Capítulo 147 – O Projeto do Trem e a Coleta de Material
— Uaaah! Que incrível! Tá voando de verdade!
— Ei, ei, Vossa Majestade! É magia!? Isso é magia!?
— Não é magia não. Isso é sustentação por… bom, é a força do vento que faz voar.
Não é bem isso, tecnicamente, mas. Puxando a linha na minha mão, fui soltando a pipa devagar, deixando-a subir cada vez mais. As crianças observavam, com os olhos brilhando, a pipa subindo pro alto do céu.
Entreguei a pipa pra um deles e fui fazendo, uma atrás da outra, novas pipas pras outras crianças que olhavam com inveja.
Assim que ensinei o truque de como soltar, todo mundo já começou a manejar a pipa com destreza.
Fazendo esse tipo de coisa, sempre fico esperando que apareça, do nada, o comerciante Olba-san, mas dessa vez não vi sinal dele em lugar nenhum. Bom, ele não pode estar em todo canto o tempo todo mesmo.
Só tomando cuidado pra linha não enroscar, me sentei na sombra de uma árvore. Aqui é um lugar afastado da cidade, então, mesmo soltando pipa, não atrapalho ninguém.
Que paz. Seria ótimo se dias tranquilos assim continuassem pra sempre.
A Rosetta e a Monica estão consertando o cavaleiro negro quebrado. Minha sugestão de simplesmente trocar a máquina inteira por uma nova foi rejeitada, afinal.
Parece que, continuando a usar a mesma unidade, o desempenho de movimento e a velocidade de resposta à energia mágica vão aumentando. Acumulando experiência assim, depois, quando trocar pro modelo novo, dá pra transplantar esses dados.
Só que transferir esses dados leva uma semana inteira. Durante esse tempo, a produção em massa da "Oficina" fica parada, e, se toda vez que eu quebro a máquina tiver que passar por isso, dá um trabalho desnecessário enorme. Conserto normal é muito mais fácil.
Bom, mas isso não quer dizer que eu possa quebrar as coisas despreocupadamente também.
É tipo quebrar um console de videogame toda vez que liga ele.
Se, toda vez, precisasse comprar um console novo junto com a memória, o jogo sempre voltaria pro início; e, se só tirasse a memória e colocasse num console novo, o troço não ligaria durante uma semana inteira.
Se existisse tecnologia pra consertar avaria, faria sentido consertar por conta própria. Só que, nesse caso, o problema é que essa habilidade não é minha, e depende de outra pessoa. Se toda vez que quebra fico dizendo "conserta aí" sem me preocupar, é claro que a pessoa vai ficar brava.
Bem que podia ser tão fácil quanto copiar memória de videogame.
Segundo a Rosetta, na verdade, ela nem gosta muito de transferir memória assim. Perguntei por quê, e ela me deu uma resposta meio confusa: mesmo transplantando o cérebro de um espadachim bem treinado pro corpo de um mago fraco, isso não faz dele automaticamente um espadachim de primeira. Só que, tendo a "experiência" de um espadachim excelente, não é totalmente desperdiçado, ao que parece.
Será que quer dizer que, mesmo transferindo a memória, se for pra uma máquina diferente — ainda que do mesmo modelo —, leva tempo pra se ajustar direito.
Aliás, lembrei de um mangá que li há tempos, com um inimigo que trocava de corpo, mas que, por não estar acostumado ao corpo novo, não conseguia extrair a força de verdade e acabava perdendo fácil.
— Acho que, no fim, tudo é questão de equilíbrio mesmo, né.
Experiência do piloto, experiência da máquina. Seria bom se desse pra saber, tipo videogame, quanto falta pra subir de nível.
Será que não existe alguma magia que mostre parâmetros assim? Bom, uma coisa tão conveniente assim não deve existir. Isso já ia virar mundo de videogame de vez. Se algo assim existisse, eu ia até desconfiar da própria existência desse mundo.
No fim, o gargalo mesmo é ter poucos técnicos de manutenção… Se resolvesse isso, dava até pra fazer combates simulados e acumular experiência.
Perguntei pra Rosetta e as outras se não tinha jeito de resolver isso, e me disseram que existe um tipo de golem autônomo em miniatura que faz reparo automático. E, aliás, parece que tem uma quantidade razoável deles.
— Se tem isso, o problema tá resolvido, ué. E aí, onde tá isso?
— No "Depósito".
— Grrrr!
Guardam absolutamente tudo lá, viu… Aquela doutora não parecia tão organizada assim, mas.
Enquanto eu pensava vagamente nessas coisas sem solução, ouvi de algum lugar uma voz me chamando.
— Touya-san!
— Touya-sama!
— Yumina? A Lu também?
Enquanto me levantava, sacudindo a terra da calça, fui abraçado pelos dois lados de uma vez.
As duas se tornaram oficialmente minhas noivas com o caso de agora há pouco. Sendo reconhecidas socialmente, e sem mais nada a esconder de ninguém, andam se grudando demais em mim. Sinceramente, é meio constrangedor, mas não consigo dizer pra elas se afastarem, então deixo assim mesmo.
— Fiquei imaginando onde você tinha ido, e vi aquilo lá. Tive certeza absoluta de que você estaria aqui.
A Lu apontou pra pipa lá no alto do céu. Faz sentido. Só eu mesmo pra fazer esse tipo de coisa.
— Ficar brincando com crianças, deixando a gente de lado desse jeito. Touya-san devia cuidar melhor das próprias esposas.
— Ainda não são minhas esposas, viu…
— Já consideramos que somos, sabia? O Touya-sama e eu somos como pássaros de asas unidas, galhos entrelaçados… ah? Nesse caso talvez não se aplique bem, né?
Bom, né. Asas e galhos, tem de sobra. Rindo sem jeito pra Lu, que inclinava a cabeça, veio, vindo do outro lado, uma caravana de comércio puxando vários carroções.
Em fileira, os carroções atravessaram bem na nossa frente, seguindo direção a Belfast.
Os comerciantes montados nos carroções olhavam pra cima, curiosos, pras pipas que as crianças soltavam. Que falta de tino comercial. Devia ser feito nem que fosse o Olba-san, aproveitando a chance de negócio na hora.
— É uma caravana de Regulus. Olha, tem soldado de escolta no final da fila.
— Mesmo assim, tem bastante carroça, hein. O que será que estão transportando?
Se tem escolta, deve ser mercadoria de luxo. Móvel fino, obra de arte, esse tipo de coisa. Esse tipo de transporte comum de material deve dar trabalho e tanto. No meu caso, como tenho [Gate], nunca tive esse tipo de dificuldade. Aliás, se eu usasse [Gate] pra fazer entrega tipo transportadora, devia dar um bom dinheiro. Só que ficaria limitado a lugares onde eu já tenha ido antes.
Seria conveniente ter caminhão. Dá pra transportar carga de uma vez só. Não, se for isso, trem de carga seria ainda melhor…
— Trem…?
— Touya-san?
Trem… trem, é! Se conseguir puxar trilhos, não ia ser super conveniente? Uma locomotiva a vapor, se pedir pra Rosetta, ela deve conseguir fazer… não, mas será que trem é perigoso demais nesse mundo?
Alguém pode acabar pulando no trilho sem saber, pode ter assalto de trem, também pode colocar pedra no trilho ou destruir o trilho.
Hmm, se eu for ficar pensando em cada detalhe desses, nunca vou conseguir fazer nada. Sempre acabo pensando demais em "segurança". Depois de já ter feito Frame Gear, é meio tarde pra isso, mas.
Ugh. Acho melhor congelar essa ideia repentina de trem por enquanto. Aliás…
— Ai ai ai ai!
— …Por que você tá pensando em outra coisa? Deixando a gente de lado desse jeito.
Enquanto eu me concentrava nos meus pensamentos, a Yumina beliscou minha lateral. Não precisava beliscar, né.
《Amo, está me ouvindo?》
《Hã? É o Kohaku?》
Enquanto esfregava a lateral beliscada, chegou uma telepatia. Achando que eu tinha parado por estar pensando de novo, a Yumina fez cara de emburrada, mas balancei as mãos, indicando "não, não é isso".
— O que foi? Aconteceu alguma coisa?
Respondi em voz alta de propósito, pra indicar às duas que eu estava em telepatia.
《Mestre, é a Rosetta, senhor. O oricalco usado na produção em massa do Frame Gear acabou, e precisamos de reposição, senhor…》
A voz da Rosetta chegava através do Kohaku. Oricalco, é. Será que a quantidade conseguida com o Olba-san já se esgotou. Não tem jeito, vou conseguir mais em algum lugar.
— Entendi. Vou providenciar isso daqui.
《Conto com o senhor, muito obrigada.》
— Aconteceu alguma coisa?
Ao encerrar a telepatia, a Lu perguntou, curiosa.
— É um pedido de oricalco da Rosetta. Bom, onde será que consigo isso…
— Se for numa mina, acho que dá pra comprar algum. Mas provavelmente não vai ser o suficiente.
— Oricalco é metal raro, né. O preço deve sair bem alto também.
Não que não dê pra comprar. Com o dinheiro que ganhei recentemente na caça da fera gigante, dá. Mas, pensando no futuro, prefiro economizar. Ainda tenho um pouco de mithril sobrando. Ah.
— Será que existe golem de oricalco?
Achando que, se existisse algo tipo o golem de mithril, daria pra recolher tudo de uma vez, perguntei pras duas.
— Golem de oricalco? Nunca ouvi falar…
— Eu também não. Mas não seria estranho se existisse.
Hmm. Será que não existe uma coisa conveniente assim?
Bom, vamos abrir o mapa e tentar buscar. Nunca vi um, mas, se existe um golem de oricalco, deve ser um golem inteiro feito de oricalco reluzente. Dá pra reconhecer na hora.
— Busca. Golem de oricalco.
"Iniciando busca… concluída."
No mapa que projetei, vários pinos caíram, tec-tec-tec.
— …Tem bastante, hein.
— Tem mesmo…
Fiquei um pouco surpreso com a quantidade inesperada de pinos. Esse mundo é vasto mesmo. Bom, olhando bem, eram todos em lugares tipo montanhas altas ou vales profundos, onde ninguém mora. Devem viver em lugares assim justamente pra não serem vistos.
— Bom, então vou dar uma passadinha pra caçar uns quantos.
— Ah, então a gente também…
— Não, sozinho já dá. É lugar onde nunca fui, então vou usar [Fly] pra voar até lá.
Ao ouvir "[Fly]", as duas ficaram caladas na hora. Será que odeiam tanto assim?
Por ora, mandei as duas de volta pro castelo com [Gate] e abri o mapa de novo.
— Hmm, nessa posição, o mais próximo de um lugar onde já fui é aqui… Ishen.
Fica nas montanhas um pouco a oeste de Oedo, em Ishen. Ishen parece mesmo com o arquipélago japonês, e será que isso ali não é o Monte Fuji?
Daqui, dá pra voar rapidinho a partir de Oedo. Certo, vamos lá.
Se conseguir bastante oricalco, quem sabe não faço, um dia, um Frame Gear todo dourado. Cavaleiro dourado, tipo assim? Será que fica chamativo demais?