Capítulo 158 – O Grande Teletransporte e a Grande Muralha
Depois daquilo, consegui de algum jeito convencer o Lento e ele me levou até o chefe da vila. Bom, não dá pra culpar ninguém por não acreditar mesmo.
Basicamente, quando saio, uso roupa de aventureiro, mais fácil de se mover. Bom, também é que não curto muito roupa chamativa. Como é que alguém consegue andar por aí com uma roupa dessas de tanta vergonha.
De algum jeito, consegui me encontrar e conversar com o chefe da vila, mas, de novo, não acreditaram em mim. Não era sobre eu ser rei ou não — o que não acreditavam era que o exército de Eurono estivesse se aproximando da vila.
Sendo assim, levantei o chefe da vila com [Levitation] e voei com [Fly] até o local, levando-o comigo.
Visto do alto, dava pra ver claramente o exército de Eurono avançando em direção à vila. Bastante gente, hein. Uns cinco mil, talvez?
O chefe da vila tremia todo, vendo aquela cena — será por medo do que pode acontecer com a vila, ou simplesmente por medo de altura?
Aterrissei no chão por um instante e mandei o chefe de volta pra vila com [Gate]. Pedi pra ele convencer os outros moradores, e usei [Fly] de novo pra voar ao redor da região.
Abrindo o mapa pra observar, além do destacamento que vinha em nossa direção, havia a força principal do outro lado, e, atrás dela, outro destacamento separado. Esse último deve ser tropa de suprimentos, mas estão investindo uma quantidade e tanto.
Já o exército de Hanok, só existe a força que está enfrentando diretamente a força principal de Eurono. Ampliando o mapa, dava pra ver, bem mais atrás, outro contingente — deve ser reforço enviado às pressas da capital. Mas, nessa distância, só deve chegar depois de amanhã. Será que a linha de frente aguenta até lá…
Bom, o que fazer. Será que preciso de alguma justificativa formal pra intervir na guerra de outro país? Claro, pretendo mandar o exército de Eurono embora educadamente, mas isso não resolve o problema pela raiz. Com certeza vão voltar de novo. Ah, se isso aqui fosse Brunhild, eu podia fazer o que quisesse sem cerimônia… Hã?
Ah, é. Existe esse jeito. Desci ao chão e abri um [Gate] até o Imperador de Regulus. Se eu fosse direto ao rei de Hanok, sem mais nem menos, não sei se ele receberia. Melhor pedir pra ser apresentado pelo Imperador.
Com o apoio do Imperador de Regulus, o rei de Hanok aceitou minha proposta. De qualquer forma, do jeito que as coisas estavam indo, Hanok ia acabar completamente à mercê de Eurono. Foi por isso que ele tomou essa decisão.
Certo, assinado de próprio punho, sem problema nenhum. Com o certificado em mãos, saí do castelo de Hanok junto com o Imperador de Regulus.
— Mas você foi propor uma coisa e tanto, hein…
— É algo temporário, viu. Assim que a segurança estiver garantida, claro que desfaço isso.
Diante da voz surpresa do Imperador, mostrei, balançando, o certificado com a assinatura e o selo real do rei de Hanok.
— Bom, se o Touya-dono entrou em ação, não preciso mais me preocupar com essa guerra. Também agradeço não precisar mandar suprimento de socorro.
Bom, não sei se vai dar certo. De qualquer forma, vamos fazer. Já que não preciso mais me segurar.
— "Não vai precisar evacuar"… como assim isso?
— Porque vou expulsar todo soldado de Eurono de Hanok, sem deixar nenhum pra trás.
Mostrei ao Paolo-san, que esperava na vila, o certificado que ganhei do rei de Hanok. Conforme lia o texto, sem entender bem, os olhos do Paolo-san foram se arregalando aos poucos.
— I-isso, isso, isso é verdade!?
— É verdade, sim. Olha, tem a assinatura do rei de Hanok aqui. Selo real e tudo.
A Tsubaki-san, olhando por cima do ombro, também arregalou os olhos.
— Como conseguiu que o rei de Hanok autorizasse isso…? Mas, bom, do jeito que estava, Eurono ia tomar mesmo esse território, então, sendo assim…
A Tsubaki-san murmurou pra si mesma, meio convencida, meio ainda sem se convencer de vez. Se convença, ué.
— Bom, então. Tsubaki-san, volta pro castelo e avisa o Kōsaka-san e o pessoal da Ordem sobre isso. Eu vou expulsar de uma vez todo soldado de Eurono infiltrado em Hanok.
— "Expulsar", como assim…
Deixei o Paolo-san, ainda atônito, cuidando da defesa da vila por ora, e mandei a Tsubaki-san de volta pra Brunhild com [Gate].
Eu mesmo cortei os céus com [Fly] de uma vez, chegando até a capital imperial de Eurono.
Como já imaginava desde o incidente dos assaltantes mascarados, a paisagem da cidade tem um clima meio asiático. Aquele prédio enorme deve ser o palácio real.
Telhado de tijolos cor escarlate, paredes alvas, com aplicações de folha de ouro em vários pontos. Além disso, estátuas douradas em formato de algum animal fixadas no telhado e nas colunas. Que exagero. É tipo um palácio que respira puro desejo de exibição.
Será que fizeram isso com dinheiro de imposto… No Japão, isso ia gerar revolta geral. Será impressão minha, ou os arredores da capital parecem meio decadentes?
Bom, tanto faz, por enquanto. Vamos mandar o exército de volta pra cá.
— Exibir mapa. Todo o exército de Eurono presente em território de Hanok.
"Entendido. Exibindo mapa, senhor."
Pá-pá-pá-pá, o exército de Eurono presente em território de Hanok apareceu marcado em luz vermelha.
— [Multiple]. Travar alvo.
"Entendido. …Travamento concluído."
Todo o exército de Eurono foi travado e capturado.
— Ativar [Gate] sob os pés de todo o exército de Eurono.
"Entendido. Ativando."
As luzes vermelhas dentro do território de Hanok foram desaparecendo, uma atrás da outra. E, lá embaixo, dentro do palácio real, soldados de Eurono começaram a surgir um atrás do outro, causando um pânico total no palácio. Estou devolvendo todos, Vossa Majestade Imperador Celestial.
Depois de confirmar até a última luz vermelha desaparecer, atravessei um [Gate] e saí, tranquilamente, na fronteira entre Hanok e Eurono. Certo, agora vem a parte principal.
— O-o que é isso!?
Ouvi essa voz vindo lá de baixo. Bom, é de se espantar mesmo. De repente, sem entender nada, foram mandados de volta pra capital do próprio país, e, depois de dez dias voltando pra invadir Hanok de novo, encontram uma muralha gigante erguida bem na fronteira.
E, no alto dessa muralha, tremulando ao vento, não era o brasão do grande veado do Reino de Hanok, mas sim a nossa donzela guerreira de Brunhild.
Ao lado dessa bandeira, um homem montado a cavalo, provavelmente um general de Eurono, gritou pra mim, que apareci ali, lá de baixo da muralha.
— Que negócio é esse!?
— Soldados de Eurono, parabéns pela longa marcha até aqui. Mas, a partir daqui, é território do Principado de Brunhild. Não é permitido avançar além deste ponto.
Diante do exército de Eurono, agitado sem entender nada, projetei no ar, ampliado, um único certificado bem diante deles.
— O-o quê!? Isso… isso não pode ser…!
Era o certificado dizendo que o rei de Hanok cedia ao Principado de Brunhild uma faixa de 1 km de território, na fronteira com Eurono, do lado de Hanok. Ou seja, quem faz fronteira com Eurono, neste exato momento, não é mais Hanok, mas sim um enclave de Brunhild.
Se o exército de Eurono quiser invadir Hanok, só tem esse caminho pra passar. Mas, claro, Brunhild não pretende deixar passar de jeito nenhum.
— Aliás, deixa eu avisar: essa muralha se estende por toda a fronteira com Eurono.
Isso mesmo. Com magia de Terra e o poder da "Oficina", construí em apenas seis dias uma Grande Muralha de outro mundo. Claro, deixei bem mais alta que aquela. E a área é de 1 km de largura de território, seguindo toda a extensão da fronteira. Será que isso não é maior até que o território original de Brunhild?
— Maldição, destruam esse muro ou escalem, tanto faz! Ataque geral, todo o exército!
Diante da ordem de um general, o exército de Eurono avançou de uma vez em direção à muralha. Ei, isso é território de outro país, hein — mesmo pra invadir, pelo menos peçam permissão a Sua Majestade o Imperador Celestial. Ou será que não acreditaram em mim? Bom, tanto faz, tudo bem.
No instante em que os soldados de Eurono invadiram o território de Brunhild, chegaram até a muralha e começaram a tentar escalar, começaram a desaparecer, sugados pro chão sem mais nem menos.
— O quê!?
Depois disso, um atrás do outro, os soldados continuaram desaparecendo assim que tocavam a muralha.
Assustado com o sumiço repentino dos soldados, o avanço parou de vez.
Ao tocar a muralha, um [Gate] se ativa sob os pés, e, automaticamente, são mandados de volta pra capital de Eurono — mais precisamente, bem no meio do palácio real. Bom, não pretendo explicar isso pra eles.
Em seguida, os soldados dispararam flechas na minha direção, mas todas foram lançadas bem alto no céu por magia de Vento aplicada na muralha. Aliás, isso só reage a flechas disparadas em direção a nós — se atirarmos de cá pra lá, não reage.
— Ah, é bom avisar: melhor não disparar magia contra a muralha também. Vai tudo devolvido pro palácio real de vocês.
Como vi um mago no meio do exército erguendo o bastão, avisei por precaução. Diante das minhas palavras, o mago baixou o bastão devagar, surpreso. Não sei se acreditou no que eu disse, mas parece que não teve coragem de testar.
Bom, é verdade mesmo. A muralha está configurada pra reagir a magia, abrindo um [Gate] na parede. Claro, o destino é o palácio real de Eurono.
— E então, isso já pode ser considerado um ato de invasão contra o nosso país, não acham?
Ao estalar os dedos, de um [Gate] aberto no ar, cavaleiros pesados Frame Gear começaram a descer, um atrás do outro. Com um "bum, bum" pesado, ecoando forte pelo chão, dez unidades aterrissaram diante da muralha, e, por último, desceram dois cavaleiros negros e um cavaleiro branco.
São os cavaleiros negros pilotados pelas nossas duas vice-capitãs, e o cavaleiro branco pilotado pela capitã Rain-san. Bom, tanto o cavaleiro branco quanto o negro têm a mesma base — só mudei um pouco o formato e repintei de branco puro. Já que é a unidade-bandeira da capitã, achei que devia ter um visual à altura.
— O-o quê, quê, quê…!! Uah!?
O general de Eurono foi jogado do cavalo, assustado com o tremor do chão, caindo no solo. O cavalo, sem dó nenhuma, abandonou o dono e saiu correndo dali o mais rápido possível.
— Se ainda pretendem lutar, a nossa Ordem de Cavaleiros de Brunhild aceita o desafio.
No meu sinal, todas as unidades sacaram a espada da cintura e cravaram no chão. Ao ver aquilo, o exército de Eurono perdeu toda a vontade de lutar na hora, e começou a fugir em debandada.
— Re-recuar! Recuar!!
— F-fugir! Vão nos esmagar!
— UAAAAAAAAAH!!
Como aranhas espalhadas, o exército de Eurono recuou todo de uma vez. Se fossem voltar pra casa mesmo, bastava tocar a muralha que já iam parar direto no palácio real.
Observando o exército de Eurono fugindo às pressas, a escotilha do peito do cavaleiro negro ao meu lado se abriu, e a vice-capitã Norn-san se inclinou pra fora.
— Vossa Majestade. Isso protege a rota terrestre, mas será que eles não vão tentar invadir Hanok pelo mar?
— Isso também tá resolvido. Já invoquei uns dez Krakens grandes no mar do lado de Hanok. Avisei pra eles atacarem só navio de guerra, então não tem problema.
— Uaaah, que coisa cruel, hein.
Que absurdo é esse. Isso é chamado de cuidado nos detalhes. Essa muralha também: se aparece um invasor suspeito ou qualquer anomalia, mostra uma seta indicando o local, e tá recheada de armadilhas — [Paralyze], [Gravity], [Slip], de tudo. Claro, se voarem por cima, não tem jeito.
De qualquer forma, vamos observar como as coisas se desenrolam por um tempo. Já deixei a isca preparada também. Se os assaltantes de dias atrás forem mesmo de Eurono, não vão deixar passar essa chance. Devem fazer algum movimento.
Certo, agora é hora de deixar a artimanha madura e ver o resultado no fim.