Capítulo 157 – A Invasão de Eurono e a Vila de Quint
— Eurono começou uma guerra?
— Sim. Declarou guerra ao Reino de Hanok, o país vizinho, e já iniciou a invasão.
Diante do relatório da Tsubaki-san, tirei o smartphone do bolso e projetei no ar um mapa da região ao redor de Eurono.

O Reino de Hanok fica… ali, a oeste de Eurono, fazendo fronteira com o Império de Regulus também, separado por um rio. Um país bem alongado na horizontal.
— Exibir busca. Exército de Eurono em vermelho, exército de Hanok em azul.
"Entendido. Exibindo."
Ah, apareceu. Quer dizer que dá pra diferenciar assim mesmo.
Minha magia de busca depende bastante da aparência externa como informação. Como no caso dos assaltantes mascarados, se trocarem de roupa e descartarem a máscara, não tem como buscar. Cidades e vilas, essas dá pra buscar normalmente.
Nem a própria máscara apareceu na busca — será que a destruíram por completo? Bom, se existia risco de identificação a partir dela, faz sentido que tenham feito isso.
No mapa, bem adentrado no lado de Hanok, a partir da fronteira, dois acampamentos estavam montados, frente a frente. E, indo em direção ao acampamento de Eurono, havia mais um outro exército de Eurono — será um destacamento de suprimentos?
Parece que a guerra está avançando com vantagem pra Eurono.
— Qual é a causa da guerra?
— Segundo o argumento do lado de Eurono, o território de Hanok era, originalmente, parte de Eurono. Colonos que chegaram depois se instalaram ali com atrevimento e chegaram a fundar um país por conta própria — então estariam apenas tentando reaver o que é deles… é isso que alegam.
— …Como assim, "é isso que alegam"?
— Porque é só o que dizem. Afirmam ser o Império Celestial de Eurono, próspero desde a época da civilização antiga, com 7000 anos de história — história essa transmitida de geração em geração, oralmente.
7000 anos de história, hein. Impressionante. Se não me engano, até o Egito tinha uns 5000 anos.
Entendi, então estão tentando reaver a terra dos ancestrais. Até dá pra entender o sentimento, mas já tem outro país ali, com pessoas vivendo suas vidas. Deixaram largado esse tempo todo, e agora vêm com essa? É a impressão que dá.
Mas, tradição oral, é? Fiquei curioso com isso, então chamei a Shesca, que estava no quarto, e perguntei baixinho.
— Na época da civilização antiga, 5000 anos atrás, já existia um país chamado Eurono?
— Não. Nunca ouvi falar de um país assim. Além disso, aquela região ficou completamente inabitável depois da grande invasão dos Phrase.
Ah, essa não. Parece que essa história dos "7000 anos de Eurono" também é bem duvidosa. História costuma ser reescrita conforme convém aos poderosos, então não é raro isso acontecer.
Sendo assim, também fica meio duvidosa a alegação de que o território de Hanok era originalmente de Eurono. Não, não acho que o povo de Eurono esteja mentindo de propósito — se te ensinaram isso por milhares de anos, você acaba acreditando mesmo.
— Parece que Eurono vem arrumando pretextos de todo tipo pra provocar a guerra. Hanok, nos últimos anos, descobriu novas jazidas de oricalco e mithril, e a economia melhorou bastante com esses recursos. Suspeito que o objetivo real seja isso.
Uma guerra de invasão pura e simples. Do ponto de vista de Eurono, isso deve ser exatamente uma montanha de tesouros.
Será que o ataque de dias atrás, mirando o Frame Gear, tinha essa relação? Pretendiam usar em guerra, pra esmagar o adversário com poder esmagador… roubar tecnologia de outro país pra lucrar com isso.
— Hmm, é a primeira vez que passo por uma guerra assim. Como será que isso vai terminar?
— Em termos de força militar, Eurono leva vantagem. Se a guerra continuar assim, é bem possível que Hanok seja destruído. Com os recursos minerais, talvez consigam levantar algum poderio bélico com esse dinheiro, mas a diferença numérica é grande demais.
Se Hanok cair, Eurono vai ficar bem na vizinhança de Regulus. Isso não é nada bom.
Não é como se já estivesse confirmado que os invasores de dias atrás eram de Eurono, mas não consigo ter boa impressão desse país. Deve ser preconceito meu.
— O Reino de Hanok tem alguma relação com o Império de Regulus?
— Não chega a ser aliança formal, mas acho que são países amistosos. Em relação a essa guerra, acho que não vão intervir ativamente, mas talvez ofereçam apoio em suprimentos e armamentos.
Hmm. Nesse caso, a guerra deve se prolongar um pouco mais? Mesmo assim, no final, a chance de Eurono vencer continua alta.
Bom, é guerra entre outros países. Não tem nada a ver com a gente… seria bom se conseguisse pensar assim, mas não é tão fácil.
Deve morrer um monte de gente… Não pretendo bancar um humanismo barato, mas também não consigo simplesmente aceitar que "gente que não tem nada a ver comigo, morrer não importa quantos".
Se der pra salvar, quero salvar, mas isso também talvez não passe de complexo de herói, ou hipocrisia mesmo.
Aliás, lembrei que meu avô, já falecido, dizia: "hipócrita, e daí! O que não pode é virar só um espectador desinteressado, rindo à toa!" E também: "só assistir sem fazer nada é a mesma coisa que ser macaco."
…Hmm. Não quero virar macaco, não.
— Aliás, tem alguém na nossa Ordem de Cavaleiros que seja natural de Eurono ou Hanok?
— De Eurono, acho que não tem ninguém. De Hanok, acho que tem uma pessoa.
— Será que dá pra chamar essa pessoa? Queria conversar um pouco.
— Entendido.
A Tsubaki-san saiu do quarto. Se é de Hanok, talvez tenha pais ou irmãos na terra natal. Se for perto do campo de batalha, talvez seja melhor trazê-los pra cá.
— Cavaleiro Paolo, da Ordem de Cavaleiros, apresentando-se!
O cavaleiro convocado se ajoelhou no local e curvou a cabeça. Um rapaz de cabelo castanho curto. Já vi ele algumas vezes. Se não me engano, não era exatamente excelente de espada, mas era extremamente ágil nos movimentos. Trabalhador dedicado — se não me engano, é um dos que a vice-capitã Nicola-san estima bastante.
Originalmente, era aventureiro, e se candidatou depois de ver o recrutamento da nossa Ordem.
— Paolo-san, ouvi dizer que você é natural do Reino de Hanok. De onde exatamente é sua terra natal?
— Hã…? Ah, sim, a vila de Quint, numa região afastada no leste, mas por que…
Vila de Quint, é. Chamei o mapa e exibi a vila.
Isso é ruim… o exército de Eurono tá se aproximando. Será que pretendem tomar aqui e usar como base? Pra chegar até a capital de Hanok, fica bem longe da estrada principal, mas o destacamento que avança pra lá parece ser separado da força principal. Será alguma tática de pinça?
Mesmo sendo país inimigo, não acho que vão massacrar todo mundo… mas, sem dúvida, vão confiscar suprimentos. Não sei se vão pedir com calma ou tomar à força.
— Ahn… o que exatamente…?
O Paolo-san me observava com expressão ansiosa, enquanto eu encarava o mapa projetado. Alternando o olhar entre o mapa e eu, confirmei a localização da terra natal dele.
— A informação ainda não deve ter chegado até lá, mas… Eurono invadiu Hanok.
— O quê disse!?
O Paolo-san se levantou sem perceber. No rosto dele, dava pra ver espanto, urgência e ansiedade estampados.
— Aqui é a vila de Quint, de Hanok. E essa luz vermelha é o exército de Eurono. Provavelmente devem chegar na vila amanhã mesmo…
— Não pode ser…
O Paolo-san encarava a luz do mapa, atônito.
— Se os moradores não resistirem, não acho que o exército de Eurono faça algo tão terrível assim…
— …Não. Provavelmente, todos os homens da vila serão mortos, as mulheres viram objeto de abuso e escravizadas…
— O quê…!
Ei, ei, isso é exército de um país, não é? Isso não é diferente de bando de bandidos. Por que fariam algo assim?
— O exército de Eurono permite pilhagem por parte dos soldados quando invadem um país inimigo. Podem tomar pra si dinheiro, mulheres, armas e armaduras dos soldados inimigos. Por causa disso, o moral das tropas é alto, e obedecem sem reclamar mesmo às invasões mais brutais.
Que absurdo é esse. Fazendo isso, vão só acumular ódio da população local. Mesmo que a terra vá virar deles no futuro, de que adianta gerar tanto rancor ali?
— Há 20 anos, entre Eurono e Hanok existia um pequeno país chamado Zaram, mas foi destruído por Eurono. Dizem que, naquela época, também houve uma pilhagem terrível.
Fico com dúvida se, mesmo sendo guerra, precisaria chegar a esse ponto.
Segundo a Tsubaki-san, Eurono tem um sistema de castas rigoroso, com uma diferença abissal de tratamento entre os eurono nativos e os "outros", ou seja, gente de países invadidos.
Assim como o Reino de Sandra, Eurono também tem sistema de escravidão. Parece que não usam algo como a "coleira de escravização", mas marcam a pele com tatuagem indicando o dono.
— Provavelmente, a vila de Quint também vai ser arrasada como Zaram foi… Droga… Vossa Majestade! Pelo seu poder, imploro, por favor, salve Quint!
O Paolo-san se ajoelhou de novo e curvou a cabeça, implorando.
— Tudo bem.
— Sei que é um pedido atrevido demais! Mas, por favor! Por favor, considere…! …hã?
O Paolo-san ergueu o rosto pra mim, de boca aberta.
— Falei que tudo bem. Aliás, chamei o Paolo-san justamente pra falar sobre isso.
De início, minha ideia era que, sendo natural de Hanok, ele deveria ter família na terra natal. Antes de a guerra se espalhar até lá, propor evacuar pelo menos a família pra cá. Nunca imaginei que a própria vila já estivesse em situação de perigo tão imediato assim.
— Não sei se, mesmo indo até a vila e explicando, vão acreditar em mim. Vou te pedir pra ir junto até a vila de Quint agora. Tudo bem?
— S-sim! Com todo prazer!
O Paolo-san se levantou animado, e usei [Recall] pra ler a memória dele sobre a vila de Quint, conectando com [Gate].
Por ora, nós três — eu, o Paolo-san e a Tsubaki-san — saltamos até a vila de Quint.
Diante de mim, se estendia a paisagem típica de uma vilazinha pequena, envolta num clima pacífico e bucólico.
— Essa é a vila de Quint mesmo?
— S-sim. É a vila onde cresci. Isso é magia de teletransporte… incrível, num instante…
O Paolo-san, ainda atônito, mostrava um alívio no rosto ao ver que a terra natal ainda estava intacta.
Enquanto olhávamos ao redor, parados na entrada da vila, um jovem com cara de fazendeiro se aproximou por trás e nos chamou.
— Paolo? É o Paolo!?
— Você… o Lento!? Nossa, quanto tempo!
O Paolo-san correu na direção do jovem fazendeiro. Parece que se conhecem, ou melhor, são amigos.
— O que é essa roupa, cara? Roubou de algum morto na estrada?
— Idiota, isso é a armadura da Ordem de Cavaleiros do Principado de Brunhild! Não roubei, é minha mesmo! Hoje em dia eu sou cavaleiro, viu!
— O QUÊ!?
O Paolo-san exibia com orgulho a armadura de mithril reluzente prateada. Deve ser porque tá falando com um amigo — o jeito de falar do Paolo-san foi ficando mais informal. De "eu" formal pra "eu" mais casual.
— Você sempre foi rápido pra fugir, desde criança. Foi por isso que te contrataram?
— Bom, mais ou menos isso. Ah, essa não é hora pra essa conversa! Você já sabe que Eurono e Hanok entraram em guerra!?
Diante da fala do Paolo-san, o rosto do fazendeiro Lento, até então alegre, escureceu num instante.
— Sei, sim, todo mundo tá com medo. Aqui é bem longe da estrada principal, então achei que estivesse seguro, mas, se a capital cair e formos anexados por Eurono, não vamos mais conseguir viver como antes…
— Não é só a capital! Justo agora, o exército de Eurono tá avançando bem em direção a esta vila! Devem chegar amanhã mesmo!
— Quê…! Impossível! Por que precisariam atacar uma vila tão pequena assim! Aqui não tem nem dinheiro nem alimento suficiente pra isso…!
De fato, o exército que se aproxima daqui deve ser mesmo um destacamento separado. Fazendo algum tipo de manobra estratégica — talvez, enquanto a força principal se enfrenta na estrada, dar a volta por trás. Algo desse tipo.
— De qualquer forma, deixa eu falar com o chefe da vila. Sua Majestade vai ajudar a salvar a vila.
— Sua Majestade? Que Sua Majestade?
— Sua Majestade aqui presente, o soberano do Principado de Brunhild!
— Ah, oi.
Apresentado com um gesto exagerado do Paolo-san, não consegui pensar em nenhuma resposta elegante, tão de repente assim. Acabei fazendo só um aceno de cabeça casual.
O fazendeiro Lento piscou os olhos, surpreso, e olhou pro amigo, de volta depois de tanto tempo, com um olhar de preocupação.
— Paolo… você tá bem mesmo?
Não acreditou, afinal. Cheguei a pensar seriamente em mandar fazer uma coroa.