Capítulo 145 – O Escorpião e o Pedido de Cooperação
Voando com Babylon sobre o espaço aéreo da Teocracia de Ramish, nos aproximamos do Grande Mar de Árvores. Logo, logo, deve dar pra chegar no local onde está aquela fera gigante.
— Rosetta, já instalou o comunicador?
— Perfeito, senhor. Dá pra mandar sinal pra Babylon e pros outros modelos também, senhor, e tem canal privado também, senhor. O alto-falante externo também tá instalado, senhor.
Fechei a escotilha da blindagem do tórax e ajustei o canal pro 3. Isso deve conectar com o receptor da Monica, que fica do lado de fora.
— Consegue me ouvir, Monica?
— Consigo, Mestre. Perfeito.
Na tela frontal, a Monica acenava bem grande. A voz dela também chega até mim sem problema, parece bom.
Bom, dessa vez, já que é meio teste de desempenho também, decidi ir sozinho, então não preciso me comunicar com outra unidade.
— Mestre. Estamos no espaço aéreo sobre o destino, senhor. O alvo atravessou o Grande Mar de Árvores logo à frente e entrou no ermo do Reino de Lyle, senhor. Por favor, ultrapasse o alvo e desça na frente dele.
— Falow.
A voz da Shesca ecoou dentro do cockpit. Conferi os monitores e instrumentos, e ativei o interruptor de partida, mandando energia mágica pra cada um dos atuadores.
Com um som de ativação "vuuum", o cavaleiro negro despertou.
Seguindo a orientação da Monica na tela, coloquei o Knight Baron no elevador dentro do "Hangar". Com um barulho de "clank, clank", o elevador desceu pro subsolo do "Hangar".
Naquelas animações, teria alguém gritando "vou partir!" e usando alguma catapulta de lançamento, mas, infelizmente, isso aqui não é o espaço, e o Knight Baron não tem função de voo.
De um jeito bem sem graça, saltei mesmo pelo saída térrea do subsolo do "Hangar" direto pro chão. Mesmo sendo voo baixo, é bem alto. Fiquei um pouco assustado, mas isso fica em segredo.
No meio da descida, acionei os propulsores das pernas e das costas, ativando a magia de modo descida, que reduz a velocidade da queda. Isso não é a mesma magia que [Levitation]?
Aterrissei no chão. O impacto foi menor do que eu imaginava. Aliás, pra voltar pra Babylon, parece que eles puxam de volta com um cabo. Não dava pra ter pensado num jeito melhor não? Bom, dá pra fazer com [Gate] mesmo.
Bem em frente ao terreno onde aterrissei, vi o escorpião de duas caudas se aproximando. Ele é grande mesmo.
Se considerarmos que o Frame Gear tem o mesmo tamanho que um humano, o corpo cor de bronze avermelhado dá pra dois ônibus grandes emendados.
Comparado ao corpo achatado, as duas garras são ridiculamente enormes. Se levar um golpe daquilo, até o Frame Gear deve sair voando longe. E, se ficar preso na garra, também parece bem perigoso.
— Bom, aqui é melhor tomar a iniciativa.
Segurei firme de novo a maça na mão direita e reajustei o escudo na esquerda. Fiz o cavaleiro negro correr na direção do Scorpinas.
Percebendo minha presença, as duas caudas da fera gigante se voltaram na minha direção. Da ponta delas, disparou um líquido de cor roxa venenosa, como um jato de esguicho.
Mas, como eu já sabia disso de antemão, sem me apressar, aparei o jato com o escudo na mão esquerda.
— "Quem se previne não chora", que nada… uéééé!?
Do escudo, que absorveu o veneno, subia fumaça, borbulhando. Ei, espera, isso tá derretendo!?
Isso não é veneno, é ácido forte! Droga, se levar mais alguns jatos desses, o escudo vai acabar sumindo.
Por sorte, o outro lado não é muito ágil. Contornei pro lado direito dele e desferi um golpe forte de maça, mirando uma das caudas.
Um som de "crac" veio, e uma rachadura se abriu na cauda. Que dura!?
Peraí, escorpião é parente de aranha, não devia ter uma carapaça dura como lagosta ou camarão!? Será que o escorpião desse mundo é diferente!?
Enquanto eu me surpreendia com a dureza absurda, um golpe da garra, disparado com o corpo girando, atingiu o cavaleiro negro.
— Perigo!
Desviando disso, desci a maça de cima na cabeça do escorpião, que vinha de frente. "Gang!" — mais duro ainda que da última vez, mas, sendo golpe na cabeça, ele perdeu um pouco o equilíbrio. Tentei aproveitar pra encadear o ataque, mas, de novo, disparou veneno (ácido, na verdade) das caudas.
— Ugh.
Bloqueei de novo com o escudo, mas isso não aguenta muitas vezes. Num instante em que minha visão ficou bloqueada pelo escudo, a garra do escorpião se esticou, e, sem querer, acabei aparando ela também com o escudo.
— Droga…
A garra do escorpião prendeu firme o escudo do cavaleiro negro, e, sentindo o perigo, larguei o escudo na hora.
"Crac!" — o escudo já meio derretido foi esmagado sem esforço. Que perigo!
— Preciso ir com tudo, então. Monica, largar o martelo de guerra.
— Beleza, largando o martelo de guerra, ô!
Um martelo negro grande caiu do céu. Desviando dos ataques da fera gigante, joguei a maça fora e segurei o martelo com as duas mãos.
— Sincronização de energia mágica. Liberar primeiro slot.
Liguei o interruptor ao lado do manete de controle, sincronizando e amplificando minha energia mágica, mandando-a das duas mãos do cavaleiro negro pro martelo de guerra.
— [Gravity]
Aliviando o peso do martelo, ergui ele com facilidade, tomei impulso e saltei em direção ao escorpião. E, no momento de descer o golpe, dessa vez apliquei o efeito contrário: várias vezes o peso normal no martelo.
BUUUM! Com um estrondo que sacudiu o chão, o Scorpinas recebeu o golpe do martelo de guerra e foi esmagado. As entranhas se espalharam, e o corpo se rasgou ao meio. Argh, que nojo.
— Uhuu. Mandou bem, Mestre.
Chegou essa mensagem da Monica. Deu mais trabalho do que eu esperava. Talvez fosse mesmo um adversário pra enfrentar com dois ou três de uma vez. E ainda estraguei o escudo. A Rosetta deve me encher o saco por isso. Bom, pelo menos venci, então tá valendo.
Mas será que eu exagerei um pouco…? Será que dá pra vender isso como material? Olhando pra baixo, pro corpo destroçado da fera gigante, soltei um suspiro.
— Isso sim… nunca imaginei que fosse derrotar tão rápido assim.
Usei [Gate] pra trazer a Relisha-san até o local onde derrotei o Scorpinas. Foi porque eu não sabia qual parte do corpo dele servia como comprovante do abate.
Normalmente, pedido de extermínio de fera gigante não costuma ser dado a um indivíduo só, então não tinha designação específica de parte pra comprovar, mas, no caso da espécie de origem dele, o Scorpione, seria a garra.
Por ora, sendo a mestra da guilda a testemunha, não devia ter problema. Chamada pela Relisha-san via "Livro de Mensagens", uma funcionária da guilda da cidade de Tem veio avaliar o Scorpinas, e concordou em comprar tudo. Deixei o esfolamento e o resto por conta deles. É trabalhoso, e, sinceramente, dá um certo nojo de mexer.
— Então, isto aqui.
— Oh.
O cartão da guilda que eu tinha entregado antes pra Relisha-san voltou dourado. Bonito, mas chamativo.
— Este é o cartão de rank mais alto, classe ouro. Atualmente, só possuem esse cartão Vossa Majestade e o ex-rei do Reino de Cavaleiros de Lestia.
— Reino de Cavaleiros de Lestia?
— É um país de cavaleiros ao leste daqui, do Reino de Lyle.
Ah, então existe um país desses. Sendo rank ouro, deve ser bem forte mesmo. Rei-cavaleiro, é. Sendo "ex-rei", já deve estar aposentado, então talvez seja alguém de idade avançada.
Aliás, no meu cartão de guilda já tinham os três títulos "Dragon Slayer", "Golem Buster" e "Demons Killer", com os respectivos símbolos, mas, dessa vez, parece que não vem nenhum. Bom, essa missão em si nem é do tipo que se dá a um indivíduo específico, então não tem jeito mesmo. Se não fosse pelo Frame Gear, a Relisha-san nem teria pensado em me contratar. Bom, também, "Caçador de Feras Gigantes" tem um som meio ruim mesmo.
— Mas… que artefato assustador. Com esse poder, seria fácil até invadir outro país.
A Relisha-san murmurou, olhando pro cavaleiro negro ao lado da fera gigante. Hmm, parece que ela tá encarando isso como uma ameaça mesmo.
— Isso aqui se chama "Frame Gear". É um artefato criado por uma doutora genial (pervertida, mas genial) do reino antigo, feito pra proteger este mundo.
— …Proteger o mundo?
— A mestra da guilda deve saber, não deve? Sobre aqueles monstros de cristal de identidade desconhecida, avistados recentemente em várias partes do mundo.
— !
O rosto da Relisha-san se enrijeceu. Ela sabe com certeza. Existem guildas de aventureiros espalhadas pelo mundo inteiro. E existe esse item de comunicação, o "Livro de Mensagens". Não tem como ela não saber.
— …De fato, chegam relatos de várias filiais. Monstros de cristal que não são afetados por espada nem magia, com capacidade de regeneração. Vilarejos pequenos e grupos de mercenários já foram dizimados; o dano já tá ficando considerável.
— O nome desse monstro é Phrase. É a criatura que destruiu a civilização antiga que existia neste mundo, há muito tempo.
— O quê!?
A Relisha-san congelou, com uma expressão de espanto. Ainda queria evitar o pânico geral por causa dos Phrase, mas a capacidade de coleta de informações das guildas ao redor do mundo é útil demais. É melhor revelar um certo nível de informação e garantir a cooperação delas.
— A barreira do mundo… invasores de outra dimensão… Se não fosse pelo relato dos monstros de cristal, eu teria ignorado isso como bobagem.
A Relisha-san murmurou baixinho, depois de ouvir minha explicação resumida. Claro que deixei de fora Babylon e o núcleo do "Rei" dos Phrase. Mesmo assim, parece que ela decidiu acreditar. Na prática, já existe dano real causado pelos Phrase, e é um problema que precisa ser levado a sério.
— Não sei se, daqui pra frente, vai haver uma grande invasão dos Phrase. Mas, se não tivermos meio de resistência, seremos simplesmente esmagados. Foi por isso que ressuscitei o Frame Gear.
Bom, também tinha o desejo de só querer pilotar mesmo.
De qualquer forma, acho que, contra Phrase de escalão médio pra cima, só o Frame Gear consegue enfrentar. E, se ainda existirem Phrase de escalão superior acima disso, nem um esquadrão inteiro de Frame Gear tem garantia de vencer. Melhor fazer tudo que for possível, por precaução.
Afinal, não tem como saber quanto tempo de preparo ainda resta.
Depois de observar o cavaleiro negro por um tempo, a Relisha-san finalmente se virou pra mim e falou.
— Entendido. Vou repassar sobre os Phrase pra sede da guilda, e vamos tentar reunir o máximo de informação possível pra fornecer a Vossa Majestade.
— Muito obrigado. Só peço que, quanto à possibilidade de uma grande invasão, mantenham em sigilo por enquanto, já que ainda é algo incerto.
— Entendido. Também não temos intenção de gerar caos no mundo sem necessidade. Vamos manter isso restrito à cúpula da guilda.
Com a capacidade de coleta de informação da guilda, se algo estranho acontecer, devem me avisar rápido. Bom, prefiro muito não ter que ouvir esse tipo de relato.
Combinei de receber o pagamento da missão e o valor da venda do material tudo junto, depois. A Relisha-san ficou por lá pra cuidar do restante do processo, então usei [Gate] pra levar o cavaleiro negro de volta ao "Hangar", e depois usei [Fly] pra voar até os locais onde tinha permissão de escavação, extraindo, uma atrás da outra, pedras mágicas gigantes. Nesse país, eram três: azul, verde e amarela. Com isso, o líquido de Éter vai aumentar, e a produção em massa do Frame Gear vai avançar ainda mais.
Guardei as pedras mágicas gigantes no [Storage] e abri um [Gate] de volta pra Babylon.