Capítulo 142 – O Nascimento e o Nome
Eu já esperava que fosse por essa época, mas nunca imaginei que fosse acontecer numa hora dessas. De qualquer forma, teleportei o rei de Belfast, que já entrava em pânico, de volta pro castelo de Belfast com [Gate], e deixei o jogo por conta do duque. Bom, faltavam só mais dois outs ou uma virada de placar pro jogo acabar, mas não dava pra esperar.
Num dos quartos do palácio real, o parto já tinha começado, e nós não podíamos entrar. Eu até entendia isso, mas nem o próprio rei, marido dela, podia entrar — que rigor. Parece que é área proibida pra homens. Costume da família real, ou coisa de superstição de proteção, algo assim. Bom, mesmo que entrássemos, não teria nada que a gente pudesse fazer pra ajudar mesmo.
Por ora, decidimos esperar num quarto, dois cômodos de distância. Parece que era uma precaução pra não ouvir os sons, mas, de vez em quando, chegava até nós, abafado, o gemido de dor da rainha…
Deixando o rei andando de um lado pro outro no quarto, sem sossego, abri um [Gate] e chamei a Yumina e as outras. Afinal, pra Yumina também, era o nascimento de um irmão ou irmã.
A Yumina foi na hora até o quarto da rainha. As outras também foram ajudar. No fim, sobramos só eu e o rei de novo.
Já que ficar aqui parado não adiantava nada, deixei o Kohaku por perto pra qualquer aviso emergencial, e voltei um instante pra Brunhild.
O jogo terminou 3 a 2, vitória de Mismede. Mandei os jogadores de volta pros seus países, e também dispensei os reis. Todos ficaram bem preocupados com o nascimento, mas prometi mandar uma carta pelo Espelho-Gate assim que a criança nascesse em segurança, e eles voltaram.
Levando o duque Ortlinde e a Sue de volta ao castelo de Belfast, o bebê ainda não tinha nascido, e o rei continuava tão inquieto quanto antes.
— Tá demorando bastante, hein…
— Na hora da Yumina, foi rápido. Dessa vez parece que tá demorando um pouco mais…
Na prática, ainda não tinha passado nem uma hora, mas parecia muito mais tempo. Toda vez que ouvíamos, abafado, o gemido de dor da rainha, eu levava um sobressalto. Nesse tipo de momento, homem é mesmo completamente inútil…
Quer dizer, se fosse o nascimento do meu próprio filho, e aquela voz fosse da minha esposa, será que eu ia conseguir aguentar… não, espera aí. Se for como a doutora Babylon disse, isso significa que eu ainda vou passar por essa mesma experiência pelo menos mais nove vezes!?
— Nem consigo imaginar…
Enquanto observava o rei andando de um lado pro outro no quarto, fiquei ali, com o olhar meio vago, pensando se, daqui a alguns anos, eu também não ia passar por isso.
Enquanto pensava em quantas horas costuma durar um parto, e ia conectar o smartphone à internet pra pesquisar, chegou, fraquinho, um choro vigoroso: "uê, uê".
BAM! O rei saiu correndo do quarto. Nós corremos atrás dele, apressados, até a porta do quarto da rainha.
Naturalmente, nem o rei se atreveu a entrar de repente, e, esperando que alguém saísse de dentro, a porta se abriu e a Lindsey apareceu.
— …Nasceu. Um menino, cheio de energia. Mãe e filho, os dois, bem de saúde.
— Sério!? Sério mesmo!! Um menino!!
O rei entrou correndo, alegre. Achando que seria falta de educação ver a rainha logo depois de dar à luz, eu e o duque decidimos esperar no corredor.
— Um menino… um príncipe, é. Com isso, acabou de vez a chance de o senhor Touya virar rei deste país. Meio que dá pena, viu.
— Para com isso. Num dia tão feliz assim.
Eu sabia que o duque tava brincando, mas, sinceramente, senti mesmo um certo alívio. Com isso, tudo se resolve direitinho.
Logo depois, a porta se abriu, e o rei apareceu, segurando no colo o bebê envolto num pano branco puro.
— Olhem só! O herdeiro do nosso reino!
— Meus parabéns, irmão.
— Meus parabéns.
O bebê recém-nascido era todo enrugado, parecia até um macaquinho, pra falar a verdade. Mas que pequenininho. Parece que ia quebrar só de pegar no colo. Bom, esse aqui vai ser, tecnicamente, meu cunhado.
— E então, senhor Touya. Eu queria que o senhor fosse o padrinho e escolhesse o nome dessa criança. Tem alguma boa sugestão?
— Hã!? Eu!?
Falar assim do nada, viu… deixa eu pensar. A irmã mais velha é a Yumina, né. Hmm… ah.
— Que tal… Yamato?
— Yamato… Yamato, é. Yamato Ernes Belfast… hmm, não é ruim. Nada mal mesmo. Certo, esse aqui é o Yamato! O príncipe Yamato!
Na real, só peguei o nome da Yumina e subi uma letra na ordem do alfabeto silábico. Bom, mas, pensando no significado "Grande Harmonia", é um nome que soa forte mesmo. Acho que não é ruim. Talvez lembre um pouco o nome de um encouraçado, o que pode não ser um presságio muito bom, mas, sendo um mundo diferente, acho que não tem por que se preocupar com isso.
O rei ergueu bem alto o príncipe Yamato, expressando sua alegria.
— Uê… buáaaa…
— Aaah, aah, aah!
Assustado com a altura repentina, o príncipe começou a chorar ainda mais forte, e o rei, apressado, voltou correndo pra dentro do quarto, carregando-o. Comemorando animado demais, esse cara. Será que é assim mesmo que os pais ficam quando o filho nasce. Filho, viu, que coisa assustadora.
Logo depois, o anúncio do nascimento do príncipe foi feito.
A notícia, divulgada ao entardecer, se espalhou rapidamente pela cidade abaixo do castelo, e, à noite, a cidade se encheu de gente celebrando. Eu também mandei soltar uns fogos de artifício de comemoração (na prática, deixados cair de Babylon).
Ao mesmo tempo, foi anunciado também o noivado da princesa Yumina. O pretendente: o soberano de um país recém-fundado. Ou seja, eu. Isso também gerou um bocado de burburinho.
Pensando bem, um ex-aventureiro virar rei e desposar uma princesa parece ser um tipo de história de sucesso e tanto — na Guilda, anunciaram com pompa e circunstância, animando geral.
Além da Yumina, foi anunciado também o noivado com a princesa Lucia, terceira princesa imperial de Regulus. Provavelmente, do lado do Império também fizeram um anúncio parecido.
Com isso, acho que o povo passou a sentir na pele que Belfast e Regulus firmaram uma aliança profunda.
Fora essas duas, não teve anúncio pras outras, mas nenhuma delas pareceu se importar. Ah, só a Sue ficou meio emburrada.
Mesmo tendo reconhecido a Sue oficialmente como noiva, ainda não me sinto pronto pra trazê-la de vez pra morar em Brunhild. O duque e a senhora Ellen iam sentir falta dela demais.
Por isso, conectei com [Gate] o quarto da Sue na mansão Ortlinde ao novo quarto que preparei pra ela em Brunhild, permitindo que ela vá e volte livremente. É pra ela vir brincar quando quiser.
— Aah… que bom que nasceu tudo bem.
— Este que vos fala se emocionou um pouco, decerto…
Na sala de estar dada a todo mundo que acompanhou o nascimento do príncipe Yamato, todo mundo tava largado no sofá comprido, sem forças. A Yumina e a Sue não estavam ali, mas a Elsie, a Lindsey, a Yae e a Lu pareciam estar todas saboreando aquele alívio e alegria.
— …A gente também vai acabar tendo filho um dia, né?
Diante do murmúrio baixinho que a Lindsey soltou, todo mundo enrubesceu e desviou os olhos pra direções aleatórias. Que clima é esse. Até eu fiquei vermelho.
De qualquer forma, aquele dia foi uma grande festa que tomou conta da cidade inteira. Distribuíram bebida até do próprio palácio real, e todo mundo celebrou o nascimento do príncipe.
Cartas de parabéns pelo nascimento do príncipe chegaram de cada país pelo Espelho-Gate, e o rei ficou sorrindo bobo o tempo todo. Fiz um juramento silencioso de tomar cuidado pra não ficar assim quando chegasse minha vez.
Bom, o problema de Riinie tinha se resolvido, e o príncipe Yamato tinha nascido em Belfast — achei que finalmente as coisas iam se acalmar um pouco. Só que.
— Me chamo Fleur. Muito obrigada por me salvar, Vossa Majestade.
— Ah… não, não precisa se preocupar com isso.
Na minha frente, estava uma mulher de cabelo castanho-claro num corte chanel curto. Uns 20 anos de idade, talvez? Era a mulher escrava que eu libertei do Zabun. Pra falar a verdade, tinha esquecido dela completamente…
Andei tão atarefado nesse meio-tempo que a Fleur ficou hospedada no nosso castelo esse tempo todo, e só hoje finalmente consegui vê-la. Ou melhor, só hoje me lembrei dela.
— O Zabun foi mandado pras minas de Sandra como escravo-criminoso. Você já tá livre agora. Se quiser voltar pra sua terra natal, eu te levo, mas…
— Não, prefiro trabalhar aqui neste país mesmo. Minha terra natal já foi destruída por bandidos, não sobrou nada, e eu não quero voltar pra Riinie de jeito nenhum.
Bom, ela foi arrastada como escrava por aquele país inteiro, né. Mesmo com a troca de rei, talvez ainda traga lembranças ruins demais.
— Entendo… então, tem uma pousada de um conhecido meu na cidade abaixo do castelo, quer tentar trabalhar lá?
— Sim! Conto com sua ajuda!
Assim, expliquei a situação e consegui que a Fleur fosse contratada na pousada "Lua de Prata". A Mika-san aceitou na hora, sem pestanejar, o que me ajudou bastante.
Não que fosse exatamente um agradecimento, mas deixei também algumas poções especiais da "Ala de Alquimia" de presente. Podem ser necessárias, caso apareça alguém ferido.
— Como andam os clientes? Tá lucrando bem?
— Ah, bom, dá pra dizer que sim, lucrando. Quase não tem quarto vago. Como fica no meio da rota de comércio entre Belfast e Regulus, tem bastante viajante. Ah, por falar nisso, ouvi uma história esquisita.
— Uma história esquisita?
Na prática, essa filial da "Lua de Prata" em Brunhild funciona tanto como pousada quanto como base de coleta de informações. Quase todo o pessoal vem dos ex-ninjas Takeda, então também tem a função de vigiar e recolher informações sobre pessoas suspeitas e sobre o mundo em geral.
— Foi numa vila qualquer, ao sul da Federação de Lodmea. Dizem que apareceu uma fera mágica com corpo tipo cristal. Do tamanho de um urso, parece, com forma de louva-a-deus.
— …!
Phrase. Pelo tamanho, deve ser um Phrase de baixo escalão — mesmo tipo daquele grilo que a gente encontrou pela primeira vez.
— E aí, o que aconteceu com essa fera mágica?
— Parece que uma tropa de extermínio saiu da Guilda e derrotou. Mas a vila foi destruída, e a tropa também sofreu baixas consideráveis.
Derrotaram, então. Um Phrase de baixo escalão, bem, dá pra derrotar mesmo.
Mas os Phrase, pouco a pouco, começaram a aparecer neste mundo. Será que a barreira do mundo já não tá aguentando mais. O Ende não parece ter aparecido dessa vez — talvez ele simplesmente esteja ignorando os Phrase de baixo escalão de propósito.
— Preciso me apressar em várias coisas…
Pedi pra Mika-san cuidar bem da Fleur e abri um [Gate] rumo a "Babylon".