Capítulo 143 – A Ativação e o Teste de Funcionamento
— Então isso aqui é o líquido de Éter.
O que a Belflora me entregou era um líquido verde dentro de um tubo transparente, do tamanho de uma garrafa PET de 500ml. Parece com refrigerante de melão. Se tivesse gelo e sorvete boiando, eu bebia sem pensar duas vezes.
— Com um tubo desses, quanto tempo de funcionamento dá?
— Mais ou menos um mês, senhor.
— Isso é bastante tempo, hein… Achei que fosse durar uma ou duas horas.
Um consumo incrivelmente baixo, comparado a gasolina ou querosene. Não, pensando na origem da matéria-prima, é o contrário — o custo deve ser absurdamente alto.
— O líquido de Éter é chamado de "combustível", mas, na prática, é mais parecido com vaso sanguíneo ou nervo, em termos humanos, senhor. Funciona como uma espécie de catalisador que transmite a vontade e a reação do piloto até cada canto do corpo da máquina, senhor.
— Se é tipo vaso sanguíneo ou nervo, será que essa quantidade dá conta? Achei que precisaria de bem mais…
— Sem problema, senhor. Não é que exista de verdade um tubo dentro da máquina, circulando por todo o corpo dela, senhor.
Sinceramente, não entendi muito bem. Bom, seja Frame Gear ou qualquer outra coisa, no fim é uma ferramenta como outra qualquer. Dá pra usar sem entender a estrutura ou o sistema por dentro. Se quebrar, é só deixar com um especialista.
— E aí, quantos tubos já ficaram prontos?
— Por enquanto, só esse um, senhor. Mas, a partir de amanhã, vai sair um por dia, até completar dez no total, senhor. Se usar também a pedra mágica… o minério de Éter de reserva, dá pra fazer mais dez, senhor.
Dez Frame Gears, ou dez meses de operação, dependendo de como olhar. Por ora, vamos considerar isso suficiente.
Saí da "Ala de Alquimia" e, com o líquido de Éter recém-pronto em mãos, fui até o "Hangar", procurar a Monica.
Ela recebeu o tubo e abriu a blindagem traseira do Frame Gear de produção em massa, de nome "Chevalier", encaixando o tubo direto ali. Com um "pshiu" de ar saindo, o líquido verde de dentro começou a fluir.
— Beleza, com isso já dá pra ligar a qualquer momento, ô. Mas não vem ativar aqui não, viu, Mestre. Se cair aí dentro, meu precioso "Hangar" fica todo arranhado.
Quem foi que deu um golpe de chave inglesa nesse "precioso Hangar" mesmo?
De qualquer forma, é verdade que ativar aqui dentro seria arriscado. Melhor descer pro chão e fazer o teste de ativação dentro do território do Principado, mas como fazer isso?
Será que é problemático expor o Frame Gear diante de todo mundo? Não, talvez seja melhor divulgar mesmo, pensando numa eventual invasão de Phrase. Não gosto nem de pensar nisso, mas, se acontecer uma grande invasão, Brunhild sozinha tem limite. Vai precisar, sem falta, da cooperação de todos os países.
Por ora, ainda não pretendo revelar a existência dos Phrase, pra não gerar confusão desnecessária, mas acho que dá pra revelar que o Frame Gear existe de verdade. Afinal, isso também é um tipo de artefato. Não é estranho que exista.
O problema seria algum país indesejado tentar se meter, querendo colocar as mãos num Frame Gear…
Mas acho que os países da Aliança do Oeste não vão fazer nada disso. Devem saber muito bem que tipo de retaliação viria em troca. No máximo, devem pedir pra dar uma volta montado nele.
Bom, e se algum outro país fora da Aliança tentar se meter, vai levar uma bela lição. Normalmente fica guardado em Babylon mesmo, então não corre risco de roubo.
Certo, vamos descer pro chão e fazer o teste de ativação. Não que eu esteja escondendo, mas, por ora, vamos fazer a apresentação só dentro da nossa própria Ordem de Cavaleiros.
— Vossa Majestade… isso é…
— Uaaah! É de verdade! Um Frame Gear de verdade! O senhor construiu isso, Vossa Majestade!?
— Isso não é ilusão, é…?
De boca aberta, olhando pra cima, encarando o Chevalier em pé na planície do Principado, estavam a capitã e as vice-capitãs da Ordem de Cavaleiros. Misturados aos outros cavaleiros, igualmente sem palavras, dava até pra ver alguns moradores do país. Bom, é algo que chama atenção mesmo.
— Ei, ei, que negócio é esse… Isso anda? Isso aí?
— É isso que a gente vai testar agora, né. Mas, moleque, você fez uma coisa e tanto, hein…
O senhor Yamagata e o velho Baba murmuravam, olhando pra cima pro Chevalier com a mesma cara de espanto de todo mundo. Na verdade, eu não construí — mas, como sempre ando fazendo várias coisas com [Modeling] e afins, parece que acabaram achando que essa também era feitura minha. Bom, não pretendo corrigir.
《A Yae tá pronta? Kōgyoku》
《Sim, tudo certo. Ela diz que pode ir a qualquer momento.》
No Chevalier, estavam embarcadas a Yae e a Kōgyoku. Como não tem rádio comunicador, chamei a Kōgyoku também pra ir junto. Convocar um novo familiar só pra essa função também não fazia muito sentido.
Preciso pedir também pra Rosetta criar um dispositivo de comunicação entre unidades e um alto-falante externo. Vou pedir pra ela depois.
《Certo, então, Chevalier, ativar!》
Com um som tipo "vuuum", de algo girando, luzes surgiram em várias partes do corpo da máquina. Deve ser tipo ligar o interruptor. Um vento morno saía pela fresta entre as pernas e o tórax.
Aos poucos, o Chevalier ergueu a perna direita devagar e deu um passo pesado à frente, com um "bum" surdo.
— Andou…
Não sei quem soltou essa fala, mas ela representava exatamente o sentimento de todo mundo ali.
Mais um passo, o Chevalier avançava. Andou alguns passos naquele mesmo ritmo, fez a volta e voltou na nossa direção.
Girou de novo nos calcanhares, agora andando um pouco mais rápido, e voltou de novo. A cada passo, um "bum" pesado se transmitia pelo chão até os nossos pés.
《Certo, os movimentos das pernas tão bons assim. Agora tenta mexer a parte de cima do corpo.》
Seguindo minha ordem, o Chevalier parou e sacou devagar a espada equipada na cintura. Ergueu numa posição alta, desceu num golpe, varreu de lado, executando uma sequência de movimentos de espada, um atrás do outro. Certo, parece que não tem problema.
O motivo de eu ter escolhido a Yae como piloto de teste foi porque ela tem a menor quantidade de energia mágica entre todo mundo. Se até ela consegue mover livremente, o resto também consegue.
Aí, no meio da demonstração de esgrima, o Chevalier perdeu o equilíbrio e caiu de lado. Um impacto ainda maior se transmitiu do chão até nós.
《Yae! Kōgyoku! Vocês estão bem!?》
《Aai, ai… Estamos bem, decerto. O impacto foi bem mais suave do que eu esperava. Mesmo caindo de um jeito tão espalhafatoso, só bati o cotovelo meio sem querer, decerto.》
A voz da Yae chegava até mim através da Kōgyoku. Que bom, então tá tudo bem. Aliás, a Rosetta tinha comentado que, ao ativar o Frame Gear, várias camadas de barreira mágica protegem a área do cockpit, amortecendo até certo ponto o impacto. Então um choque desses não é nada.
O Chevalier se levantou de novo e veio andando na nossa direção. Não parece ter nenhuma parte danificada ou afundada na blindagem. Bastante resistente, hein.
O Chevalier parou bem na nossa frente. A blindagem do tórax se abriu pra cima, e, quando a Yae e a Kōgyoku apareceram lá de dentro, um grito de festa quase ensurdecedor subiu do pessoal da Ordem de Cavaleiros. Uou, que susto!
A Yae acenava, respondendo. Desce logo daí, ué.
— Como foi?
Perguntei pra Yae, que finalmente desceu, o que ela tinha achado de pilotar.
— Foi mais fácil de mexer do que eu imaginava, decerto. Achei que fosse balançar bem mais, mas nem tanto assim. Não foi muito diferente do Frame Unit, decerto.
Entendi. Será que essa função de absorver impacto ao redor do cockpit também reduz o balanço ao andar. Se for isso, até a Lindsey, que enjoa em navio, deve ficar tranquila.
Enquanto eu pensava nisso, ouvi de novo o som de ativação "vuuum" do Frame Gear, e, quando me virei, o Chevalier já tava se movendo de novo.
— Quê! Quem é!?
— Desculpa, minha irmã foi sem pedir licença…
A Lindsey se desculpava, meio encabulada. A Elsie, é! Desde quando… Droga, a próxima vez era minha, com certeza!
Meu sonho de garoto de toda a vida, pilotar um robô gigante, foi roubado de mim. No começo eu cedi a vez pra Yae porque queria ver de perto como ele se movia e por causa da questão da energia mágica, mas eu não tinha intenção nenhuma de ceder o segundo lugar!
Batendo o pé no chão, de raiva, eu observava o Chevalier já disparando em corrida desde o início. Aah, poxa! Que movimento bom, viu!
Fazendo golpes de soco e chute, jeito de lutadora marcial, pulando e fazendo manobras acrobáticas, tudo sem esforço algum. Impressionante, esse tal de Frame Gear.
Por fim, satisfeita, ela voltou até nós, e a Elsie pulou de dentro do Chevalier assim que a blindagem do tórax se abriu.
— Aai, que delícia! Dá pra mover exatamente como eu penso. Valeu a pena treinar no Frame Unit.
— Que bom mesmo! Quer dizer, você não tinha dito que a próxima era minha!?
— Não seja chato. Fica mais tranquilo aí parado. Você não é o rei?
— Fala fácil. Você sabe muito bem o quanto eu queria pilotar isso. Furar fila não se faz!
Ah, é, lembrei de uma vez, tempos atrás, numa fila de ônibus, uma senhora que fingiu só estar olhando o horário e foi entrando de lado pro ônibus. Aquilo foi péssimo. Será que não tem vergonha nenhuma? Furar fila não se faz, até criança de jardim de infância sabe disso.
Enquanto essa lembrança ruim me voltava à mente, ouvi de novo o som de ativação "vuuum" do Chevalier! Uééé!?
— Pe-pera, quem é agora!?
Me virei, e o Chevalier já andava de novo. Como assim!? Eu ainda nem entrei!
— Quem tá pilotando isso!? Quem é!?
— A Norn-dono disse "agora sou eu", decerto.
A Yae, pega de surpresa pela minha pergunta repentina, respondeu meio hesitante. Grr! Aquela lobinha! Vice-capitã e nada de sossego!
Percebi, de repente, que todo mundo já tinha formado uma fila. Quê!? Isso é a fila pra pilotar!? E a minha vez!?
Depois de ter berrado "furar fila não se faz", não dá pra empurrar todo mundo da fila só porque sou o rei…! Grrrr…!
Mas, se eu for pro final da fila, sei muito bem que todo mundo vai ceder a vez pra mim por educação. Isso também é vergonhoso demais! Ia parecer que eu tava insistindo pra isso!
Hoje só resta desistir mesmo… aah, droga.
Por que que deu nisso.