Capítulo 128 – As Medidas e o Rei das Aves
— É isso que aconteceu, o senhor entende alguma coisa?
— Não, nada mesmo. Como já falei antes, nem nós ficamos vigiando o tempo todo, e de fato existe, sim, uma espécie que viaja entre mundos. Mas, mesmo sabendo disso, não tem nada que a gente possa fazer. Se tivesse intervenção de outro deus, aí a história seria outra.
No caminho de volta do encontro com o Ende, pergunto ao deus sobre tudo isso, mas parece que nem o deus sabe de nada. No fim das contas, quer dizer que o povo deste mundo mesmo vai ter que dar um jeito.
Ainda não chegou a virar uma situação urgente, mas nunca é demais preparar algumas medidas.
Pra resolver essa situação, o mais eficaz mesmo é usar o poder de Babylon. O Frame Gear, a arma decisiva anti-Phrase que a Dra. Regina criou. Será que dá pra usar isso de algum jeito pra repelir os Phrase?
De qualquer forma, ou consigo o objeto de verdade no "Hangar", ou consigo o projeto no "Depósito". Se não me engano, as ilhas de Babylon que faltam são seis: "Torre", "Muralha", "Biblioteca", "Depósito", "Hangar", "Laboratório". Então a probabilidade é de um terço.
— Será que devia procurar com mais empenho…
Pensando nisso, voo rumo à cidade de Collette.
— Frame Gear, senhor?
Depois de terminar de cumprimentar o tio da Elsie e da Lindsey e voltarmos todos pro castelo, vou direto perguntar pra Rosetta, que estava na "Oficina". A Dra. Regina foi quem desenvolveu o Frame Gear, mas parece que a Rosetta ajudava na manutenção.
— Esse Frame Gear, qualquer um consegue pilotar?
— Depende da compatibilidade com energia mágica e com a máquina, senhor, mas, basicamente, qualquer um consegue operar. Sem treino, deve ser difícil manejar como se fosse os próprios braços e pernas, no entanto.
Entendi. Se for assim, dá pra aumentar o poder de combate produzindo em massa. E o piloto depende de treino. Se conseguir formar um exército de robôs gigantes, talvez dê pra enfrentar os Phrase.
— Só que produzir em massa é difícil, senhor, sabia?
— Ah? Por quê? Não dá pra usar a função de cópia da "Oficina" numa boa?
— A quantidade de material necessária é absurda demais, senhor. E, mesmo pro Frame Gear do tipo simplificado, produzindo do zero, leva um dia inteiro pra construir uma unidade.
Hmm. Uma unidade por dia, é. Trinta por mês. Já seria bastante coisa, mas… Pelo que a Dra. Regina contou, há 5000 anos vieram dezenas de milhares de Phrase atacar. Isso fica bem inseguro.
— Quantas unidades estão guardadas no "Hangar"?
— Sei lá, senhor. Este que vos fala não tinha muito contato com as outras Babylons. Pelo que dá pra saber com a manutenção, deve ser de cinco a sete unidades por tipo, senhor.
— Só isso?! Como iam enfrentar os Phrase com isso?
— É que, bem na hora em que iam começar a produção em massa, o inimigo simplesmente sumiu, senhor. Ia ter uma segunda e uma terceira "Oficina" também, senhor.
A Rosetta fala com pesar. Então iam ampliar a "Oficina", é. Mas foi isso, então. A crise se resolveu antes que o esquema de produção em massa estivesse pronto.
Hmm, por enquanto, o máximo que dá pra fazer é só juntar material, então? Ao sair da "Oficina" e caminhar, vejo a Shesca e a Belflora vindo da direção da "Ala de Alquimia". As duas carregam uma cesta com vários frascos de remédio.
— Que remédio é esse?
— Ufufu, isso aqui são remédios comuns, tipo remédio pra resfriado, dor de cabeça, problema estomacal. Não tinha muito estoque no castelo, então viemos fazer, senhor.
A Belflora, de uniforme de enfermeira, responde com um sorriso. Por mais que veja, nunca me acostumo com uniforme de enfermeira fora de hospital…
Mas remédio, hein. Tem coisa que nem magia de cura, nem meu [Recovery], resolve. Hã? Peraí?
— Belflora, esse remédio só dá pra fazer na "Ala de Alquimia"?
— Esse é um remédio normal, sem nenhum truque especial, senhor. Fizemos por síntese a partir do material bruto pra economizar tempo, mas, com paciência, dá pra fazer do jeito normal também, senhor. Só que a pureza cai, então o efeito talvez diminua um pouco.
Ou seja, outras pessoas também conseguem fazer. Isso quer dizer que dá pra virar negócio. Remédio pra resfriado, dor de cabeça, problema estomacal — tudo item de primeira necessidade. Não que eu vá virar um vendedor ambulante de remédios de Toyama, mas, se der certo, pode virar uma boa fonte de renda. Talvez precise cultivar as ervas medicinais que servem de matéria-prima, mas.
Aviso a Belflora sobre a ideia e decido pedir pra ela ensinar o método de purificação de remédio pra Tsubaki-san e os outros. Sendo ninja, ela deve estar acostumada a lidar com substâncias, e os subordinados dela também devem ter bastante gente boa nisso. Seria ótimo se desse pra entrar no ramo de venda de medicamentos com isso.
Ao voltar pro castelo com a Shesca e os outros, decido, por ora, consultar a Leen sobre o que ouvi do Ende.
Pra ser exato, a Leen é embaixadora de Mismede, mas acho que, quando o assunto é Phrase, é um problema que ultrapassa fronteiras de países.
— O "Rei" dos Phrase, invasão de outro mundo, a barreira do mundo, hein…
A Leen solta um suspiro enorme e se recosta na cadeira. Bom, é de se espantar mesmo. A Paula, ao lado dela, também está com os braços cruzados, numa pose de preocupação.
— Vivi todos esses anos e é a primeira vez que ouço uma história dessas. Normalmente eu ia achar que era brincadeira, mas… tem evidência demais confirmando pra ser mentira. Deve ser verdade mesmo.
— Existe a possibilidade de o Ende estar mentindo, mas acho que provavelmente é verdade.
— Mesmo que seja fato, provavelmente as outras pessoas não vão acreditar. A não ser que a invasão dos Phrase realmente comece.
De fato. Mesmo reconhecendo a existência dos Phrase, o povo provavelmente só vai encarar como mais uma espécie nova de fera mágica. Nós mesmos só encontramos três até agora. O tipo grilo nas ruínas antigas, o tipo manta no Deserto de Rabi, e o tipo aranha no Grande Mar de Árvores. Somando o tipo cobra que os soldados de Mismede da Leen derrotaram, isso é tudo que conhecemos dos Phrase.
Talvez já tenham surgido mais alguns, mas também existe a possibilidade de já terem sido caçados pelo Ende.
Preparar medidas só depois que a invasão dos Phrase começar seria tarde demais. Preciso fazer o que der enquanto ainda dá tempo.
Mas, mesmo assim, por enquanto, o que dá pra fazer é só procurar mais Babylons ou juntar material pro Frame Gear.
— Por ora, tô tentando juntar informação, sabe. Ruína suspeita, templo abandonado, esse tipo de coisa. Mas, quando vou investigar, ou não tem nada do tipo, ou é só uma ruína qualquer, e acaba dando em nada.
Hmm, não dá pra deixar só o pessoal da Leen procurando. Beleza, vou mandar batedores pelo meu lado também. Me despeço da Leen, vou até o Kohaku e os outros, e pergunto se tem alguma besta de invocação boa pra coletar informação.
— Se é assim, acho que o melhor mesmo é alguém que voa. É rápido e consegue ir pra vários lugares, né~.
O Kokuyō dá essa sugestão. Quer dizer, besta de invocação de pássaro, então? De fato, deve ser perfeito pra exploração, indo pra qualquer lugar.
— Se for invocar e firmar contrato um por um, vai levar tempo demais, meu senhor. É melhor firmar contrato com aquele que reúne os súditos.
— Hm. Sango, você tá dizendo pra invocar aquele lá?
O Kohaku interrompe as palavras do Sango. Aquele que reúne os súditos? Dos pássaros?
— O «Imperador das Chamas». Do mesmo posto que nós, o rei alado que governa o fogo. Se invocá-lo e firmar contrato com ele, deve ser possível chamar milhares de pássaros de uma vez.
Entendi. Se não me engano, o Kohaku é o soberano dos feras, e o Sango e o Kokuyō, dos répteis, né. Besta de invocação, eles conseguem dominar sem discussão, e até criaturas comuns dá pra comandar até certo ponto, pelo visto. Fera mágica, não rola, ao que parece.
Essa é a versão pássaro, então.
— Como é esse tal Imperador das Chamas?
— Contrariando a própria capacidade dele, é alguém tranquilo. É o mais bem-caráter de nós.
Diante da fala do Kohaku, o Kokuyō dá uma cutucada, com um sorriso maroto.
— Será mesmo~? Eu acho que eu sou muito mais bem-caráter, viu~?
— Cala a boca. Panela de fervura instantânea.
— O que você disse, seu desgraçado?!
A panela ferveu num instante. Bem que dizem, né.
Por ora, acalmo os dois e decido invocar esse tal Imperador das Chamas.
Desenho um círculo de invocação no pátio do castelo e concentro, elevando, a energia mágica de atributo Trevas. Logo uma névoa negra começa a pairar, e, dentro dela, vou misturando a energia espiritual do Kohaku e dos outros. À medida que a névoa vai ficando mais densa, adiciono ainda mais energia mágica.
— Tu que governas o verão e a chama, o sul e a beira do lago. Responde à minha voz. Atende ao meu chamado e manifesta tua forma aqui.
Do meio da névoa nasce uma energia mágica explosiva, e um pilar de fogo carmesim se ergue dentro do círculo de invocação. O redemoinho de chamas dissipa a névoa, e, quando o pilar de fogo se apaga, ali está um único pássaro completamente vermelho.
O tamanho é mais ou menos o de um cavalo. A aparência lembra muito a ave lendária chamada fênix. Então esse é o «Imperador das Chamas».
— Então eram vocês mesmo. Que nostalgia.
— Quanto tempo, «Imperador das Chamas».
— Chaminha, quanto tempo~.
— Sua entrada continua chamativa como sempre, «Imperador das Chamas».
A voz do «Imperador das Chamas» soa como a de uma mulher tranquila. De fato, tem a calma que justifica o Kohaku chamar ele de bem-caráter.
— Foi você que me invocou, não foi?
— Isso mesmo.
— É o nosso senhor, o Mochizuki Touya-sama.
Diante das palavras do Kohaku, o Imperador das Chamas mostra um sinal de surpresa, mas logo fica me observando fixamente e fecha os olhos devagar.
— Entendi. Pra alguém que já submeteu o «Imperador Branco» e o «Imperador Negro», não importa o que eu faça agora, o resultado não vai mudar. Vamos firmar o contrato de senhor e servo. Mochizuki Touya-sama, me dê um nome de contrato.
Ué? Firmou contrato tranquilamente assim, hein. Nem impôs nenhuma condição. Bom, é uma ajuda, mas. Parece que, como o Kohaku disse, tem mesmo uma personalidade tranquila.
Bom, então, um nome. Ééé, já que tem Kohaku, Kokuyō, Sango, acho melhor um nome parecido mesmo. Hmm…
— Beleza, então, Kōgyoku. É o nome de uma pedra preciosa vermelha, o que acha?
— Kōgyoku… Aceito. Pode me chamar de Kōgyoku.
Pum!, o Imperador das Chamas, ou melhor, a Kōgyoku, transforma a própria forma pra um tamanho pequeno, tipo um papagaio. Pousa direto no meu ombro. Assim não deve chamar tanta atenção.
Bom, agora vamos cumprir o objetivo de verdade.
Com a ajuda do poder da Kōgyoku, invoco de uma vez cerca de mil pássaros como bestas de invocação, pelo círculo de invocação. De tipos variados, os pássaros coloridos alçam voo direto pro céu e se espalham em todas as direções.
Envio telepatia pros pássaros que vão voando, pedindo pra reportarem se encontrarem ruína suspeita, construção, equipamento estranho ou monumento de pedra. Espero que assim encontrem alguma coisa útil.
Observando o vasto céu por onde os pássaros voaram, não consigo deixar de rezar por isso.