Capítulo 146 – O Novo Modelo e as Pessoas que Trabalham
Seguindo com a produção em massa do Frame Gear e do líquido de Éter, nada muda de repente do nada, e o cotidiano de sempre continua.
Alguns dias depois, a Guilda pagou a recompensa pelo abate da fera gigante e o valor da venda do material. Sinceramente, foi uma quantia e tanto. Por ora, não tenho uso definido pra isso, então vou guardar com cuidado.
— Mestre. Ontem foi bem agitado, hein.
— Bom, não tem jeito. Era uma ocasião festiva.
Respondi rindo pra Shesca enquanto ela me servia chá. Ontem foi realizado, em Belfast, o casamento do Lion-san, do primeiro esquadrão de cavaleiros de Belfast, com a Olga-san, ex-embaixadora de Mismede.
Emprestei a sala de recreação daqui pra segunda festa, mas, com a bebida das comemorações rolando solta, virou uma farra e tanto.
Falaram que teve gritaria, canto, um alvoroço daqueles. "Falaram", porque eu mesmo não presenciei a cena. Achei que, se o rei de outro país aparecesse, os outros convidados iam ficar tensos demais pra curtir de verdade — foi um gesto de consideração da minha parte. Mas parece que se divertiram à vontade mesmo assim.
Dessa vez, o arranjo foi feito não como rei, mas como amigo mesmo, mas, poxa, dá uma pena. Devia ter ido disfarçado. Enquanto isso, o pessoal da nossa Ordem de Cavaleiros participou numa boa. Bom, tudo bem, já que serviu pra estreitar os laços de amizade entre as duas Ordens. Afinal, aquela sala foi feita exatamente pra esse tipo de coisa.
Depois que a segunda festa terminou, teletransportei com [Gate], a pedido dos recém-casados, tanto os bêbados de porre quanto os convidados de volta pra casa nova deles em Belfast. Será que fiz bem? Sendo lua de mel dos dois… né.
— O evento erótico da noite de núpcias foi cancelado, senhor.
— Cuidado com o vocabulário, viu.
Respondi com olhar torto ao comentário da Shesca, tomando um gole de chá. Essa criada tarada continua sensível demais a esse tipo de assunto.
— Do evento de "combinação" do Mestre, quero muito assistir, e, se possível, participar. Rubor.
— Vou te dar um soco.
Não fica corando de propósito assim. Que sem-vergonhice. O chá pareceu ficar ainda mais amargo por causa dessa cabeça-rosa de sempre. Não dá pra levar essa mulher a sério.
Usei [Gate] e fui até o "Hangar". Espiando na garagem do Knight Baron, a Rosetta e a Monica estavam ali, com a blindagem dos dois braços removida, resmungando alguma coisa.
— O que houve?
— "O que houve" nada, ô, Mestre. Os dois braços do Knight Baron já tão bem desgastados.
Hã? Depois de só um combate? Mas os braços não deviam ter recebido dano nenhum.
— Isso aqui não é dano de combate, senhor. É o uso de [Gravity]… ou melhor, é a carga da própria magia do Mestre, senhor.
— Hã?
— Falando sem rodeio, a energia mágica é forte demais, ô. A energia mágica do Mestre é de pureza tão alta que acaba amplificando demais. E as peças do Knight Baron não aguentam isso.
Como assim isso. Quer dizer que não consigo pilotar com toda a força, então?
— Tanto o cavaleiro pesado quanto o cavaleiro negro são modelos antigos de Frame Gear, senhor… Se fosse um modelo novo, isso já devia estar corrigido, senhor.
— Modelo novo?
— É um modelo que o doutor só deixou no projeto, viu. A estrutura base, chamada de "Bone Frame", vem em vários tipos: pra combate corpo a corpo, apoio de longo alcance, alta mobilidade. Junto com isso, dá pra acrescentar uma variedade enorme de blindagem e equipamento, permitindo customizar pro nível individual de cada piloto, ô. E, além disso, dizem que nem precisa de líquido de Éter. Só que ficou só no projeto mesmo, nenhuma unidade chegou a ser construída, viu.
Isso é incrível, hein. Quer dizer que dá pra fazer uma máquina sob medida pra cada pessoa? Tipo um sistema modular de troca de peças. Que desperdício. Bem que podiam ter construído pelo menos uma unidade.
— A propósito, e esse tal de projeto, onde tá…
— No "Depósito", ô.
Imaginei. E, pelo que ouvi falar, a administradora do "Depósito" parece ser bem desastrada. Será que esse projeto sobreviveu intacto durante 5000 anos? Já que ela deixou até várias coisas espalhadas pelo mundo sem querer.
Será que não foi queimado sem querer em algum acidente… dá até medo de pensar.
— De qualquer forma, por ora, tá proibido o Mestre usar magia dentro do Frame Gear.
— Ééé?
— Se continuar quebrando desse jeito, a gente não aguenta, senhor. Ainda mais tendo só dois técnicos de manutenção, senhor.
Ugh. Isso dói de ouvir. A produção do Frame Gear em si já é automática pela "Oficina", mas o conserto depende só das duas. Espera aí?
— Então por que não fazem logo outro cavaleiro negro do zero?
— …Quer que a gente jogue de novo, do zero, o material inteiro pra fazer um Frame Gear? Isso não é meio esbanjador demais?
— Ah, não, é, tipo, se a gente jogar essa unidade quebrada de volta pra "Oficina"…
— Se jogar essa unidade na "Oficina" como material, todo o histórico de combate acumulado e os dados de sincronia com o piloto são zerados de vez, senhor. O senhor acha que dá pra lutar pra sempre com uma máquina level 1 que nunca cresce?
As duas me encararam com um olhar tremendamente gelado. Ué, pisei em alguma mina?
— Então e se só transferisse os dados pra unidade nova…
— Quem faz essa entrada de dados somos a gente, viu? Isso ainda seria aceitável se fosse uma memória rica de experiência, mas você tá pedindo pra gente gastar um tempo absurdo só pra transferir dados de uma unidade que só subiu pro nível 2?
— E, além do mais, trocar peça também exige ajuste, conexão, até restaurar o circuito de energia mágica, tudo isso, viu? E o senhor quer que a gente faça tudo isso de novo toda vez que o Mestre quebrar a máquina? Fácil falar quando não se sabe de nada, hein.
Perigo. Os olhos das duas foram descendo abaixo de zero. No fim, era uma pressão silenciosa de "não quebra". Se fosse dano de combate, tudo bem, mas o recado era: não pilote de um jeito que quebre a máquina de propósito.
Fugi discretamente antes que ficasse pior.
De fato, tô deixando tudo na mão das duas mesmo. Se alguém que nem entende direito a estrutura do Frame Gear fica dando palpite de fora, deve mesmo irritar. Dar opinião com o bom senso do Japão moderno não leva a nada de bom.
Melhor não chegar perto do "Hangar" por um tempo. Longe dos olhos, longe do coração, como dizem.
Como sobrou um tempo livre, resolvi dar uma volta pelo país, já que fazia tempo que não fazia isso. Na zona agrícola do leste, já tinham vários arrozais e plantações, e as plantas pareciam estar crescendo bem.
— Ah, não é Vossa Majestade?
Chamado de repente, me virei, e lá estava uma mulher.
Mulher, sim, mas não uma mulher comum. Cabelo verde tipo jade, enfeite de flor no cabelo, saia parecendo pétalas, e algo tipo folhas em forma de asas saindo das costas, além de vinhas enroladas por todo o corpo. Ela não é humana. É uma Alraune.
Uma das cinco demônios de raças variadas que se juntaram à nossa Ordem de Cavaleiros.
— Ahn, é a Rakushe, né?
— Sim. Sou a Rakushe, Alraune, membro da Ordem de Cavaleiros.
Ela abriu um sorriso largo e fez uma continência. Ei, não é policial, sabia.
— Por que Vossa Majestade tá por aqui?
— Ah, não, só uma vistoria. E você, Rakushe?
— Hoje é meu dia de folga, então vim ajudar aqui na plantação.
Ah, que aplicada. Alraune é um demônio do tipo planta. Deve ter jeito mesmo pra esse tipo de trabalho agrícola.
— Como tá a vida aqui no país? Já se acostumou?
— Sim. Todo mundo é gentil. Recebo bastante ajuda. De vez em quando algum viajante se assusta comigo, mas não é nada demais.
Ainda existe muito preconceito com os demônios, e às vezes eles são evitados como seres indesejáveis. Mesmo assim, poucos chegam a atacar, porque os demônios têm habilidades muito mais poderosas que os humanos.
Por isso, naturalmente, as pessoas acabam evitando. Em regiões bem afastadas, dizem, ainda existe a crença absurda de que só de tocar num demônio já recebe uma maldição. Que bobagem.
— A Rakushe veio do país dos demônios?
— Sim. Fica bem longe, atravessando o mar a nordeste daqui. É um país chamado Zenoas. É um ambiente rigoroso, mas, sendo demônio, isso não é problema.
O país dos demônios, o Reino do Rei Demônio Zenoas. Só de escrever assim já soa tipo país do mal tentando dominar o mundo, mas, na prática, parece ser um país normal.
Como a maioria da população é de demônios, praticamente não tem intercâmbio com os países humanos. Não é bem uma política de isolamento nacional, mas parece que não têm muito interesse em se relacionar ativamente com outros países — dá até pra chamar de estado de isolamento. Por causa disso, é um país cujos assuntos internos pouca gente conhece.
Quem governa esse país é uma figura chamada Rei Demônio, junto com assessores chamados de "Quatro Reis Celestiais" — o que reforça ainda mais essa imagem sinistra. Mas, segundo a Rakushe, é um país perfeitamente normal.
Na minha impressão, demônios e humanos não parecem ter uma relação assim tão ruim. Acho que é só uma parte dos humanos que tem medo demais, sem necessidade. Se convivessem normalmente, dava pra ficar amigos numa boa.
Bom, também dá pra dizer que os próprios demônios, por não tentarem ativamente se relacionar com humanos, têm sua parcela de culpa nisso. Mais do que aversão a humanos, parece mesmo timidez.
— Este país tem uma natureza rica e maravilhosa. Acho que fiz bem em ter coragem de entrar pra Ordem de Cavaleiros.
— Fico feliz de ouvir isso. Continue contando comigo daqui pra frente também.
— Sim!
Pra não atrapalhar o trabalho na plantação, me despedi da Rakushe e voltei em direção à cidade. No canteiro de obras da construção da Guilda, avistei outro demônio, dessa vez diferente.
Corpo de quase três metros, pele marrom-avermelhada, braços grossos como troncos de árvore, e dois chifres saindo do cabelo branco. É um Ogro.
Estava sem camisa, carregando vigas de madeira usadas na construção. Carregava quase cinco vezes mais que um trabalhador comum. Impressionante, essa força toda.
— Ah, Vossa Majestade. Boa tarde.
— E aí, Zamza. Também tá de folga hoje?
— Sim. Como eu como umas três vezes mais que uma pessoa normal, falei que só o salário não é suficiente, aí o senhor Naitō disse que, se eu ajudar aqui, sempre me deixa comer até fartar.
O Zamza, o Ogro, riu abertamente. Entendi, gente certa no lugar certo. Que força, hein. Fazendo o trabalho de várias pessoas sozinho, o custo da comida sai baratinho.
O Zamza, mesmo com toda essa força, não é bem feito pro combate. Melhor dizer que "a personalidade dele" não é feita pro combate. Não sei bem explicar, mas parece que ele tem um certo medo de lutar.
Pode parecer fatal pra um cavaleiro, mas o trabalho da Ordem não é só coisa violenta, e tem muita coisa que ele pode fazer de útil pro povo.
De fato, a força dele já ajudou todo mundo enormemente.
— Se esforça. Isso aqui é um mimo. Quando terminar, comam juntos.
Tirei do [Storage] a carne de dois javalis gigantes que abati tempos atrás e deixei no chão do canteiro de obras.
— Uaaah. Muito obrigado. Vou me esforçar mais ainda.
O Zamza abriu um sorriso enorme e voltou a carregar as vigas, uma atrás da outra. Que sujeito fácil de agradar. Deve ter várias dificuldades por causa desse corpo enorme, imagino. Nem deve conseguir entrar em certas lojas. Mas ele não parece se importar muito com isso.
Preciso tornar esse país ainda mais habitável pra todo mundo. O que será que falta. Escola, talvez? Não posso negligenciar a educação das crianças.
Observando as crianças correndo pra casa apressadas no entardecer, fui voltando pro castelo, pensando no que esse país ainda precisa.