prós e contras, tem que usar dependendo da situação.
Enquanto penso nisso, uma cidade aparece entre as nuvens. Aquela deve ser Senka.
Como pousar no meio da cidade chamaria atenção, decido pousar um pouco antes e ir a pé. Confirmo a localização da Guilda no mapa e sigo direto pra lá.
É um prédio incomparavelmente menor que a Guilda da capital de Belfast, mas o interior está surpreendentemente organizado. Tem os já conhecidos quadros de pedidos, com vários papéis afixados. Olhando de relance pra eles, sigo até a funcionária do balcão.
— Seja bem-vindo, qual é o assunto?
— Queria vender material de fera mágica. E também cancelar um pedido da cidade de Collette que ainda não deve ter chegado, mas que vinha a caminho pra amanhã.
— Como assim?
Como ela me olha com uma cara de "que suspeito", entrego a carteira de Guilda. Explico a situação pra funcionária, que arregala os olhos com o cartão de rank prata, e finalmente ela entende. Depois disso, vou até o pátio e enfileiro os corpos dos Ursos do Trovão, incluindo a subespécie, um monte deles, pra avaliação e venda. Deixo só dois de lado, pra provar pros moradores da cidade que caçei os Ursos do Trovão, e vendo o resto todo.
— V-vai demorar um pouquinho, tudo bem?
Bom, com aquela quantidade, não tem jeito mesmo. Enquanto esperam a avaliação, mato tempo dando uma olhada no interior da Guilda. Pra passar o tempo, olho os pedidos afixados no quadro.
— Caverna do leste… Mega Slime, é. Esse eu nunca derrotei.
É que o grupo de mulheres da minha casa é unânime contra o tipo Slime, viu. Desde que cheguei neste mundo, encontrei vários tipos de monstro e fera mágica, mas o tipo Slime, Roper, essas coisas grudentas e viscosas, sempre evitei. Também não tenho vontade nenhuma de ir procurar um de propósito.
Enquanto observo o quadro, de repente vejo alguém entrando pela porta. Bom, já tinha aventureiro entrando e saindo desde antes, então nem liguei, mas, ao ver a pessoa que entrou, não consigo deixar de olhar duas vezes.
— Ué, não é o Touya? Por que você tá num lugar desses?
— Ende…!
Cabelo branco, o mesmo cachecol branco comprido, camisa branca, jaqueta preta e calça preta — o garoto de sempre no estilo monocromático olha pra mim, surpreso.
— Por que o Ende tá num lugar desses?
— Isso eu que ia perguntar. Tô voltando de derrotar um tal de King Ape que tinha aqui perto.
Ende responde com um sorriso amarelo. King Ape, é. Fera-macaco gigante. Se não me engano, é um bicho que não é lá muito esperto. Já lutei com um também.
— Ah, isso não importa. Mais do que isso, tenho um monte de coisa que quero perguntar.
— Coisa que quer perguntar? Bom, tudo bem, mas espera um pouquinho, quero ir lá concluir o pedido.
Ele vai até o balcão, e, enquanto entrega a parte abatida como prova, dou uma espiada na carteira de Guilda do Ende: já virou rank vermelho. Ele recebe a recompensa, guarda no bolso, e nós dois sentamos frente a frente num banco comprido no canto da Guilda.
— Então, o que você quer perguntar?
— É sobre os Phrase. O que são eles, afinal?
Hmm, o Ende faz cara de quem tá pensando um pouco, mas logo começa a falar.
— Tem coisa que posso falar e coisa que não posso, tudo bem assim?
— …Tudo bem. Me conta o que puder.
O Ende se recosta fundo no banco e começa a falar.
— Não sei se você vai acreditar, mas eles não são seres vivos deste mundo. Digamos que sejam visitantes de outro mundo, diferente deste.
— Visitantes? Não são invasores?
— Eles não têm intenção de invadir, então não sei se "invasor" é o termo certo. Eles vieram parar neste mundo, vindo de outro, procurando o próprio "Rei".
"O Rei dos Phrase". Já tinha ouvido isso antes. Que o objetivo dos Phrase era encontrar essa figura.
— E por que atacam humanos, então?
— Aí já entra um pouco de coisa que não posso falar, mas os Phrase têm um "núcleo" que é a fonte da atividade vital deles. Enquanto esse núcleo não for destruído, mesmo que o corpo se despedace, eles absorvem energia mágica natural e, cedo ou tarde, se regeneram. E o núcleo desse "Rei" está neste mundo. Eles matam humanos pra recuperar isso.
— Espera aí. Que relação tem recuperar o núcleo do "Rei" com matar humanos?
— Porque o núcleo do "Rei" está dentro do corpo de um humano deste mundo.
O quê? O núcleo do "Rei" está dentro do corpo de um humano? E eles matam humanos pra recuperar isso?!
— Talvez não seja necessariamente um humano. Deve estar habitando alguma fera, algum demônio, algum ser com certo nível de inteligência, com certeza. O núcleo do "Rei", olha, agora está em dormência. Digamos que seja tipo um estado de morte aparente. Nesse estado, ele se infiltra dentro de alguém deste mundo e espera pra avançar pra próxima etapa. A onda que o núcleo do "Rei" emite avisa aos Phrase que ele está neste mundo. Mas eles não conseguem saber a localização exata. Eles não conseguem ouvir o pequeno "som" que só o "Rei" tem. Porque fica encoberto pelo som do coração do hospedeiro. Por isso matam humanos. Pra apagar o som que atrapalha.
Peraí. Então quer dizer que estão matando humanos um por um só pra encontrar o núcleo do "Rei" que está dentro de alguém desconhecido deste mundo?! Dizem "vasculhar palmo a palmo", mas eles estão literalmente fazendo isso.
— Afinal, o que são os Phrase…
— Originalmente, eram seres que evoluíram em outro mundo, mas, em certo momento, o "Rei" que comandava os Phrase desapareceu desse mundo. Foi aí que começaram a viajar entre mundos, atrás dele. O "Rei" também tem um objetivo. Acho meio deselegante atrapalhar isso, sabe. Seria melhor deixar ele em paz, mas eles agem por instinto.
Tipo formiga ou abelha, que têm uma rainha. Será que dá pra dizer que eles se reúnem atraídos por isso? E o objetivo do "Rei"?
— O núcleo do "Rei", ao cruzar pra outro mundo, se aloja dentro do corpo de um humano daquele mundo. Ele absorve a força vital do hospedeiro, bem devagarinho, e, quando o hospedeiro chega ao fim da vida, ele transfere pra outro hospedeiro. Repetindo isso, usa a força acumulada e, com o tempo, parte de novo rumo a outro mundo.
— …E é atrás disso que os Phrase estão vindo? Matando humanos do mundo inteiro, procurando o núcleo do "Rei", e, quando ele se transferir pra outro mundo, os Phrase vão embora atrás dele…
— Bom, mais ou menos isso.
Isso não é brincadeira nenhuma. Tipo gafanhoto devorando tudo do mundo e indo embora?! Destruindo um mundo estranho atrás do outro, sem freio nenhum, indo de um pra outro. E, pior, eles nem têm consciência de que estão tentando destruir um mundo. Só fazem porque é necessário. Não tem bem nem mal nisso. É instinto puro.
— …O Ende também disse que tava procurando o núcleo do "Rei". Você também tá matando humanos?
— Ei, não confunde as coisas, por favor. Eu tô esperando o núcleo do "Rei" transferir pro próximo mundo. Não me põe no mesmo saco que eles, viu.
…Ainda não entendo direito o objetivo desse cara. Será que é uma espécie de guardião do núcleo do "Rei"? De qualquer forma, este mundo está sofrendo um transtorno enorme por causa desse tal "Rei".
— E essa barreira do mundo?
— Hmm… mundos paralelos são tipo… uma escada em espiral, sobrepostos uns nos outros com um leve desencontro. Dá pra subir um degrau rápido, mas não dá pra subir dez degraus de uma vez, né? Essa altura é a distância entre os mundos, e, pra chegar num degrau acima, precisa percorrer todos os degraus. Bom, talvez dê pra pular um degrau, no máximo. Só que os mundos têm uma barreira que impede invasores de fora. Normalmente, nem dá pra subir um degrau sequer.
De um jeito ou de outro, tenho a sensação de que entendo. Talvez o motivo de o mundo de onde eu vim ter partes em comum com este mundo seja porque esse desencontro não é tão grande assim.
— Acho que já falei isso antes, mas essa barreira não é tipo uma parede, é tipo uma rede de malha fina. Por isso, algo pequeno e inofensivo pro mundo consegue passar por ela. É por isso que o núcleo do "Rei" atravessa em estado de morte aparente. Mas só o "Rei" consegue fazer esse truque.
Ah, entendi… Em estado de morte aparente, ele não é repelido pelo mundo, então. Deve entrar por uma brecha da malha, algo assim.
— Só que, se alguém força a passagem por essa barreira… bom, normalmente não dá pra fazer isso, mas se cria uma rasgadura. Se isso se repetir várias vezes, o buraco vai crescendo aos poucos, e, quando abre completamente, a barreira deixa de cumprir sua função. Foi isso que aconteceu há 5000 anos.
Então era a invasão dos Phrase de que a Dra. Regina falava. Que quase destruiu o mundo… Era isso, então.
— Naquela época, por algum motivo, a barreira se reparou, e a ameaça dos Phrase foi embora. Exterminaram os Phrase que sobraram, e o mundo escapou da destruição. Eu também ajudei na caçada dos remanescentes.
Esse cara acabou de dizer, na maior naturalidade, que já estava aqui há 5000 anos. Realmente não é gente comum. No mínimo, com certeza não é humano. Mas por que a barreira voltou ao normal, hein. Parece que nem o Ende sabe…
— Achei que ia ficar tranquilo por um tempo e fui dormir, e olha só, tá tudo agitado de novo. A barreira também tá começando a rasgar de novo. Ainda tá se aguentando, meio na força, mas acho que é questão de tempo até um Phrase de nível superior chegar por aqui. Bom, não sei os detalhes, se vai ser daqui um ano ou daqui cinquenta.
— …O Ende é aliado dos humanos?
— "Aliado" não sei se é bem assim. Eu caço Phrase mais como uma forma de ganhar tempo. Sinceramente, se a barreira for rompida, talvez eu só deixe as coisas seguirem seu curso. Mas não tenho intenção nenhuma de ficar do lado dos Phrase.
Realmente não dá pra entender a posição desse cara. Pelo menos, já é bom que ele não esteja do lado dos Phrase.
— Bom, acho que é só isso que posso falar. Já tô com um compromisso, então.
Dizendo isso, o Ende se levanta e vai saindo da Guilda.
— …Última pergunta. Ende, o que você é, afinal?
— Eu? Eu sou um "Viajante". Até mais, Touya.
Dizendo só isso, o Ende sai da Guilda.
O objetivo dos Phrase, o núcleo do "Rei", a barreira do mundo… Fiquei sabendo de um monte de coisa absurda. Pensando com realismo, isso não tá bem grave? Há 5000 anos, escaparam da crise reconstruindo a barreira. Mas dessa vez? Vai dar pra parar a invasão dos Phrase? Os Phrase devem continuar caçando humanos indiscriminadamente pra encontrar o núcleo do "Rei". Provavelmente não tem muita gente capaz de enfrentar isso. Se aparecerem em massa, como há 5000 anos, não vai ter jeito nenhum…
Meio perturbado com a verdade revelada, recebo no balcão o dinheiro da venda dos Ursos do Trovão e saio da Guilda.