Capítulo 137 – O Príncipe Idiota, a Rainha-Barril e o Primeiro-Ministro Sombrio
Pra abrir um [Gate] até o Reino de Riinie, preciso pegar uma memória do príncipe Claude com [Recall]. Sinceramente, não é uma magia que eu queira usar com outro homem. Que tristeza é essa de ter que segurar a mão de outro cara e encostar a testa nele.
O grupo pra resgatar a rainha Eria, mãe do príncipe Claude, ficou assim: o príncipe Claude, eu, a Elsie, a Yae, e o Kohaku. Montei o time pensando em combate e mobilidade. O resto do pessoal fica de vigília, esperando. Pra esse tipo de operação de infiltração, é melhor ir com pouca gente.
Com [Gate], pulamos de uma vez pra Nimue, a capital real de Riinie. O príncipe Claude ficava olhando em volta, meio perdido, na primeira vez que sentia um teletransporte.
— Incrível… realmente, num instante, já estamos em Riinie…
Saímos por um beco da cidade sem que ninguém percebesse — parece que não fomos vistos por ninguém.
Daqui, vamos primeiro até o castelo, e o príncipe Claude vai relatar o resultado da proposta de casamento.
Nós ainda nem vimos a cara desse primeiro príncipe ou do primeiro-ministro. Preciso ver com os próprios olhos que tipo de gente é. Lanço [Invisible] em mim, na Elsie, na Yae e no Kohaku — só não no príncipe Claude — e ficamos invisíveis.
— Que magia incrível… não faço a menor ideia de onde vocês estão.
— A gente só fica invisível; se alguém tocar, é descoberto na hora. E, já que a gente também não consegue se ver entre si, contamos com você pra nos guiar.
O príncipe Claude concordou em silêncio e começou a andar em direção ao castelo, com passos mais lentos que o normal.
Passando pela beirada de ruas com pouco movimento, entramos no castelo real. Os guardas do portão só deram uma olhadela rápida pro príncipe Claude e não disseram nada. Meio que ele foi simplesmente ignorado. Sendo, ao menos no nome, um príncipe deste país. Parece mesmo verdade esse tratamento de descaso.
Ao entrar no saguão do castelo, o príncipe Claude congelou por um instante ao ver quem vinha na direção contrária. Em seguida, curvou-se profundamente.
— …Voltei, irmão.
— Ah, Claude. Chegou rápido, hein. Que raro, vindo de um lerdo desses. Amanhã deve chover.
Um homem mais baixo que o príncipe Claude, magro, cabelo em corte de cogumelo, ergueu o canto da boca num sorriso. Então esse é o primeiro príncipe, o Zabun. Roupa toda coberta de brilho, echarpe de aparência cara, botas douradas reluzentes.
— Que mau gosto…
Ouvi um murmúrio baixinho da Elsie, mas, por sorte, não chegou aos ouvidos do príncipe Zabun. Já que dá pra ouvir a voz, não fala nada, hein!
Atrás dele, uma mulher de rosto abaixado, e dois homens com o mesmo sorriso lascivo e presunçoso, observavam o príncipe Claude. Os homens devem ser do séquito do príncipe Zabun. A mulher… é uma escrava. Tem uma "coleira de escravização" no pescoço. Achei que esse país não tinha sistema de escravidão.
— E aí, qual foi a resposta do lado de lá? Claro que voltou com uma boa resposta, né?
— Não… infelizmente, disseram que a filha do duque Ortlinde já tem um noivo, então recusaram a proposta.
— …Hã? Desculpa, não ouvi. O quê que você disse?
— Então, quanto à proposta de casamento, eles recusaram…
Palmada! Sem deixar o Claude terminar de falar, a mão aberta do Zabun voou.
— Que inútil, você! Se fosse pra isso, pelo menos pensasse em raptar a filha do duque, ué! Basta trazer ela aqui e botar uma "coleira de escravização" que ela vira minha escrava na hora!
O que essa besta tá dizendo. Fazer a Sue de escrava? Era isso que ele tava planejando?
— Aquela pirralha riu de mim numa festa em Refreese. Filha de mero duque, se atrevendo. Eu ia domesticar ela até nunca mais poder me contrariar na vida, mas aí…!
Só por isso… Se ele foi naquela festa vestido desse jeito, qualquer um ia rir, não só a Sue. Não, os outros adultos talvez até segurassem o riso. Mas a Sue é uma criança. Será que ele não consegue perdoar nem isso?
— Tsc, ter um irmão inútil desses até pra um recado simples é cansativo. E então? Quem é o tal noivo da filha do duque?
— …Sua Majestade, o soberano do Principado de Brunhild, Mochizuki Touya.
— Brunhild…? Ah, aquele país novato que surgiu do nada recentemente? Casar com um paisinho tosco desses não traz vantagem alguma.
Desculpa aí por ser um paisinho pequeno. Eu mesmo posso falar isso, mas, vindo de outro, dá raiva.
O príncipe Zabun estalou a língua, contrariado, e encarou o príncipe Claude. Aí, como se tivesse tido uma ideia, um sorriso lascivo se abriu no rosto dele.
— Ei, Claude. Vai de novo até Belfast e espalha um boato lá.
— Um boato?
— Que o soberano de Brunhild é mulherengo, que já fez montão de mulher chorar. Que, se a filha do duque casar com ele, vai virar infeliz na certa, esse tipo de boato. Assim, quem sabe, o noivado desmancha. Boa ideia, não é?
Posso socar esse cara, né. Eu posso socar, né? Droga, você me paga depois.
— …Se eu espalhar esse boato, o senhor me deixa ver a minha mãe?
— Hã? Já falei, não falei? Sua mãe tá doente. E se pegar a doença, hein? Um cuidado tão gentil do irmão mais velho. Bom, entendo a vontade de ver ela, já que não se sabe quando ela vai morrer.
O Claude, apertando o punho, encarava de volta o Zabun, que sorria com desdém. A expressão do Zabun mudou na hora ao perceber aquilo.
— O que foi esse olhar aí!?
De repente enfurecido, o Zabun cravou um chute na barriga do Claude. Com o Claude curvado, o Zabun continuou sem pena, mais um chute, mais outro.
— Um lixo de origem baixa desses, aprenda o seu lugar! Você só tem que obedecer minhas ordens caladinho! Já devia ser grato só de estar vivo! Entendeu, hein!?
Justo quando eu ia interromper o ataque daquele príncipe idiota, apareceu outra pessoa.
— Zabun? O que está fazendo?
— Ah, mãe. Nada, só estava educando meu irmão sem noção.
Descendo a escadaria do tapete vermelho, vinha uma… barril… não, uma mulher, num vestido vermelho vistoso, maquiagem carregada e espessa demais, seguida de várias damas de companhia. Então essa é a mãe desse idiota, a rainha Dakia. O corpo não parece nada com o filho, mas os olhos turvos e a boca lasciva são idênticos.
— Claude. Você também precisa aprender de vez o seu lugar. Diferente de você, o Zabun um dia vai carregar este país nas costas. Não o incomode com bobagem. Deve ser esse sangue de origem baixa da sua mãe, não é?
Ela lançou um olhar frio e desdenhoso pro Claude, como quem olha pra um cachorro vira-lata, e virou o rosto sorridente pro Zabun. Uma mudança de expressão nojenta só de ver.
— E aí, como ficou a proposta de casamento, Zabun?
— Recusaram por culpa do Claude. Um verdadeiro inútil.
— Ai, coitadinho. Belfast é um país de idiotas mesmo, não tem jeito. Bem que podia desaparecer do mapa.
Diante de uma conversa tão burra assim, a raiva nem consegue competir com o puro espanto. Existe gente assim mesmo, hein.
— Quando eu virar rei, vou fazer eles se arrependerem. Já chega, né, mãe? Nem precisa desse noivado pra eu herdar o trono.
— É mesmo. Vou falar com o Waldock sobre isso.
— Isso sim!
Como se já tivessem perdido todo interesse no Claude, os dois e o séquito foram embora arrastando os pés.
Não, em vários sentidos, essa mãe e filho não têm salvação. Completamente retorcidos. Não faço ideia do que o rei daqui pensou pra casar com aquela mulher-barril. Casamento político, ou será que têm alguma coisa comprometedora sobre ele?
— Luz, venha; cura tranquila: [Cure Heal].
Lancei magia de cura no príncipe Claude, e ele se levantou devagar, soltando um suspiro longo.
— Você tá bem?
— Sim… muito obrigado. Não dói mais em lugar nenhum.
A dor do corpo deve ter sumido, mas a dor do coração, essa não. Os punhos dele ainda tremiam, apertados. Será que ele recebe esse tipo de tratamento desde que se entende por gente. Acho quase um milagre que a mente desse segundo príncipe não tenha se distorcido de vez.
— Que príncipe idiota de dar dó.
— Este que vos fala quase sacou a espada várias vezes, decerto.
Só as vozes da Elsie e da Yae chegavam até mim. As duas com um tom carregado de raiva. Na real, eu também queria socar aquele cara, então entendo o sentimento.
— Mas aquela "coleira de escravização"…
— Meu irmão comprou de um mercador do Reino de Sandra. Mesmo que a escravidão seja proibida no nosso país.
Se um passo tivesse dado errado, a Sue podia ter virado escrava. Aquele desgraçado, só socar já não é o suficiente pra me satisfazer. Mas, antes disso.
Nos movemos pra trás de uma coluna e desfizemos o [Invisible]. Depois, travei o alvo na escrava de antes e ativei [Gate].
— A-ah…?
Ignorando ela, que entrava em pânico sem entender nada com o teletransporte repentino, puxei a coleira dela pra minha mão com [Apport].
Vendo a coleira aparecer na minha mão, ela levou a própria mão ao pescoço, e, ao confirmar que não tinha mais nada ali, começou a chorar copiosamente.
— Saiu… a coleira saiu…
Revelei minha identidade pra ela, agora livre, e a mandei de volta pra Brunhild com [Gate]. Expliquei rapidamente a situação pra Yumina e pedi pra ela cuidar do caso.
Pouco depois, o príncipe idiota e o séquito voltaram correndo, afobados, então lancei [Invisible] de novo pra sumir.
— Ei! Não veio nenhuma escrava minha por aqui não!?
— Não, não que eu saiba.
Diante da resposta do príncipe Claude, o Zabun estalou a língua e subiu correndo a escadaria do castelo com os dois do séquito. Cheguei a pensar em usar [Slip] pra derrubar o príncipe idiota do topo da escada, mas os passos dele pararam de repente.
— O que foi, príncipe Zabun?
— Waldock! Minha escrava sumiu! Desapareceu do nada!
No alto da escada, o Zabun se queixava pra um homem de uns 50 anos, vestido num manto longo preto. Waldock?
— Aquele ali é o primeiro-ministro Waldock.
O príncipe Claude murmurou baixinho, só pra nós ouvirmos. Waldock, é. Mas o rosto dele parece um buldogue. Bom, tem cara mesmo de quem trama alguma coisa suja.
— O senhor já tentou ordenar que ela voltasse?
— Tentei! Mas ela não volta!
— Então, mate-a. Uma escrava dessas não faz falta nenhuma. Se acharem o corpo, eu me encarrego de resolver.
Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o primeiro-ministro instigava o príncipe. Que tipo de sujeito é esse. Será mesmo que é assim que se sustenta um país, com um primeiro-ministro desses?
— Ah, droga! E eu ainda nem tinha começado a me divertir de verdade! Devia ter quebrado a perna dela pelo menos!
No mesmo instante em que o Zabun falou isso, a coleira na minha mão encolheu, ficando um tamanho menor. Se ela ainda estivesse presa no pescoço de alguém, com certeza teria morrido sufocada.
Diante da indiferença total desses caras com a vida alheia, senti uma raiva de verdade. Gente assim nunca deve nem ter imaginado como seria se fizessem com eles o mesmo que fazem com os outros. É essa falta de imaginação que se manifesta como crueldade fria com o próximo.
— Ora, príncipe Claude. Quando o senhor voltou de Belfast? A proposta de casamento se concretizou?
Do alto da escada, o primeiro-ministro Waldock percebeu nossa presença e nos chamou. Nem sequer uma reverência pro filho do próprio soberano dele. Uma atitude de desprezo evidente pro príncipe Claude.
— Não, infelizmente…
— Hmpf, bom, tudo bem. Aliás, é até melhor assim. Em breve, o senhor vai precisar ir até o Reino de Paruhu, ao norte.
— Pra Paruhu? Pra quê, exatamente…
Sem se importar em responder à pergunta do príncipe Claude, o primeiro-ministro Waldock sorriu com malícia, e, levando consigo o príncipe Zabun, ainda de mau humor, se afastou de nós.
Invoquei um camundongo do círculo de invocação e lancei [Invisible] nele, mandando seguir o primeiro-ministro. Aquele sorriso era de quem tramava alguma coisa. Meu instinto dizia pra investigar melhor.
Logo depois, através do camundongo que alcançou os dois, comecei a ouvir as vozes do Zabun e do Waldock.
"Waldock, dessa vez vai mandar o Claude de novo em missão pro Reino de Paruhu? Tem alguma princesa ou filha de nobre do meu gosto naquele país?"
"Não, não é uma missão de casamento, meu príncipe."
"Não é?"
"O príncipe Claude vai lá pra entregar uma declaração de guerra. Ao Reino de Paruhu."
Então era isso mesmo. Já sabia que esses dois estavam tramando alguma coisa suja.