Capítulo 144 – A Mestra da Guilda e a Fera Gigante
Bom, desde que apresentei o Frame Gear, a taxa de uso do simulador exclusivo na sala de recreação, o Frame Unit, ficou numa coisa absurda.
Claro que essa sala só é liberada depois que termina o cronograma de treino da Ordem de Cavaleiros, ou nos dias de folga — ou seja, na prática, o pessoal treina no exercício normal da Ordem e, na sequência, ainda treina Frame Gear.
Cheguei a pensar que, se esse mundo tivesse uma lei trabalhista, isso ia dar problema. Bom, mas todo mundo faz isso por conta própria, não é que eu tô obrigando ninguém.
Tinha gente como o velho Baba ou o senhor Naitō que não se interessavam muito, e, afinal, isso ainda tá na fase de brincadeira mesmo. O Frame Gear também não é bem propriedade do país — é mais coisa pessoal minha, então, por ora, não tenho intenção nenhuma de fazer nada demais com isso.
Enquanto não aparecer um Phrase de escalão médio ou superior, o Frame Gear não tem vez de entrar em ação mesmo.
Foi o que eu pensei. Só que.
— É a primeira vez que tenho a honra de conhecê-lo, Vossa Majestade, soberano de Brunhild. Sou uma das responsáveis gerais da Guilda dos Aventureiros, Relisha Millian.
A mulher que se curvou na sala de audiências parecia ter uns 20 anos. Pele branca alva, cabelo dourado comprido, manto num verde pastel bem claro, com uma espada fina de prata na cintura.
Tinha traços de rosto bem definidos, mas o que chamou minha atenção não foi a beleza dela. Foram as orelhas — longas e pontudas.
— É a primeira vez que vê um elfo?
— Ah, não, desculpa.
Diante do sorriso gentil dela, acabei me desculpando sem querer. Então é elfo mesmo. Então tem elfo nesse mundo também.
Pelo pouco que sei de fantasia, elfo devia ser uma raça de vida longa que mora na floresta, boa em arco e magia. Só que não sei se esse conhecimento vale exatamente nesse mundo.
Talvez a idade dela também não corresponda à aparência, igual à Leen, do povo das fadas.
— Todos na nossa Guilda de Aventureiros sentem orgulho de que um dos poucos aventureiros de rank prata tenha se tornado rei.
— Não, foi só uma coincidência, nada de mais…
Hmm, que sensação estranha. Sinto como se estivesse sendo avaliado, meio que medido. Não que seja desagradável, mas.
— E, bom, qual seria o assunto de hoje?
— Sim. Vim pedir permissão pra estabelecer uma filial da nossa Guilda de Aventureiros aqui no Principado de Brunhild.
— Ah? Mas por essas bandas quase não tem fera mágica nenhuma, sabia?
Bom, caçamos tudo até secar na fundação do país. Já faz um tempo desde então, então talvez algumas tenham vindo de fora, mas.
— Com todo respeito, mas o extermínio de feras mágicas não é o único trabalho da Guilda. A essência da Guilda é receber pedidos do dia a dia de cidadãos em dificuldade e intermediar com aventureiros.
— Entendi.
Ah, é verdade mesmo. Não é só caça, tem também pedidos de tarefas variadas. Não chega a ser tipo bico de meio período, mas ajuda quem tá com dificuldade, e é bem-vindo pra quem quer ganhar uma grana.
Comparado com trabalho de caça, o pagamento é menor, então talvez seja difícil viver só de aventureiro morando aqui no país, mas.
— Entendido. Acho que não tem problema nenhum. Sobre o local de construção, pode combinar com o nosso Naitō.
— Muito obrigada. E, além disso, tem mais um pedido.
Hã? Mais um? A mestra elfa da Guilda, curvada, abriu um sorriso calmo e continuou.
— É um pedido da Guilda pro senhor, Mochizuki Touya, aventureiro rank prata. Gostaríamos de pedir a caça de uma fera gigante.
— Fera gigante!?
Antes mesmo de mim, o Kōsaka-san, parado ao lado do trono, soltou uma exclamação de surpresa. O que é isso? Sem entender, perguntei pro Kōsaka-san.
— O que é uma "fera gigante"?
— Como o próprio nome diz, é uma fera mágica de tamanho colossal. Às vezes chamada de espécie mutante — raramente, aparece um indivíduo muito maior que o normal da espécie. Dizem que o tamanho pode chegar ao de uma mansão grande.
Que isso. Isso é praticamente um kaijū. Existe mesmo esse tipo de coisa? Sendo espécie mutante, parece que não aparece com tanta frequência.
— Normalmente, essas feras gigantes são identificadas como perigo ainda no processo de crescimento e acabam sendo abatidas. Mas, raramente, algumas crescem escondidas em locais fora do alcance da vista humana — regiões inóspitas, montanhas escarpadas, mar profundo — e chegam a se tornar adultas.
A Relisha-san explicou isso. De fato, uma fera mágica desse tamanho ia chamar atenção na certa. Esse mundo não parece ter uma população muito densa, então devem existir regiões fora do alcance de olhos humanos à vontade.
— Seria ótimo se elas simplesmente vivessem escondidas para sempre nesses locais inóspitos, mas algumas acabam vindo até vilarejos e cidades. Nesses casos, é preciso mobilizar o país inteiro pra abatê-las. Claro, mesmo conseguindo vencer, o dano é enorme, e o prejuízo, incalculável.
— E essa fera gigante apareceu, é isso?
— Sim. O local é o Grande Mar de Árvores. Segundo informação de observadores, essa fera gigante está indo direto pro leste, e deve sair, em breve, no Reino de Lyle. No caminho dela, há a cidade de Tem, que, se as coisas continuarem assim, será completamente destruída.

Estão me pedindo pra abater isso. Bom, entendo que é uma emergência, mas.
— Por que esse pedido vem justamente pra mim?
— Ouvimos dizer que Vossa Majestade possui um cavaleiro gigantesco. Achamos que, com esse poder, talvez conseguisse abater até uma fera gigante.
Hmm. Então já sabem do Frame Gear. Já que resolvi tornar público, achei que alguém fosse entrar em contato, mas nunca imaginei que fosse justamente a Guilda a primeira.
Bom, e agora, o que fazer? Poderia recusar esse pedido, mas, se a alternativa for uma cidade inteira sendo destruída, fica difícil me sentir à vontade pra recusar.
— Esse pedido veio do próprio Reino de Lyle?
— Sim. Dizem que a recompensa será bastante generosa.
— Exibir mapa. Região ao redor do Reino de Lyle. Buscar: fera gigante.
"Entendido. Exibindo mapa, senhor."
Um mapa surgiu flutuando na minha frente, e um pino caiu num único ponto. Nunca vi uma fera gigante de verdade, mas, já que deu pra localizar com a busca, deve ter uma aparência bem reconhecível.
O Reino de Lyle fica a sudeste da Teocracia de Ramish. Parece que a fera realmente está indo em direção a essa cidade de Tem.
Pode ser uma boa oportunidade pra testar o desempenho do Frame Gear, mas o que fazer… ah.
— Desculpa. Sobre a recompensa, eu queria pedir um adicional.
— …Do que se trata?
A Relisha-san, ainda buscando algo mais no mapa, perguntou desconfiada.
— É que eu gostaria de permissão pra escavar em três pontos dentro do território do Reino de Lyle. Se pudesse ficar com a pedra mágica enterrada ali.
— Isso, acho que deve dar pra conseguir permissão sem problema, mas vou confirmar com o lado de lá, só por garantia. Poderia me dar um instante?
Hã? Confirmar como, exatamente? A Relisha-san tirou de dentro do manto uma placa preta fina, do tamanho de um B6, e começou a escrever algo com uma caneta. Logo depois, a placa brilhou fraco por um instante e apagou.
— O que é isso?
— É um artefato chamado "Livro de Mensagens". O que se escreve aqui chega até outro "Livro de Mensagens" idêntico, mesmo estando bem distante. Nossa Guilda usa isso pra trocar pedidos e informações. Só que é item raro, então só pessoas de certo cargo o possuem.
Ah, é tipo e-mail. É até mais prático que meu Espelho-Gate, já que dá pra escrever direto. Sendo item raro, deve ser porque não existe em muita quantidade.
Em termos de não poder ser produzido em massa, dá pra dizer que o Espelho-Gate leva vantagem, mas só eu consigo fazer um Espelho-Gate. Provavelmente, na época da civilização antiga, trocavam informações assim mesmo.
Espera aí. Se é algo tão comum assim, será que a Rosetta não consegue fazer um também? Depois pergunto pra ela.
Como ia demorar um pouco, pedi pra Relisha-san se mudar da sala de audiências pra sala de visitas. Provavelmente, a Guilda do Reino de Lyle deve estar entrando em contato com o palácio real de lá. Enquanto isso, resolvi perguntar mais sobre a fera gigante.
— Como é a aparência dessa fera gigante?
— Resumindo, é um escorpião de duas caudas. Chamamos de Scorpinas. Isso vale pra toda fera gigante, na verdade: por causa do porte enorme, os movimentos não são muito rápidos. Mas o golpe das garras é poderoso, e da ponta da cauda ela dispara veneno.
Veneno, é. Lembro que disseram que o cockpit do Frame Gear tem algum tipo de campo de proteção, mas é melhor levar um escudo também.
Chamei o senhor Naitō pra combinar a construção da Guilda. É bom ter aventureiros se reunindo, mas, se for bem no centro da cidade, pode gerar algum tipo de confusão, então decidimos construir um pouco afastado, a oeste.
Parece que a taverna licenciada pela Guilda também vai ser construída ao lado. Bom, já que bêbado pode causar algum tumulto, decidi montar também um posto da Ordem de Cavaleiros ali perto.
Enquanto discutíamos isso, o "Livro de Mensagens" ao lado da Relisha-san emitiu uma luz fraca, e letras luminosas apareceram nele.
— Parece que a permissão foi concedida. Sobre a pedra mágica extraída desses locais, disseram que abrem mão da posse — pode ficar livre, sem problema. Claro, isso é além da recompensa pelo abate. A Guilda também servirá de testemunha desse acordo.
Ótimo. Com isso, dá pra produzir mais um pouco de líquido de Éter. Cheguei a pensar em usar [Modeling] pra fundir pedras mágicas pequenas numa maior e gravar o entalhe mágico nela, mas não deu certo. Parece que, mesmo pedras mágicas da mesma cor, têm sutilezas diferentes, e, ao fundir, o fluxo de energia mágica não flui direito.
Fiquei pensando bobamente numa coisa tipo: por mais que você junte carne moída, dá pra fazer hambúrguer, mas não dá pra fazer bife.
— Então, vou aceitar o pedido. Parto pra lá o quanto antes.
— Conto com sua ajuda.
Depois de me despedir da Relisha-san, voei até Babylon e pedi pra Shesca correr até a fera gigante que se aproxima do Reino de Lyle. Considerando os imprevistos possíveis, é melhor levar a própria Babylon junto.
Daí, fui direto pro "Hangar".
Passei pela garagem onde fica o cavaleiro pesado cinza, o Chevalier, e entrei na garagem ao lado. Lá estava um cavaleiro negro, equipado com escudo e maça.
Um pouco maior que o Chevalier, com o detalhe marcante de grandes ombreiras com espinhos. É a unidade de comando, o "Knight Baron". Chama atenção também um único chifre saindo da testa. Isso não vinha de fábrica — fui eu que adicionei. Afinal, já que chamam de "unidade de comando"…
Segundo a Rosetta, tem 1,5 vezes a potência do Chevalier. Número meio sem graça, esse. Será que, se eu pintar de vermelho, não fica tipo três vezes mais forte?
— Hã? O que foi, Mestre? Parece que a Babylon andou se mexendo, ô.
No ombro do "Knight Baron", a Monica, que ajustava alguma coisa, olhou pra baixo, na minha direção.
— Monica, dá pra tirar o "Knight Baron" pra fora?
— Ah, o ajuste já tá feito, sem problema, ô. Líquido de Éter também já injetei nele, viu.
Beleza. Então vamos ter o primeiro combate de verdade com esse aqui contra a fera gigante. Queria mesmo testar o desempenho dele.
Ah, será que o material da fera gigante serve pra alguma coisa? Sendo escorpião, deve dar pra fazer equipamento de proteção. Deve render um bom dinheiro se vender. Já que esse trabalho é feito como aventureiro, o pagamento vira dinheiro do meu próprio bolso — então vale a pena caprichar.